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Triste fim

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. Lilia Moritz Schwarcz, que está escrevendo a biografia do autor, estreia a série de posts que serão publicados no blog durante todo este mês.

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Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. Esse era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro e o texto de Lima figurou na seção “Folhetim do Jornal do Comércio”; gênero que se convertera numa coqueluche da cidade. Geralmente escandalosos, os folhetins garantiam o desenrolar de tramas rocambolescas com finais diários sempre emocionante. E Triste fim não fugiria à regra. Dividido em 52 folhetins trazia três diferentes partes com desfechos “tristes”: primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público; segundo, quando há a falência do sítio do herói; e terceiro, com o personagem se voluntariando para o exército; preso e desiludido com a República.

A obra só apareceu sob a forma de livro em dezembro de 1915: praticamente 100 anos atrás. Lima pagou pessoalmente para ver a única edição de Triste fim que conheceu em vida. Em março de 1917, no seu Diário anotou: “Devo unicamente ao Lima pela impressão do Policarpo”. No ano de 1916 assim se referia à publicação: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco. Tomei dinheiro daqui e dali… Audaces fortuna juvat”. O livro representava uma cartada profissional importante para Lima Barreto, e por isso a audácia não tinha preço. Afinal, o autor queixava-se sempre da pouca evidência como escritor — nessa que era também uma República das Letras — e não se pode dizer que seu livro de estreia tenha ajudado.

Lima Barreto havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha em 1909, livro que lhe conferira certa notoriedade, mas custara também caro (e em outro sentido): nele, Lima fazia sérias críticas ao racismo vigente e denunciava a “imprensa burguesa” como o “4o poder da República”. A obra desnudava bastidores do jornal Correio da Manhã e práticas de jornalistas colegas, todos com codinomes facilmente identificáveis. Por isso, com grande dose de premonição, escrevera: “Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá”.

Lima Barreto parece ter pago caro demais, em mais outro sentido. Triste fim era livro muito mais bem-acabado do que Recordações. No entanto, era irônico e alusivo, apesar de recuar ao tempo passado. E mais uma vez o livro foi recebido com um grande silêncio. Apesar da pouca repercussão, o jornal A Época do dia 18 de fevereiro de 1916 deu na primeira página uma entrevista acompanhada de resenha favorável à obra. Entre outros, a matéria destacava o lado marginal do autor e sua origem “suburbana”. “No Rio de Janeiro, não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios: seu elemento é a rua. Pergunta-se a qualquer pessoa: “Tu viste o Lima?”. Ela responderá: ‘Vi-o hoje, pela manhã, jogando bilhar.’ (…) Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria e fomos encontrá-lo em uma brasserie.”

Mas Triste fim não era apenas mais um retrato “triste” de seu autor. Ele traduziria um pouco de tudo: o lugar marginal de Lima, a situação declinante de sua família, mas também o ambiente conturbado e a fragilidade do nosso nacionalismo. Lima recua, porém, aos idos de 1893, período em que começava a Revolta da Armada; que sacudiu o país. A circunstância não lhe poderia ser mais significativa. Foi em 1890 que seu pai, João Henrique é demitido da imprensa nacional, sob alegação de conivência com a monarquia. Por ingerências de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, poderoso político do Império, João Henrique aceita emprego como escriturário das Colônias de Alienados na Ilha do Governador. Nesse meio tempo, Lima Barreto é matriculado como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense e entra na Politécnica. Mas a calmaria duraria pouco. No ano seguinte, o presidente Deodoro da Fonseca fecha o Congresso; frente à pressão política pede demissão, sendo sucedido num contragolpe por seu vice, Floriano Peixoto.

O próprio pai de Lima seria diagnosticado como neurastênico, uma doença mental que o obrigaria a ficar recolhido pelo resto da vida. Por isso, loucura é metáfora pessoal e social para pensar o público e o privado, e a sina do país. Ajuda a pensar também no escritor, sua falta de sorte, e a pouca fortuna do nosso Estado.

