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Cores são linguagens

Por Lilia Moritz Schwarcz

brasil

Qual a diferença entre falar o idioma materno e falar um idioma que se adquire?

Regras das salas de aula de inglês, francês, espanhol, japonês, alemão, o que for, costumam funcionar bem no ambiente protegido da “escola de línguas”. Basta, porém, colocar os pés em outro país para se notar que ser estrangeiro significa, sobretudo, não dominar o manejo complicado da maneira como se fala, quando se fala e o que se fala.

E se, a começar pela fala, cada nação cria os seus próprios problemas, códigos, enigmas e desafios, a nossa não foge à regra. Não há quem desconheça que somos todos, por aqui, catedráticos no uso e na negociação em torno das cores.

No Brasil, com grande facilidade, e na linguagem do dia a dia, manipulamos cores. Por sinal, faz muito tempo que o conceito de “cor” vem substituindo a noção de raça, num uso mais fluído, mas não menos perverso.

Cor pode até ser um conceito mais elástico, mas nem por isso é avesso à delimitação de hierarquias rígidas e regimes de inclusão e de exclusão social. De um lado, dependendo da situação, da hora, da companhia, do local, do momento, um entrevistado, um amigo (e nós mesmos) mudamos de cor — como se troca de meia. De outro, sabemos muito bem que não há nada de inocente nessa cartografia de tons e meio tons.

Desde a época da “civilização da cana” — nos idos dos séculos XVI e XVII — já fazíamos um paralelo entre as colorações do açúcar e sua pureza. Quanto mais branco, melhor a qualidade; mais escuro, o oposto, sendo o produto nem ao menos digno de exportação. O mesmo tratamento recebiam os escravizados: se sua cor de pele fosse mais branqueada, tinham muito mais chance de lutar por uma alforria e de recebê-la.

Essa verdadeira lente colorida continuou vigente e se transmutou numa série de novas teorias. O primeiro concurso realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, chamava-se “Como se deve escrever a história do Brasil”. O vencedor, o bávaro K. F. Von Martius, propôs novo paralelo colorido. O Brasil seria como um grande rio (branco), banhado por rios mais diminutos (um negro e outro indígena), os quais levavam, todos, a uma grande civilização. Como se vê, aqui havia mistura, mas também hierarquia, expressa no tamanho variado dos afluentes. No século XIX, os modelos deterministas raciais previam uma evolução única e progressiva, repetindo a metáfora do doce: o branco no alto da pirâmide social; populações mestiças, bem abaixo. No início do século XX, o Brasil foi o único país da assim chamada América Latina convidado a participar do Congresso Internacional das Raças, de 1906. Levou a tese de João Batista Lacerda, “Sur les Metis”, que dizia que em três gerações seríamos brancos: gregos até. Não contente, o médico ilustrou suas palavras com a tela do artista acadêmico Modesto Brocos chamada Redenção de Can, 1895, em que, numa metáfora, dessa vez bíblica, vemos nos extremos do quadro um pai português e uma avó africana — quase uma estátua de ébano. O pai sorri com orgulho; a avó agradece aos céus. No centro, uma mãe com traços suavizados traz ao colo uma criança branca de cabelos lisos. Era a inversão da maldição de Can. No caso do Brasil, “o branqueamento”, mais esse conceito afeito às cores, nos redimiria.

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De lá para cá fomos sofisticando nosso linguajar, assim como apurando nossa percepção social sobre o alcance das cores. Basta dizer que nosso censo é todo pautado nelas. Nos dividimos e classificamos assim: branco, negro, amarelo, indígena (vermelho), pardo. Se as quatro primeiras são cores primárias, a última é uma espécie de “etcétera”, um coringa da classificação, um sonoro NDA. Mas todos sabemos, com convicção, o que significa a cor pardo. Ela vem de pardal: esse pássaro de um marrom indefinido.

A partir dessa base passamos a manipular o uso das cores. Sabemos que, não raro, pessoas que enriquecem são vistas como “mais brancas”; cabelo bom, na linguagem popular, é cabelo liso; e até há pouco “pessoa de boa aparência” era uma maneira de não falar em cor.

Aliás, a polícia brasileira costuma ser “especialista” em cor. Basta dar uma olhada nas batidas no meio da madrugada, e mesmo durante o dia, para ter certeza como essa instituição carrega consigo uma régua de cor precisa.

Pois bem, para dar conta desse jogo travesso das cores, em 1976 foi feita uma pesquisa em que se perguntou aos brasileiros a sua cor. O resultado é esse grande arco-íris classificatório, composto por mais de 136 cores!

