karl ove knausgard

Knausgård: “Não quero fazer nada, só quero escrever o que está na minha cabeça”

Logo após sua participação na Flip 2016, Karl Ove Knausgård esteve em São Paulo para uma conversa com seus leitores. Mediado por Roberto Taddei, no encontro Knausgård falou sobre a série de livros que está lançando no Brasil, Minha Luta, que foi um sucesso internacional. A série é composta por seis volumes híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea.

Em 2016, o quarto volume da série, Uma temporada no escuro, chegou às livrarias. Neste livro, o autor norueguês narra o tempo em que passou no norte do país aos 18 anos dando aulas a adolescentes e iniciando sua carreira de escritor. No começo tudo corre bem, mas quando o escuro toma conta dos dias de inverno, a vida começa a se complicar. A escrita de Karl Ove para de fluir, e suas empreitadas para perder a virgindade fracassam.

Assista ao vídeo completo do encontro com Karl Ove Knausgård em São Paulo.

Perdeu a Flip? Ouça todas as mesas na íntegra

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Foto: Festa Literária Internacional de Paraty/Walter Craveiro

A Festa Literária Internacional de Paraty acabou no último domingo, dia 3 de julho. O Grupo Companhia das Letras marcou presença com vários autores em sua programação principal e paralela, incluindo a Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch e o norueguês Karl Ove Knausgård. Além, é claro, das mesas sobre Ana Cristina Cesar, grande homenageada desta edição.

Se você perdeu alguma mesa ou não pôde ir à Flip, confira neste post alguns trechos de cada encontro com nossos autores e também o áudio completo das mesas divulgados pela equipe da Flip.

Armando Freitas Filho

Autor de Rol, Armando Freitas Filho foi o grande amigo e confidente de Ana Cristina Cesar e organizador de sua obra. Na mesa “Em tecnicolor”, ele conversou com Walter Carvalho sobre sua poesia, a amizade com Ana C. e o filme Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície, que fala sobre sua obra.

“O poeta procura um modo novo de falar e dizer, pelo menos, o inesperado.” — Armando Freitas Filho

Áudio

Trecho da mesa

Ana Cristina Cesar

As poetas Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia, consideradas as herdeiras da poesia de Ana Cristina Cesar, falaram sobre a influência de Ana C. em suas obras.

“Um erro frequente da leitura da Ana Cristina é querer encontrar a autora ali naqueles versos. Você sempre vai fracassar.” – Laura Liuzzi

Áudio

Trecho da mesa

Misha Glenny

Lançando no Brasil O dono do morro, livro em que conta a história do traficante Nem da Rocinha, Misha Glenny esteve na mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos.

“Rocinha, sob o Nem, se tornou uma marca registrada. Todo mundo queria visitar a Rocinha porque era seguro.” — Misha Glenny

Áudio

Trecho da mesa

Álvaro Enrigue e Marcílio França Castro

Na mesa dedicada à literatura latino-americana, Marcílio França Castro e o mexicano Álvaro Enrigue falaram sobre seus livros, processo de escrita e influências. Marcílio acaba de lançar pela Companhia das Letras o livro Histórias naturaisO primeiro livro de Álvaro Enrigue publicado no Brasil, Morte súbita, também acaba de chegar às livrarias.

“Cada romance que se escreve tem uma forma única que não pode ser repetida.” — Álvaro Enrigue

Áudio

Trecho da mesa

Bill Clegg

Na mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo”, Bill Clegg falou com o escritor Irvine Welsh. Lançando no Brasil seu primeiro romance, Você já teve uma família?, Bill Clegg falou sobre o livro, sobre o trabalho como agente literário e também sobre seus livros anteriores, Retrato de um viciado quando jovemNoventa diassobre sua experiência com o crack e sua recuperação.

“Tenha baixas expectativas em termos de dinheiro. Se você realmente quiser ganhar dinheiro, trabalhe no banco ou algo assim.” — Bill Clegg

Áudio

Trecho da mesa: 

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

O Brasil pelos olhos de dois estudiosos estrangeiros: esse foi o tema da mesa “Breviário do Brasil”, com Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, sobre Clarice Lispector (quer será reeditada pela Companhia das Letras), e Kenneth Maxwell, autor de O império derrotado.

