karl ove knausgard

Conheça nossos autores confirmados na Flip 2016

De 29 de junho a 3 de julho acontece a 14ª Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2016, o tradicional evento literário de Paraty, no Rio de Janeiro, homenageia a poeta Ana Cristina Cesar, que teve toda a sua obra publicada pela Companhia das Letras em PoéticaNeste ano, onze autores do Grupo Companhia das Letras estão confirmados na programação principal da Flip, e mais cinco autores na Flipinha. Conheça!

Svetlana Aleksiévitch

Escritora Svetlana Alexijevich

O primeiro nome confirmado em 2016 foi o da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. O primeiro livro da jornalista bielorussa publicado no Brasil é Vozes de Tchernóbil, que chegou às livrarias na última semana. No livro, Svetlana reúne relatos de viúvas, trabalhadores, soldados, bombeiros, médicos e cientistas que vivenciaram e sobreviveram ao desastre de Tchernóbil. O livro não só mostra a destruição que o acidente nuclear causou, mas apresenta também as consequências desse desastre na vida daquelas pessoas comuns. Em junho, lançaremos também A guerra não tem rosto de mulher, a história de soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra.

Svetlana participa da Flip no sábado, dia 2 de julho, às 17h15.

Misha Glenny

MishaGlenny - © Ivan Gouveia

Misha Glenny é um renomado jornalista e historiador britânico, trabalhou como correspondente do diário inglês The Guardian e da emissora BBC na Europa Central. Cobriu o colapso do comunismo nos países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia e as guerras que despedaçaram a ex-Iugoslávia. Em junho, lança no Brasil o livro O dono do morro, que conta a história de Antônio Francisco Bonfim Lopes, um jovem pai trabalhador, que se transformou em Nem, o líder do tráfico de drogas na Rocinha. A partir de uma série de entrevistas na prisão de segurança máxima onde o criminoso cumpre sentença, Misha Glenny narra a ascensão e a queda do traficante, assim como a tragédia de uma cidade. Misha Glenny também publicou pela Companhia das Letras os livros McMáfia, sobre o crime organizado na globalização, e Mercado sombrioem que fala dos crimes na internet.

Misha Glenny divide a mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos na quinta-feira, dia 30 de junho, às 15h.

Karl Ove Knausgård

Karl Ove Knausgard 2012_Maria Teresa Slanzi

Karl Ove Knausgård nasceu em Oslo em 1968 e é considerado o mais importante escritor norueguês de sua geração. Conquistou leitores do mundo todo com a série Minha luta, livros híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea. No Brasil, os três primeiros títulos da série já foram lançados — A morte do pai, Um outro amor A ilha da infância. Em junho chega às livrarias Uma temporada no escuro, quarto livro da série que será centrado na juventude do escritor.
O encontro com Knausgård acontece na sexta-feira, 1º de julho, às 17h15.

Marcílio França Castro

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De Belo Horizonte, Marcílio França Castro é mestre em teoria literária pela UFMG, publicou A casa dos outros e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional. Pela Companhia das Letras, publica em maio Histórias naturais, livro que exibe um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa em contos sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana.

Marcílio França Castro divide a mesa “Histórias naturais” com Álvaro Enrigue na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Bill Clegg

Bill Clegg © Brigitte Lacombe

Bill Clegg é agente literário em Nova York. Sua estreia como autor foi com Retrato de um viciado quando jovem, livro em que narra sua experiência como usuário de crack. O livro recebeu elogios de diversos críticos e de escritores como Michael Cunningham e Irvine Welsh, e ganhou uma sequência em Noventa dias, que aborda sua reabilitação. Em maio, lança no Brasil Você já teve uma família?, seu primeiro romance, com personagens que procuram conforto nos lugares mais improváveis para superar suas tragédias pessoais.

Bill Clegg participa da mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo” com Irvine Welsh na quinta-feira, 30 de junho, às 21h30.

Tati Bernardi

Retrato Tati Bernardi para Companhia das Letras, Janeiro de 2016.