Não é o caso de analisar todos os termos, apenas destacar algumas recorrências. Em primeiro lugar, a grande incidência em torno do branco: uma espécie de símbolo local. Em segundo, as cores na fronteira — quase morena, meio branca, puxa para —, que mostram como aqui se manipulam tons e semi tons. Terceiro, diferenças de gênero: diminutivo para as mulheres; aumentativo para os homens. Por fim chamam atenção termos como “queimada de sol, tostada”, que parecem revelar que a cor é pensada como um estado transitório, não definitivo. Não se é de uma cor. Se está.

Claro que a situação é hoje muito diferente, e isso já desde os anos 1980, quando com os Movimentos Sociais o país acordou de vez para o tema do preconceito e do racismo vigentes no Brasil. Questão difícil num país que carrega a triste marca de ter sido o último a abolir a escravidão no Ocidente, ela se esconde e se apresenta a partir desse arco-íris social.

Foi justamente pensando nesse uso escorregadio das cores que a Companhia das Letras resolveu, na primeira edição de Brasil: uma biografia, apresentar capas do livro em dez cores e combinações diferentes. Esse é um tema forte neste trabalho que Heloisa Starling e eu escrevemos, e achamos que essa seria uma maneira de provocar o leitor com relação a esse difícil idioma nacional.

Cores são perversas na reposição cotidiana do preconceito e da discriminação.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lança com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Companhia apresenta: Brasil: uma biografia

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No começo de maio, a Companhia das Letras lança Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Com acesso a documentação inédita e vasta pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país. Nessa viagem de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais.

Inaugurando esta nova seção no blog, que apresentará com mais profundidade os futuros lançamentos da editora, entrevistamos Lilia e Heloisa sobre o livro, que já está em pré-venda. Leia o que elas dizem sobre o método escolhido, o recorte temporal, as inspirações e afiliações na historiografia e a necessidade de uma nova obra acessível ao público geral sobre a história do Brasil.

Por que fazer uma nova história geral do Brasil em 2015?

Existem muito boas histórias gerais do Brasil, mas poucas delas, arriscamos dizer, carregam as características que queremos perseguir nesse livro, como um todo.

Em primeiro lugar, mais do que apenas cronológico, o livro sustenta um argumento geral. Procura entender como o caminho para a democracia foi difícil e singular num país marcado pelo sistema escravocrata. Aliás, é bom lembrar que o Brasil contou com o mais duradouro sistema escravista da era moderna; aquele que absorveu a maior diáspora compulsória de africanos, e o único que tomou o território todo. Isso sem esquecer que o país foi o último a abolir a escravidão e sente suas consequências até hoje nas práticas clientelísticas, nos paternalismos, no preconceito ao trabalho, na corrupção interna.

Também cabe insistir em outra marca que encontramos no caminho e decidimos sublinhar. Ao longo da nossa história, a palavra liberdade foi expressa em épocas diferentes nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes personagens. Compreender o poder da palavra liberdade e o modo como ela se manifesta na origem dos caminhos da democracia brasileira ajuda a entender a longa jornada das lutas sociais do povo brasileiro. A democracia é hoje um dos mais fortes consensos no Brasil e sua consolidação constitui um dos nossos maiores legados para as próximas gerações de brasileiros. Mas de tanto ser banalizada, a ideia de democracia, e o longo processo de lutas que garantiu sua construção no país, é hoje mal conhecida por nosso povo, sobretudo pelos jovens.

Vale destacar, ainda, que recuamos ao período anterior à chegada dos portugueses, incorporando as novas teorias e pesquisas da etnologia, da história e da antropologia, que mostram as riquezas das sociedades ameríndias, em termos de mitologia e filosofias.

Outra novidade é o uso crítico das imagens, não como ilustrações, mas como documentos. Nós tentamos ressaltar a importância das narrativas contidas nas imagens, os significados que elas trazem e os efeitos que podem produzir sobre a realidade. Por exemplo: a fotografia de um treinamento de tortura realizado por um batalhão da Guarda Presidencial do Exército, em Brasília, afeta o curso da história oficial sobre o período da ditadura militar — revela que a versão das Forças Armadas não corresponde ao que aconteceu. Nós gostaríamos de convidar o leitor a também ler as imagens e descobrir junto conosco que elas falam de maneira eloquente sobre as circunstâncias e os motivos que fazem do Brasil, Brasil. Foi realizada, também, uma ampla pesquisa iconográfica, de maneira a ampliar o nosso acervo visual e não apenas devolver o que se conhece.