“Como intelectuais e como cidadãos, temos a responsabilidade de ver os erros do passado e de corrigi-los.” — Benjamin Moser

Áudio

Trecho da mesa

Valeria Luiselli

Lançando A história dos meus dentes no Brasil pela Alfaguara, a mexicana Valeria Luiselli falou na mesa “A história da minha morte” sobre o processo criativo do livro. Convidada por uma galeria de arte financiada por uma fábrica de sucos a escrever uma fição sobre a coleção da galeria, a autora contou com a ajuda dos próprios operários para criar a história do leiloeiro Gustavo “Estrada” Sánchez Sánchez. A mesa, dividida com João Paulo Cuenca, também falou sobre literatura latino-americana.

“Os livros que eu escrevo sempre funcionam como mapas, procurando unir pontos de uma constelação não antes vista.” — Valeria Luiselli

Áudio

Trecho da mesa

Karl Ove Knausgård

O escritor norueguês era um dos nomes mais aguardados da Flip. Lançando no Brasil o quarto livro da série Minha Luta, Uma temporada no escuroKnausgård conquistou os leitores brasileiros ao falar sobre a exposição de sua vida em seus livros, o início da carreira de escritor e a recepção do público e a reação de sua família após a publicação da série.

“O que você sacrifica não é o que é seu, são os outros. Quando você escreve sobre os outros é como se estivesse roubando algo deles.” — Karl Ove Knausgård

Áudio

Trecho da mesa

 Tati Bernardi

Em uma das mesas mais divertidas da Flip, Tati Bernardi falou sobre o livro Depois a louca sou eu, um relato cheio de humor sobre suas crises de ansiedade e pânico. Também esteve na mesa “Mixórdia de temáticas” o humorista português Ricardo Araújo Pereira, que falou com Tati sobre humor e literatura.

“Acho que virei um pouco um personagem de mim mesma. Tenho um superego cruel que fica torcendo muito pra eu me ferrar porque vai virar texto.” — Tati Bernardi

Áudio

Trecho da mesa

Benjamin Moser e Heloisa Buarque de Hollanda

Benjamin Moser aprofundou sua pesquisa na obra de Clarice Lispector, e Heloisa Buarque de Hollanda, além de amiga, também divulga a poesia de Ana Cristina Cesar. Na mesa “De Clarice a Ana C.” os autores discutiram as obras de duas das principais autoras brasileiras.

“Ana C. e Clarice tinham uma fé inabalável na linguagem como significação, uma aposta na linguagem.” — Heloisa Buarque de Hollanda

Áudio

Trecho da mesa

Svetlana Aleksiévitch

A mesa com a ganhadora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch foi uma das mais cheias da história da Flip, assim como a fila de autógrafos que se formou logo depois. Falando russo, a jornalista contou algumas histórias presentes em seus livros, Vozes de Tchernóbil A guerra não tem rosto de mulherressaltando a importância dos relatos feitos pelas pessoas comuns.

“A única saída para nós é o amor. O amor cura. Acredito que o mundo não vai ser salvo pelo homem racional.” — Svetlana Aleksiévitch

Áudio da mesa

Trecho da mesa

Vilma Arêas

A mesa de encerramento da Flip também foi dedicada a Ana C. Vilma Arêas conversou com Sérgio Alcides na mesa “Luvas de pelica”, dois ensaístas que fizeram um balanço crítico e afetivo sobre a presença de Ana Cristina Cesar no cenário literário atual do país.

“Não se deve ler um livro de poesia como um romance, um poema atrás do outro, como se houvesse um enredo. Não se trata disso. Leia um por semana. Leve um ano lendo um livro de poesia. Vale a pena.” — Vilma Arêas

Áudio

Livro de cabeceira

Arthur Japin, Helen Macdonald, J. P. Cuenca, Karl Ove Knausgård, Kate Tempest, Laura Liuzzi, Marcílio França Castro, Misha Glenny e Ricardo Araújo Pereira leem trechos de seus livros favoritos.

