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20 leituras sobre amor (com finais felizes ou não)

O Dia dos Namorados está chegando, e nós aqui da Companhia das Letras achamos que um livro é um ótimo presente para celebrar, ou enfrentar, o amor. Eles contam histórias de grandes paixões e não importa se no final os relacionamentos dão certo ou errado: cada livro apresenta uma forma diferente de amar ou de encarar o amor. Pensando nisso, selecionamos vinte leituras inspiradas no Dia dos Namorados, seja para quem quer se emocionar com o final feliz de um romance ou para quem prefere histórias em que, apesar do amor, nada dá certo. Na alegria ou na tristeza, o amor é sempre belo. Confira!

1. Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade

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Quem está apaixonado ou buscando inspiração não pode deixar de ler os poemas mais românticos de Carlos Drummond de Andrade. Este volume, organizado pelos seus netos Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, reúne os poemas mais amorosos, românticos e deliciosamente apaixonados do grande poeta mineiro. E ainda conta com ilustrações de Nik Neves para deixar os versos de Drummond ainda mais belos.

2. Afterde Anna Todd

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Para jovens leitores e adultos, Anna Todd conta nesta série a romântica e inconstante história de amor entre Tessa e Hardin. Ela acaba de completar 18 anos e ir para a faculdade, uma garota certinha e estudiosa. Ele é um garoto rude, que implica logo de cara com o jeito de Tessa. Mas a atração que um sente pelo outro é irresistível, e depois de Hardin, Tessa nunca mais será a mesma. A série nasceu como uma fanfic da banda One Direction e teve mais de 1 bilhão de leituras na plataforma Wattpad. No Brasil, serão publicados cinco livros pela Editora Paralela, e o terceiro chega às livrarias nesta semana. Uma leitura para quem gosta de rir, chorar, amar, odiar, enfim, para quem quer sentir tudo pelas personagens.

3. Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, de Benjamin Alire Sáenz

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Dante sabe nadar. Ari não. Dante é articulado e confiante. Ari tem dificuldade com as palavras e duvida de si mesmo. Dante é apaixonado por poesia e arte. Ari se perde em pensamentos sobre seu irmão mais velho, que está na prisão. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de ver o mundo, deveria ser a última pessoa capaz de romper as barreiras que Ari construiu em volta de si. Mas quando os dois se conhecem, logo surge uma forte ligação. Em Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, Benjamin Alire Sáenz conta uma história belíssima em que Ari e Dante descobrem que o amor e a amizade talvez sejam a chave para desvendar os segredos do Universo.

4. A arte de ouvir o coração, de Jan-Philipp Sendker

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Um bem-sucedido advogado de Nova York desaparece de repente sem deixar vestígios e sem que sua família tenha qualquer ideia de onde ele possa estar. Até o dia em que Julia, sua filha, encontra uma carta de amor que ele escreveu há muitos anos para uma mulher birmanesa da qual nunca tinham ouvido falar. Com a intenção de resolver o mistério e descobrir enfim o passado de seu pai, Julia decide viajar para a aldeia onde a mulher morava, onde descobre histórias de um sofrimento inimaginável, a resistência e a paixão que irão reafirmar a crença no poder que o amor tem de mover montanhas.

5. A imortalidade, de Milan Kundera

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A partir do gesto que uma mulher faz a seu professor de natação quando sai da piscina, a personagem Agnes surge na mente de um autor chamado Kundera. Como a Emma de Flaubert ou a Anna de Tolstoi, a Agnes de Kundera se torna objeto de fascínio e de uma busca insondável. Ao imaginar o cotidiano dessa personagem, o narrador-autor dá corpo a um romance em sete partes, que intercala as histórias de Agnes, seu marido Paul e sua irmã Laura com uma narrativa retirada da história da literatura: a relação de Goethe e Bettina von Arnim. Com seus personagens reais e inventados, Kundera reflete sobre a vida moderna, a sociedade e a cultura ocidentais, o culto da sentimentalidade, a diferença entre essência individual e imagem pública individual, os conflitos entre realidade e aparência, as variedades de amor e de desejo sexual, a importância da fama e da celebridade, e a típica busca humana pela imortalidade.

