leymah gbowee

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres da Libéria

Por Julia Bussius


Leymah Gbowee comemora o prêmio Nobel junto com as mulheres liberianas.

Sabemos muito pouco ou quase nada sobre a Libéria, o país criado por escravos libertos americanos que retornaram à África. Mas quando o prêmio Nobel da paz do ano passado premiou uma iemenita e duas liberianas, ficamos nos perguntando quem seriam essas mulheres.

Pouco tempo depois do anúncio do prêmio, recebemos o original do livro com as memórias de Leymah Gbowee (Guerreiras da paz), a liberiana que mobilizou uma legião de outras mulheres em seu país na tentativa de acabar com a guerra civil que assombrava o país. E a tentativa deu certo: elas ajudaram a por um fim ao horror que o ditador Charles Taylor perpetuou durante treze anos sangrentos.

Li o relato de Leymah em uma sentada e fiquei  sem respirar. Diferente de muitas mulheres que passaram por guerras parecidas, ela conta que teve a sorte de não ter sido estuprada; e isso de modo algum torna sua história menos surpreendente ou menos trágica. A coragem de Leymah é algo fora de série.

Quando nem havia acabado o colégio, ela viu seus sonhos de estudar irem por água abaixo com a implosão da guerra civil. Sua família precisou se abrigar num campo de refugiados em Serra Leoa e só voltou depois de um bom tempo para uma Libéria totalmente destroçada. Leymah, que aos vinte e poucos anos já tinha quatro filhos, trabalhou primeiro na árdua recuperação dos meninos soldados mutilados. Eram os garotos recrutados pelos rebeldes à base de muito álcool e drogas e que haviam cometido as piores barbaridades imagináveis; mas, uma vez feridos, não serviam pra mais nada e se tornavam a escória da sociedade.

Depois dessa provação, ela trabalhou com as mulheres violentadas e aos poucos foi criando uma rede que uniu cristãs e muçulmanas num movimento em busca da paz. Leymah convenceu as mulheres a fazerem uma greve de sexo — uma das únicas armas femininas numa sociedade tradicional — para pressionar os maridos a também se mobilizarem contra a guerra.

As liberianas do movimento se vestiam de branco e iam todos os dias reivindicar a paz no centro da capital, Monróvia. Seu protesto foi tomando dimensões cada vez maiores e chegou aos ouvidos das Nações Unidas e outros órgãos internacionais, e até o ditador Charles Taylor teve que ouvir as mulheres e incluí-las no processo de negociação pela paz. Hoje, a Libéria é o único país africano a ser presidido por uma mulher, Elle Johnson Sirleaf, também vencedora do Nobel de 2011.

“A dinâmica do mundo mudaria se mais mulheres estivessem no poder”, disse Leymah numa entrevista ao jornal O Globo, “é que a maioria das tragédias ocorre devido a problemas de liderança. E nós mulheres somos mais conscientes das necessidades dos outros.”

No maravilhoso site TED: Ideas worth spreading, que é uma das coisas mais generosas na internet e veicula gratuitamente palestras de pessoas que têm muito a dizer, Leymah conta um pouco de sua história. De fato temos muito a aprender com as mulheres da Libéria.

 

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Julia Bussius é editora-assistente da Companhia das Letras.

Semana cento e dezenove

Os lançamentos desta semana são:

Guerreiras da paz, de Leymah Gbowee (Trad. Donaldson M. Garschagen)
Nas imagens de guerra, as mulheres costumam aparecer como pano de fundo, chorando seus mortos em desespero. Os protagonistas e narradores dessas histórias em geral são homens, que se exibem de armas em punho ou engravatados tomando decisões. Neste livro, Leymah Gbowee mostra como essa imagem é incompleta, e dá voz à população feminina da África. Uma voz que se fez ouvir na Libéria, onde, sentadas em protesto, as mulheres pediram a paz, fizeram greve de sexo e se ergueram vitoriosas contra o governo do ditador Charles Taylor e a guerra civil que arrasou o país entre 1989 e 2003. A luta e a influência dessa jovem que tinha dezessete anos no início do conflito lhe renderam o prêmio Nobel da paz de 2011, junto com Ellen Johnson Sirleaf – que viria a ser presidente da Libéria – e a iemenita Tawakkol Karman.