Áudio da mesa

Semana trezentos e quatro

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Tradução de Cecília Rosas)
A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Alexiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

Rol, de Armando Freitas Filho
Na obra de Armando Freitas Filho, diversificada ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho poético, Lar, (2009), Dever(2013) e este Rol formam uma trilogia involuntária. O clima dos três livros é o mesmo. Temas são tratados com minúcia e relevância, e questões de ordem cotidiana, filosófica, memorial, erótica e lírica vão sendo retomadas, revistas por ângulos diferentes ou repisadas na tentativa de conquistar maior densidade e conhecimento na nova elaboração. À diferença dos livros anteriores, este se estrutura através de dez séries de poemas e três longos: “Canetas emprestadas”, “Suíte para o Rio” e “De roldão”. Sob os títulos gerais, cada uma das séries vai analogicamente abrindo o leque do assunto motivador das correlações, dispostas no desenvolvimento da composição. Algumas delas incorporaram subtítulos que se impuseram no curso da escrita. E o livro se encerra com “Numeral”, que vem sendo realizado desde 1999. A poesia dos numerais não acaba, ela continuará no próximo ou nos próximos livros, sem prazo de fechamento, na linha virtual do horizonte. A sequência dos capítulos trata, como diz o “Poema-prefácio”, “de tudo um pouco”, tendo como pano de fundo a morte vista de perto pelo poeta de 76 anos. A obra, por isso mesmo, é austera: escrita com afinco e coragem. Não chega a ser um livro de despedida, uma vez que muito ficou de fora deste volume. O autor ainda terá o que dizer a seus leitores, pois o conjunto de poemas de Armando Freitas Filho que ficou na gaveta espera sua futura oportunidade, como ele diz em Rol: “Mas há ainda uma ‘melodia trêmula’/ que vale a pena ouvir, registrar como/ acompanhamento do meu tempo particular/ o que seria pouco, mas que desse ao menos/ uma pala do tempo de todo mundo”.

Os visitantes, de Bernardo Kucinski
O jornalista Bernardo Kucinski causou furor na cena literária brasileira com seu romanceK: Relato de uma busca, publicado em 2013. História de um pai em busca da filha que desapareceu durante a ditadura no Brasil, o romance angariou uma legião de fãs e foi aclamado como uma das grandes obras literárias daquele ano. A novela Os visitantes é uma continuação de K, e cada capítulo narra a visita de uma pessoa diferente que vai até o autor cobrar satisfações sobre o livro anterior. Narrado com frieza e precisão, Os visitantes confirma o lugar de Bernardo Kucinski entre os grandes autores da literatura brasileira.

Minhas duas meninas, de Teté Ribeiro
Após quase uma década lutando contra a infertilidade, a jornalista Teté Ribeiro tomou uma decisão ousada: ter filhos por meio de uma barriga de aluguel na Índia. Minhas duas meninas é o relato de seu périplo até essa decisão — e dos detalhes que marcaram a sua experiência.
A relação com a mãe indiana, o dia a dia logo após o nascimento das gêmeas, as particularidades da clínica e os dilemas de ser mãe sem passar pela experiência de dar à luz são alguns dos pontos presentes neste relato comovente. Em parte livro de memórias, em parte retrato de geração, mas também reportagem exemplar, Minhas duas meninas é uma radiografia dos dilemas da mulher contemporânea.

Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård
Karl Ove Knausgård está com dezoito anos quando parte para uma vila no norte da Noruega a fim de dar aulas a adolescentes. Sua intenção é juntar algum dinheiro para viajar e investir na incipiente atividade de escritor. No começo tudo corre bem, mas quando o escuro toma conta dos dias de inverno, a vida começa a se complicar. A escrita de Karl Ove para de fluir, e suas empreitadas para perder a virgindade fracassam.
Com o alto consumo de álcool ele se aproxima da sombra do pai alcoólatra e resgata a temática do primeiro livro da série Minha Luta, A morte do pai. Como a narrativa não segue ordem cronológica, este volume – um dos mais arrebatadores – pode ser lido de forma independente.

