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Fôlego novo

Por Leandro Sarmatz

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Javier Marías

Lendo o original de uma de nossas maiores críticas, percebo — graças à grande professora, que observa a produção atual com generosidade, vitalidade e interesse genuínos — o quão singular é o nosso tempo para a literatura. Os traços dessa condição: declínio da cultura letrada, cada vez menos espaço na imprensa para esquadrinhar os livros, ensino fraco e pouco conhecimento da tradição, dos grandes livros de cada época. Ao mesmo tempo, observamos uma enxurrada de romances de fôlego para contradizer, ou pelo menos problematizar, esse cenário aparentemente infausto.

(Claro que abriu toda uma nova senda para a reflexão literária na internet, mas a barafunda é grande e é preciso ter alguma bússola para cair nos blogues que importam. Leio coisas bárbaras quase que diariamente, páginas com insights excelentes, leituras inteligentes. Uma nova crítica se formando. Mas nem todo mundo consegue se mover neste cipoal. E isso também é um reflexo do nosso período, um tempo em que curadoria é fundamental.)

Bom. Esses são os traços que ajudam a compor o quadro. Mas aí a realidade e a nossa grande professora mostram que, em tempos de relativa pobreza mental, o romance — essa forma tão poderosa e tantas vezes declarada como morta no último século — dá um baile nas expectativas. A produção das últimas décadas não nos deixa mentir. A variedade, o escopo, a diversidade e a integridade da forma romanesca, nas mais diversas culturas letradas, parece cada vez mais aguda.

Do romanção americano de Franzen, passando pelo fôlego amoroso de Javier Marías, a ironia de Bernardo Carvalho e o EU lancinante em cada frase de Knausgård, a narrativa contemporânea continua sendo um dos melhores lugares para a reflexão sobre nós mesmos. Embora a forma da novelinha breve à Ivan Ilitch poderia parecer mais ajustada a um tempo em que as atenções são fluídas, é o grande romance — esse hiato quase arcaico na vida digital — que tem galvanizado os leitores em todos os quadrantes. Tão cedo ele não morre. E ainda será capaz — pode apostar — de enterrar outras formas ditas mais contemporâneas do que ele.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

O maior acontecimento

Por Leandro Sarmatz

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Como o futebol, o carnaval não parece tão bem representado assim em nossa literatura. Digo: pelo espaço ocupado na nossa vida cultural e emocional, ambas manifestações parecem tímidas quando vamos contabilizá-las em páginas literárias. A grande festa escapista dos brasileiros — com raízes deitadas em tempos e lugares longínquos — se mostrou muito pouco presente até hoje em nossa melhor literatura. Festa total, que exorciza a morte, embaralha gêneros, desconstrói convenções e promove a amnésia coletiva — que melhor ocasião do que essa para escrever algo vertiginoso e potente?

Vejamos. Tem o conto “Antes do baile verde” (no livro de mesmo nome), de Lygia Fagundes Telles. O romance de estreia de Jorge Amado, O país do carnaval (e Dona flor e seus dois maridos, também do baiano), além da obra-prima do conto que é “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, e textos curtos de Clarice Lispector e Sérgio Sant’Anna (este no recente e formidável o O homem-mulher). Mas por que a festa popular conta com tão poucas representações na ficção? Bem. Oswald de Andrade, que por sinal vai começar a ter suas obras publicadas por aqui em breve, tem alguns insights absolutamente geniais sobre os dias de orgia. Assim como Manuel Bandeira, que em alguns poemas retrata a festa sob o signo de uma melancolia sexual meio escapista, e Drummond, com a metafísica momesca de “Um homem e seu carnaval”, em Brejo das almas. Mas não vai muito além disso (não que seja pouco, muito antes pelo contrário!). Que o leitor me ajude na lembrança, mas confesso que não me recordo de outros grandes momentos literários sobre a folia.

Claro. Música, cinema e novela são pródigos em apresentar a visão mais eufórica dos festejos de momo.  A canção, por motivos óbvios. Sem falar que as marchinhas de outrora eram todo um sistema dentro da indústria fonográfica nacional. Além de outras bossas. Porque muito da nossa sensibilidade, do nosso ethos, foi moldado por elas, rainhas da saudável sacanagem. São o depoimento de um tempo (anos 30 a 60) e de um lugar (o Rio de Janeiro), mas falam pelo Brasil inteiro até os dias de hoje, tanto no seu melhor (a graça descompromissada) quanto no seu pior (o preconceito de algumas letras). Cinema e TV, pelos atributos — digamos — plásticos do acontecimento.

