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80 anos de Raízes do Brasil

Na última segunda-feira, dia 8 de agosto, aconteceu em São Paulo o lançamento da edição crítica de Raízes do Brasil, que comemora dos 80 anos de publicação da obra de Sérgio Buarque de Holanda e também os 30 anos da Companhia das Letras. No Teatro Eva Herz na Livraria Cultura, os organizadores Lilia Moritz Schwarcz (USP, Princeton e autora de Brasil: uma biografia) e Pedro Meira Monteiro (Princeton) conversaram com  Mauricio Acunã (doutorando USP, Princeton) e Marcelo Diego (doutorando Princeton), responsáveis pelo estabelecimento de texto e notas desta nova edição.

Por meio de notas e variantes, a nova edição de Raízes do Brasil mostra que, entre a primeira edição e as seguintes, durante mais de três décadas, Sérgio Buarque de Holanda fez alterações importantes no texto, revisitando hipóteses e mudando, às vezes radicalmente, os argumentos e o tom. O livro acompanha posfácios de nove especialistas que trazem leituras originais deste que é, para jogar com as palavras de Antonio Candido, um “clássico” que se constrói pouco a pouco.

No vídeo, confira o encontro completo que discutiu a importância de Raízes do Brasil.

Para bem pensar a utopia dos trópicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Se “prefácios são inúteis”, como afirma Eduardo Giannetti em Trópicos utópicos, o que dizer de uma resenha como esta? O mais recente livro do autor de Auto-engano; O valor do amanhã; A ilusão da alma; Vícios privados, benefícios públicos; Felicidade, entre outros, é um desafio e tanto para quem se propõe a comentá-lo. Afinal, o filósofo e economista volta não só a temas que são recorrentes no conjunto de sua extensa e importante bibliografia, como faz escolhas muito ousadas no conteúdo, na abrangência, e, sobretudo, na forma e na estrutura do texto. Diante disso, o melhor é escrever “junto” ou “com” Giannetti — portanto, não estranhem as aspas.

Mas comecemos pelo começo; algum começo. Em primeiro lugar, Trópicos utópicos mais se parece com uma obra de vida inteira dedicada às ideias, à filosofia, à economia e a pensar o Brasil e tentar sentir-se brasileiro. De certo modo, o autor segue a veia dos grandes intérpretes do Brasil, que a cada geração, como bem mostrou Roberto Schwarz em Nacional por subtração, criam novas formas de se olhar e reconhecer (ou se estranhar). Foi assim com o grupo romântico palaciano que cercava Pedro II — que elegeu um indígena idealizado como modelo da nacionalidade —, foi também dessa maneira com a geração realista de 1870, que negou as interpretações anteriores e viu na mestiçagem existente no país um sinal de degeneração racial e falência nacional. Não foi diferente com os modernistas dos anos 1920 e 30, que inverteram os termos da equação e descobriram um país divinamente mestiço: nos costumes, nas ideias, nas cores, nos cheiros, no dia a dia. Como um modelo só existe na contraposição que estabelece com os anteriores, nos anos 1970, com o advento da linguagem dos direitos civis, vimos que “mistura” não é sinônimo de “igualdade”, pois carrega muita “diferença”. O país podia apresentar padrões culturais “misturados”, mas na educação, na saúde, na criminalidade, nas taxas de nascimento e de morte era profunda e perversamente “diferente”.

O fato é que países de passado colonial estão sempre “atrás” da sua identidade. Não só atrás, mas na “frente” também, como bem mostra Giannetti. Vão projetando para si novos desenhos, novas pinturas na parede e fotografias 3 por 4. E o retrato de Giannetti se parece com uma versão contemporânea, muito contemporânea, dessa nossa história que vai acumulando excelentes ensaístas, os quais, vez por outra, encontram um bom espelho em que possamos nos mirar.

Já que anunciei lá no começo um “primeiro lugar”, gostaria de arriscar um “segundo”: vale a pena explorar o trocadilho presente no título desse livro. Nos idos de 1955, Claude Lévi-Strauss publicou Tristes trópicos, uma obra tão magistral quanto nostálgica e irônica acerca desse país com sede de novidade e que carrega progresso e decadência lado a lado. O título do novo livro de Giannetti há de brincar com esse, do etnólogo francês, que confessa seu desencanto com as viagens, a morte do exotismo e o fim da jornada rumo ao “outro”. No caso de Trópicos utópicos, entretanto, há menos desalento, digamos assim. No final do livro, o filósofo brasileiro encontra um país mestiço, “genética e culturalmente fusionado”, e cujo “traço” é aquele que “melhor nos define”.

Mas há outros paralelos entre esses dois livros. Tanto um quanto o outro são inclassificáveis enquanto gêneros literários. A obra de Lévi-Strauss ganhou todo tipo de definição: livro de viagem, de etnologia, de memória e até de ficção. Em Trópicos utópicos a tarefa é igualmente complicada. Dividido em 124 seções — que numa quase homenagem ao Manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, dele guarda alguma semelhança pelo uso de aforismos, distintos em Giannetti por sua autossuficiência argumentativa —, o livro se organiza, ainda, em quatro partes diferentes, porém integradas. Se nas três primeiras o autor trata de temas já extensamente abordados em sua obra — ciência, tecnologia e crescimento econômico —, bem como das consequências e dos problemas que advém do verdadeiro fascínio que temos por esses assuntos; na quarta entramos no terreno brasileiro e na escorregadia questão da identidade nacional.