Na vida pessoal, a história de Lima daria, então, uma guinada — ele abandona a Politécnica, atua como arrimo de família na condição de Amanuense do Ministério da Guerra, e muda-se para o subúrbio de Todos os Santos. Já nosso Triste fim ficaria imortalizado por conta da sua galeria de tipos impagáveis, que não se prendem à experiência íntima de seu autor. De um lado há Policarpo, “um visionário” e defensor das “coisas do Brasil”, tão pontual que servia de “relógio da vizinhança”. De outro, Floriano com seu “bigode caído; traços grosseiros, pobre de expressões, a não ser a da tristeza que não lhe era individual, mas nativa”. É também forte o contraste entre Ismênia a Olga: a primeira frágil como o pai de Lima, logo sucumbe à loucura; já Olga, afilhada de Policarpo, é a ética do major inscrita no corpo de mulher. Há também a contraposição entre o bondoso artista, Ricardo Coração dos Outros, e Genelício, empregado do tesouro que não passava de um “artista na bajulação”. Mas não existem heróis ou vilões no livro; eles são todos uns talvezes, na feliz expressão de Oliveira Lima. O general Albernaz e o contra-almirante Caldas ostentavam seus títulos com galhardia, mas nunca haviam participado de qualquer batalha. Doutor Florêncio “era mais guarda de encanamentos do que engenheiro”. E assim por diante, com cada figurante expressando seus dilemas. Ceticismo e otimismo; honestidade e contravenção; sanidade e loucura; progresso e decadência são dilemas desse momento que oscilava entre a profunda crença no futuro, o olhar saudoso para o passado, a descrença diante do porvir.

Obras como essa acabam por merecer várias redescobertas, muitas vezes relidas por questões do presente. Pensar nas ciladas do patriotismo, olhar com ceticismo para os projetos de nacionalidade, denunciar desigualdades fazem parte das muitas inspirações dessa obra, que se lê com facilidade, mas que permite várias esquinas de interpretação. Além do mais, sua crítica fina e bem-humorada não permite que o texto se torne datado. Há ironia até no nome do personagem central da narrativa. Policarpo significa aquele “que tem e produz muitos frutos”, a despeito da vida do herói não resultar em qualquer “produto”. Quaresma é também palavra de vários sentidos: significa o período de quarenta dias de jejum, que se segue ao sacrifício de Cristo; sacrifício entendido como ato de consagração, cujo desenlace pode ser triste mas igualmente fundar um pacto com a sociedade. O verbo “carpo” (que vem de carpir, chorar, lamentar) remete à ideia de tristeza, presente no título da obra. Por fim, Quaresma é também um tipo de coqueiro; essa árvore presente já nos nossos primeiros mapas seiscentistas. Policarpo Quaresma seria assim um pouco de tudo: uma espécie de Cristo ressabiado dessa nacionalidade tropical; um líder melancólico de um novo e eterno porvir. Pois livros bons são assim mesmo: não se deixam apanhar e desfazem das pistas que eles próprios deixam. Triste fim de Policarpo Quaresma faz 100 anos, cada vez mais jovem.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Lima Barreto subversivo, por Felipe Botelho Correa

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

9 livros para quem ama fotografia

No dia 19 de agosto comemoramos o Dia Mundial da Fotografia. Mesmo dizendo que uma imagem “vale mais que mil palavras”, é grande a variedade de livros que tratam sobre a fotografia, apresentando relatos sobre as grandes imagens já registradas. Pensando nisso, selecionamos nove leituras para quem ama fotografias e quer saber mais sobre elas, e também para aqueles que querem conhecer (ou rever) os trabalhos de grandes fotógrafos. Confira!

1- Por trás daquela foto, organizado por Lilia Moritz Schwarcz e Thyago Nogueira

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Em Por trás daquela foto, um time de oito autores brasileiros dedica-se a ler as linhas e entrelinhas de fotografias que eles mesmos escolheram, e a partir delas contam a história do país, fazem relatos pessoais e até enveredam pela ficção. Nina Horta, Humberto Werneck, Arthur Netrovski, Moacyr Scliar, Reginaldo Prandi, Lilia Moritz Schwarcz, Alberto Martins e Pedro Vasquez escrevem sobre fotos de Bob Wolfenson, Paulo Leite, Pierre Verger e outros fotógrafos, mostrando como cada fotografia guarda uma narrativa, com personagens, valores e culturas.