Alfaguara

Poemas negros, de Jorge de Lima
Esta seleção permite um olhar panorâmico sobre a diversificada obra de Jorge de Lima, poeta que percorreu de forma única os caminhos da poesia brasileira — do início parnasiano, passando pelo verso livre, as experimentações com o soneto, até a épica-lírica de Invenção de Orfeu. O ritmo e a capacidade de evocar imagens são marcantes na obra do poeta. Mas não se pode esquecer seu profundo senso de responsabilidade humana: o olhar atento para a realidade do povo, do negro e da desigualdade social. Outro aspecto importante é a densidade mística, resultante de uma forte religiosidade. Por trás da complexidade de seus versos, revela-se uma poesia absolutamente singular e sedutora.

Uma força para o bem, de Daniel Goleman
O testamento espiritual, político e social do Dalai Lama escrito pelo autor de Inteligência emocional. Ao longo de décadas, o Dalai Lama viajou pelo mundo e conheceu pessoas dos mais diversos países e culturas. Nesses encontros, ele sempre se deparou com os mesmos problemas: um sistema que permitiu aos muito ricos distanciarem-se ainda mais da multidão de pobres, um enorme desrespeito pelo meio ambiente e governos paralisados. Aos oitenta anos, tendo construído um conhecimento profundo do mundo em que vivemos, bem como um entendimento abrangente do seu contexto científico, o Dalai Lama nos apresenta a sua visão para um futuro melhor.

Seguinte

Lua de vinil, de Oscar Pilagallo
Em seu romance de estreia, Oscar Pilagallo faz um retrato vívido da São Paulo dos anos 1970, mas este é apenas o pano de fundo para uma história sobre o que significa amadurecer.
Em 1973, a ditadura militar comandava o Brasil. O Pink Floyd lançava o aguardado disco The Dark Side of the Moon. E Giba passava os dias jogando futebol de botão com os amigos do prédio, suspirando por Leila, sua vizinha irreverente e descolada. Ele tentava ignorar o estado grave de seu pai, internado no hospital, e não sabia que a violência do governo estava muito mais perto da sua casa na Vila Mariana do que ele imaginava. Até que, num dia tranquilo de março, ele acaba causando um acidente e se vê obrigado a lidar com um dilema moral que o fará abandonar a inocência dos dezesseis anos para sempre.

Suma de Letras

Gigantes adormecidos, de Sylvain Neuvel
Parte ficção científica, parte thriller, Gigantes adormecidos é uma história viciante sobre a disputa pelo controle de um poder capaz de engolir todos nós. Rose passeia de bicicleta pelo bosque perto de casa, quando de repente é engolida por uma cratera no chão. A cena intriga os bombeiros que chegam ao local para resgatá-la: uma menina de onze anos caída na palma de uma gigantesca mão de ferro. Dezessete anos depois, Rose é ph.D em física e a nova responsável por estudar o artefato que encontrou ainda criança. O objeto permanece um mistério, assim como os painéis que cercavam a câmara onde foi deixado. A datação por carbono desafia todas as convenções da ciência e da antropologia, e qualquer teoria razoável é rapidamente descartada. Quando outras partes do enorme corpo começam a surgir em diversos lugares do mundo, a dra. Rose Franklin reúne uma equipe para recuperá-las e montar o que parece ser um robô alienígena gigante quase tão antigo quanto a raça humana. Mas, uma vez montado o quebra-cabeças, ele se transformará em um instrumento para promover a paz ou causar destruição em massa? Parte ficção científica, parte thriller, Gigantes adormecidos é uma história viciante sobre a disputa pelo controle de um poder capaz de engolir todos nós.