Claro está que todas essas seções e partes dialogam entre si, numa arquitetura muito bem construída e sustentada por uma escrita primorosa. É por isso que esse livro nos convida a desistir da resenha e a confessar sua impossibilidade. Algo do tipo, “esse livro escapa a qualquer definição”. Mas, teimosa que sou, vou arriscar algumas.

Trópicos utópicos pode ser lido de forma preguiçosa (mas gostosa). Ele parece aqueles antigos livros de provérbios, frases e ditos, em que se podia encontrar uma sentença para cada ocasião. Por exemplo: “Anatomia do impasse. A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença”. Ou então: “Valor e preço. Qual a diferença entre um cínico e um sentimental? Oscar Wilde responde: o cínico é aquele que sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada; o sentimental vê um absurdo valor em tudo, mas não sabe o preço de nada”. E ainda: “Os dois caminhos da felicidade — nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade”.

Mas ficar coletando frases deslocadas é exercício fácil, que com certeza não dá conta do edifício montado por Giannetti. Na verdade, penso que é preciso tomar a sério a noção de trópicos e utópicos. Erudito, o autor vai nos levando pela mão aonde quer. No fundo, trata-se de pensar o Brasil dentro de uma orquestração maior, na qual o país se inclui e se destaca. Trata-se também de entender que “a realidade objetiva não é toda a realidade” (grifos de Eduardo Giannetti), “uma vez que a vida dos povos, não menos que a dos indivíduos, é vivida em larga medida na imaginação”.  O autor não abandona, portanto — ao contrário: sublinha —, a noção de que sonho e desejo fertilizam o real, e não apenas o oposto.

Aí está a suprema utopia do título: destacar e perceber certa “alma” do brasileiro; “a utopia brasileira no concerto das nações”. Giannetti localiza, ainda, uma “teimosa vocação de felicidade” nos brasileiros, mesmo que em meio à “precariedade da vida material”. E é nessas brechas que ele se detém, com grande sensibilidade e identificação, quando vai terminando o livro. Para o filósofo, mesmo com o nosso passado colonial e com as populações indígenas e, sobretudo, africanas sendo submetidas a violentos processos de subjugação, por aqui teria perseverado um maior “clima de permissividade”, diferentemente do que ocorreu no hemisfério norte. Nos trópicos teria vingado um “clima temperado”, em que “não obstante a opressão”, a “revolta”, persistiu a “vitalidade e a alegria de viver dos africanos”. Por isso é que a “África salva o Brasil”.

Não é preciso concordar com tudo para reconhecer o imenso valor e coragem de um livro como esse. Mais ainda, é comovente ler a “alma” de Giannetti. Ele parece estar tão  mergulhado em sua obra que, em determinados momentos, quase que conseguimos ouvir o autor contar uma boa história: a sua história neste país, a nossa história na dele.

Segundo o filósofo somos “miméticos e proféticos”. Nenhuma das posições em separado, mas as duas coisas ao mesmo tempo. “Tupi and not tupi”. Mas Giannetti não se imagina, ele próprio, profético. “O que é bom para nós”, escreve, “não se pretende bom para toda gente, mas é o nosso bem”. Enfim, o filósofo procura e encontra “um Brasil digno de sonho”, pensado com “afeto”. Com nossos vícios e virtudes; nossos acertos e desacertos; nossos egoísmos e nossas generosidades. Um país do e; não do ou.

Pensar quem somos e o que nos define é tema que entra e sai da nossa pauta desde que o Brasil ainda não era nem ao menos Brazil. Foi Cabral pisar nessas terras, e a desavença em torno do nome começou. Para alguns, a Igreja, seríamos Terra de Santa Cruz, por conta do lenho sagrado e da primeira missa. Para outros, os comerciantes, seríamos Brasil por causa da primeira riqueza que por aqui se encontrou. Na falta de ouro, exportou-se o pau-brasil, essa madeira boa para fazer móveis, e de cujo veio corria uma tinta vermelha. E assim as dúvidas sobre a nossa identidade já começaram nos primórdios do século XVI: uma terra santa ou um lugar vermelho-sangue, da brasa do inferno?

Naquele contexto, vingou a segunda opção. Mas quem sabe Giannetti nos anime a pensar numa terceira via, ou melhor, nas duas juntas. Ou melhor ainda, a pensar que os brasileiros sempre buscaram driblar isso tudo, inventando formas próprias de felicidade. Afinal, como cantava a marchinha: “Quem foi que descobriu o Brasil, foi seu Cabral, foi seu Cabral, no dia 21 de abril, dois meses depois do Carnaval”.

Esse povo festeiro, que mistura costumes, que pratica uma “compreensão amável e lúdica” da vida… é disso e muito mais que trata o novo livro de Giannetti, e com muita poesia. Como certa vez definiu o antropólogo Clifford Geertz: “Cada povo inventa sua própria forma de sentir e de ser feliz”. A nossa felicidade estaria, de certa forma, conectada aos trópicos e a uma certa utopia coletivamente partilhada.