6. O irresistível café de cupcakes, de Mary Simses

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Ellen é uma advogada de Manhattan e seu noivo está prestes a se tornar um importante político. Tudo em sua vida parece estar perfeito e no caminho certo. Até que ela decide realizar o último desejo de sua avó e entregar em mãos uma carta. Para isso, ela precisa ir para Beacon, uma charmosa cidadezinha do interior. Entre cupcakes de blueberry e deliciosas rosquinhas, Ellen desvenda os mistérios da vida de sua avó. Aos poucos, ela descobre os simples prazeres da vida e que “perfeito” nem sempre é o que parece.

7. Ligue os pontos, de Gregorio Duvivier

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Os “poemas de amor e big bang” de Gregorio Duvivier têm foco na importância descomunal dos momentos insignificantes do cotidiano. Ligue os pontos mostra que, para além da prosa humorística do autor, um dos responsáveis pelo sucesso do Porta dos Fundos, o tratamento lúdico das palavras pode render poesia de qualidade, falando da adolescência, do mistério da criação, das palavras e suas relações inusitadas, da experiência do amor vivido enfim como gente grande e da transitoriedade de tudo.

8. Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago

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Como nasce e de que se alimenta o afeto entre dois adolescentes do mesmo sexo? Da solidão em família, do repúdio à rotina estudantil, das caminhadas pela metrópole? Como esse afeto se frustra e se transforma em amizade duradoura? No ano de 1952, dois rapazes se encontram em Belo Horizonte à espera do mesmo bonde. O acaso os transforma em amigos íntimos. Passam-se sessenta anos. Numa tarde de 2010, Zeca, então produtor cultural de renome, agoniza no leito do hospital. Ao observá-lo, o professor aposentado de História do Brasil entende que não perde apenas o companheiro de vida, mas seu possível biógrafo. Compete-lhe inverter os papéis e escrever a trajetória do amigo inseparável.

9. Amor ao pé da letra, de Melissa Pimentel

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Quando se mudou para Londres, Lauren pensou que seria fácil sair com os belos ingleses. Mas a animação inicial foi logo frustrada: por mais que fosse linda, independente e não procurasse por um relacionamento sério, os homens pareciam fugir dela. Até que teve uma ideia meio maluca: a cada mês, seguir ao pé da letra os conselhos dos mais famosos guias de relacionamento, e contando em seu blog os resultados dessa experiência.

10. O amor natural, de Carlos Drummond de Andrade

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Se em Declaração de amor Drummond mostra a sua faceta mais romântica, em O amor natural a coisa é um pouco diferente. Publicado originalmente em 1992, cinco anos depois da morte do poeta, O amor natural foi saudado, com justiça, como um grande acontecimento cultural: a lírica erótica (e por vezes pornográfica) de um dos maiores poetas da literatura brasileira finalmente vindo a lume. Compostos no decurso da longa carreira literária do autor, os textos reafirmam a enorme vitalidade — pessoal e literária — do autor.

11. Nunca vai embora, de Chico Mattoso

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Renato Polidoro conheceu Camila no consultório odontológico — não em consulta, mas durante uma filmagem. Ocorreu então um pequeno milagre: a esperta aluna de cinema se apaixonou pelo dentista em eterna crise de autocomiseração. Quando a garota termina a faculdade, decide arrastar o namorado para a viagem tão sonhada: Havana. Na capital cubana, ela pretende fazer um documentário que dê vazão a suas elevadas (e um tanto quanto idealizadas) ambições estéticas. Mas logo o que prometia ser uma temporada caliente resulta em uma sucessão de desencontros — e em um desaparecimento misterioso.

12. Os enamoramentos, de Javier Marías

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María Dolz, uma solitária editora de livros, admira à distância, todas as manhãs, aquele que lhe parece ser o “casal perfeito”: o empresário Miguel Desvern e sua bela esposa Luisa. Esse ritual cotidiano lhe permite acreditar na existência do amor e enfrentar seu dia de trabalho. Mas um dia Desvern é morto por um flanelinha mentalmente perturbado e María se aproxima da viúva para conhecer melhor a história. Passa então de espectadora a personagem, vendo-se cada vez mais envolvida numa trama em que nada é o que parecia ser, e em que cada afeto pode se converter em seu contrário: o amor em ódio, a amizade em traição, a compaixão em egoísmo.