2- Fotografia e império, de Natalia Brizuela

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A íntima relação entre o Império brasileiro e a mídia fotográfica é o ponto de partida deste estudo sobre a história das representações – uma obra que se torna ainda mais interessante quando consideramos que sua autora é argentina. Natalia Brizuela contempla, analisa e interpreta uma série de imagens produzidas no Brasil por fotógrafos (em sua maioria) europeus ao longo do século XIX , desvelando a oscilante relação entre as representações da realidade, os mecanismos do desejo e a construção de geografias imaginárias.

3- Elogiemos os homens ilustres, de James Rufus Agee e Walker Evans

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Para produzir uma grande reportagem para a revista Fortune, o escritor e jornalista James Agee e o fotógrafo Walker Evans aprofundaram-se no sul dos Estados Unidos, em 1936, com o objetivo de retratar os efeitos da Grande Depressão que assolava o país. Durante quatro semanas, conviveram com três famílias de meeiros pobres do Alabama, numa relação tão próxima que chegaram a dormir na choupana de uma delas e a flertar com uma garota de outra família. O resultado dessa experiência extrapolou largamente os limites do que era conhecido como boa reportagem, e a matéria nunca chegou a ser publicada na imprensa. Com o texto reeditado para o formato de livro, a reportagem foi publicada em 1941, e a aventura de Agee e Evans tornou-se desde então referência obrigatória para os estudos de jornalismo, literatura e antropologia.

4- Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith (organizado por Joaquim Vieira)

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Essa dica é tanto para quem gosta de fotografia quanto de literatura! Concebido por um editor experiente e por um dos grandes especialistas em Fernando Pessoa, o livro apresenta centenas de imagens inéditas e conhecidas do poeta e sua família, desde os primeiros anos de vida do autor – incluindo fotos, desenhos, caricaturas, cartas, diários, rascunhos, manuscritos e datiloscritos, reproduções de jornais e revistas em que publicou, além de obras de arte feitas em homenagem a Pessoa.

5- Sobre fotografia, de Susan Sontag

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Sobre fotografia foi o ganhador do National Book Critic Circle Award de 1977. Livro que fez história no âmbito dos estudos da imagem, reúne seis ensaios de Susan Sontag escritos na década de 70, em que a romancista e filósofa analisa a fotografia como fenômeno de civilização desde o aparecimento do daguerreótipo, no século XIX. O resultado é uma história social da visão, demonstrando seu lugar central na cultura contemporânea.

6- 8 X fotografia, organizado por Lilia Moritz Schwarcz e Lorenzo Mammì

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Convidados pelo crítico de arte Lorenzo Mammì e pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, professores, críticos e um fotógrafo profissional elegeram livremente uma fotografia e a tomaram como ponto de partida para construir ensaios luminosos e originais. Questionando concepções consagradas, e muitas vezes equivocadas, os textos refletem sobre as mais variadas imagens, aproximando a fotografia da filosofia, do corpo, do tempo, da política e da memória familiar.

7- Outras Américasde Sebastião Salgado

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Em Outras Américas, Sebastião Salgado, um dos grandes fotógrafos brasileiros, registra os povos indígenas da América Latina, resultado de um trabalho que foi iniciado em 1977 e exigiu sete anos para ser concluído. Para realizá-lo, Salgado percorreu desde o litoral do Nordeste brasileiro às montanhas do Chile e daí à Bolívia, ao Peru, ao Equador, à Guatemala, ao México. Com sua estética que se põe a serviço da militância ética, Sebastião Salgado cria uma narrativa visual que muitas vezes obriga o leitor a constatar: é indiscutível a beleza das fotos, mas é terrível o mundo que elas retratam.

8- Da minha terra à Terra, de Sebastião Salgado

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Falando de Sebastião Salgado, o fotógrafo, junto com a jornalista Isabelle Francq, publicou em 2014 a sua autobiografia, em que pela primeira vez faz um relato sobre as suas origens e os bastidores de seus principais trabalhos fotográficos. Em Da minha terra à Terra, publicado pelo selo Paralela, o leitor se encontra com a autenticidade de um homem que sabe como poucos combinar militância, profissionalismo, talento e generosidade.