Por essas e por outras, Trópicos utópicos chega em excelente momento. Num contexto em que andamos cabisbaixos, desacreditando de nós mesmos — do nosso passado, do nosso presente e também do nosso projeto de futuro, distante e imediato — Eduardo Gianetti nos dá, de presente, uma boa utopia em que acreditar. Nem cópias nem tão somente originais, o Brasil e os brasileiros teriam “uma perspectiva”, como diz o subtítulo do livro, a oferecer diante da “crise civilizatória” que, bem sabemos, se não é privilégio nosso, tem causado ultimamente muito desconforto e sofrimento.

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Eduardo Giannetti autografa Trópicos utópicos em São Paulo no dia 27 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073).

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

 

Feliz desaniversário! (Parte 3. Final e começo)

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Mãe Aninha.

Leia também a primeira e a segunda parte de Feliz desaniversário. 

Essa é a terceira e última parte de nossa celebração de desaniversário, que começou com um post no dia 11 de março de 2016. Já lembramos de alguns nomes de mulheres que se destacaram durante a Colônia, pulamos para o período Imperial e agora chegamos ao Republicano. Desta vez, comemoramos um duplo desaniversário. Em primeiro lugar, pois, conforme ficou combinado, todo dia é dia de aniversário das mulheres. Em segundo, porque mencionamos aqui um período muito maltratado por nossa história do Brasil. Chamada pelo governo Vargas de Velha, a República Velha foi ensanduichada entre dois contextos fortes: o Império, que guardou a imagem do mecenato do imperador Pedro II a despeito da crise do escravismo e do próprio sistema que caía em 1889, e o Estado Varguista, que chamou todas as conquistas para si; sobretudo direitos sociais para os trabalhadores. Por isso, o Estado que então se criava se auto-batizou de “Novo”. No entanto, uma vez que não acredito na inocência dos nomes, e como nada nessa vida vem de graça, fica claro como havia aí uma clara contraposição. Tudo que era “de antigamente” carregou a designação de “velho”, no sentido de antigo e ultrapassado. Já o que começava naquele período surgia como a mais absoluta novidade; por isso Estado Novo, no sentido de inaugural em relação ao futuro, mas também no sentido de ruptura com o passado.

A matéria-prima da História é a mudança, assim como a continuidade, e não se planta uma nova carteira de direitos trabalhistas sem a semeadura dos anos anteriores. Pesquisas vêm mostrando que, se os anos que vão de 1889 a 1930 acabaram por permitir a existência de muitas políticas de exclusão social, esse período foi também palco para todo tipo de reação, revolta e manifestação. E foi nesse contexto que ocorreram as Revoltas da Marinha, da Armada e da Vacina; as insurreições do Contestado e de Canudos, e os muitos modernismos que o Brasil conheceu nesse momento de grande renovação cultural.

A Primeira República serviu, pois, para variadas formas de imaginação social, assim como converteu-se numa grande Babel de Línguas — por conta da acelerada entrada de imigrantes e por causa de uma série de experimentos sociais. Como História também não é só conta de somar, mas traz consigo varias regras de diminuir, esse foi, ao mesmo tempo, um momento de grande inclusão e de forte exclusão social, que incluiu avanços nas teorias raciais — que determinavam raças superiores e inferiores — e de uma república falhada em seus propósitos de cidadania.

E se o período da Primeira República, durante muito tempo, foi pouco mencionado nos nossos compêndios históricos, no caso das mulheres foi ainda mais radical. Poucas são lembradas, e sempre como coadjuvantes, companheiras, parte de grupos maiores ou “boas para o lar”. Com certeza fizeram isso tudo, mas, adaptando a letra de Caetano Veloso na música “Tropicália”, “organizaram o movimento e orientaram o Carnaval”. Foram muito mais do que sombra em meio a dia de sol. Foram também muitas, e nossa lista vai parecendo cada vez mais, apenas e tão somente, uma tentativa exemplar. Daqui para frente, então, os números de nossas protagonistas se multiplicam em progressão geométrica. Essa série de posts de desaniversários termina e só começa por aqui.