Penguin

O cortiço, de Aluísio Azevedo
Publicado em 1890, O cortiço é um marco da aclimatação do naturalismo em nossas letras. É também uma denúncia — ainda muito atual e aguda — das condições de vida das classes populares, espremidas em lugares insalubres e exploradas por patrões gananciosos.
A ascensão social do português João Romão é contada com objetividade científica. Outros personagens também são examinados no microscópio de Aluísio Azevedo: Miranda, Zulmira, Bertoleza, Jerônimo. O choque da mentalidade do Velho Mundo com a exuberância do Brasil é representado pela relação entre os personagens e o meio (físico, social e geográfico) em que vivem. Um romance forte e absolutamente indispensável para qualquer leitor brasileiro.

Minha Luta 4, de Karl Ove Knausgård

Por Jeffrey Eugenides

Corbis

Karl Ove ­Knausgård

Texto originalmente publicado em 2015 no The New York Times. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

* * *

Em artigo recente para a revista do New York Times, Karl Ove ­Knausgård escreveu: “Da última vez que estive em Nova York, um famoso escritor americano me convidou para almoçar. […] Tentei desesperadamente pensar no que dizer. Tínhamos que ter algo em comum, sendo quase da mesma idade, ganhando a vida do mesmo modo, escrevendo romances, embora os dele fossem consideravelmente de melhor qualidade que os meus. Mas, não, eu não conseguia puxar conversa sobre nada. […] Ao voltarmos para a Suécia, recebi um e-mail dele. Ele se desculpava por haver me convidado para almoçar, tendo percebido que não devia ter feito aquilo e pedia que eu não respondesse ao seu e-mail. A princípio, não entendi o que ele estava querendo dizer. […] Então percebi que ele tinha ficado ofendido com o meu silêncio. Ele deve ter pensado que eu achava que era um desperdício de tempo conversar com ele.”

Knausgård não revela a identidade do escritor americano com quem almoçou, mas eu revelarei: foi comigo. Devo ser o primeiro resenhista da obra autobiográfica de Knausgård a aparecer em um dos seus livros, estando portanto em uma posição privilegiada para julgar como ele faz uso do que acontece em sua vida para construir suas histórias. A partir do momento em que ele me transformou em um personagem secundário, eu ganhei uma visão privilegiada sobre o que ele está fazendo.

A série Minha Luta mostra o autor assolado por uma série de problemas. Ele tem que lidar com o pai autoritário e alcoólatra, seus desejos sexuais, os requisitos castradores para ser pai na contemporaneidade, o tédio e a fúria que são parte até mesmo de um casamento amoroso, a certeza da morte e, sempre e em toda parte, sua própria e sofrida autoconsciência. Mas o romance, em seus seis volumes e mais de 3500 páginas, é também um esforço literário para alcançar o sonho de Knausgård de algum dia escrever “algo excepcional”. O que atualmente é difícil de conseguir, porque o mundo está inundado de histórias. “Havia uma crise”, Knausgård escreve perto do fim do volume 2, “eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante. Ou seja, a consciência via sempre o mesmo.” Para reagir a isso, Knausgård busca alterar essa distância da realidade, o que faz observando sua vida em extremo close-up e concedendo importância equivalente tanto ao que acontece de fato consigo como ao que se passa em sua mente. O projeto pode ser comparado, na pintura, ao fotorrealismo e sua ênfase na hiper-claridade e detalhamento; ou, na direção oposta, ao impressionismo. Nos dois casos é a alteração da percepção que produz a diferença, simples o bastante na execução, mas com resultados inovadores.

Aqueles que foram enfeitiçados por Knausgård e compraram o projeto todo estão agora recompensados com o volume 4 [Uma temporada no escuro], o mais ágil, engraçado e, por ter lugar durante a adolescência de seu protagonista, o mais bombástico de seus volumes traduzidos até agora. Nele, se conta a história do ano em que o autor foi professor no norte da Noruega. Já na página 116, o livro volta ao passado para descrever os últimos anos de Knausgård no colégio, seu amor pela bebida, o divórcio de seus pais e suas paixões românticas, antes de retomar sua narrativa, na página 329. Dessa vez não há divisão em capítulos para assinalar essas viradas temporais, um recurso adequado à reprodução romanesca do fluxo da memória. Há, porém, uma trama. O livro 4 é um romance de busca. “Nessa época, o verão dos meus dezesseis anos, eu só queria três coisas. A primeira era arranjar uma namorada. A segunda era ir para a cama com uma garota. E a terceira era encher a cara. […]Não. No fundo era apenas uma coisa. Eu queria ir para a cama com uma garota. Essa era a única coisa que eu queria.”