Mas e o grande-romance-brasileiro-sobre-carnaval? Faz sentido ainda? Se faz ou já fez sentido, pelo que tenho notícia, ainda não chegou. Preconceito dos autores? Acho difícil. Palpite bem pedestre: porque é um momento bastante exigente em matéria sensorial. Representar isso não deve ser fácil. Dar corpo (ops!) à miríade de experiências táteis, auditivas, emocionais, sociais — isso é tarefa para narrador maiúsculo.

Será? É uma tese. Mas sigo com esperança, como leitor, de um dia levar para casa “O” romance sobre o carnaval brasileiro. Até lá, enquanto isso não acontece, desfilo meu bloco de dúvidas na avenida dos palpites.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

A causa secreta

Por Leandro Sarmatz

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A figura do delator é uma presença importante em alguns textos. Bem rápido, é possível lembrar de 1984, de George Orwell, O brinquedo raivoso, novela do argentino Roberto Arlt, e do conto “O indigno”, de Jorge Luis Borges. Há um fascínio temperado pelo desprezo na visão desses autores sobre a pessoa que denuncia. Há, também, uma questão maior ou pelo menos de abordagem mais difícil: faz-se realmente justiça quando alguém é denunciado? Ou ainda: importa se é justa ou não a delação?

Questão difícil. Não me arrisco muito a abordá-la. O fato é que certas culturas são mais propensas às energias negativas da delação. A historiografia registra que, dos lugares tocados pelos violentos braços da Inquisição ibérica, o Brasil concentrou o maior número de delatores voluntários. Fulano não ia com a cara do vizinho e inventava alguma questão (judaísmo clandestino, heresia, sodomia) para vê-lo bem longe dali. O terror como vida cotidiana.

Isso porque a delação é um dispositivo paralisante. É também um buraco negro moral. Nos textos citados no início deste comentário a acusação secreta faz com que todo o resto da trama praticamente fique em estado estacionário, antes e depois. Só importa ao leitor saber se deve ou não concordar com o que advém do sistema erigido a partir da denúncia. Na maioria das vezes, a reação mais natural é a repulsa.

No conto de Borges, a certa altura um policial fala ao personagem: “Você vem com essa denúncia porque se considera um bom cidadão?”. A resposta imediata do delator é de uma banalidade atroz. Mas as consequências deste ato dentro dele atravessaram os anos, as outras culpas e os sucessivos remorsos acumulados. A delação não tem fim.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Acesso total

Por Leandro Sarmatz

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Vejo que uma revista argentina setentista hippie que circulou entre 1976 e 1983 está com a coleção completa disponível online. Capas com bandas de rock portenhas, discussões sobre ecologia (algo que só estava começando), aquela patacoada nerd e contracultural sobre óvnis, Marte etc. Claro que sou idoso, mas isso — tanta coisa disponível online — era uma história de ficção científica quando, adolescente em 1988, eu atazanava o sujeito da banca de revistas em Capão da Canoa — Bashevis Singer à beira-mar no Sul do Brasil, balneário em que todas as famílias judaicas de classe média frequentavam — pra saber se a Bizz daquele mês já tinha saído. Ó tempos! Tanto a Bizz, quanto a Expreso Imaginario (a revista dos hermanos) já foram pras cucuias. Adiós.

Estou lá com o link da revista estacionado. Não tive tempo ainda, ou élan, pra abri-lo. Fico imaginando ter esse acesso quase total em outros tempos, poderia ter sido incrível mas também um bocado atordoante. Pode soar como um argumento meio estranho, mas ter várias lacunas e dificuldade de acesso a objetos culturais na adolescência foi, em grande parte, algo criativo. Pelo menos pra mim. Espero que não seja apenas nostalgia, esse veneno. Lembro de ficar horas com o dedo na tecla rec (a vermelha) do gravador enquanto escutava a Ipanema FM, a rádio que tocava uma miríade de bandas pós-punk que eu gostava ou queria gostar (pra me sentir adulto): Bauhaus, The Fall, Joy Division etc. Não tinha acesso aos discos estrangeiros, então me punha a rechear dezenas de fitas K7 com as músicas transmitidas pela rádio.