Quem sabe vale a pena destacar a relevância dessa escrita em diálogo. Nossa formação é comum, e também distinta (aliando história, mas também antropologia e ciência política), e nos especializamos em períodos e abordagens bastante diferentes. Heloisa é especialista na história de Minas, nas concepções de república e do republicanismo e no período contemporâneo: em particular a ditadura militar. Lilia trabalha com temas do final do período colonial, do império e primeira república. Também especializou-se em discutir a imagem como linguagem visual. Além do mais, se ambas trafegam pelos mesmos mares, Lilia sempre acentua a questão cultural e a antropologia, e Heloisa não se esquece da ciência política. Por conta dessa escrita mestiça (não como acomodação, mas sim diálogo) o livro introduz sempre cultura e política; política e cultura.

Por fim, é explícito no projeto a ideia de que não há como contar “a” história, mas, sim, “uma” história sobre o Brasil; ou melhor, algumas histórias sobre o Brasil. Ou ainda: tentamos fazer do Brasil uma história. Um projeto como esse é um convite ao leitor para embarcar conosco numa aventura, mas essa é uma viagem com roteiro explícito. Afinal, não se consegue escrever uma história exaustiva do Brasil — e é possível escrever um número interminável de histórias sobre o Brasil.

Qual é o recorte temporal?

O livro segue sistematicamente até a primeira eleição de FHC, a despeito de na sua conclusão avançar até o momento presente — o governo Dilma Rousseff —, alcançando as manifestações de junho de 2014, o processo de consolidação da nossa experiência democrática e os riscos que ela corre — daí as referências ao mensalão ou ao escândalo da Petrobrás. A ideia é que os governos de FHC e Lula, de alguma maneira, ainda estão em curso, até porque os dois líderes continuam atuantes e suas políticas permanecem presentes na nossa agenda. A primeira eleição de FHC e sua posse em 1995 marcam o fim do período de redemocratização e daqui para frente está tudo em aberto. Nossa aposta é que uma novíssima história do Brasil está — ou deveria estar — começando, e nós brasileiros temos grandes tarefas pela frente: recuperar a República, sustentar o desenvolvimento, ampliar a igualdade, acentuar a democracia… O tempo presente e os homens do presente são um pouco de cada um de nós e essa nova história ainda está em seu início.

Quais foram as principais inspirações para este livro?

Há muitas boas histórias gerais do Brasil e citamos apenas algumas. O grande projeto em vários volumes — História Geral das Civilizações —, organizado por Sergio Buarque de Holanda e depois por Boris Fausto, é sem dúvida um grande modelo ao unir os maiores estudiosos brasileiros e recortar temas gerais da nossa agenda. Mas a coleção, como toda coletânea de ensaios, tem altos e baixos, e os diferentes capítulos não obrigatoriamente dialogam entre si. Há também o livro de História do Brasil, de Boris Fausto, da Edusp, que representou um avanço imenso em termos de documentação, de crítica e de coerência historiográfica. Não há como se esquecer dos bons livros de colegas e jornalistas — Laurentino Gomes, Eduardo Bueno — que têm nos ajudado a refletir e aceitar o desafio de alcançar um público mais amplo.  No nosso caso, porém, o desafio era, igualmente, incluir pesquisa original e documental. É preciso destacar, ainda, que um livro como esse só poderia ser feito por conta da excelente qualidade e maturidade da historiografia brasileira, internacionalmente reconhecida, que tem produzido investigação de ponta acerca dos mais diversos períodos da nossa formação nacional. Sem ela esse livro não existiria e a produção está toda referenciada nas notas e na bibliografia em anexo.

Não há como esquecer das coleções estrangeiras — História da vida privadaHistória da família —, por autores como Eric Hobsbawm, Jacques Le Goff, Georges Duby, Robert Darnton, Simon Schama, Carlo Ginzburg que vêm mostrando como é possível narrar a história com charme, saber e diversão. Tudo isso sem perder o rigor

Vale destacar ainda que Lilia, particularmente, se valeu de sua experiência em alguns projetos. Um deles, a coleção História da vida privada no Brasil, que reuniu uma grande equipe de historiadores brasileiros buscando reconstituir aspectos da vida cotidiana no processo histórico de nossa formação nacional. O outro, na coleção Virando os séculos — ambas editadas pela Companhia das Letras. Mais recentemente, Lilia foi diretora da coleção em 6 volumes História do Brasil Nação, pela Mapfre/Objetiva. Essa é uma coleção que conta com os mais importantes especialistas em história do Brasil moderno, faz um amplo levantamento documental e de imagens fundamental e perseguiu um público mais amplo, aliás como esse livro que lançamos agora. Lilia também está preparando para a Ducke University Press (junto com James Green e Victoria Langland) um novo Brazil reader: coletânea cronológica de documentos e respectivos comentários.

