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11 HQs para ler no Dia do Quadrinho Nacional

Hoje é o Dia do Quadrinho Nacional! Para comemorar a data, listamos algumas dicas de HQs brasileiras para você ler e conhecer nossos autores. Confira!

1) Cachalotede Daniel Galera e Rafael Coutinho

CACHALOTE

Somando mais de trezentas páginas, as seis tramas de Cachalote são amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas. Entre as histórias, há um escultor que recebe um inusitado convite para protagonizar um filme cujo roteiro parece estranhamente inspirado em sua vida privada, e uma velha senhora grávida e solitária vaga por sua mansão e tem encontros oníricos com uma baleia cachalote na piscina de sua casa.

2) Vida e obra de Terêncio Hortode André Dahmer

terencio

Começando a publicar suas tirinhas na internet, André Dahmer reúne em Vida e obra de Terêncio Horto as histórias de um escritor eternamente frustrado, tão ambicioso quanto amargurado. Terêncio passa os dias em frente a uma máquina de escrever, seja redigindo suas memórias, seja dando vida a personagens cínicos, desiludidos e de um pessimismo assombroso. É a partir desse esqueleto enganosamente simples que Dahmer vai dar vazão a impressões sobre literatura, pintura, música e, por que não?, sobre a vida em geral.

3) Campo em branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski

campo

Numa trama sobre família e memória, o escritor Emilio Fraia e o quadrinista DW Ribatski tratam com suspense e humor, doçura e medo, a jornada de dois irmãos que se reencontram numa cidade estrangeira com a ideia de, aparentemente, refazer uma viagem da infância, quando visitaram com um tio uma cidade nas montanhas. A arte vibrante de Ribatski e os temas enigmáticos de Fraia combinam-se num road movie às avessas, onde a viagem só começa quando podemos reconstruí-la, desmontá-la, inventá-la.

4) Có! & Birds, de Gustavo Duarte

co

Gustavo Duarte teve passagem por vários jornais e revistas como cartunista, e com Có! & Birds despontou nos quadrinhos. As histórias de Gustavo, construídas inteiramente sem diálogos, são um primor do traço, da energia cinética e do humor torto e deslavado. Có! & Birds reúne pela primeira vez as aventuras do fazendeiro em guerra com os ETs que querem roubar seus porcos e a trágica história dos pássaros que tentaram enganar a morte.

5) Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha

deus

Nesta HQ, Deus assume a forma que, segundo consta, é a sua preferida: a de uma mulher negra, proprietária de um sex-shop, ligada nos movimentos mais exóticos (e esotéricos) do assim chamado amor carnal. Em Deus, essa gostosa, primeira graphic novel do artista plástico e quadrinista Rafael Campos Rocha, o leitor acompanhará sete dias na vida dessa Criadora incomum, fã de futebol e cerveja, amiga de Karl Marx e do Diabo em pessoa.

6) Diomedesde Lourenço Mutarelli

Diomedes

Esta é uma história policial de Mutarelli. Seu protagonista não é um tipo durão, envolvido com perigosas intrigas e belas mulheres. É um delegado aposentado, gordo e sedentário, em busca de uns trocados para completar o orçamento. Nunca resolveu um caso, e passa a maior parte do tempo bebendo e fumando em seu escritório imundo. No entanto, ao partir no encalço do há muito desaparecido mágico Enigmo, seu cotidiano ordinário fica para trás. Em busca da sorte grande e metido em circunstâncias cada vez mais desfavoráveis em seu caminho repleto de figuras bizarras, Diomedes será obrigado a usar todo o talento que jamais imaginou possuir para desvendar o “Enigma de Enigmo”.

7) Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr

guadalupe

Às vésperas de completar trinta anos, tudo o que Guadalupe quer é esquecer seu trabalho no sebo de Minerva, seu tio travesti. É ela quem pilota um furgão velho pela Cidade do México, apanhando coleções de livros que Minerva arremata por poucos pesos de famílias enlutadas. Mas um telefonema muda seus planos. No meio do pior engarrafamento do ano, fica sabendo que a avó, Elvira, morreu ao chocar sua scooter com uma banca de tacos sobre duas rodas. Como Guadalupe tem o furgão, ela é a única que pode cumprir o último desejo da avó: um enterro com banda de música em Oaxaca, onde nasceu. Guadalupe embarca com Minerva e sua inseparável poodle, mais o caixão, rumo à cidade. No caminho, contrariando a opinião de Guadalupe, Minerva dá carona a um exótico rapaz, que se diz guatemalteco, e os problemas começam.