13. Diga o nome dela, de Francisco Goldman

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Em 2005, o escritor e professor norte-americano Francisco Goldman se casou com Aura Estrada, uma jovem e promissora estudante de literatura. Pouco antes de o casamento completar dois anos, durante as férias numa praia do México, Aura quebrou o pescoço após ser tragada por uma onda. Responsabilizado pela morte de Aura e mortificado pela culpa, Francisco entregou-se ao desespero. Passava os dias sem rumo, bebendo e flertando com a catatonia, a depressão, o suicídio. Para vencer a crise, escreveu Diga o nome dela, um romance sobre o amor e a dor da perda. Diga o nome dela é uma história sobre o luto — uma mostra pungente de que só com a organização da memória é possível driblar a falta de sentido e reafirmar o desejo de seguir adiante.

14. Cartas extraordinárias, de Shaun Usher

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Nem todas as cartas reunidas neste livro por Shaun Usher são de amor, mas tem ato mais romântico do que escrever ou receber cartas? Cartas extraordinárias é uma celebração do poder da correspondência escrita, que captura o humor, a seriedade e o brilhantismo que fazem parte da vida de todos nós. A coletânea reúne mais de 125 cartas, com sua transcrição e uma breve contextualização, além de ser ricamente ilustrado com fotografias e documentos. A engenhosa organização de Shaun Usher cria uma experiência de leitura que proporciona muitas descobertas, e cada nova página traz uma bela surpresa para o leitor. Não apenas um deleite literário, mas também um livro-presente inesquecível.

15. O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca

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Este romance de J. P. Cuenca se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio e é centrado na figura de Shunsuke Okuda, um jovem funcionário de uma multinacional. Conquistador inveterado, ele cria uma identidade para cada namorada que conhece nos bares do distrito de Kabukicho. Mas sua rotina é abalada pelo aparecimento de Iulana, uma garçonete por quem fica obcecado. Iulana é apaixonada por uma dançarina e mal fala japonês, mas nada disso impede que os dois mergulhem numa relação conturbada. O maior problema, contudo, é que estão sendo observados. O pai de Shunsuke, sr. Okuda, paira sobre o livro como uma figura onipresente e maligna que parece querer destruir qualquer chance de felicidade do filho.

16. Uma teoria provisória do amor, de Scott Hutchins

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Uma modesta empresa de informática de San Francisco, a Amiante Systems, fundada e comandada pelo genial pioneiro Henry Livorno — hoje velho e decadente —, aposta todas as suas fichas na tentativa de criar o primeiro computador verdadeiramente inteligente do mundo. Para isso, contrata o ex-redator de publicidade Neill Bassett Jr. O motivo é simples: a memória do computador é alimentada pelos diários secretos escritos pelo pai de Neill, o dr. Basset, um médico do Arkansas que se suicidou quando o filho tinha dezenove anos. Dilacerado pelos dilemas morais envolvidos na operação de fazer reviver, ainda que virtualmente, o próprio pai, Neill ainda tem que lidar com a nova namorada desmiolada de vinte anos e com os encontros perturbadores com a ex-mulher.

17. Meu coração de pedra-pomes, de Juliana Frank

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Lawanda trabalha num hospital, mas não está ali para lidar com os pacientes — não oficialmente, pelo menos. Ela é uma das encarregadas da limpeza e vive sob a fiscalização da insuportável Lucrécia, que insiste em controlar seus horários e reclamar de seus atrasos. Mas, como os serviços de faxina são muito mal pagos, Lawanda precisa de outros meios para conseguir comprar os besouros que coleciona (ainda que sua mãe preferisse que ela poupasse para adquirir um apartamento). Assim, presta pequenos serviços escusos aos internos do hospital.
Ela também é colecionadora de borboletas, que costura com esmero em suas calcinhas, sempre usando a linha da mesma cor das asas. Faz esta e outras macumbas para que seu amado José Júnior largue a mulher de uma vez e fique só com ela. Na cama, Lawanda sabe que é imbatível, mas a pressão das tias velhas é grande e o rapaz tem dificuldades de se libertar.

18. Manual do mimimi, de Lia Bock

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Lia Bock se considera uma ativista sentimental que ama amar as coisas. Depois de criar o blog mais acessado da revista TPMManual do mimimi marca a estreia de Lia no mundo dos livros. Em textos irônicos, ácidos, mas também sentimentais, além de profundamente sinceros, Lia (uma verdadeira expert nos assuntos do coração) — com charme e estilo inconfundíveis — falar com todas as mulheres: solteiras, casadas, recém-separadas e à procura.