9- Um olhar sobre o Brasil, de Boris Kossoy e Lilia Moritz Schwarcz

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Publicado pela Editora Objetiva, Um olhar sobre o Brasil faz parte da coleção História do Brasil Nação. O volume repassa em 459 imagens os últimos 170 anos da trajetória histórica do Brasil, cobrindo o período de 1833 a 2003,  incluindo imagens emblemáticas, selecionadas a partir de um extenso garimpo em arquivos públicos e coleções privadas, que demarcam o aparecimento da fotografia no país e sua crescente importância para a historiografia nacional.

Imagem não é ilustração ou lustro

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Lilia Moritz Schwarcz durante a visita guiada no Museu de Belas Artes.

No dia 2 de junho deste ano, Heloisa Starling e eu fomos lançar Brasil: Uma biografia no Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O lançamento contava com um programa vasto e, além do debate com o Professor José Murilo de Carvalho, fazia parte da atividade uma visita ao acervo do museu carioca, conhecido, entre outros, por sua excelente coleção de arte acadêmica brasileira.

Às 17h daquele dia, lá estavam sessenta professores para discutirmos juntos algumas pinturas expostas no Museu, e assim “lermos imagens”.

Impressiona como, muitas vezes, essas instituições passam quase que despercebidas no nosso cotidiano, como se os portões solenes e a arquitetura imponente, ou até mesmo os vigias sempre guardando a entrada, cumprissem o papel de desanimar todo aquele que passa por esses verdadeiros patrimônios nacionais, mas infelizmente pouco conhecidos de todos nós.

O MBA possui em seu acervo algumas das obras mais emblemáticas da nossa cultura visual. Até porque, muitas vezes, nos acostumamos a pensar num evento do passado a partir de uma imagem — seja ela uma foto, uma pintura, um mapa, uma gravura —, que se cola na cabeça de cada um de nós feito tatuagem.

Por exemplo, por que será que A primeira missa, do pintor Victor Meireles, consta sempre nos capítulos sobre História Colonial dos nossos livros didáticos? Por que será que acabamos sendo socializados com a ideia de que ela seria a nossa verdadeira “certidão de nascimento”? Pois ela é, mas também não é!

Na verdade, essa imensa tela fala mais sobre o Segundo Reinado do que sobre nosso descobrimento. Afinal, se muitas vezes somos “afiados” e queremos saber tudo sobre um documento escrito — sua data de origem, autoria, conteúdo, recepção —, já no caso das imagens ficamos com a falsa e ingênua sensação de que elas falam por si só. Mais uma vez, elas falam e não falam.

É claro que podemos avaliar uma tela a partir do que ela nos revela como experiência estética. Mas é também possível perguntar sobre as “razões” de um quadro, os problemas que ele carrega e as muitas histórias que fazem parte da produção da obra.

A primeira missa é resultado de uma encomenda do mecenato de Pedro II e foi seguida à risca, no sentido de manter coerência dentro das diretrizes determinadas pelo Paço. “Lê Caminha e caminha”, aconselharia Paulo Barbosa, o poderoso mordomo do Imperador, a Victor Meireles, revelando como a ideia era recuar ao momento fundador do país — quando o Brasil era Brazil, ou melhor, uma América portuguesa —, como já carregávamos, mesmo nessas priscas eras, “um destino pré-determinado”: o de sermos um povo pacífico, irmanado e cordato. Nada de guerras, nada de conflitos, apenas uma grande consagração — um encontro fortuito nos idos de 1500 —, com a Igreja rodeada pelo Estado e os indígenas a tudo assistindo. Aliás, não é coincidência o fato do Império ter criado um indigenismo de fundo romântico e ter se voltado para um período sem tempo, data e local — um tempo mítico —, onde sobretudo não existiriam escravos, ao menos africanos.

A escravidão era a grande contradição desse império, que divulgava no país e fora dele a imagem de uma nação tropical e civilizada. Difícil, porém, garantir essa (boa) representação e ao mesmo tempo justificar um sistema de trabalhos forçados, pautado na violência de um homem sobre o outro.