8) Muchachade Laerte

Muchacha

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, Muchacha é, nas palavras do autor, o primeiro “graphic-folhetim” de sua carreira. Tendo como mote os bastidores de um programa de tevê, Laerte, ao mesmo tempo que cria uma elaborada e divertida revisão dos seriados de aventura da década de 1950, também faz uma espécie de resgate afetivo de suas memórias de infância.

9) A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti

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A máquina de Goldberg se passa num acampamento de férias onde Getúlio, um garoto punk e asmático, cumpre pena por ser antissocial na escola. Em meio à perversidade dos colegas e à temida hora da ginástica, ele conhece o zelador Leopoldo, um velho melancólico com uma obsessão: construir geringonças. Juntos, arquitetam uma ambiciosa vingança que une as fugas de Bach às variações de Rube Goldberg, numa engenharia absurda que vai se expandindo até derrubar todas as peças do dominó, instaurando o terror no coração da Montanha Feliz.

10) Memória de elefante, de Caeto

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Tudo parecia ir bem para o quadrinista até que seus projetos caem por terra antes que possam alçar voos mais altos: suas HQs não chegam ao grande público, sua música não é comercial o suficiente para fazer sucesso e seus quadros são vendidos a conta-gotas. Em Memória de elefante, Caeto faz uma reconstrução prodigiosa de sua memória, narrando a agitada vida noturna paulistana, as aventuras sexuais, o calvário familiar, a passividade da mãe, a agonia do pai, vítima do vírus HIV, e a contribuição fundamental de cada uma das pessoas que o acompanharam em sua jornada desesperada rumo à redenção.

11) Toda Rê Bordosa, de Angeli

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Mais de dez anos após o tenebroso assassinato, Angeli, um dos principais nomes do quadrinho brasileiro, ainda é cobrado por fãs por ter, literalmente, apagado Rê Bordosa. Surgida nas páginas da Folha de S.Paulo em 1984, Rê Bordosa extrapolou sua própria tira e tornou-se uma das mais conhecidas personagens da HQ nacional. Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras de Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro.

Mesa Los Amigos: Quadrinhos para maiores

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Convidados:

Mediação: Claudiney Ferreira

Nesse encontro entre dois artistas que mudaram de maneira definitiva a cara dos quadrinhos brasileiros, Laerte e Angeli sobem ao palco da Tenda dos Autores acompanhados por históricos decididamente nada respeitáveis de personagens inesquecíveis, como Rê Bordosa e os Piratas do Tietê. Os dois falam sobre os pontos em comum de suas trajetórias e discutem os principais elementos do caldo de referências culturais e políticas presentes em seus trabalhos, nos quais a crítica de costumes assume um viés anárquico e satírico às vezes próximo do surreal.

Horário de início: 21h30

[Antes da mesa, Carlito Azevedo lê o poema “Alta cirugia”, de Drummond.]

Mediador: Vocês se consideram humoristas?

Angeli: Às vezes. Mas humor não é só piada, há um leque de possibilidades. Eu fico mais perto do humor negro.

Laerte: A palavra sugere uma coisa meio partidária, ou de especialista. A gente produz histórias. Humor é o tipo de veículo em que a gente produz essas histórias.

Mediador: E vale tudo no humor?

Angeli: Acho que vale, mas dependendo do que você faz, tem que responder pelo seu trabalho. Acho que nem tudo que aparece por aí como humor é exatamente. Standup, por exemplo, parece ter uma qualidade baixa.

Laerte: Tem muita gente, com graus de qualidade diferentes. Está sintetizado numa coisa meio Seinfeld, eles tentam confundir o comediante e o personagem. Antes era uma atuação, como com o Costinha. Com o standup, o interessante é a confusão. “Isso foi uma piada ou é o que ele pensa?” É uma técnica respeitável, mas que coloca a pessoa numa saia justa. Talvez ela precise responder por uma questão crítica, mas acho que a saída judicial não é a mais certa, parece censura.

Angeli: O cara tem direito de falar aquelas coisas.

Laerte: É preciso criar um acerto crítico sem que a polícia esteja envolvida.