19. As horas nuas, de Lygia Fagundes Telles

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Rosa Ambrósio, uma atriz de teatro decadente, passa em revista, entre generosas doses de uísque, os amores de sua vida. O primo Miguel, sua paixão adolescente, morreu de overdose por volta dos vinte anos. Gregório, seu marido, virou um homem taciturno depois que foi torturado pela ditadura militar. Diogo, seu amante e último companheiro, trocou-a por moças mais jovens. Neste livro, Lygia Fagundes Telles põe em cena grandes temas de nosso tempo — o movimento feminista, a cultura de massa, a aids, as drogas —, mediados pelos destinos individuais de um punhado de criaturas.

20. Flores azuis, de Carola Saavedra

flores

No apartamento para onde se mudou depois de se separar da mulher e da filhinha de três anos, um homem recebe uma carta destinada ao antigo morador e não resiste ao impulso de abri-la. É uma carta de amor, escrita por uma mulher e assinada simplesmente com a inicial “A”. Também separada, a autora da carta repassa, inconformada, as últimas horas de seu relacionamento amoroso com o destinatário. Novas cartas chegam diariamente, sempre revisitando o dia da separação e acrescentando detalhes cada vez mais perversos aos acontecimentos. O homem que as recebe não apenas sucumbe ao desejo de lê-las como passa a viver em função disso, o que acaba por desestabilizar a sua relação com o trabalho, com a ex-mulher, com a filha e com a atual namorada, todas elas mulheres que ele não compreende e pelas quais se sente acuado.

Apesar de certa, você está sempre errada

Por Juliana Frank
Soap bubble
Numa dessas idas sem eira e atrás de uma beira, escrevi “Meu coração de pedra-pomes”. Tentarei recuperar hoje o porquê de me ter vindo esse livro. Acredito que um escritor passa a vida colecionando imagens, sensações, experiências vividas ou inventadas. Até chegar a hora de sentar na cadeira e deixar as palavras roerem nossas ideias. Eu, no caso, estava apenas amarrando o cadarço e pensei: “é isso.” “É isso o quê?”, me perguntei. Sentei. Comecei na primeira pessoa indo para a segunda linha, até alcançar a terceira e assim por diante e por pouco tempo. Foram seis dias ao todo para escrever a minha história. Não comia, escrevia no lençol e ria da minha pieguice. Um dia saí para comprar um maço de cigarros e me vi de pijamas pela rua. Confesso que ouvi “Lawandas” pularem de dentro da boca dos lixeiros, dos pais de família, das bailarinas, do homem da pipoca e até dos paralelepípedos da rua Oitis, Gávea – minha residência temporariamente fixa na época. Este dia foi difícil achar o caminho de volta para casa. Eu já não lembrava o que tinha lido no almoço. Nesse passeio perdi, talvez, as minhas melhores páginas.

Eu morava na casa de uma mulher viciada em criar deuses. Ela ouvia a voz de algum santo, anjo ou diabo que a carregava pela casa orando e movimentando suas ancas de potranca xucra. Sim, ela rezava para a minha porta trancada, bem alto, desejando que a oração passasse pelas frestas e me alcançasse. Eu não falava com ela, claro, para poder escrever, dançar e repetir trechos em paz.

Ela queria o meu bem e eu a transformei na vilã da minha história. Mas era apenas uma pequena novela, eu me desculpava. Quis falar de sexo, família, doença renal, seres que passam câncer pelos olhos, bocetas hieráticas, deuses vingativos e cheios de vermes. E a loucura, claro, uma coisa de que gosto muito porque tem história. Por isso eu deixava o livro do Reich do meu lado. Para mim, são essas as questões que estão por aí maluquecendo pessoas.

Duas amigas reais me inspiraram para criar a personagem título. Misturei confusamente as moçoilas com meu ídolo Reich. Uma delas coleciona besouros e está sempre atenta. A outra tem lá sua mãe de merda.

Lembrei-me disso e saiu a Lawanda, que também sou eu em algumas passagens.