E não era por falta de oportunidade. As garotas se ofereciam ao jovem e bonito Karl Ove, mas, devido a um caso extremo de ejaculação precoce, ele não conseguia cumprir sua parte. Seus fracassos tornam-se um recurso cômico no romance, embora nunca provoquem aquele tipo de riso barato, porque cada abordagem é impregnada de sentimentos intensos e uma desarmante e altamente cúmplice honestidade.

O ponto luminoso na vida de Knausgård, em meio à longa escuridão invernal, é sua escrita. Além de sua coleção de discos, o jovem Karl Ove trouxe consigo para o topo do mundo uma máquina de escrever, na qual ejacula seus primeiros contos. Ao contrário da maioria dos escritores que recordam seus primeiros escritos, Knausgård não faz pouco dos dele. Eles lhe parecem de fato bem bons para um rapaz de dezoito anos, indicativos, em sua franqueza e ausência de pretensão, da direção que sua obra futura tomaria.

O livro 4 é também o mais leve da série. São raros os textos mais densos em suas páginas. Os trechos ensaísticos que elevavam os volumes anteriores, admiráveis em sua antiquada profundidade europeia e repletos de um pensamento associativo agudo, original e brilhante não dão sua graça em lugar algum. Tudo aqui é dramatizado, cena após cena, de modo irresistível, mas sem a gravidade dos volumes anteriores e indicativo de um período mais leve e despreocupado na vida de Knausgård.

A razão desses livros se assemelharem tanto à vida é que há neles um único protagonista. A despeito de todos os seus talentos, Knausgård nunca produz uma impressão indelével das outras pessoas. Apesar de ter lido centenas de páginas sobre eles, tenho apenas uma impressão limitada de seu pai e de sua mãe; e os tipos que ele encontra em Hajford, seus colegas professores, as garotas por quem ele se apaixona e seus alunos, todos tendem a se fundir. Não se entra jamais no âmago dessas pessoas. Seria impossível estar dentro deles sem alterar o foco do solipsismo knausgaardiano. Para muitos escritores isso não funcionaria. Eles não seriam interessantes o suficiente, atormentados o bastante, espertos, nobres, dignos de pena ou autocríticos a esse ponto. Com Knausgård, porém, a troca mais do que vale a pena. O cérebro dele é um lugar tão interessante para se morar que o leitor não quer jamais abandonar essa perspectiva, não mais do que, em sua própria vida, o leitor quer deixar de ser ele próprio. Um dos paradoxos da obra de Knausgård é que ao habitar tão intensamente em suas próprias memórias ele consiga restaurar — e eu chego mesmo a dizer, abençoar — as do leitor.

Por mais mágico que seja o efeito, o método para criá-lo não o é tanto. O que me leva de volta ao meu almoço com o na maior parte do tempo calado autor desses livros. Não há nada factualmente incorreto na narrativa de Knausgård sobre o evento. Ao ler sua descrição, porém, eu entendi o que ele está fazendo. Knausgård queria estabelecer uma distinção entre os escandinavos e os americanos no que diz respeito a jogar conversa fora. Na verdade, a razão de não termos conseguido conversar um com o outro teve menos a ver com diferenças culturais que com o fato de sermos duas pessoas nervosas com problemas de baixa autoestima e que ficaram sem jeito na presença um do outro. Isto não se encaixa, contudo, no argumento de Knausgård sobre o ocorrido naquele ponto do artigo; então, como todo escritor profissional, ele aproveitou a parte da estória que atendia suas necessidades.