Mediador: Você já fez algum trabalho em que sente que escorregou?

Angeli: Ah, eu tento ser cuidadoso, não faço piadas rápidas, não solto que nem pipoca. Me preocupo com o que estou falando e com quem. Mas já enfiei o pé na jaca sim.

Laerte: Já mexi com a questão do Alzheimer. Criei um bandoleiro com Alzheimer que entrava na cidade pra matar alguém e tinha que ficar pedindo ajuda dos moradores. Recebi cartas de associações, foi algo que me fez pensar. Eles têm razão, mas eu também. É preciso respeitar mas não podemos sacralizar a doença também.

Mediador: Vocês recebem cartas?

Angeli: Sim, de pesssoas apoiando e criticando. Mas também não posso me guiar pelo leitor. Não vou desviar o modo como vejo as coisas por causa dele. Mas já houve cartas que me fizeram repensar algumas coisas.

Laerte: Hoje em dia é email, comentário… Você posta algo e as pessoas já comentam. E os comentadores dialogam entre si!

Angeli: Eu tenho uma série chamada “Love histórias”. Uma vez fiz uma tira com uma mulher reclamando que há muito tempo o marido não tocava nela. Ele enche ela de porrada e diz “pronto, toquei”. Era uma piada claramente a favor da mulher, mas teve uma jornalista que disse que eu sou machista. Ela não entendeu a piada. Eu sou a favor das mulheres. Mas não vou fazer uma cartilha “Como amar as mulheres”. Meu trabalho é humor, eu me preocupo que as pessoas entendam as piadas. Uma mãe achou que eu devia parar de fazer piada com suicídio porque o filho havia se suicidado. Não posso deixar de usar as coisas que estão à minha volta porque aconteceu uma fatalidade.

Mediador: Todo o trabalho de vocês sai da prancheta, de um trabalho diário. Essa vida agrada voces?

Angeli: Eu gosto, almoço na prancheta, janto na prancheta, é meu lugar preferido da casa. Eu me sinto viciado, preciso de ajuda. Não consigo sair na rua e pensar numa piada.

Laerte: Eu gosto muito da prancheta do Angeli, é de casal. A gente trabalhava na casa do Angeli, na minha casa não era muito legal. Na verdade eu gosto de bolar histórias, não muito de desenhar. Eu gostaria que o desenho se fizesse sozinho. Cada desenho tem sido um problema, tem que buscar soluções gráficas etc. Quando eu tenho uma ideia, quero ela pronta logo. Comecei a usar caneta vermelha pra fazer rascunho e depois filtrar a cor no computador, pra não ter que ficar apagando o lápis. Mas é uma técnica de preguiçoso.

Angeli: Eu gosto, às vezes complico tanto que no meio já esqueci por que estava fazendo aquele desenho.

Laerte: Já houve épocas em que tinha mais gosto. Hoje em dia eu sou capaz de fazer isso, mas precisam pagar muito bem.

Pergunta: Quando você se expõe no desenho, é necessidade de catarse ou argumento?

Angeli: Os dois, às vezes é uma situação que estou vivendo no momento, e às vezes é uma coisa boba, querer fazer piada comigo mesmo. Agora eu estou ficando esquecido, fumei muito orégano na vida. Então várias vezes eu uso o tema do envelhecimento. Fui na padaria com a Carol e sentei num canto e dormi. Acordei quando ela voltou e percebi que tava ficando velho. Aí fiz uma tira com isso. É uma forma de brincar com minha própria deficiência, pra entender.

Pergunta: Vocês pensam em parar de produzir? Como o Quino, que disse que as ideias haviam se esgotado?

Laerte: É uma prática de tantos anos que a gente acaba conseguindo fazer. Essas coisas diárias eu não tenho medo de não conseguir realizar, mas trabalhos mais elaborados às vezes eu acabo avaliando e digo pra pesssoa que não vou conseguir fazer.

Angeli: Eu faço tira desde 83, fazia muito rápido, mas acho que meu critério ficou mais apurado, me recuso a mandar algumas coisas pro jornal. Mas eu criei artifícios… gosto de fazer desenhos sem motivo, tenho usado alguns desenhos de gaveta. Quando não tenho ideia, pego um desenho antigo e crio uma tira como caderno de esboços.

Mediador: E você, Laerte, que artifícios usa pra entregar todo dia?