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Não é preciso andar muito pelos corredores do Museu para se chegar a outra tela, ainda maior em termos de dimensão e de investimento por parte do Segundo Reinado. Praticamente lado a lado, como sempre estiveram originalmente quando foram apresentados na Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes de 1872, encontram-se dispostas duas outras telas igualmente simbólicas quando se quer narrar a história do Brasil.

Batalha do Avahy, de Pedro Américo, e Batalha de Guararapes, de Victor Meireles. Dois artistas comissionados por Pedro II — e seus diletos —, os pintores produziram dois trabalhos encomendados ao mesmo tempo, no final da Guerra do Paraguai, nos idos de 1870, mas que apresentam ambientes basicamente opostos.

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No primeiro, Pedro Américo figurou o exército imperial brasileiro — sempre uniformizado, leal e a cavalo — como a “civilização”, e o comando paraguaio — com os dorsos nus, patuás aos pescoços, e cometendo atos vis, como roubar carteiras dos mortos ou não proteger colegas indefesos — como a representação do outro lado, o da “barbárie”. Assim, depois de uma Guerra que prometeu ser breve e durou cinco longos e custosos anos; de um conflito que dizimou quase uma geração masculina paraguaia inteira e cuja aliança foi chamada de “Tríplice Infâmia”, o Império tentou “caprichar” na sua imagem a partir da encomenda e comissionamento de duas grandes pinturas históricas e patrióticas.

Mas era tarde demais: sabe-se como a Guerra do Paraguai marcou o apogeu mas também o começo da decadência do Império, e isso fica claro na própria crítica de época. O público aclamou a arte presente na imensa tela de Pedro Américo, mas julgou-a, igualmente, muito violenta. Também sobraram comentários à boca pequena contra o fato desse pintor colocar negros lutando e em situações heroicas bem no meio da batalha. Não era desconhecido o procedimento de alguns senhores que libertaram e enviaram ex-escravos para o cenário da guerra — livrando-se assim, eles próprios, de participar do combate. Mas essa era uma cena muda: pouco comentada.

Muito diferente era a tela de Meireles. Prudente, e diferente de Pedro Américo, o artista preferiu não tratar de uma batalha recente. Isto é, se Batalha do Avay fazia parte do ciclo de eventos sangrentos que marcou o final da Guerra — as famosas Dezembradas —, já nosso moderado Meireles optou em recuar à época da expulsão dos holandeses. Nada como afastar o tempo e assim ganhar uma perspectiva mais “equilibrada” ou ao menos distante.

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A tela, no entanto, é igualmente ideológica ao figurar a vitória brasileira contra os “estrangeiros holandeses” a partir da união de três raças: brancos, negros e índios.

Mas dizem que a pintura era tão artificial que padeceu de sorte oposta. O público que afluiu à exposição achou que ela era pacífica demais, artificial demais e que os cavalos mais lembravam brinquedos ou um carrossel de parquinho de diversões.

Tanto é verdade que o cartunista Angelo Agostini ironizou a disputa, à época, dizendo que os combatentes da “Batalha do Avahy” haviam resolvido sair da tela de Américo e invadir a de Meirelles.

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Para além da batalha pictórica interna, vale mais comentar qual a ideia que organizou esse passeio pelo Museu. Quadros, fotografias, desenhos, mapas não são documentos ingênuos. Ao contrário, contam suas próprias histórias.

Historiadores e cientistas sociais não são críticos de arte — sabemos bem — mas podem ajudar nesse debate, mostrando os bastidores das telas, a autoria das imagens, a importância do contexto.

Mais do que “ilustrar”, no sentido de trazer lustro a uma argumentação prévia, mais do que reflexos inertes, as imagens povoam nossas verdades, nossos costumes, nossa imaginação e as teorias mais arraigadas. Elas não são produto da realidade, mas ajudam a produzi-la. Nada como rever nossas imagens que muitas vezes se tornam uma memória fácil e habitam nossos livros como se fossem meros adereços. Não são!