Tati Bernardi já conquistou uma legião de leitores com a sua coluna na Folha de S. Paulo. Além da sua coluna, também é autora da Rede Globo e roteirista de cinema. Em fevereiro deste ano, lançou Depois a louca sou eu, um relato bem-humorado e escrachado que relembra suas histórias de pânico e ansiedade. As primeiras crises de pânico, a mania de fazer listas, o medo de viajar de avião, os remédios tarja-preta estão neste livro, onde tudo aparece sob o filtro de uma cabeça fervilhante de pensamentos, mãos trêmulas, falta de ar, taquicardia e, sobretudo, humor.

Tati Bernardi divide a mesa “Mixórdia de temáticas” com Ricardo Araújo Pereira no domingo, 3 de julho, às 12h.

Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho -® Bel Pedrosa

O poeta Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa, secretário da Câmara de Artes no Conselho Federal de Cultura, assessor do Instituto Nacional do Livro no Rio de Janeiro, pesquisador na Fundação Biblioteca Nacional, assessor no gabinete da presidência da Funarte. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3×4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003). Pela Companhia das Letras, publicou os livros Dever, Lar, Raro mar. Em junho, lança Rol. 

Armando Freitas Filho participa da mesa de abertura da Flip na quarta-feira, dia 29 de junho, com Walter Carvalho.

Valeria Luiselli

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Valeria Luiselli nasceu na Cidade do México, em 1983. É colaboradora da revista Letras Libres e seus textos já foram publicados nos jornais The New York Times e Reforma. Ela vive atualmente entre o México e Nova York, onde faz um doutorado na Universidade Columbia. No Brasil, publicou pela Alfaguara Rostos na multidão, um romance multifacetado e emocionante sobre uma jovem mãe de duas crianças pequenas que tenta escrever um romance sobre sua juventude em Nova York e a obsessão que tem por um excêntrico e obscuro poeta mexicano. Em junho, a Alfaguara lança seu novo romance, A história dos meus dentes.

Valeria Luiselli participa da mesa “A história da minha morte” com J. P. Cuenca, na sexta-feira, 1º de julho, às 12h.

Álvaro Enrigue

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Álvaro Enrigue nasceu em Guadalajara, México, em 1969. Tem sido considerado um dos mais imaginativos e poderosos ficcionistas da literatura de língua espanhola. Publicou contos e romances, mas foi a partir de Morte súbita que se tornou um autor mundialmente reconhecido. O romance chega às livrarias brasileiras em maio, uma narrativa alucinante e vertiginosa que começa em uma partida de tênis e se transforma numa história alternativa da humanidade.

Álvaro Enrigue divide a mesa “Histórias naturais” com Marcílio França Castro na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Vilma Arêas

Vilma Areas©Lucila Wroblewski

Fluminense, Vilma Arêas estreou na ficção com Partidas (contos, Francisco Alves, 1976). Aos trancos e relâmpagos (literatura infantil, Scipione, 1988) e A terceira perna (contos, Brasiliense, 1992) mereceram o prêmio Jabuti. Em 2002, Trouxa frouxa (contos) recebeu o prêmio Alejandro José Cabassa (44o. aniversário da União Brasileira de Escritores), e em 2005 Clarice Lispector com a ponta dos dedos (ensaio) recebeu o prêmio APCA categoria literatura. Professora titular de literatura brasileira na Unicamp, Vilma Arêas ainda publicou pela Companhia das Letras o livro Vento sul.

Vilma Arêas participa da mesa de encerramento “Luvas de pelica” com Sérgio Alcides no domingo, 3 de julho, às 14h.

Patrícia Campos Mello

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Patrícia Campos Mello, jornalista paulistana, atualmente é repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Cobrindo economia, relações internacionais e direitos humanos há 15 anos, já esteve em quase 50 países fazendo reportagens. É autora de Índia: da miséria à potência (Planeta, 2008) e prepara Lua de mel em Kobani, com publicação prevista pela Companhia das Letras, em que narra a história da guerra contra o estado islâmico na Síria através do olhar de um casal de refugiados.