Laerte: Uma saída gráfica, às vezes… eu não tenho mais trabalhado com a necessidade de entregar uma piada. Posso recorrer a coisas que estive pensando e anotei, a ideias que já trabalhei mas posso reformular. Não é picaretagem, é propor um passeio pro leitor.

Mediador: Vocês já mataram alguns personagens. Que personagens passaram a te perturbar?

Angeli: Eu gosto de criar um personagem, ver ele se desenvolver, ficar gordo, crescer, ver o público acompanhando. Eu vou construindo ele com o tempo. Mas ao mesmo tempo que é bom, pode ser uma armadilha, você vira refém do personagem. Achei que se continuasse trabalhando só com personagens, ia ficar uma coisa meio quadrada. Não queria ser que nem Schulz, 50 anos fazendo a mesma coisa. É legal, mas minha proposta é mudar. Os personagens representam uma época da minha vida, os punks e etc, e isso também não tem mais muita importância pra mim. A Rê Bordosa eu matei mesmo, criei a história da morte dela. Matei o Bob Cuspe e estou elaborando a morte de outro personagem também.

Laerte: A gente não deve acreditar em tudo que acontece nos quadrinhos. Você levou muito a sério a morte da Rê Bordosa. Eu mantive o Hugo porque me ajuda a pensar. Os outros foram um ciclo que se esgotou.

Mediador: A Rê Bordosa é a sua personificação da mulher ideal?

Angeli: Não!

Mediador: O Bob Cuspe você queria ter como amigo?

Angeli: Também não! Os personagens que eu criei normalmente são pessoas que eu não queria ter como amigos.

Mediador: Sobre o Hugo, há uma tira com ele penteando os cabelos e no final diz “às vezes um homem precisa se montar”.

Laerte: Essa foi uma tira que chamou a atenção de grupos de travestis, que perguntaram se eu tinha interesse em experimentar isso também. E eu tinha, acabei me aproximando depois disso.

Mediador: Uma vez você disse que há poucas mulheres quadrinistas. O que você pensa disso agora?

Angeli: Acho que essa questão já passou, tem muita gente boa surgindo por aí, graphic novels feitas por mulheres.

Mediador: Você se vestir de mulher tem influência no seu trabalho?

Laerte: Eu acabei fazendo uma questão meio simbiótica. Eu uso o trabalho pra pensar. Nesse caso foi necessário o trabalho e a intervenção de um grupo de pessoas. Me levou a um grupo de pessoas com um novo tipo de questões, que lutam por outras coisas.

Mediador: Você não acha machista a insistência por se livrar dos pelos?

Laerte: É subjetivo, a feminilidade é um modelo criado mesmo. Conheço homens que tentam reproduzir imagens prontas, de capas de revistas. E as mulheres também. Não é machista, é um gosto. É preciso coragem pra ser um genderfucker, sair com barba e vestido de mulher, não refletir nenhum dos modelos reproduzidos por aí.

Mediador: Quarenta anos atrás quando vocês de conheceram, quem eram Laerte e Angeli? Qual foi o desejo que os uniu?

Laerte: A resposta pra isso é uma conferência. Nos éramos jovens, tínhamos 20 anos. Quando você desenha, percebe que tem um poder, e era a época da ditadura. O que uniu a gente foi não ter onde publicar, foram nossos fanzines, porque era pouca gente fazendo isso. O salão de humor de Piracicaba andou a selar isso.

Angeli: Eu desenho desde menino, tinha prazer em desenhar. Me lembro da mesa enorme, família italiana, meu avô tirava uma parte da toalha e pedia pra eu ficar desenhando. Eu era péssimo aluno, fui expulso de todas as escolas, não sei por quê. Do nada eu estava no meio de uma situação, e não sabia como tinha ido parar lá. Tive uma vida escolar péssima, e morava perto do rio Tietê. Ia andando, e no caminho eu parava e esquecia que tinha que ir pra escola. O surgimento do Pasquim foi um marco pra mim. Me encantou. Antes eu sabia que seria um desenhista, mas não sabia do quê. O Pasquim me deu uma direção. Falei “vou ser cartunista” e fui, virei cartunista. E aí fui pro Salão de Piracicaba.

Laerte: Você ganhou o segundo, eu ganhei o primeiro.