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13865_gComeçamos aqui, Heloisa Starling e eu, uma espécie de “Diário dos lançamentos”  que temos feito pelo Brasil afora, sempre conversando com professores. Nossa próxima “parada” será uma aula show na próxima FLIP, que foi chamada de “Brasil: uma aula”. O evento ocorrerá na sexta-feira, dia 3 de julho, às 13h30 na Tenda dos autores. No dia seguinte, dia 4 de julho, teremos uma sessão só para professores na Casa da Cultura de Paraty, às 14h30.

Os ingressos para a mesa “Brasil: uma aula”, na FLIP, estão à venda. Saiba mais.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Um complexo e conturbado personagem

Por Wander Melo Miranda

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1. O livro

Uma grafia da vida de um personagem, no caso o Brasil, do seu nascimento à maturidade — ou do seu longo e inconcluso nascimento. Como sabemos, nação vem de natio, “nascer”. Mas, diferentemente das biografias comuns, a vida continua em aberto — pode-se, então, sempre recomeçar: dizem as autoras no final — “feita a opção democrática, também a Republica pode recomeçar” (p. 508).

Em contraste com sua vida, cheia de percalços, avanços e recuos, a grafia do Brasil: Uma biografia corre solta, flui, surpreende e estimula o leitor a seguir adiante, com a leveza e o humor de um texto que se marca pela sua natureza ensaística, pela incorporação de quem narra ao narrado, a léguas de distância das insossas “histórias” do Brasil que temos habitualmente de enfrentar. Por exemplo, ao concluírem a análise da construção de Brasília e da vocação modernista que a cidade representa, as autoras assinalam: “[Brasília] também sustentou as condições para tornar o poder da República mais asséptico, mais isolado, mais vaidoso, mais arrogante” (p. 428). A adjetivação é deliciosa na sua ousada gradação! Outro exemplo: um capítulo sobre a independência do Brasil recebe o título de: “Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho” (p. 7), apropriando-se com ironia de um aforisma popular.

Tudo nessa biografia foge ao comum, em se tratando do biografado: o texto se constrói por figuração narrativa dos eventos, o que quer dizer que são várias as perspectivas de abordagem de um acontecimento, que vão do público às suas reverberações no privado, na vida de cada um, e vice-versa. Assim, para se falar da chegada de D. João, fala-se das ruelas que vai encontrar no Rio, dos escravos que circulam pelas ruas, das casas de pau a pique — enfim, da desajeitada monarquia nos trópicos, já se tem desde o início um índice iluminador.

Há também um conjunto de imagens significativas, com legendas com textos explicativos. Não são meras ilustrações, são um outro conjunto narrativo que suplementa o conjunto maior e nele se dissemina com força icástica. Isso sem falar na cronologia final, que começa em cerca de 30.000 a.c. com o início do povoamento do continente americano e vai até 2013, tratando de Brasil, Portugal e do mundo. É importante ressaltar também a extensa e atualizada bibliografia que sustenta a argumentação e lhe dá estofo teórico e metodológico incomum. Sem que o texto perca a graça, vale repetir.

2. As autoras

Em “Apesar de dependente, universal” (1980), Silviano Santiago diz o seguinte:

“O intelectual brasileiro, no século XX, vive o drama de ter de recorrer a um discurso histórico, que o explica, mas que o destruiu, e a um discurso antropológico, que não mais o explica, mas fala do seu ser enquanto destruição (…) Como ‘explicar’ a ‘nossa constituição’?. Nenhum discurso disciplinar o poderá fazer sozinho. Pela História universal, somos explicados e destruídos, porque vivemos uma ficção desde que fizeram da história europeia a nossa estória. Pela Antropologia, somos constituídos e não somos explicados, já que o que é superstição para a História, constitui a realidade concreta do nosso passado.” (p. 17-18)

A aporia resolve-se, felizmente, no século XXI com trabalhos como Brasil: Uma biografia. Lilia e Heloisa, uma antropóloga-historiadora e uma historiadora-antropóloga, superam o impasse colocando-se e nos colocando em cheio entre o “não ser e o ser outro”, na notável expressão de Paulo Emílio, não mais como um estigma, mas como um elemento mobilizador da nossa identidade sempre em diferença. Por isso, talvez, nossa cidadania corra sempre o risco de ser postergada, como se houvesse um gap intransponível entre desejo e realização.