Participa da mesa “Siria mon amour” no domingo, dia 3 de julho, às 10h com Abud Said.

Flipinha

Ernani Ssó

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Ernani Ssó é autor de livros infantis como Castelos e fantasmasCom mil diabos! Contos de gigantesTambém é tradutor da edição da Penguin-Companhia de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Na Flipinha, o autor participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h do dia 30 de junho, com Lázaro Ramos, Angela-Lago e a dupla Palavra Cantada. Já no sábado, dia 2 de julho, ele participa da mesa “Histórias de arrepiar!”, com Alexandre de Castro Gomes, às 10h30.

Angela-Lago

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Nasceu em Belo Horizonte, em 1945. Viveu na Venezuela e na Escócia. Há vinte anos escreve e ilustra livros para crianças, como os livros O caixão rastejante e outras assombrações de família, Muito capeta Sete histórias para sacudir o esqueletoNa quinta-feira, dia 30 de junho, participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h, e da mesa “Caderno de segredos” com Lázaro Ramos, às 10h30.

Patricia Auerbach

Nasceu em São Paulo, em 1978. Se formou em arquitetura e trabalhou como diretora de arte, artista plástica e professora de história da arte. Desde pequena sempre adorou desenhar, escrever e inventar histórias. Hoje é autora e ilustradora de livros infantis, professora e mãe, e lançou pela Companhia das Letrinhas o livro Histórias de antigamentePatricia participa da mesa “Diálogos texto e imagem” no dia 1º de julho, às 10h30, com Aline Abreu.

Blandina Franco e José Carlos Lollo

Blandina Franco e José Carlos Lollo são a dupla responsável pelas historinhas do cãozinho Pum, como Soltei o Pum na escola! e Quem soltou o Pum?Em 2016 lançaram ErnestoBlandina e Lollo participam da mesa “Histórias parceiras” no dia 3 de julho, às 10h30, com Laura Castilhos.

Os melhores livros de 2015

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Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Knausgård ou Proust?

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Desde que lançou seu romance autobiográfico em seis volumes, Knausgård foi chamado ad nauseam de “Proust contemporâneo” e “Proust norueguês”. Que outro autor escreveu uma autobiografia romanceada que se estende por mais de 3 mil páginas? Mas o autor da série Minha luta não concorda com essa alcunha, ou apenas em parte. “Escrever é lembrar. Nesse sentido, sou um proustiano clássico”, declarou em entrevista à Paris Review em 2013.

No mesmo ano, contudo, afirmou à revista Época não se sentir bem com esse apelido: “Pretendi fazer o avesso de Proust e narrar minha vida sem pensar em estilo, nem em frases longas e hipnotizantes, nem em subterfúgios, como alterar os nomes dos personagens.”

Ora, muitos críticos usaram justamente o adjetivo “hipnotizante” para descrever a prosa de Knausgård. Por mais que a linguagem dele seja considerada mais direta e menos metafórica que a de Proust, o efeito sobre o leitor parece ser o mesmo. Em matéria da última semana na revista Veja, o crítico Jerônimo Teixeira faz uma comparação interessante entre os dois autores, aproximando Proust do pretérito imperfeito, o tempo do recorrente, e Knausgård do pretérito perfeito, o tempo dos acontecimentos pontuais.

Será que é tão fácil diferenciar um autor do outro? Separamos cinco trechos de cada autor para fazer o teste com nossos leitores. A cada semana, publicaremos dois desses trechos em nossa página no Facebook para você adivinhar, e a resposta será atualizada aqui neste post com os próximos trechos.

E então, Proust ou Knausgård?

1.

“Descemos a escarpa coberta de árvores que estava logo abaixo de nós. Quando chegamos ao fundo, cambaleamos de volta pela floresta, talvez uns dez metros para dentro da estrada. Paramos junto ao grande espruce com a casca cheia de resina pegajosa, que tinha uma cor parecida com a de açúcar queimado e um cheiro forte de zimbro, que ficava próximo ao córrego baixo, largo e turvo, onde todas as cores eram verdes e escuras. Por entre os galhos finos das tramazeiras um pouco mais além dava para ver a nossa casa.”

