karl ove knausgard

Semana cento e noventa e nove

Minha luta 2: Um outro amor, de Karl Ove Knausgård (Tradução de Guilherme da Silva Braga)
Com A morte do pai, Karl Ove Knausgård inaugurou o projeto monumental de seis romances autobiográficos que totalizam mais de 6 mil páginas e revelam os detalhes mais íntimos da vida do autor e de seus familiares. Se no primeiro volume da série acompanhamos sua infância e o processo destrutivo que levou seu pai a beber até a morte, na sequência, Um outro amor, Knausgård se debruça sobre o começo turbulento de seu segundo casamento e a descoberta da paternidade, conflituosa com suas ambições literárias. Logo depois de se separar da primeira mulher, Karl Ove deixa Oslo e se muda para Estocolmo, onde começa uma nova vida, experimentando a perspectiva do estrangeiro. Lá, ele cultiva uma amizade profunda e muitas vezes competitiva com Geir e persegue Linda, poeta que o conquistara anos antes durante um encontro de escritores.  Uma conversa com amigos durante o jantar pode se estender por cem páginas; saltos no tempo e flashbacks demonstram o pleno domínio do autor, capaz de conciliar a narrativa de episódios pontuais com longas digressões que acompanham o tempo interno das personagens. Na construção narrativa de Knausgård, as fronteiras entre memória e invenção são diluídas a tal ponto que a sua própria vida é recriada e ressignificada. Entre questões existenciais e reflexões acerca do fazer literário, o que emerge ao fim desse romance honesto e profundo é a conturbada e bela história de amor de um homem por sua mulher e seus filhos. Knausgård parte de sua experiência individual para criar uma obra arrebatadora e universal.

O caminho de ida, de Ricardo Piglia (Tradução de Sergio Molina)
Neste extraordinário romance que transcorre nos Estados Unidos da década de 1990, quando o terrosita conhecido como Unabomber assombrava as consciências do país ao recusar (com enorme violência) os rumos da sociedade capitalista, Ricardo Piglia desempenha com audácia o papel de ficcionista e comentarista cultural. A morte misteriosa de uma estrela do mundo acadêmico conduz Emilio Renzi a uma busca pelo entendimento da violência naquele país. Contudo, não há respostas simples, como se verá. Pois como em outros livros do autor, a conspiração se converte no cerne de toda narrativa. Ela será a própria narrativa.

O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra
Como começa o amor? À primeira vista, num encontro casual, depois de anos de convivência? Qual é a distância entre dizer “eu te amo” e amar alguém? O que resta quando o tempo passa, as pessoas mudam e o amor acaba?
Nina tem vinte e três anos quando ela e o narrador se conhecem na faculdade. Os dois têm um envolvimento amoroso, mas certo dia ela desaparece sem deixar notícias. A partir da reconstrução ficcional dos diários deixados por Nina, o narrador conta a história de seus antepassados e assim vai delineando seus contornos, numa tentativa de recriar a mulher amada. Mas como falar do outro sem falar de si? E como falar de si quando a sua própria vida é marcada pelo abandono, pelo impalpável? Essas são algumas das questões que O inventário das coisas ausentes lança ao leitor e à sua própria estrutura narrativa. Com uma abundância de tramas paralelas que por vezes se entrelaçam e por vezes seguem independentes, o romance de Carola Saavedra investiga o fazer literário, a memória, o amor e as marcas deixadas pela ausência do outro.

O Brasil é bom, de André Sant’anna
Uma pessoa discursa com entusiasmo sobre como o nosso futuro será ótimo. Um homem sem nome, que se autodenomina “cidadão de bem”, entra numa diatribe contra os direitos humanos, que arruínam o país. Mas o Brasil não é ruim, afirma outro narrador sem nome do mais novo livro de contos de André Sant’Anna. Afinal, “os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte cinco mil reais por mês” e “a esmagadora maioria dos congressistas brasileiros não é corrupta”. Usando a ironia como principal arma, e adotando o ponto de vista de seres movidos a preconceito, Sant’Anna constrói um verdadeiro libro-bomba. Ao denunciar a pobreza moral da classe média e as tensões taciais e sociais em ebulição no Brasil, estes contos compõem um retrato urgente, atual e necessário do nosso país.