PERÍODO DA PRIMEIRA REPÚBLICA

  • Anália Franco (1856-1919) — Nasceu em Resende, no Rio de Janeiro e mudou-se para São Paulo, onde diplomou-se como normalista, aos dezesseis anos, exercendo o cargo de professora primária. Depois trocou seu posto na capital por outro no interior, a fim de socorrer crianças necessitadas. Na época da República, Anália já atuava em dois grandes colégios gratuitos para meninas e meninos. Criou escolas maternais e escolas elementares, além do liceu feminino, com a finalidade de instruir e preparar professoras. Dedicou-se também ao jornalismo e à literatura e fundou a Revista da Associação Feminina.
  • Anita Malfati (1889-1963) — Nasceu em São Paulo. Sua mãe era professora de pintura. Incentivada pela família, em 1910, Anita partiu para a Alemanha, onde frequentou por três anos a Academia Real de Berlim. Estudou gravura, desenho e pintura, além de conhecer os principais mestres do expressionismo alemão. De volta ao Brasil, em 1914, realizou sua primeira exposição individual. Foi a seguir para Nova York estudar na Independent School of Art. Anita iniciou uma obra de tendência claramente expressionista, distinta dos padrões acadêmicos vigentes até então no Brasil. Sua exposição em São Paulo, Exposição de Pintura Moderna, realizada no ano de 1917, causou escândalo e gerou críticas ferozes de Monteiro Lobato. Com o tempo a mostra se firmaria como um marco para o modernismo paulista.
  • Bertha Lutz (1894-1976) — Nascida em São Paulo, Bertha foi educada na Europa, formou-se em biologia pela Sorbonne e por lá teve contato com a campanha sufragista inglesa. Voltou ao Brasil em 1918 e ingressou como bióloga pesquisadora no Museu Nacional, sendo a segunda mulher a entrar no serviço público brasileiro. Ao lado de outras pioneiras, empenhou-se na luta pelo voto feminino e criou, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher. Em 1922, Bertha representou as brasileiras na Assembleia-Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos, e foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Candidata a uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte de 1934, a despeito de não conseguir se eleger, obteve a primeira suplência no pleito seguinte e acabou assumindo o mandato de deputada na Câmara Federal em julho de 1936. Como parlamentar, destacou-se com propostas que visavam a mudança na legislação referente ao trabalho da mulher e do menor. Batalhou pela igualdade salarial, a licença de três meses para gestantes e a redução da jornada de trabalho, então de treze horas diárias.
  • Bidú Sayão (1906-99) — Balduína de Oliveira Sayão, com dez anos de idade, já declamava, tocava clássicos ao piano e cantava. Estreou como cantora de ópera em 1926 no Teatro Costanzi, o teatro de ópera em Roma. No mesmo ano, inaugurou a temporada lírica no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Atuou ainda no Teatro Colón, em Buenos Aires, no Teatro alla Scala, em Milão, no Teatro Regio di Torino e na Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma. Em Paris, fez muito sucesso no Théâtre Nactional de l’Opéra-Comique, do qual tornou-se cantora regular. Em 1935, estreou nos Estados Unidos, no Town Hall de Nova York. Foi então contratada por Arturo Toscanini e passou a integrar a Orquestra Filarmônica de Nova York.
  • Hilária Batista de Almeida ou Tia Ciata (1854-1924) — Baiana de Santo Amaro da Purificação, Tia Ciata foi uma famosa quituteira do bairro da Saúde no Rio de Janeiro do final do século XIX. Nos fins de semana, organizava festas na sua casa, reunindo compositores, intelectuais e artistas do cenário carioca. O primeiro samba gravado em disco, “Pelo Telefone”, foi composto na casa dela e foi registrado por Donga.
  • Eugênia Anna Santos ou Mãe Aninha (1869-1938) — Filha de africanos, a ialorixá Obá Biyi nasceu em Salvador. Mais conhecida como Mãe Aninha, ela foi instruída no candomblé da Casa do Bambochê, fundado por volta de 1830 e o mais antigo terreiro de origem nagô-queto a funcionar regularmente no Brasil. Saiu de lá para formar uma nova casa, o Ilê Axé Opô Afonjá, hoje considerado Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mãe Aninha sempre lutou pelo culto do candomblé no Brasil, e por seu livre exercício. Por intermédio do ministro Osvaldo Aranha, Mãe Aninha trabalhou pela promulgação do Decreto Presidencial no 1202, no primeiro governo de Getúlio Vargas, pondo fim à proibição aos cultos afro-brasileiros em 1934.
  • Maria Gomes de Oliveira ou Maria Bonita (1911-38) — Nasceu 8 de março numa pequena fazenda em Santa Brígida, Bahia. Casou-se aos 15 anos com José Miguel da Silva, sapateiro e conhecido como Zé Neném. Mas o casal vivia às turras. E foi no ano de 1929, quando fugiu para a casa da família, que ela reencontrou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, um amigo da casa. Maria Bonita foi a primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros. Maria Bonita foi companheira de Lampião por oito anos e morreu junto com ele em 1938. Além de guerreira, ela mudou a estética do grupo com seus bordados e roupas de couro.
  • Maria Rosa, a Virgem do Contestado (?-1915) — Líder política e espiritual dos rebeldes da Guerra do Contestado. Assumiu a liderança militar dos revoltosos após a morte do mandante João Maria.
  • Nair de Teffé von Hoonholtz (1886-1981) — Filha dos Barões de Teffé, estudou em Nice e em Paris. Em 1909, publicou na revista Fon-Fon! o seu primeiro trabalho como caricaturista. Depois disso trabalhou em periódicos como O Binóculo, A Careta e O Ken. Além da caricatura, atuou como pintora, cantora, pianista e violinista. Casada com o Marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República, causou escândalo quando convidou para o palácio de Catete Chiquinha Gonzaga, tendo Nair tocado ao piano o sucesso “Corta jaca”. Confiante, certo dia, numa reunião ministerial presidida pelo marido, apareceu na sala trajando um vestido em cuja roda ostentava caricaturas de todos os ministros de Estado!
  • Patrícia Rehder Galvão ou Pagu (1910-62) — Mais conhecida pelo pseudônimo, Pagu nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista, foi também militante do partido comunista. Destacou-se no movimento modernista paulistano iniciado em 1922. Foi companheira de Oswald de Andrade e durante muito tempo vista apenas como tal: um par. Em 1931, foi presa ao participar de uma greve de estivadores em Santos. Em 1933, saiu do Brasil, deixando o marido e o filho. Volta ao país em 1935, expatriada pela polícia francesa como comunista estrangeira e por conta de identidade falsa. Separa-se de seu marido e é mais uma vez presa pela ditadura de Getúlio, passando cinco anos na cadeia. Anos depois, rompe com o comunismo para aderir ao socialismo. Mas nunca largou a atuação política e cultural.
  • Tarsila do Amaral (1886-1973) — Nascida em Capivari, São Paulo, era oriunda de uma família de fazendeiros. Iniciou seus estudos em São Paulo mas logo partiu para a Europa, com o objetivo de conhecer as vanguardas estrangeiras. Seu primeiro casamento foi desfeito por seu marido se opor a seu trabalho artístico. Separa-se então dele e investe em sua formação. Teve contato com várias tendências de vanguarda e aderiu ao modernismo quando voltou ao Brasil, em 1922. Seu quadro Abaporu é ainda hoje considerado um marco do movimento antropofágico nas artes plásticas brasileiras.