O que é exatamente o que ele faz em Minha Luta. A vida de Knausgård é uma caixa de surpresas de eventos e recordações, e ele apela ao que estiver à mão. Ele não mente ou inventa as coisas (até onde sei). Mas o processo de seleção a que submete suas recordações de modo a preencher a narrativa exige que sua escrita se eleve a um nível considerável de artifício. Outros escritores inventam; Knausgård recorda. Sua matéria bruta é mais autêntica (talvez), mas os produtos que ela gera não são menos artísticos.

Knausgård descobriu um jeito de suspender a descrença do leitor em uma época em que essa suspensão é cada vez mais difícil de alcançar. Sua técnica é tão hábil que o leitor nem percebe.

Na verdade, o domínio da técnica dos procedimentos tradicionais do romance é a razão pela qual esses livros não são nem um pouquinho tediosos, quando tinham tudo para ser. Knausgård está sempre contando uma história, sempre envolvendo o leitor em alguma ligação amorosa, um desastre sexual ou uma crise emocional. E a atmosfera que ele acrescenta vem na dose certa; seu ritmo é impecável. Que maravilha ler um romance experimental que inflama todos os nervos do corpo ao mesmo tempo em que desperta no leitor o sentimento profundo do quão incrível é estar vivo, neste planeta e em nenhum outro.

“Rock ’n’ roll!”, escreve o Knausgård de dezoito anos em seu diário, exortando a si próprio a atender sua vocação literária. E é esse o espírito do Livro 4: o desabafo de um garoto com uma incrível coleção de discos que sonha ser um escritor escrito pelo grande escritor que ele finalmente se tornou.

* * * * *

Jeffrey Eugenides nasceu em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. É autor de As virgens suicidasMiddlexex A trama do casamento, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

Oito livros para você se preparar para a Flip 2016

A 14ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty acontece entre os dias 29 de junho e 3 de julho, e a programação principal do evento já foi anunciada. O grupo Companhia das Letras está preparando vários lançamentos de seus autores convidados, mas enquanto os novos livros não chegam, você pode conhecer as suas obras com os títulos já lançados aqui no Brasil. Para isso, fizemos esta lista com alguns livros para você ir se preparando para a Flip. Confira!

1. McMáfiade Misha Glenny

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Em junho, Misha Glenny lança O dono do morro, livro em que conta a história do traficante Nem e, por consequência, a história do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Mas abordando o crime em uma escala maior, o jornalista lançou no Brasil em 2008 o livro McMáfia, que aborda o crescimento exponencial do crime organizado em todo o planeta. Para este livro, Misha Glenny realizou três anos de pesquisas e investigações em todos os continentes para mapear a proliferação das redes criminosas mundo afora e apresenta dados estarrecedores sobre ações ilícitas que vão desde o tráfico de mulheres russas para Israel até os crimes eletrônicos perpetrados em países como o Brasil e a Nigéria, das rotas do narcotráfico ao contrabando de petróleo, diamantes ou caviar.

2. Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg

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Antes deste livro, Bill Clegg atuava no mercado editorial como agente literário. Sua estreia como autor, Retrato de um viciado quando jovem é um relato comovente — e assustador — de sua vida como usuário de crack, a história de um jovem profissional que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício. Escrito com uma sinceridade atordoante, que muitas vezes toma o ponto de vista externo do narrador, como se o distanciamento permitisse uma liberdade maior em descrições espantosas e comoventes, o livro acompanha a queda e a redenção final de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama. Retrato ganhou uma continuação com o lançamento de Noventa dias, relato da reabilitação do autor. Agora em junho, lançaremos seu primeiro romance, Você já teve uma família?.

3. Vozes de Tchernóbilde Svetlana Aleksiévitch

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Vencedora do Nobel de Literatura de 2015, Svetlana não tinha sua obra publicada no Brasil até abril deste ano, quando lançamos Vozes de Tchernóbil no aniversário de 30 anos da tragédia nuclear. Para este livro, Svetlana entrevistou centenas de pessoas que viveram o desastre, viúvas, bombeiros, cientistas, soldados convocados para conter a destruição causada pela radiação. E são as vozes destas pessoas que a jornalista usa para contar a história de Tchernóbil. Vozes não é um livro que apresenta uma ordem cronológica dos fatos ou que explique o que causou o acidente, mas sim um relato do que aquelas pessoas sofreram e ainda sofrem depois de serem atingidas de alguma forma pela tragédia. O próximo livro de Svetlana Aleksiévitch a ser lançado pela Companhia das Letras é A guerra não tem rosto de mulher, a história das mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial que estará nas livrarias até a Flip.

4. Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

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No México, uma jovem mãe de duas crianças pequenas tenta escrever um romance sobre sua juventude em Nova York e a obsessão que tem por um excêntrico e obscuro poeta mexicano, Gilberto Owen — que viveu na mesma cidade nos anos 1920. A presença quase fantasmagórica do poeta envolve a narradora com frequência. A vida familiar da jovem rui lentamente, assim como a de Owen ruía tantas décadas antes. E assim as vozes da narradora e do poeta se encontram numa história que aproxima suas vidas, apesar de estarem distantes no tempo. A inventiva estrutura de narração de Valeria Luiselli faz de Rostos na multidão, seu primeiro livro publicado no Brasil, um romance multifacetado e emocionante, fruto de uma das vozes mais surpreendentes da nova literatura latino-americana. Seu próximo livro a ser lançado pela Alfaguara é A história dos meus dentes, que chega às livrarias em junho.

5. Minha luta, de Karl Ove Knausgård

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Difícil indicar só um dos três volumes já lançados da série Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård. Dividido em seis livros (o quarto, Uma temporada no escuro, será lançado em junho), a série autobiográfica se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. Com A morte do pai, Knausgård inaugura o projeto, centrando a história nos dias da adolescência e nas memórias sobre a convivência conturbada com o pai. Em Um outro amor, o autor escreve sobre a relação com a segunda esposa, os filhos que começam a nascer e a rotina conflitante de pai e escritor. Já em A ilha da infância ele reconstrói as memórias da infância, os seus medos na época e reflete sobre como aquela criança e o homem que agora escreve são a mesma pessoa. Até o final da série, serão mais de 6 mil páginas que revelam os detalhes mais íntimos da vida do autor e de seus familiares com pleno domínio da atividade narrativa.

6. Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi

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Crises de pânico, de ansiedade, o medo de viajar de avião e os remédios que controlam tudo isso estão em Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi. Um livro que, segundo Otavio Frias Filho, “é como se a tampa da cabeça de Tati Bernardi fosse desatarraxada para que os fãs bisbilhotassem à vontade lá dentro”. No livro, Tati retrata com muito humor, no seu estilo escrachado e ágil, as primeiras crises, a mania de fazer listas e os seus medos, conseguindo falar de um tema delicado que é a ansiedade provocando gargalhadas ao mesmo tempo em que mantém um pacto de seriedade com o leitor.

7. Vento sul, de Vilma Arêas

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Vento sul reúne vinte contos (ou “ficções”, como quer a autora) de leitura fácil, sentido cristalino e efeito impactante. Eles estão organizados em quatro blocos: “Matrizes”, “Contracanto”, “Planos paralelos” e “Garoa, sai dos meus olhos” – este último citando um poema de Mário de Andrade. Neles se articulam histórias fundadoras, lembranças de personagens e vivências, vinhetas poéticas, aqui e ali uma quase parábola para falar de temas de abordagem difícil como a violência solapada que às vezes se pratica nas famílias. Em todas as histórias o leitor encontra a perda – e sua outra face: a persistência da memória.

8. Poética, de Ana Cristina Cesar

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Não podemos falar da Flip 2016 sem falar de Ana Cristina Cesar, autora homenageada desta edição. Publicado em 2013, Poética reúne todos os livros de uma das mais importantes representantes da poesia marginal. Fazem parte de Poética os livros Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés (que ganha nova edição pela coleção Poesia de Bolso agora em maio), Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: títulos fora de catálogo há décadas reunidos em um único volume e enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho, que participa da mesa de abertura da Flip e lança o livro Rol em julho pela Companhia das Letras. É leitura imprescindível para quem quer conhecer Ana C.

 

Conheça mais autores que estarão na Festa Literária Internacional de Paraty.

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