As relações perigosas, de Choderlos de Laclos (Trad. Dorothée de Bruchard)
Por seis meses de algum desconhecido ano do século XVIII, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. De um lado, o libertino visconde de Valmont tenta conquistar a presidenta de Tourvel; de outro, a dissimulada marquesa de Merteuil, soposta confidente da jovem Cécile, incentiva a adolescente a entregar-se a outro homem antes de um casamento de conveniência. Com sua feroz sátira da aristocracia, As relações perigosas conquistou um sucesso escandaloso em 1782, quando foi publicado. Vinte reedições esgotadas apenas naquele ano e uma condenação à destruição pela corte real de Paris atestam o burburinho em torno do romance, que se consagrou, já no século XIX, como uma das causas desencadeadoras da Revolução Francesa. Desde então, o livro foi adaptado para peças de teatro, ópera e filmes, que o tornaram ainda mais popular. Este volume traz ainda introdução da editora e tradutora inglesa Helen Constantine.

Os enamoramentos, de Javier Marías (Trad. Eduardo Brandão)
Com uma prosa profunda e cativante, a obra traz uma reflexão sobre o estado de enamoramento, que parece justificar todas as coisas: das ações mais nobres e desinteressadas aos maiores excessos e maldades. A especulação sobre a presença dos mortos no imaginário e no dia a dia dos vivos perpassa todo o livro, pontuado por referências literárias como Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, Macbeth, de Shakespeare, e, sobretudo, O coronel Chabert, de Balzac, romance indluído nesta edição como presente ao leitor.

100 aforismos sobre o amor e a morte, de Friedrich Nietzsche (Trad. Paulo César de Souza)
A maioria dos treze livros publicados durante a vida de Nietzsche se compõe de breves seções numeradas. São os chamados “aforismos”, que ele adotou dos moralistas franceses do século XVIII e a que deu mais estensão e amplitude temática. Trata-se de milhares de reflexões sobre os mais diversos temas de filosofia, moral, religião, literatura, sociedade, sexualidade, política, e também sobre inúmeras personalidades históricas e artísticas. Desse extraordinário conjunto de observações, o tradutor Paulo César de Souza retirou uma centena de aforismos sobre dois temas universais que talvez definam o que é ser humano: a necessidade do amor e a consciência da morte.

O casamento da lua e outros contos de amor, de vários autores
Amamos nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos avós, nossos tios, nossos filhos. Amamos nossos bichos de estimação, nossa casa, nossos livros nossos objetos. Amamos o que fazemos, algumas coisas que comemos, nossos costumes, nossas coleções. Por acaso alguém duvida que amor está em tudo e em todo lugar? Nesta antologia, ele é o fio condutor de dezesseis contos de alguns dos melhores escritores da literatura brasileira. Há amores impossíveis, platônicos, felizes, tristes, entre os homens e pelos animais. Todos juntos, eles comprovam uma frase de Paulo Mendes Campos, segundo a qual estamos todos “atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre”.

No restaurante submarino: contos fantásticos, de vários autores
Histórias fabulosas, extraordinárias, inesperadas – daquele tipo que ao mesmo tempo bagunça e amplia nossa compreensão dos eventos cotidianos. É o que pode esperar o leitor desta seleção de contos de alguns dos maiores praticantes do gênero fantástico na literatura brasileira. Nas histórias de Murilo Rubião, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Amilcar Bettega aquilo que parece sonho (ou, em alguns casos, pesadelo) se materializa em palavras que fazem o leitor não querer desgrudar delas. Animais fantásticos, situações absurdas, a vida normal revirada de cabeça para baixo, o mundo dos sonhos e outras loucuras ocupam as páginas de

A linguagem dos animais: contos e crônicas sobre bichos, de vários autores
Um rouxinol sentimental com alma de poeta, um canário com ares de filósofo, um lobo que rompe com uma antiga tradição familiar… Os personagens dos dezesseis textos desta antologia nos mostram o quanto os animais estão presentes em nossa imaginação – e sobretudo como eles têm muito a nos ensinar. Criados por autores clássicos, modernos e contemporâneos, eles nos falam sobre a liberdade, o meno, o amor, o humor e a fantasia, alguns dos principais ingredientes que compõem a grande literatura mundial.

Verso livre: poemas, de vários autores
Um elenco de primeira – que atesta a vitalidade da tradição lírica brasileira – foi reunido para esta antologia de poesia verde-amarela dos séculos XX e XXI. São cinco autores – Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, José Paulo Paes, Francisco Alvim e Eucanaã Ferraz -, que demonstram, cada um a sua maneira mas sempre com inteligência aguda e percepção emocional poderosa, por que a poesia está entre nossas artes mais destacadas. O amor, a cidade, o cotidiano e o próprio fazer poético ocupam as páginas desta antologia. Temas que, graças aos poetas reunidos neste volume, nos ajudam – com delicadeza e força, sabedoria e alegria – a entender o Brasil. E a decifrar um pouco mais a nossa alma.