* Recomendo novamente a leitura do livro Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brasil. Rio de Janeiro, Zahar, 2000, da onde tirei parte das informações. Agradeço também nessa terceira parte do “post de desaniversário” ao pessoal do Projeto República (UFMG) e a Adriane Piscitelli.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Feliz desaniversário! (Parte 2)

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Eufrásia Teixeira Leite. 

Na semana passada publiquei, aqui no Blog da Companhia, a primeira parte desta celebração de “feliz desaniversário das mulheres”, na tradição de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas. A ideia é que todo dia é hora de festejar e de se lembrar delas. Naquela ocasião, aleguei que o momento era bom para nos perguntarmos sobre alguns silêncios da história. Repito a questão: por que existem tão poucas mulheres com protagonismo ou que não tomam parte dos nossos compêndios de história do Brasil? No dia 11 de março publicamos uma primeira relação, referente a algumas mulheres que atuaram no período colonial. Hoje, damos continuidade ao post, com uma relação de figuras femininas que tiveram destaque na época do Império. São poucos nomes, apenas exemplares, de uma lista que pode crescer ainda mais. Semana que vem tem mais: será a vez das mulheres da Primeira República. Me aguardem…

PERÍODO IMPERIAL*

  • Abigail de Andrade (1864- 1890) — Pintora e desenhista, artista da Academia Imperial de Belas Artes numa época em que a escola contava com poucas alunas mulheres, destacou-se por pintar sobretudo naturezas-mortas — gênero muito valorizado à época.
  • Adélia Sigaud ( 1840-?) — Carioca de nascimento, é considerada a primeira brasileira a ler pelo sistema Braille. Cega desde criança, aprendeu o método com um professor que havia conhecido a técnica no Instituto Nacional dos Jovens Cegos, em Paris. No ano de 1851, o pai de Adélia, um médico do círculo de Pedro II, contou que sua filha lia com as mãos e o imperador manifestou interesse em conhecê-la. Desse encontro resultou, em 1854, a fundação do Instituto Benjamin Constant, destinado ao ensino de crianças e jovens cegos. A própria Adélia foi aluna do Instituto e acabou se tornando a primeira professora da escola.
  • Ana Néri (1814-1880) — Nasceu no interior da Bahia, aos 23 anos casou-se com Isidoro Antônio Néri, capitão de fragata da Marinha. Ficou viúva com três filhos pequenos para cuidar aos 29 anos. Em 1865, quando estoura a Guerra do Paraguai, teve os três filhos convocados. Então, solicita em ofício um trabalho como enfermeira no cenário da guerra. Sem esperar resposta, vai para o Rio Grande do Sul e lá aprende as primeiras noções de enfermagem. Ana montou uma enfermaria-modelo em Assunção, capital paraguaia, sitiada pelo Exército brasileiro. No final da guerra, em 1870, Ana volta ao Brasil e é homenageada com a Medalha Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe. D. Pedro II lhe concede uma pensão vitalícia por decreto.
  • Albertina Diniz (século XIX) — Nasceu na cidade de São João del Rei, em Minas Gerais, foi jornalista e educadora. Diniz, começou a trabalhar no jornal O Sexo Feminino, criado pela sua mãe, Francisca Senhorinha da Motta Diniz. Mais tarde, começou sua carreira como educadora no Rio de Janeiro, no Colégio Santa Isabel, também fundado e dirigido por sua mãe. Pregou pela abolição da escravatura na imprensa e em manifestações públicas. Escreveu poesias para a publicação lisboeta Almanaque das Senhoras e traduziu versos franceses para O Sexo Feminino. Em coautoria com a mãe, escreveu A judia Rachel.
  • Anita Garibaldi (1821-49) — Catarinense, começou a participar dos movimentos republicanos no Rio Grande do Sul. Participou com seu marido, Giuseppe Garibaldi, de várias batalhas, inclusive acompanhando-o à Itália para lutar contra a invasão austríaca.
  • Beralda Iselinga Pereira (século XIX) — Viveu nos arredores de São Paulo exercendo o ofício de tropeira, atividade tipicamente masculina e da maior importância para a distribuição e circulação de mercadorias e gêneros, sempre em lombo de burro.
  • Brandina (século XIX) — Proprietária de uma pequena pensão, investia seus parcos ganhos em comida, fumo e remédio para os negros que se refugiavam na Baixada Santista. Colaborou também com os cabos abolicionistas e com Santos Garrafão, organizador de um dos grandes quilombos da região.
  • Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena (imperatriz Maria Leopoldina) (1797-1826) — A arquiduquesa da Áustria e primeira imperatriz do Brasil teve grande influência no processo de independência do país, atuando com José Bonifácio e mandando cartas a d. Pedro. Seu papel também foi fundamental na consolidação dos estudos naturalistas no Brasil.
  • Luísa Margarida de Barros Portugal (Condessa de Barral) (1816-91) — Filha de Domingos Borges de Barros, o visconde de Pedra Branca, viveu entre a França e o Brasil, se casou com Eugène de Barral, conde de Barral, primo em quinto grau da imperatriz do Brasil e segunda esposa de d. Pedro I, a imperatriz Amélia de Leuchtenberg. Foi amiga de d. Francisca de Bragança, irmã de d. Pedro II. Mais tarde, foi indicada preceptora das duas filhas de d. Pedro II e dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina. Também foi amiga de intelectuais da época, como Franz Liszt e o conde de Gobineau e ainda serviu de intermediária entre o imperador e muitas dessas personalidades. A condessa transformou-se em amiga íntima de Pedro II e sua amante, segundo boa parte dos historiadores.
  • Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930) — Era filha do dr. Joaquim José Teixeira Leite e de Ana Esméria Correia e Castro, neta do barão de Itambé e do barão de Campo Belo, sobrinha do barão de Vassouras e sobrinha-neta do barão de Aiuruoca. Seu pai e seu tio fundaram a empresa “Casa Teixeira Leite & Sobrinhos”, que emprestava dinheiro a juros e realizava intermediações financeiras com os prósperos fazendeiros de café do Vale do Paraíba. Já a família de sua mãe era composta por ricos plantadores de café. Em 1872, Eufrásia e sua irmã herdaram, com a morte de seus pais, uma verdadeira fortuna, que equivalia na época à dotação pessoal do imperador d. Pedro II ou a 5% das exportações brasileiras. Na época, a região de Vassouras entrava em decadência, e as duas irmãs venderam ações, títulos e a casa e partiram, em 1873, para Paris. Eufrásia conheceu o estadista Joaquim Nabuco na viagem e começaram a namorar. Ela tinha interesses financeiros e negócios pelo mundo afora; ele, ambições políticas no Brasil. O romance durou de 1872 até 1886. Dois anos depois, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Eufrásia nunca se casou e se tornou a maior empresária que o Império conheceu.
  • Francisca Edwiges Neves Gonzaga ou Chiquinha Gonzaga (1847-1935) — Compositora e maestrina carioca, lutou por uma profissão inédita para a mulher numa sociedade patriarcal como a nossa. Causou escândalo em seu tempo. Atuando no ambiente musical do Rio de Janeiro, no qual imperavam polcas, tangos e valsas, Chiquinha Gonzaga traduziu para o seu piano toda a diversidade cultural que encontrou. Ao mesmo tempo, educada para ser dama de salão, aos 16 anos se casou com o promissor empresário Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido por seu pai. Continuou se dedicando ao piano, enquanto seu marido encarava o instrumento como rival. Determinada, decidiu abandonar o casamento, passando a viver com o engenheiro João Batista de Carvalho. O escândalo resultou em ação judicial de divórcio perpétuo movida pelo marido.
  • Germana (1819-?) — Vivia em Salvador com o marido, um escravo alforriado. Em 1879, entrou na Justiça para ganhar sua liberdade. Doente e com uma idade avançada, já tinha tido quinze filhos.
  • Justina (século XIX) — Apelidada de “A Medeia Negra”, a escrava, temendo ser vendida e separada de seus filhos, tomou uma atitude radical e de oposição ao sistema escravocrata: afogou suas crianças e tentou se suicidar cortando a garganta. Foi presa e condenada a 42 anos de prisão.
  • Maria Curupaiti (século XIX) — Maria Francisca da Conceição, natural de Pajeú das Flores, em Pernambuco, casou aos treze anos com um militar do Exército. Quando o marido foi destacado para um ataque ao forte de Curuzu, ela decidiu acompanhá-lo, mesmo com a proibição da presença de mulheres na expedição. Maria não teve dúvidas: cortou os cabelos, vestiu um uniforme masculino, colocou um boné e partiu. Viu o marido cair ao seu lado, mas continuou lutando com a baioneta. Ao final da batalha, sepultou seu marido e foi internada ferida no hospital. Quando descobriram seu disfarce, ela recebeu então o nome de Maria Curupaiti.
  • Maria do Egito ( 1828-?) — Em 1858 processou seu senhor, Evaristo José Santana, nos seguintes termos: “sob promessa de se libertar deixou-se levar de sua virgindade por amor único de gozar esse bem maior […] a Liberdade”. Passada a carta de alforria, seu senhor ainda “a teve por barregã por mais de catorze anos”.
  • Maria Felipa de Oliveira (?-1873) — Em 1824, a negra Maria Felipa lutou, na Ilha de Itaparica, na Bahia, pela independência do Brasil. Liderou um grupo contra portugueses que invadiram a ilha após a declaração de independência, em 1822. O grupo de Maria Felipa dominou o acampamento do Exército português, atacou os guardas e ateou fogo às embarcações.
  • Maria Firmina dos Reis (1825-1917) — Nasceu em São Luís, no Maranhão, e foi considerada a primeira romancista brasileira. Foi também a primeira professora concursada de seu Estado. Seu romance Úrsula, publicado em 1859, foi o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher negra e brasileira. Em 1887, a escritora publicou o livro A escrava, reforçando sua postura antiescravista. Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita.
  • Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-85) — Educadora, escritora e poetisa, em 1832, aos 22 anos, publicou no Rio Grande do Norte “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”, primeiro artigo que trata dos limites entre os espaços público e privado, exigindo o direito de igualdade e educação para todas as mulheres. Escreveu livros sobre os direitos das mulheres, incluindo indígenas e escravizadas. Pode-se dizer que foi uma das precursoras do feminismo no Brasil.
  • Olegarinha da Gama Carneiro da Cunha (1859-98) — Natural de Recife, participou ativamente do movimento abolicionista de Pernambuco. Trabalhou na organização do Clube do Cupim e em diversos movimentos de alforria e libertação de escravos. No dia de sua morte o povo da cidade tomou as ruas em sua homenagem.
  • Princesa Isabel (1846-1921) — Recebeu o título de princesa imperial pela Constituição do Império. Foi a primeira mulher a administrar o país e assinou a Lei Áurea, que libertava os cativos. Mesmo assim, a história “conta” que ela só foi responsável pelo ato pois seu pai, Pedro II, estava em viagem ao exterior. Também sabemos que a intenção seria garantir um Terceiro Reinado.
  • Violante Atalipa Ximenes Bivar e Velasco ( 1816-74) — Pioneira do jornalismo, nasceu em Salvador. Filha de um conselheiro do Império, recebeu educação diferenciada e traduziu uma peça, o que lhe valeu o ingresso no Conservatório Dramático de Música. Passou a colaborar no primeiro jornal de mulheres, O Jornal das Senhoras, seis meses depois passava a dirigi-lo.
  • Zeferina (século XIX) — Em 1826, participou de uma revolta no Quilombo do Urubu, nos arredores de Salvador, na Bahia. Liderou um grupo de escravos refugiados contra as tropas do governo imperial.