“Mas em compensação estava agora muito longe da margem, e o mar não se me apresentava com vida, mas imóvel, de modo que já não sentia força oculta por detrás daquelas cores, estendidas, como as de uma pintura, entre as folhas das árvores, e a água parecia tão inconsistente quanto o céu, apenas um pouco mais escura no seu azul.”

2.

“Tudo na escola era novidade nessa época, mas todos os dias tinham o mesmo formato, e nos familiarizamos com a rotina tão depressa que ao fim de poucas semanas já não havia mais nada que pudesse nos surpreender. O que se dizia na cátedra era sempre verdade, e o fato de que era dito na cátedra fazia com que até mesmo as coisas mais improváveis se tornassem prováveis.”

“No colégio, na aula da uma hora, o sol me fazia morrer de impaciência e tédio, deixando arrastar-se um dourado clarão até minha carteira, como um convite à festa aonde eu não poderia chegar antes das três horas.”

3.

“Afinal tornou a vir brincar quase todos os dias, pondo ante mim novas coisas que desejar, que lhe pedir, para o dia seguinte, e fazendo cada dia, nesse sentido, da minha ternura uma ternura nova.”

Essas foram algumas das noites mais felizes de toda a minha vida. É estranho, porque não havia nada de extraordinário a respeito delas, nós fazíamos o que todas as crianças faziam, ficávamos sentados jogando um jogo, ouvindo música e tagarelando sobre um assunto qualquer que nos interessasse.”

4.

“Quando acordei no dia do meu aniversário o sol mal tinha nascido. O pacote com o uniforme estava dentro do meu armário. Eu não via a hora de abri-lo. Rasguei o papel, peguei o uniforme, apertei-o contra o meu nariz… será que existia um cheiro melhor que o de roupas novas? Vesti os calções de material brilhoso, depois a camiseta, que era um pouco mais áspera, quase irregular, e as meias brancas. Depois fui ao banheiro para me ver no espelho.”

“Jamais renascerá para mim a possibilidade de tais horas, mas preservo ainda o som de meu choro, quando pude ficar a sós com mamãe. Mamãe, dominada de súbito por minha comoção, começa também a chorar. Ela me propõe, então, de abrir o pacote de livros com que vovó me presentaria pelo aniversário. Trata-se dos quatro romances campestres de George Sand. A maneira peculiar de vovó se relacionar com a arte.”

5.

“Meu avô e minha avó estavam nos visitando, então era impensável que eu não fosse jantar. Ou será que não? Meia hora depois eles subiram a escada. Alguém entrou no banheiro, que dividia a parede com o meu quarto. Não era o meu pai, notei graças aos passos, mais leves que os dele. Mas eu não sabia dizer se era a minha mãe, o meu avô ou a minha avó, porque o barulho no banheiro foi seguido por fortes batidas nos canos de água quente, que apenas o meu avô ou a minha avó seriam capazes de provocar.”

“Após o jantar, ai de mim, via-me obrigado a deixar mamãe, que ficava a conversar com os outros no jardim, se fazia bom tempo, ou na saleta, para onde todos se retiravam quando o tempo era mau. Todos, menos minha avó, que achava “uma lástima ficar-se encerrado no campo” e que tinha incessantes discussões com meu pai nos dias de chuva muito forte, porque ele me mandava ler no quarto em vez de ficar fora. “Não é assim que o tornarão robusto e enérgico”, dizia ela, “ainda mais esse menino que tanto precisa adquirir forças e vontade”. Meu pai dava de ombros e examinava o barômetro, pois gostava de meteorologia, enquanto minha mãe, evitando fazer ruído para não perturbá-lo, olhava-o com enternecido respeito, mas não muito fixamente, como para não parecer que tentava devassar o mistério de sua superioridade.”

* * * * *

Respostas: 

1- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em À sombra das raparigas em flor.

2- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

3- 1º trecho: Proust em À sombra das raparigas em flor2º trecho: Knausgård em A ilha da infância.

4- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

5-  1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

Semana duzentos e cinquenta

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A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård (tradução de Guilherme Braga)
Medo da água, medo da escuridão, medo do pastor-alemão dos vizinhos, medo do pai – a infância é uma época aterrorizante. Nas fantasias do menino Karl Ove, os adultos vivem num mundo à parte e têm o poder de deuses, às vezes benevolentes como sua mãe e às vezes tirânicos como seu pai. Como reconstruir as lembranças desse tempo, anterior a toda lembrança? O que há em comum entre o bebê que nossos pais fotografaram e a pessoa que somos hoje? Depois de A morte do pai e Um outro amor, no terceiro volume da série autobiográfica Minha Luta, Knausgård investiga, com o estilo direto e arrebatador que lhe é característico, a memória, o universo familiar e a construção da identidade.

Companhia das Letrinhas

Menina Japinim, de Ana Miranda
Esta é a história de uma menina que tinha uma vida como a de qualquer outra criança que vive em uma aldeia indígena. Ela gostava de brincar de fazer casinha, de balançar e cair no rio para se banhar, de pescar e de subir em árvores. Mas sua mãe tinha muito medo de que ela se machucasse e por isso sempre dizia que quem sobe muito em árvore ou vai pra longe de casa acaba virando passarinho. Um dia, essa menina resolve desafiar a mãe e não apenas sobe na árvore como, ao avistar o regatão, se esconde e sua canoa acaba sendo levada para a aldeia dele. Quando ela volta pra casa, já não é mais a mesma: virou japinim!

Portfolio – Penguin

Atitudes empreendedoras, de Carlos Hilsdorf
Realizar sonhos e transformar o mundo ao nosso redor são duas das mais fascinantes competências humanas. Muitos pensam que empreendedorismo é um termo apenas ligado a negócios, mas Carlos Hilsdorf propõe que empreender é sonhar com conhecimento e atitude e, por este caminho, imprimir a nossa marca na história da humanidade e das pessoas que nos são caras. O empreendedorismo é tratado aqui de modo absolutamente inovador, com consequências e repercussões transcendentes. Um livro que apresenta as atitudes que lhe permitirão realizar seus desejos e fazer seu projeto de vida acontecer!

Paralela

Curiosidade Mórbida, de Mary Roach (tradução de Donaldson M. Garschagen)
Curiosidade mórbida é uma leitura cativante e divertida que explora a vida após a morte, mas não no sentido sobrenatural: a autora Mary Roach investiga o que acontece com os cadáveres, revelando que eles têm rotinas inesperadas e surpreendentes. Por dois mil anos, eles estiveram envolvidos nas descobertas e pesquisas científicas mais ousadas: foram cobaias nas primeiras guilhotinas da França e, os primeiros a navegarem em foguetes da Nasa e estiveram presentes em todos os novos procedimentos cirúrgicos, fazendo história de forma silenciosa.

 

 

 

Nas fileiras de Knausgård

Por Guilherme da Silva Braga

Karl Ove Knausgard copy Maria Teresa Slanzi_2014

Foto: Maria Teresa Slanzi

No fim de 2012 me juntei às fileiras de Knausgård. De lá para cá, traduzi Um outro amor e A ilha da infância, e agora estou mais ou menos na metade da tradução do quarto volume de Minha luta, ainda sem título em português. Entre uma tradução e outra, li entrevistas com Knausgård e procurei resenhas sobre os livros de Knausgård. Tive a oportunidade de fazer viagens à Noruega, onde conversei com todo tipo de gente sobre Knausgård, escrevi um pequeno artigo sobre Knausgård, ouvi autores de literatura contemporânea norueguesa falarem sobre Knausgård e vi o próprio Knausgård entrevistar e ser entrevistado por outros autores. Comecei a ler Sjelens Amerika, a interessante coletânea de artigos escritos por Knausgård, e peguei um autógrafo de Knausgård no meu exemplar. Cheguei a pedir uma entrevista a Knausgård.