A quatro mãos, as experientes pesquisadoras conseguem passar para o leitor — qualquer leitor, categoria em que me incluo — o enfrentamento problema que é o nosso complexo e conturbado personagem. A síntese não compromete o detalhe, a reflexão acirrada não é obstáculo para a fluidez do relato: um equilíbrio difícil de obter, mas que nossas duas escritoras conseguem alcançar com a tranquilidade de quem sabe onde pisa, ou o que escreve.

3. O personagem

Terminada a leitura do livro, o Brasil se revela múltiplo nas suas demandas — muitas delas ainda não satisfeitas — e carente de um traço distintivo forte o bastante para torná-lo uma das forças decisivas em jogo no mundo globalizado. Será por que ainda estamos presos à equação oswaldiana Tupi or not tupi that is the question, epígrafe (e elas são um outro relato) da conclusão do livro? Há aí certa melancolia, ou me equivoco, quando se cita junto outro trecho de Oswald de Andrade?

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português. (“Erro de português”)

A certa altura se diz que entre nós “a democracia convive perversamente com a injustiça social” (p. 502). Talvez essa equação paradoxal defina nossa difícil contemporaneidade, a que a biografia que estamos lendo oferece inúmeras possibilidades de resolução. É ler para crer!

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Wander Melo Miranda é professor de teoria da literatura e literatura comparada na Universidade Federal de Minas Gerais e diretor da Editora UFMG.

Uma amizade (im)possível: encontro entre disciplinas

Por Márcia Celestini Vaz

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Ilustração de Spacca para o livro Uma amizade (im)possível, de Lilia Moritz Schwarcz.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Márcia Celestini Vaz, do colégio COC SAPIENS em São Paulo, e a sequência didática elaborada por ela com base na adoção do livro Uma amizade (im)possível – As aventuras de Pedro e Aukê no Brasil colonial.

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No 1o bimestre do 4o ano do EFI do COC SAPIENS, desenvolvemos uma sequência didática para integrar as disciplinas de língua portuguesa, produção textual e história. Este trabalho chama-se “Projeto Leitura” e aplica-se a todos os anos do ciclo escolar, com focos específicos, considerando diferentes gêneros textuais. As expectativas para esta série se concentram na diversidade de estratégias que possam levar o estudante a aprofundar suas habilidades iniciais como leitor. Com esse objetivo, os alunos devem ler uma narrativa transpondo seus elementos constituintes (personagens, cenários, enredo, tempo e foco narrativo) e também sua estrutura básica (apresentação de uma situação inicial, conflito, clímax e desfecho).

Pretende-se que o aluno tenha a oportunidade de desenvolver certa inquietação previamente lançada: como se descolar dessa base textual e começar a fazer perguntas ao texto de modo autônomo e crítico? Em outras palavras, essa inquietação deve levar o aluno a associar fatos, ideias e temas; relacionar informações, dados, conceitos; e inferir, de modo coerente, levantando hipóteses, refutando ou afirmando-as. O olhar da investigação começa assim.

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Considerando-se os diversos níveis de leitura e partindo-se do pressuposto de que a escola é a principal “agência formadora” desse olhar de investigação, a intenção do Projeto é fazer com que o aluno, gradativamente, transporte-se do olhar fragmentado, do olhar ingênuo que não questiona, para um olhar que pergunta, critica, desconfia… desvela.

Fundamental para o processo de aprendizagem, esse olhar faz o leitor suspender sua visão do texto e começar a indagar: “por que impossível?”, “por que (im)possível?”. Além de começar a perceber que um prefixo muda todo o significado da palavra, descobre que o impossível pode tornar-se possível, que o desconhecido, inabitado e escuro começa a se revelar quando se deixa conduzir pela “voz” do texto, pelo foco narrativo, pelo enredo, pelas personagens, que, em atuação, mostram universos antes nunca percebidos. Esse é o navegar proposto pelo livro, ao fazer a junção entre a História e a Literatura. Por meio desse universo tão familiar à criança, o poético, revela-se que o outro, a História, à primeira vista tão distante e inatingível, pode ser visto, entendido, apreendido.