Editora Seguinte

A quase honrosa Liga de Piratas – o tesouro da encantadora, de Caroline Carlson (Tradução de Ricardo Gouveia)
Há muitos anos, quando objetos mágicos eram tão comuns quanto panelas nos lares de Augusta, a magia era controlada por uma feiticeira muito poderosa: a Encantadora das Terras do Norte. Certo dia, cansada de sofrer ataques de cidadãos que queriam usar os poderes de maneira ilícita, ela resolveu se vingar: recolheu a maioria dos itens mágicos do reino e desapareceu, deixando os cidadãos sem notícias de seu paradeiro nem desse magnífico tesouro. Anos depois, quando Hilary Westfield decidiu que queria ser pirata, nem imaginava que estava prestes a participar da caça ao maior tesouro de todos os tempos. Afinal, tudo o que a preocupava era fugir da Escola da Senhorita Pimm para Damas Delicadas, onde as jovens da alta sociedade aprendiam a valsar, desmaiar e se comportar à mesa. Hilary não via utilidade nenhuma naquelas lições e queria se juntar à Quase Honrosa Liga de Piratas. Qualificações não lhe faltavam, mas a Liga não admitia garotas em sua equipe de algozes e pilantras.Decidida a partir para alto-mar a qualquer custo, Hilary responde ao anúncio de um pirata autônomo em busca de membros para sua tripulação. De repente, ela se vê no meio de uma aventura marítima em busca do tesouro mais valioso do reino: o tesouro da Encantadora. Para encontrá-lo, ela contará com um mapa sem X e precisará enfrentar o vilão mais traiçoeiro – e surpreendente – de todos os mares.

Imagine um Big Brother inspirado em Proust e dirigido pelo Bergman

Por Sofia Mariutti

Karl Ove Knausgård chega ao Brasil no dia 02 de julho, para a FLIP, mas já estamos convivendo com o escritor há meses. A ficção autobiográfica — ou autoficção — tem dessas coisas, pode nos fazer pensar que conhecemos um autor pessoalmente antes de conhecê-lo. Que estamos na sala batendo um papo. Pode nos fazer esquecer que, mesmo autobiográfica, ainda é pura ficção. Foi assim quando li Origem, do Thomas Bernhard, é assim com Karl Ove: quando vejo já chamei o autor pelo primeiro nome.

Estou chegando ao fim do segundo romance da série Minha Luta, e isso me faz pensar que logo terei lido mil das 3 mil páginas que Knausgård dedicou a narrar sua própria vida. O mais estranho é que a cada dia me vejo mais envolvida nessa narrativa, como se estivesse lendo uma nova série de thrillers suecos, e não romances autobiográficos com trechos ensaísticos, longas digressões, reflexões sobre a morte e passagens ligeiramente desinteressantes, como costumam ser nossas vidas, afinal de contas. Pensei que esse deve ser o fascínio que alguns sentem diante de programas televisivos como Big Brother — o fascínio de ver a vida como ela é. Imagine então um Big Brother inspirado em Proust, dirigido pelo Bergman, comentado por Benjamin: eis a literatura de Knausgård.

Outro dia estiveram aqui alguns alunos do Ensino Médio que pensam em ser editores. A Vanessa perguntou: “Por que vocês se interessam por esse trabalho?” E um deles respondeu: “Porque eu adoro ler”. Fizemos questão de lembrá-los que o editor nem sempre lê o que mais quer; que devemos nos esforçar para fazer um bom trabalho também com os livros que não são de nossa predileção; que muitas vezes a leitura, atividade tão amada, pode se tornar exaustiva.