Explicar o que se escreve é como tentar dizer para crianças de onde vêm os bebês. Gosto mesmo é de falar do falo. Vivemos contando histórias uns para os outros. É uma mania atávica da humanidade que tem dado mais ou menos certo. Para compensar nossa orfandade vamos ao cinema, lemos livros relidos; alguns ainda vão à Igreja. Tem os que preferem celular, videogame, Skype. Outros se afogam nos bares, nas pernas de suas mulheres e em salas de aula. Sempre em busca de histórias. Jamais nos acostumamos com os “absurdos”. E as pessoas falam de tudo assim: “que horror”, “que bizarro”, “ah, vá, é um absurdo”. E o poeta disse que chavão abre porta grande. Será? Concordo que fecha também.

Em “Meu coração de pedra-pomes” freei uma admirável tendência de bobajar com palavras. Para mim, quem desenha a história é a personagem. E a única coisa que eu esperava da Lawanda é que ela tivesse uma visão clara das inutilidades: bolhas de sabão voando, besouros, sujeiras escondidas, chaves penduradas e perdidas. É o que realmente vale a bossa nessa vida.

Quando me perguntam o que pretendo alcançar com a literatura, digo apenas que quero ver minha geração escrevendo suas próprias histórias e as narrativas loucas atuais. Este é o nosso papel no filme. Quero ver jovens velhos e imaturos atentos a tudo numa época fragmentada e “definitivamente fora de foco”, que tornou possível uma literatura de colagem, em que uma ideia pode se ligar a qualquer outra. Descobri que seria escritora porque um professor de literatura me avisou que eu unia pensamentos descombinados. Ele me perguntou, colando o dedo indicador na minha têmpora:

— Juliana, onde anda sua redação atrasada?

Eu, roendo a ponta de um sanduíche quase mais velho que meus quinze anos, segredei:

— Professor, tenho uma tia deprimida, ela mora em Santos.

Portanto, vida longa aos que escrevem o que enxergam! Que sabem que “os clássicos eram os clássicos porque não tinham os clássicos para copiar”. O voo shakespeareaéreo já está alçado. Homero, Marquês de Sade e Anaïs Nin devem estar na cachola, decorados e orados. Sigo com referência, reverência, vício e amor profundo a eles. Mas ao mesmo tempo ando pelas ruas, vivendo pra tomar nota no meu caderninho. O que não é inovação ou demérito (como diz minha doppel Doralice, a que assinou por mim no lançamento).

As editoras estão receptivas e isso sim é o que vale. Marta Garcia e Julia Bussuis me ajudaram a ver o livro de fora. Confesso que ainda estou dentro dele, escrevendo a continuação da Lawanda diariamente em cadernos, arquivos múltiplos e indisciplinados. Porque, para mim, este livro não acaba aqui.

Levei mezzo brincando meu processo ao escrever o “Coração”. Mas entendo que nem todo mundo, nesse mundo devastado mundo, sabe brincar.

“Os homens vivem apostando corrida, Maria. (…) nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu.”

Paumério Dória me contou que o Paulo Mendes Campos, responsável por essa frase, jogava pedras na porta de vidro do Florentina quando o bar fechava. Isso! Brigava para beber. É isso o que nós queremos ver.

* * * * *

Juliana Frank nasceu em São Paulo, em 1985. É roteirista e escritora e vive atualmente no Rio de Janeiro. Escreveu os livros Quenga de plástico (2011) e Cabeça de pimpinela (2013), ambos pela editora 7Letras, e participou da coletânea 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, da Geração Editorial. Lançou recentemente o livro Meu coração de pedra-pomes, pela Companhia das Letras. Seus textos também foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, e nas revistas CultLado7.

Blog: http://joufrank.blogspot.com.br/

 

 

A nova safra

Por Luiz Schwarcz

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Uma das perguntas que me fazem com maior frequência é se eu leio todos os livros que publico. Há mais de uma década tenho explicado que isso é impossível, por conta do tamanho da editora. Não há tempo útil para ler tantos livros, ainda mais porque aqueles escritos por autores brasileiros contemporâneos são muitas vezes lidos mais de uma vez. Isso sem esquecer dos livros que leio e que acabam não sendo publicados. Gostaria de ter mais tempo para ler textos que não publiquei nem publicarei, e clássicos que nunca chegaram aos meus olhos.