E assim tem início nossa jornada…

Logo no princípio do ano, e como atividade de “aquecimento” para a leitura da obra Uma amizade (im)possível, os alunos são desafiados a se desprender de outro texto (a professora lê um livro desconhecido pelas crianças sem apresentar capa e título originais). Após a leitura (feita duas vezes, em aula e na íntegra), um aluno de cada turma (são duas as classes de 4o ano) reconta oralmente, com suas próprias palavras, o enredo. Após essa fase coletiva de releitura, os alunos partem para a produção individual de reconto, que inclui uma capa com ilustrações e títulos elaborados pelo próprio estudante. Essas escritas e representações visuais são, em um terceiro momento, comparadas ao texto original. O objetivo é, portanto, observar se um aluno de 4o ano, com nove anos em média, consegue retomar a sequência narrativa de um texto apenas de ouvido e como ele representa por imagens e pelo título o tema central da história.

Com esse primeiro “aquecimento”, passamos à segunda fase do Projeto, quando o livro Uma amizade (im)possível é apresentado ao aluno. Após a exploração da capa, estimulamos a antecipação de informações, o conhecimento prévio dos alunos sobre o possível tema a ser tratado no livro e, finalmente, iniciamos a leitura da obra.

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Neste momento do trabalho, recebemos a dupla de contadores de histórias, a Cia. Ruído Rosa, para uma apresentação sobre o livro estudado. Tal atividade faz parte do projeto Adote Novas Histórias, da Companhia das Letras, por meio do qual as escolas são contempladas com a contação do livro adotado — Uma amizade (im)possível faz parte dos livros que integram esse projeto da editora.

A dupla, então, desenvolve uma performance ressaltando as questões relacionadas a uma leitura crítica. O início da apresentação mencionou um dos aspectos centrais do livro: a polêmica sobre o “descobrimento” do Brasil. A dupla entrou na telessala informalmente: “Ah, descobrimos a sala da contação!”, “Não, não descobrimos! Achamos! A sala e as pessoas já estavam aqui, já existiam, antes de chegarmos!”.

A partir da amizade entre um índio criança, Aukê, e Pedro, a criança portuguesa, os alunos se envolveram com a narrativa e com os fatos e referências históricas. A viagem entre realidade e ficção se inicia pelo título e suas leituras (im)possíveis. O leitor é convidado a refletir, por exemplo, acerca da concepção que se tinha do mundo antes das grandes navegações (o oceano acaba em um precipício? existem monstros marinhos?); sobre os vários “ãos” e seus desdobramentos: exploração, aculturação, (des)caracterização; sobre a diversidade cultural e étnica expressa em hábitos alimentares, de higiene pessoal, em vestimentas… e na língua!

A leitura e a performance dos contadores sobrepõem textos que revelam as duas culturas em interação. As atividades do Projeto prosseguem, com leitura e compreensão do texto, reconto, comparação entre o texto lido e a apresentação vista, com discussões e reflexões sobre a história e a ficção.

Toda essa sequência parte de um retorno ao texto-livro, para uma segunda leitura, essa de compreensão, uma vez que as turmas foram estimuladas, pela contação, a visualizar personagens, espaços, diferenças. Em seguida, assim como fizeram na atividade de “aquecimento”, os alunos são estimulados a recontar o texto, agora fixando os detalhes, investindo em recursos de linguagem, acionando a memória textual e visual. Depois, conduzidos pelas professoras, partem para a “leitura comparativa” entre o livro e a contação (o que há de diferente e de semelhante entre o lido e o visto?). Por fim, descobrem as artimanhas da literatura, da ficção, para fisgar o leitor e fazê-lo da história entrar na História.

Uma amizade (im)possível — livro e contação — faz o leitor se transformar em um navegador: para além do que se apresenta em um texto, o que posso descobrir?… Ou seria achar?

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Marcia Celestini Vaz é Coordenadora da Área de Linguagens, Códigos e Tecnologias do colégio COC SAPIENS, de Osasco – SP.