Apesar de tudo isso, continuo tendo problemas para dar uma resposta firme quando me perguntam no que consiste a série de romances autobiográficos Minha luta. A pergunta é mais do que justificada: seria difícil encontrar um leitor disposto a embarcar numa jornada de mais de 3.500 páginas a não ser que saiba onde que está se metendo. E — como em muitos outros casos — o autor em pouco ou nada ajuda a explicar a obra.

Segundo o New York Times, quando Knausgård esteve dando entrevistas nos Estados Unidos durante o ano passado, um membro da plateia perguntou sobre o que era o livro. Knausgård respondeu que Minha luta era “um livro normal sobre uma vida normal”. Parece-me que seria necessário ter lido pelo menos um dos volumes da série para compreender o quanto essa resposta é precisa, apesar do aparente descaso. Afinal, seria totalmente razoável dizer que nada de extraordinário acontece no livro. Knausgård simplesmente narra os acontecimentos de sua própria “vida normal” e gasta centenas de páginas com descrições extremamente minuciosas de atividades cotidianas que ocupam a maior parte de nossa vida, mas em geral passam em branco — como ir ao supermercado, dar uma volta no quarteirão para esticar as pernas ou lavar a louça.

A rigor, Minha luta não tem história. Esse definitivamente não é um livro para quem se interessa por conteúdo em literatura: qualquer resquício de enredo que se encontre nessas páginas não deve ser muito diferente do que já acontece na vida do leitor.

No entanto, o projeto de Knausgård consiste justamente em explorar a mediocridade de uma “vida normal” para ver o que se esconde um pouco mais no fundo. Ao abrir mão dos temas grandiosos e da pretensão que em geral os acompanha, Knausgård cria um gigantesco espaço vazio que aos poucos se enche de recordações e reflexões sobre coisas pequenas, mas absolutamente definidoras do que é uma vida. E assim escreve longamente sobre como é sair para almoçar com um amigo; como é arranjar o primeiro emprego; ou ainda como é se apaixonar por uma garota. É quase impossível não se identificar com os acontecimentos narrados, porque são quase todos absolutamente corriqueiros.

O que torna Minha luta um livro singular é a maneira como Knausgård analisa essa “vida normal”: nada parece ser tão pequeno ou tão insignificante a ponto de não merecer atenção, e assim a voz narrativa se vê livre para discorrer de maneira incansável sobre absolutamente tudo o que acontece na vida do narrador ou que lhe desperta a curiosidade. O leque de temas vai desde a atração sentida por uma mulher desconhecida até questionamentos sobre a maneira como tratamos os cadáveres dos mortos, passando por observações sobre o prazer de tomar uma cerveja ou o momento em que pegamos um ovo cozido e o abrimos para descobrir se a gema está dura ou mole.

É com essa sucessão de trivialidades entremeadas por comentários muitas vezes longos de cunho mais ou menos filosófico (e aqui emprego o termo no sentido preciso que adquire em uma mesa de bar), apresentados em um estilo sarcástico e pessimista, que Knausgård se propõe a descobrir com o que se parece um espécime de vida normal quando visto sob as lentes de um microscópio. E assim o leitor é surpreendido por uma visão de contornos pequenos e banais que adquire, durante o tempo em que se dispuser a observá-los de perto, um aspecto grandioso e imponente — a visão da grandeza de nossa singela luta cotidiana.

* * * * *

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2005 dedica-se à tradução literária, e nesse período traduziu obras clássicas e modernas a partir do inglês, do sueco e do norueguês para diversas editoras brasileiras. Foi tradutor residente da Magyar Fordítóház (Hungria), da Ireland Literature Exchange (Irlanda), do Oversetterhotell (Noruega) e da Übersetzerhaus Looren (Suíça). Ministrou aulas e seminários de tradução literária em nível de especialização e mestrado na PUC-RS e no Trinity College Dublin. Em 2016 foi indicado ao prêmio Jabuti pela tradução de A Ilha da infância, romance de Karl Ove Knausgård publicado pela Companhia das Letras.

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