* Vale a pena olhar o livro Dicionário mulheres do Brasil: De 1500 até a atualidade, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil (Rio de Janeiro: Zahar, 2000) e ainda o projeto “Mulher 500 anos atrás dos panos” (Disponível em: www.mulher500.org.br), de onde tirei parte das informações. Agradeço mais uma vez ao pessoal do Projeto República (UFMG), que vem me ajudando na pesquisa, e a Adriane Piscitelli, que confere tudo e não deixa nada de errado passar.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Feliz desaniversário! (Parte 1)

Por Lilia Moritz Schwarcz

barbara

Bárbara Pereira de Alencar

Como todo dia é dia das mulheres, me permito desrespeitar as efemérides, para comemorar um “feliz desaniversário”, na bela tradição de Lewis Carroll em seu livro Alice no País das Maravilhas. Num momento crucial da obra, a heroína Alice participa de um divertido chá da tarde, com o chapeleiro maluco, para celebrar a festa do seu “desaniversário”. A ideia de Lewis Carroll é, portanto, que todo dia é um desaniversário, sendo possível festejar não apenas uma data em especial, mas todas elas.

Seguindo-se, então, a mesma lógica de Alice, bastaria decretar que hoje é dia de “desaniversário das mulheres”. Mas gostaria de aproveitar essa celebração de forma crítica e não só alvissareira. Nada como pensar em tão significativa data partindo de uma questão, e não com uma só resposta.

Como sou antropóloga e historiadora, gostaria de perguntar por que é que na história oficial do Brasil as mulheres, com raríssimas e célebres exceções, aparecem sempre com tão pouco protagonismo? E mais: por que será que, quando surgem, estão em posições subalternas ou identificadas — tal qual efeito de causa e consequência — a seus maridos, familiares, colegas ou companheiros masculinos?

Começo com um caso famoso. Nossa imperatriz Maria Leopoldina tinha muito mais luz própria do que a história que contamos permite supor ou notar. Não era apenas a esposa de d. Pedro I, ou a filha da poderosa família dos Habsburgo. Era também, mas ainda mais. Quando soube que ia se casar com o príncipe de Portugal, e que viajaria para um distante Reino Unido tropical, Leopoldina resolveu estudar as especificidades desse território e aqui desembarcou com um grupo de naturalistas que teria importância fundamental nos estudos coevos e futuros desse país. Não contente com isso, interferiu como pôde para que a independência do Brasil se realizasse. Mesmo assim, quando mencionada nos livros didáticos, Leopoldina surge sempre como a mulher de Pedro I; aliás, sem que se lembrem dos maus-tratos que recebeu por parte do marido.

Para não pensarmos que essa é armadilha fácil “do tempo passado”, o mesmo pode ser dito de Pagu, sempre identificada ao lado de Oswald de Andrade. Se eles formaram, mesmo, um belo casal que agitou a cena modernista brasileira; já ela não foi, apenas, a cara metade do autor do Manifesto Antropófago. Destacou-se, igualmente, como poeta, feminista, jornalista e ativista política de grande visão.