Com as mudanças recentes na Companhia das Letras e com o reconhecimento de que o espírito de renovação é sempre bem-vindo à editora, tenho feito um esforço para ser mais aberto na forma de compartilhar as decisões, não me antecipando sempre a elas, e deixando que, cada dia mais, colegas de trabalho assumam riscos próprios. Quero que a cara da Companhia das Letras mude, sem perder o seu DNA de origem: a busca pelo melhor em literatura e para os leitores. Ainda mais agora, com os novos selos para novos públicos.

Hoje quero que meus traços fiquem menos presentes, ou que os traços da Companhia se confundam cada vez mais com os dos jovens editores da casa. O trabalho aqui sempre foi assim, desde o começo, com os vários editores que me acompanharam — principalmente com Maria Emília Bender, Marta Garcia e Heloisa Jahn, que estiveram comigo por mais tempo que qualquer outro colega na área editorial. A cara da Companhia sempre foi a cara criada pelos vários editores, e pelo resto da equipe, com o toque final da Elisa Braga, mesmo que eu tenha assumido mais o papel de faceta pública da empresa.

Num modelo editorial um pouco diferente, cabe a mim protagonizar cada vez menos, e deixar que escolhas ainda mais individuais deem o tom ao catálogo.

Me pergunto se devia ter feito isto antes. Certamente sim. Mas a generosidade necessária para saber delegar veio lentamente, com a idade, e ainda não chegou ao seu ponto ideal.

Muitos livros da história da Companhia não foram lidos por mim, e muitos representam apostas de editores com quem trabalho e trabalhei. Hoje isso ocorre com frequência ainda maior. Mas, mesmo na área em que tenho concentrado grande parte das minhas leituras — a nova literatura brasileira, que surge, tanto pelo amadurecimento de escritores consagrados que publicamos, quanto por uma safra impressionante de ótimos escritores jovens —, tenho tido ótimas surpresas.

Foi o que ocorreu ontem ao ler o livro de Juliana Frank, Meu coração de pedra-pomes, um livro de literatura brasileira contemporânea que eu não conheci, em nenhum dos estágios de sua edição: a leitura e edição começaram com a Marta Garcia e foram assumidas pela Julia Bussius.

O leitor que ironicamente congratulou-me, na semana retrasada, por finalmente ter indicado um livro verdadeiramente bom neste blog — o de Otto Lara Resende — talvez também não gostará da literatura de Juliana Frank. Sem o intuito de polemizar, acredito que a apreciação da boa literatura depende de juízos tão pessoais que por vezes requer esforço semelhante ao exercido pelo autor ao escrever. Pois, quando cria personagens e vozes narrativas diversas, nem sempre o escritor se projeta em discursos com os quais se identifica, ou que necessariamente remetem a referências de nosso cânone literário. Se assim fosse, a literatura não estaria viva e em constante mutação.

Acredito que em alguns casos, o livro requer do leitor um esforço de desprendimento pessoal semelhante ao vivido pelo autor. O leitor que está mais aberto a acompanhar narradores diferentes da sua autoimagem, ou do que idealiza artisticamente, tem mais chances de encontrar prazer e reconhecer qualidade num número maior de livros. O prazer da leitura fica prejudicado se procuramos nos livros o narrador que gostaríamos de ser, que fantasiamos ter sido em vidas passadas, ou mesmo que poderíamos encarnar num futuro cheio de imaginação, ou misticismo.

Eu que não havia lido uma linha do novo livro de Juliana Frank agradeço às duas gerações de editores que trabalham comigo por terem me apresentado — já como simples leitor que nada mais pode fazer pelo livro — a uma escritora que eu não poderia ser, com uma linguagem que nunca seria minha.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Um gato por dia

Por Juliana Frank


(Crédito: Iza Figueiredo)