Angeli: Uma pessoa da Folha viu um desenho meu e ligou pro Cláudio Abramo, que estava atrás de um chargista. Aí entrei lá na Folha e nunca mais saí. Sou um cara que anda em linha reta. Eu penso como cartunista.

Laerte: Eu penso como geminiano. Penso em como uma história pode evoluir. Acho que talvez eu seja mais quadrinista, estou interessado mais na história que no cartum.

Mediador: Como foi sua saída do partido comunista?

Laerte: Foi meio por instinto. Eu tinha sido aliciado pra entrar. Nunca fui muito bom de argumentação. Sentia que queria sair do partidão, da Gazeta Mercantil e do meu casamento. E fui saindo sem muitas explicações. Nunca consegui deixar muito claro quais eram minhas objeções.

Mediador: Você tem algum personagem que alimenta suas charges políticas?

Angeli: O Maluf alimentou bastante quando tinha mais lastro, agora não tanto mais. Gosto de mexer com ele porque representa, junto com outros, a política de baixa qualidade. Ele é mentiroso cara de pau, repete uma mentira até virar verdade. Chega a ser uma comédia.

Mediador: Pra fechar, vamos falar um pouco do Glauco. Como era trabalhar com ele, a anarquia em pessoa?

Angeli: Ele foi premiado num dos Salões e de cara simpatizei com ele e seu trabalho. Ele tinha uma piada simples que ao mesmo tempo não deixava buracos. Era muito bem construído. Convidei ele pra Folha e era muito hipongo, era uma coisa absurda. Ele foi mostrar o trabalho na Folha mas acendeu um baseado no banheiro antes, os seguranças pularam em cima. Pensei “legal, quero ser amigo dele”.

Laerte: Ele era capaz de reconhecer a fraqueza de uma pessoa muito rápido. E chegava nas reuniões com ideias matadoras.

Mediador: Pra terminar, onde você comprou esse vestido lindo?

Laerte: Na Collins.

Horário de término: 22h49

O artista travestido

Por Erico Assis


(Foto por Renato Parada)

Na primeira HQ do arquivo de outubro, Dom Pedro II encontra o Major Sólon Ribeiro logo após a Proclamação da República. A discussão política ganha tons inflamados, que viram uma aventura espalhafatosa até chegar numa fantasia histórica surreal. É preciso muita cancha nos quadrinhos para conseguir contar tudo isso, com clareza e emoção, em uma única página, e de 13 quadros. A economia — de traço, de diálogo, de narrativa — renderia uma aula inteira para quem estuda quadrinhos, animação ou cinema.

Seguem as histórias da Lagartixa. Lagartixa está à procura de uma ideologia. Tenta encontrá-la no sono, acorda pulando da cama — teve uma epifania. Lagartixa explica a diferença entre relacionamentos binários paritários e autoritários — para ninguém. Lagartixa cita o ministro Gilmar Mendes na cabine de votação. Pois sim, foi mês de eleição.

Tanto foi mês de eleição que uma das tiras — das quadradas, quatro quadros, para a TV Folha — trata de aborto, aproveitando os 15 minutos em que o assunto entrou na pauta em outubro. “Neste país se respeitam as decisões pessoais!”, declara na punchline (é uma punchline?) o personagem das sombras, após submeter a grávida a uma espécie de interrogatório passivo-agressivo. Outra tira rende um comentário à eleição de Tiririca, que — concorde você ou não com a crítica — ainda é um dedo na ferida.

Em meio aos momentos mais reflexivos, há também as tradicionais piadas prontas, tornadas sensacionais pela representação visual. Como a de Kluh, o Hulk ao contrário — “quando se enfurece, ele se torna muito menor e dotado de uma força ridícula” —, e a do “aparte”. Mas mesmo nestas há um pouco de filosofia simples e profunda. Os dois quadros sem texto de “Restaurante Canibal” resumem o que é viver em sociedade.

Tem ainda as “Drágeas”, todas elas também tentando captar alguma coisinha do que é sentir-se vivo (“Creio que uma das responsabilidades do artista e do escritor é comunicar clara e sinceramente como é estar vivo para quem ainda não nasceu” — Chris Ware, aqui). E numa série nova, “Museus”, quadros de total simplicidade — como as do “Museu do Momento Embaraçoso” — também mostram com economia um pouco do que é estar vivo.