E o que dizer de Maria Felipa de Oliveira, de quem nem ao menos sabemos a data de nascimento e de morte? Negra, Maria Felipa ergueu os punhos em 1824 na Ilha de Itaparica, na Bahia, a favor da independência do Brasil. Liderou um grupo que se opunha à invasão dos portugueses à ilha, e que pretendiam evitar a consolidação de nossa emancipação política de 1822. Valente, ela tomou de assalto o acampamento do exército lusitano, atacou os guardas e ateou fogo às embarcações.

Vale a pena mencionar, ainda, outra ilustre desconhecida; Zeferina, que participou, em 1826, de uma revolta no Quilombo do Urubu, nas cercanias de Salvador. Nessa ocasião, tomou a dianteira e animou um grupo de escravos refugiados para que se amotinasse contra as tropas do governo imperial.

Enfim, com certeza os exemplos poderiam se multiplicar. Mas minha intenção é apenas prestar uma pequena homenagem à data de “desaniversário das mulheres”. Deixo também uma pequena lista de mulheres que se destacaram em nossa história pregressa, até os idos da Primeira República — muitas delas anônimas; outras pouco conhecidas. Esses poucos, mas significativos, casos servem para iluminar o passado brasileiro a partir de outro ângulo, outra abertura. Por essa fresta podemos observar como várias mulheres atuaram na vanguarda política, social e cultural, não apenas como coadjuvantes, mas na dianteira da nossa narrativa nacional, que vai se fazendo com grandes atos e outros, mais cotidianos, mas igualmente éticos, paladinos a seu modo, cidadão no dia a dia.

Toda narrativa histórica é feita de muitas lembranças e de numerosos esquecimentos. Se a nossa foi escrita até agora, majoritariamente por homens, cabe a nós arregaçarmos as mangas e tirar esses nomes tão importantes da poeira dos arquivos.

“Feliz desaniversário” para todas e todos nós, e vamos lá fazer essa lista crescer como se fosse fermento de bolo. Começo com o período colonial, na próxima semana entramos no Império, para depois invadir a República. Conto com a participação de vocês.

PERÍODO COLONIAL

  • Ana Paes d’Altro ou Ana de Holanda (1605-?) — Dona de um engenho que abrigava as mulheres e filhas dos principais líderes da revolta pernambucana contra o domínio holandês no Brasil. O engenho de Ana Paes foi palco de um dos combates mais violentos da guerra contra os holandeses, ocorrido em 17 de agosto de 1645, que resultou na vitória das forças luso-brasileiras. Por conta do episódio, o engenho de Ana Paes acabou conhecido como a Casa Forte, que deu nome à batalha e ao bairro do Recife.
  • Hipólita Jacinta Teixeira de Melo (1748-?) — Participou da Conjuração Mineira, disponibilizando suas fazendas para reuniões dos inconfidentes. É de sua autoria a carta de denúncia da traição de Joaquim Silvério dos Reis. Em razão de sua participação ativa na conjuração, perdeu todos os bens.
  • Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832) — Conhecida como “Dona Bárbara”, participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Sua casa na cidade de Crato, no sul do Ceará, foi sede de reuniões dos rebeldes de Pernambuco. Após a proclamação da República por seu filho, José Martiniano, “Dona Bárbara” e outros revoltosos foram presos e enviados a Fortaleza. Quando foi solta, três anos depois, ainda participou da Confederação do Equador.
  • Carlota Joaquina (1775-1830) — Infanta da Espanha e rainha de Portugal e de seu império, filha primogênita do rei d. Carlos IV de Espanha, casou-se com o príncipe (e depois rei) d. João VI de Portugal. Carlota tornou-se princesa-regente Consorte de Portugal quando seu marido, com a morte do irmão e a alienação da mãe — d. Maria I — virou o futuro herdeiro do trono. Ela passou para a nossa história como uma espécie de louca indomável, quando, na verdade, tinha, ela própria, autonomia em suas decisões políticas e até pessoais. Sempre tramou contra o poder de seu marido, e foi leal ao reino de Espanha. Viveu às turras com d. João e boa parte separada dele: em Portugal, morava em Queluz e ele, em Mafra; no Brasil, num Paço no centro do Rio, já seu marido, no Paço Real. Na historiografia oficial foi sempre descrita e criticada por conta de seus casos amorosos e por sua “feiura”. Incrível como no caso das mulheres a beleza é fundamental, e como autonomia vira sinônimo de “sexo alvoroçado”, como definiu, tempos atrás, o historiador Octávio Tarquínio.
  • Maria Quitéria de Jesus (1792-1853) — Ao saber da criação do movimento pró-independência, mesmo proibida pelo pai, fugiu, cortou o cabelo e pegou a farda de seu cunhado. Assim, ingressou no regimento de artilharia. Foi condecorada por d. Pedro I com a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro em homenagem à sua participação na guerra.

P.S.: Como escrevi antes, essa é apenas uma pequena lista; quase um lembrete. Agradeço à Heloísa Starling e ao pessoal do Projeto República, da UFMG, por ter elaborado comigo essa primeira relação.

Na próxima semana, Lilia Moritz Schwarcz apresenta mais mulheres que fizeram história no Brasil. 

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.