Escritores são pneumáticos. Escrevem com as orelhas. Todos engolem um gato por dia. Conheci um que apagava cigarros na perna e dava nomes às marcas. Alguns são tão verdes que quase brilham no escuro. Por isso, pedia aos malditos deuses que me livrassem da frivolidade de ser escritora. Queria apenas ter muitos livros na estante. Também, não queria chegar ao frívolo pensamento: tudo bem, se surgir qualquer trapaça do destino, tenho os livros. Possuem um peso na estante muito importante para os escritores, que nem sempre precisam ler. Eles engolem um gato por dia, olham as capas, unham as caspas e adivinham o enredo. Mas são artistas, então devem ficar lá. Pensei: tenho uma lamentável condição mental. Meus argumentos são trôpegos. Mas tenho livros. Só de olhar a estante, temia sofrer de dependência intelectual em alto grau. Me via morta batendo os punhos na janela de um asilo, com a camisa branca e de mangas longas e atáveis às costas gritando no ouvido de desprevenidos: sou escritora, ouviu? tenho livros! Por isso, resolvi ser apenas uma garota bêbada casual. E psiquiatra. Era só ir ao bar e ouvir o que a galera tinha para falar.

No bar, escritores estão sempre reclamando de novo. Depois dizem que a vida pode ser linda. Que podemos alçar voo e dar sorrisos redobrados de paixão numa janela pro azul. Tem dias que pra eles tudo é belo, incluindo o que é medonho. E tudo que está mal, na verdade está é bem. Via muito essa doença, felizmente não é contagiosa. Por que essa mania?

Eu sofria o cão por um homem. Saudade roía e como roía a maldita. “Detonada, devastada, sem estrada pra fugir”, cantou a cara Angela Ro Rouca. Um homem nu com tesão às vezes não resolvia minhas teses. Por isso, resolvi me corrigir: escrevi Quenga de plástico. Um livro sobre o que eu não sentia. Sobre o sexo que eu já havia feito e nunca mais faria. Eu estava condenada a contar histórias que eu nunca mais, enfim, gozaria. Minha boceta não falaria tanto. Até hoje digo: Shhh, Quenga de Plástico, assertiva. Shhh, mundo. E o mundo inteiro grita: Vamos trepar!

Depois de publicado, fui expulsa da família e de todo o gênero humano. O que jamais considerei uma falha. Agora eu não era mais escritora e poderia medicar os ventríloucos, poetas da morte, os do asfalto.

Um dia, no bar, um escritor desses que dá o cu por uma frase, disse: hoje não, Ju, hoje não vou te comer. Mas eu não havia pedido. Só estava amarrando meu rabo de cavalo ao lado dele e mexendo as ancas sem querer. E isso bastou para que ele, um famoso escritor, soltasse essa anedota aqui: Hoje não, desculpe, mas não. E aquele ar de poeta-estivador capaz de enganar multidões a respeito de sua rigidez. Eu pensei que fiz uma cara de ‘tudo bem, não queria dar mesmo’. Mas, acabei fazendo a cara errada, a expressão de quem queria dar, porque não havia pensado no assunto.

Achei melhor mudar o seletor. Conversar com os diletantes, vai que alguém topa um assunto sem foda dialética, pensei. Mas pensei errado mais uma vez, porque estavam compenetrados, confundindo suas ambições com suas qualidades. Um deles disse assim: Ju, quer ver o meu pau ou o meu poema?

É. Eu escrevi Quenga de plástico. Também fiquei solteira por causa do livro. Então escrevia secretamente sobre nuggets — pequenos pensamentos oleosos e rançosos acerca do meu afeto rastejante. E depois de fritar uma porção deles, secar com papel toalha e alimentar a alma obesa, pensei: pra que papel toalha?

Mas tinha a Fáu. Parceira em destruir bússolas e errar a hora. Mas hábil como uma ave de rapina quando o ponteiro dizia que cedo ou tarde era hora de contar mentiras a desconhecidos. Uma noite, batemos no bar em um cabeludo com uma camiseta da AK-47. Ele queria sentir a quentura da minha vagina. Noutra, fomos expulsas por grades de ferro verdes. Mas permanecíamos imutáveis ali. Como o velho tio, o frequente frequentador do bar do bairro, o mamífero. Alguns achavam que morávamos ali perto. Outros, os mais espertos, percebiam que já acordávamos por lá. Eu fui civilizada ali, bebendo com inimigos e pedindo dinheiro a estranhos e discutindo com os bêbados ruidosos. E Fáu gostava de sentar do lado de fora do bar, ficar vendo as pessoas passarem, esperava que talvez elas pudessem se dirigir a mim e a ela, irritar bastante. Tem noites em que nada pode ser mais fértil do que encontrar um imbecil. Ela esperava um pouco aflita, roendo o canto das unhas até sangrar. Eu dizia: calma, serumana, em breve aparece alguém aqui, pede um cigarro, esquece de fumar e despeja uma torrente das nossas asnices preferidas. Sempre deu certo. Nos agradava muito dizer o que fazíamos e de onde viemos, sempre mirando o fundo do copo. Combate. Nocaute de bêbado contra bêbado. Louco contra louca. Sempre saíamos ilesas.