Também os livros. Durante meses eu fiquei vidrado num poema do Baudelaire, apenas um, enquanto dava um jeito de conseguir uma edição traduzida d’As flores do mal. Relia, então, mil vezes o verbete da Barsa sobre o poeta francês — tentando imaginar como seriam os outros poemas dele, esse “maldito”. Comecei a escrever uns poeminhas mórbidos e deprimentes (no tema, na qualidade) a partir daquilo que eu imaginava ser um poema de Baudelaire. Era bacana e meio patético ao mesmo tempo mas, ah!, não havia aquecimento global, Porto Alegre tinha então um inverno longo, rigoroso, úmido.

Uns cinco anos atrás, quando trouxe pra casa um computador mais potente e assinei um provedor relativamente mais rápido, passava as manhãs de sábado bebericando malte diante dos sites literários do El País, New York Times, La Nación etc. Era um negócio incrível. Claro que ainda hoje sou useiro e vezeiro dessas páginas, mas alguma coisa mudou. O deslumbramento e a excitação não são os mesmos. Acessá-las virou parte da rotina pessoal e profissional — embora, óbvio, há grandes descobertas sempre. Mas algo mudou inapelavelmente. A oferta é muito grande, e é preciso passar o tempo todo fazendo uma curadoria (pessoal) do conteúdo que está à distância de um clique. Isso é fabuloso. Porém, às vezes me pergunto se tanta facilidade não preenche alguns espaços que poderiam estar vagos pra imaginação. Eu disse, é conversa de velho.  ;)

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Uma obra em muitas voltas

Por Leandro Sarmatz

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Está para sair o volume 12 do bootlegs de Bob Dylan, com sessões de estúdio e gravações de shows que nunca tinham sido editados. Dessa vez, registros até então inéditos dos anos 1965-66, incluindo um disco inteiro apenas com as muitas conformações do clássico “Like a rolling stone”: de valsinha retrô à energética versão que se tornaria clássica, verdadeiro hino da contracultura, como defende Greil Marcus em Like a rolling stone.

Muito já se disse sobre essa potência inconformista de Dylan. Quando ele usou a guitarra elétrica (enquanto a plateia urrava de ódio gritando “Judas!”); quando ele altera completamente a harmonia de uma canção considerada clássica fazendo com que até o mais empedernido dos fãs se sinta meio desorientado; quando ele se compraz em seguir fazendo turnê e cantando com aquele fiapo roufenho de voz que mais parece o som de um fumante com laringite urrando dentro de uma cela de Guantánamo. Dylan, como talvez nenhum outro artista contemporâneo, constrói a partir do desconcerto e da surpresa.

Claro que Dylan é toda uma indústria. Mesmo assim, não se tem notícia de qualquer outro criador que coloque permanentemente a própria obra em questão com tamanha radicalidade. Durante muito tempo pensei que apenas Godard, talvez, se aproximasse dessa desconstrução. Pode até ser. Mas então comecei a enxergar parentesco entre as artimanhas do artista americano daquelas de João Gilberto.

À primeira vista, parecem duas atitudes diferentes diante da produção autoral. Enquanto Dylan compôs o corpus principal de sua obra, João Gilberto — que é autor de meia-dúzia de canções — trabalhou obsessivamente sobre repertório alheio: dos sambas ouvidos na mocidade baiana a clássicos da bossa nova e da canção mundial. É um clichê mas também uma verdade fundamental enxergar nessas regravações do baiano uma apropriação do original, uma recriação que opera uma espécie de feitiço autoral: as músicas de Tom Jobim, Caymmi ou mesmo Cole Porter tornam-se canções de João Gilberto, tamanha é a densidade da operação musical empreendida por ele.

Recentemente vi estes dois artistas icônicos do século XX se aproximarem graças a Frank Sinatra. Shadows in the night, com canções que fizeram parte do repertório de Sinatra, é um disco joãogilbertiano de Bob Dylan, quem diria. Ali só se trabalha o “cover”. Porém, numa operação criativa digna do intérprete brasileiro, todas aquelas canções compostas por terceiros e gravadas por Sinatra são atraídas para o centro gravitacional de Bob Dylan, parecendo ter sido criadas por ele mesmo.

Eis uma arte genuína e poderosa.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

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