Conheço bem essa experiência, mas agora chegou a hora de destacar o momento inverso, o idílio, o que todos fantasiam que seja a vida do editor. O momento de ler aquele livro que te faz esquecer, por alguns minutos, que você está trabalhando, ou te faz se lembrar do amor que você tem pelo seu trabalho: assim é o Knausgård para mim. Quando penso “primeiro o dever e depois o prazer”, penso “primeiro o resto, depois Minha Luta”. Knausgård tornou-se a minha procrastinação, meu Big Brother particular. Os outros livros que me aguardem.

Para quem ainda não leu o trecho do primeiro romance, A morte do pai, disponibilizamos aqui um gostinho da série Minha Luta.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

Semana cento e cinquenta e quatro

Os lançamentos desta semana são:

Frank: a voz, de James Kaplan (Trad. Pedro Maia Soares)
Muito antes de Elvis Presley e dos Beatles sonharem com os primeiros acordes, ele provocava histeria em multidões de adolescentes enlouquecidas que dormiam na porta do teatro para ver, rever e desmaiar diante do ídolo. Fenômeno da nascente cultura de massa nos anos 1930 e 1940, Frank Sinatra sabia como rechear de paixão as baladas que cantava, enquanto seus assessores de imprensa produziam o clima na plateia. Mas ele era muito mais que isso: músico de ouvido requintado, estudava minuciosamente as letras, aprimorava a dicção e a musicalidade de modo a transmitir todo o sentido das canções; perfeccionista, nenhum detalhe de uma gravação lhe escapava. Neste livro, que acompanha os primeiros quarenta anos da vida de Sinatra, James Kaplan narra em cinco atos dramáticos a ascensão, a queda e o renascimento de uma figura contraditória, com qualidades e muitos defeitos — os próprios amigos o chamavam pelas costas de “Monstro” —, mas de inegável (e impressionante) talento musical, que deu forma definitiva ao cancioneiro norte-americano. Com mão de romancista, o autor utiliza de forma ousada técnicas da ficção para penetrar na alma e na mente de seu biografado e recriar sua personalidade. O resultado é uma narrativa pontuada pela emoção genuína e pelo drama real de um homem que cresceu ao lado da máfia, não mediu esforços para construir sua carreira, cobiçou e foi cobiçado por muitas mulheres, viveu uma tempestuosa história de amor com o furacão Ava Gardner, teve sua morte artística anunciada e renasceu para a glória no cinema e na música.

Nada a invejar, de Barbara Demick (Trad. José Geraldo Couto)
A vida na Coreia do Norte, sob um dos regimes mais fechados do mundo, parecia impenetrável aos olhos estrangeiros até o surgimento deste livro. Nele, a jornalista americana Barbara Demick traça um painel vívido da sociedade norte-coreana a partir de uma extensa pesquisa e, principalmente, dos depoimentos de refugiados dissidentes que ela entrevistou durante o período em que trabalhou como correspondente do Los Angeles Times em Seul, na Coreia do Sul. Nas dramáticas trajetórias pessoais narradas aqui, o culto obrigatório à personalidade dos ditadores, as crises de escassez e o controle do cotidiano dos cidadãos configuram uma realidade sufocante; porém, mesmo num universo tão autoritário, é possível perceber as brechas para o humor, os atos de heroísmo e a solidariedade.

A morte do pai, de Karl Ove Knausgård (Trad. Leonardo Pinto Silva)
Uma noite de ano-novo e rebeldia, regada a cervejas vedadas aos menores, um amasso nauseante na primeira namorada, um show fracassado com a banda de punk no shopping center — em A morte do pai, primeiro romance da série autobiográfica Minha Luta, Karl Ove Knausgård se concentra em narrar os anos de sua juventude. Ao embarcar numa investigação proustiana e incansável do próprio passado, o narrador busca reconstruir, sobretudo, a trajetória do pai, figura distante e insondável que entra em declínio e leva o núcleo familiar à ruína. Honesto e sensível, Knausgård investiga também o próprio presente: aos 39 anos, pai de três filhos, ele deve se ajustar à rotina em família, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária. Com A morte do pai, Knausgård inaugura um projeto monumental e ambicioso, que logo se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. São seis volumes híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea.

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