Foi então que eu tive uma epifania. Dessas que acometem todos os escritores: dos grandes comedores de merda, até os comedores de merda ainda maiores; dos diletantes até os que ocupam a minha categoria — os diletantãs. Pulei e quase quebrei o piso do bar: vou escrever um livro sobre a Fáu! Vou dizer que ela fica aqui sentada esperando que alguém possa chegar com toda a força para me comer e também para comê-la e isso nunca acontece. Não vou poupar ninguém. Vou relatar nossas conversas duras com caras de pau mole e mostrar que é possível destruir a vivacidade de um bêbado em menos de três rodadas de cerveja. E então nós vamos rir e cantar, guardar todas as nossas armas para o próximo pulha, para a linha de frente e para o próximo livro. Depois de publicar o próximo, serei uma grande psicoetileóloga, e psicóloga e zen budista e reichiana e tomarei um Frontal para transar de lado.

Tudo isso acontecia porque a Fáu tem um coração de pedra-pomes. E ela gostava de dizer isso, ela ainda precisa dizer isso. Ela não quer saber da histeria de Freud. É de pedra-pomes. Flutua. Ela não quer ouvir falar de Freud. Nem eu. E isso não tem nada a ver com o amor. Tem a ver com essas pessoas que não acreditam que simplesmente estamos a fim de rir um pouquinho da miséria legítima. Nós nos amamos do pior jeito. Bebemos bílis e veneno e cuspimos na boca da outra. Sempre fomos amigas de: desce uma cachaça. Nunca teve: amiga, vamos tirar um raio X. Estávamos abertas. Se alguém passasse e quisesse tomar uma conosco, apertar nossa bunda ou simplesmente atrapalhar o fluxo da nossa memória, levava canivetada no joelho.

Preciso escrever um livro sobre Fáu. Sentei. Assoprei os dedos e escrevi. E como uma mulher às vezes tem que fazer o que uma mulher tem que fazer, escrevi. O John Fante me ensinou que um homem tem que começar por algum lugar. Escrevi: Meu coração de pedra-pomes. E lá se foram dez, quinze, vinte páginas. Eu estava exultante porque estava escrevendo um livro sobre ela. Uma das dezessete melhores pessoas do mundo. Eu parava para beber café e fumar um cigarro porque isso estava acontecendo.

Até que resolvi me ler. Escrevi um livro sobre uma personagem que se chama Lawanda. Trabalha em um hospital. Coleciona besouros. É louca de pedra-pomes. Esqueci de escrever o livro dos escritores estivadores e bêbados de pau mole e sobre as pessoas que queriam a nossa saliva.

Por isso, gostaria de deixar aqui uma pergunta: Fáu, você coleciona besouros?

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Juliana Frank nasceu em São Paulo, em 1985. É roteirista e escritora e vive atualmente no Rio de Janeiro. Escreveu os livros Quenga de plástico (2011) e Cabeça de pimpinela (2013), ambos pela editora 7Letras, e participou da coletânea 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, da Geração Editorial. Seus textos também foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, e nas revistas CultLado7.
Blog: http://joufrank.blogspot.com.br/

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MEU CORAÇÃO DE PEDRA-POMES
Sinopse: Lawanda é uma faxineira diligente no hospital em que trabalha. Esfrega tudo com afinco, mas gosta de “esconder alguma sujidade, dessas microscópicas, em cantos imperscrutáveis”. Tem um probleminha com os horários — gosta de chegar pontualmente atrasada, sempre — e com o salário miserável. Precisa, portanto, complementar sua renda oferecendo serviços especiais aos pacientes. Mas ela gosta mesmo é de colecionar besouros. E das borboletas. E de José Júnior, claro, o amante que resiste às suas macumbas e nunca larga a mulher.

Evento de lançamento:

São Paulo: Quinta-feira, 8 de agosto, às 19h30 – Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Avenida Paulista, 2076 – Conjunto Nacional