No mesmo mês, um livro lançado, um troféu HQ Mix de “Grande Mestre”, participação em Feiras do Livro, mais tiras para crianças, para adolescentes, para diferentes veículos, para ninguém em particular. Com uma variedade de ideias, de estilos, de demonstrações de domínio da narrativa e de maestria em desafiar a técnica, criando verdadeiras aulas de inovação em desenho, composição e roteiro.

Isso tudo é para dizer que CHEGA de teorias, análises, entrevistas, psicanálise-de-bar e mesmo de psicanálise-de-verdade sobre o Laerte vestido de mulher. Chega. Queira ele vestir-se de tia velha, de inca venusiano, de dinossauro ou de Dom Pedro II, o negócio é o seguinte: não é da minha nem da sua conta. O que devia ser da nossa conta é celebrar o fato de estarmos testemunhando o momento mais prodigioso da carreira de um quadrinista brasileiro, com uma obra autoral e inovadora, sem igual no mundo, de importância artística e política, que mistura as veias cômicas e filosóficas com um senso de ridículo afiado, lapidado por algumas décadas de cartunismo.

É óbvio que o noticiário vai preferir as unhas pintadas. Rende até algumas frases laérticas brilhantes (“O Angeli é um exemplo de que uma pessoa pode ser completamente hétero e legal”, aqui), e é divertido. O problema é quando o noticiário vira só isso. Faça-se um favor e vá ler tudo que puder do Laerte — e não sobre o Laerte.

* * * * *

Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Lady Gaga e o processo criativo

Por Laerte Coutinho


(Foto por Áron Balogh/SXC)

Numa entrevista à revista Rolling Stone, Lady Gaga diz que não faz análise porque não quer correr o risco de bloquear seu processo criativo.

Gosto dela — não tanto da música (sou meio pentelho nesse assunto), mas desse jeitão de dizer qualquer coisa sem medo e se comportar como se fosse uma celebridade milionária (coisa que ela é, mas funcionaria também se não fosse).
A Bia, linda travesti que mora aqui perto, age do mesmo jeito e também é fascinante.

Voltando ao assunto, uma vez o humorista Jaguar, meu mestre querido, disse coisa parecida. Que tinha receio de não conseguir mais escrever e desenhar se viesse a “conhecer a si mesmo”.

Confesso que já senti o mesmo.
Ao longo da vida, sempre fiz alguma forma de terapia — análise, mesmo, só recentemente —, mas sempre sob o bafo desse medo.

Achava que o fluxo das ideias e dos sentimentos que produzem uma história, um desenho, passa necessariamente pela zona de sombra e dubiedade da nossa loucura particular — e que tentar acessar algum ponto de clareza pode desmobilizar esse ímpeto, interromper este fluxo.

Achava que a doideira precisa ser doida mesmo, pra que não se cubra do clichê das convicções gerais, das ideias prontas, do bom-senso óbvio e tedioso.

Hoje suspeito do contrário.
Ou melhor, suspeito que existam essas duas possibilidades, em momentos diferentes da vida — ou em pessoas diversas, como diversas são as pessoas nesse mundo.

Sinto que existe um cenário de dificuldade — o famoso bloqueio criativo — que é resultado justamente da falta de acesso às nossas áreas malditas.

Porque ali se encontram horrores, sim — mas também a razão que nos faz dar os passos que damos, escolher as palavras ou os traços que escolhemos.
Ali estão nossos medos e a nossa saída.

Margaret Atwood, em seu livro Negociando com os mortos, discorre sobre o movimento que fazem os escritores em busca de sua literatura, da força vital em sua literatura — e sobre a necessidade desse mergulho.
É essa a essência do primeiro romance da história, a epopeia de Gilgamesh — o mergulho, o retorno e o relato.

O quadrinista Lourenço Mutarelli afirma ter ido ao inferno, voltado e marcado o caminho pra poder transitar quando precisa.

Lady Gaga pode não ter feito análise, mas, pela força da sua arte (eu sou meio pentelho mas sei reconhecer…), certamente achou sua própria trilha no mapa complexo das mentes e dos corações.

[Texto originalmente publicado pelo Jornal de Colombo em 29 de setembro.]

* * * * *

Laerte nasceu em São Paulo, em 1951. É autor de histórias em quadrinhos, cartuns, ilustrações e textos. Ele mantém o blog de tiras Manual do Minotauro.

[sem título]

Por Erico Assis



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