Podem comentar a escolha do subtítulo do livro, “uma biografia”?

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Até porque não há nação que possa ser contada de forma linear, progressiva ou mesmo de uma só maneira. Sendo assim, este livro não pretende contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Ao contar uma história, tanto o historiador quanto o leitor aprendem a “treinar a imaginação para que ela faça uma visita”, como diria Hannah Arendt. E é por levar a sério essa noção de “visita” que este livro deixará de lado a meta de construir uma espécie de “história geral dos brasileiros” para se concentrar na ideia de que a biografia talvez seja outro bom caminho para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica: conhecer os muitos eventos que afetaram nossas vidas, e, de tal maneira, que continuam presentes na agenda atual.

Uma biografia é a evidência mais elementar da profunda conexão entre as esferas pública e privada — somente quando estão articuladas, essas esferas conseguem compor o tecido de uma vida, tornando-a real para sempre. Escrever sobre a vida do nosso país implica interrogar os episódios que formam sua trajetória no tempo, e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil onde vivemos — para compreendermos os brasileiros que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser.

A imaginação e a multiplicidade das fontes são dois predicados importantes na composição da biografia. Nela, cabem os grandes tipos, os homens públicos, as celebridades; cabem igualmente personagens miúdos, quase anônimos. Em todos os casos, porém, não cabe tarefa fácil: é muito difícil reconstituir o momento que inspirou o gesto. É preciso calçar os sapatos do morto, na definição preciosa de Evaldo Cabral, conectar o público ao privado, para penetrar num tempo que não é o seu, abrir portas que não lhe pertencem, sentir com sentimentos de outras pessoas e tentar compreender a trajetória dos protagonistas dessa biografia — os brasileiros — no tempo que lhes foi dado viver; as intervenções que protagonizaram no mundo público de cada época com os recursos de que dispunham; a disposição de viverem segundo as exigências de seu tempo e não de acordo com as exigências do nosso tempo. É também não ser indiferente à dor ou à alegria do brasileiro comum, invadir o espaço da intimidade de personagens importantes e escutar o som das vozes sem fama. O historiador anda sempre às voltas com a linha difusa entre resgatar a experiência daqueles que viveram os fatos, reconhecer nessa experiência seu caráter quebradiço e inconcluso, interpelar seu sentido e, por estar atenta a tudo isso, a biografia é, também, um gênero da historiografia.

Brasil: uma biografia será lançado no dia 4 de maio e já está em pré-venda nas principais livrarias.

Fui canibalizada por uma artista

Por Lilia Moritz Schwarcz


Encontrei Adriana Varejão meio por acaso. Ou melhor, logo na primeira vez que a vi ela disse saber quem eu era e eu (com certeza) sabia quem era ela. Na verdade, Adriana não me conhecia; conhecia meu livro O espetáculo das raças. No entanto, aquilo que afirmava ter encontrado nesse livro nunca existiu: o contexto estava lá, mas os detalhes foram todos criados por ela.

Antes que esse relato vire um grande mal entendido é hora de tratar de explicá-lo. Afinal, a partir desse episódio pode-se rascunhar uma maneira mais geral de como Adriana Varejão produz sua arte. A artista fez com meu livro o que, com frequência, realiza diante do rico universo criativo que mobiliza: ela deglute, canibaliza e devolve o que foi procurar como algo novo e original. O fato é que Adriana tem uma maneira pessoal, sensível, erudita e ao mesmo tempo intuitiva de abocanhar a realidade. Ela se “alimenta” de muitos livros — de arte, de história, de filosofia, de antropologia, de ciências, de geografia —; de referências da história da pintura — Ocidental ou de outros povos —; de registros retirados da arquitetura, da medicina, ou do próprio cotidiano e, a partir deles, tece sua própria teia.

Esse processo criativo é contínuo, de maneira que uma obra nunca se encerra em si mesma e uma série abre sempre para mais outra. Saunas, azulejos, charques, línguas, projetos barrocos — tudo parece estar pronto para ser reinventado, e nada aparenta ter fim.

Fazendo picadinho de Debret

Um bom exemplo dessa prática de deglutição pode ser encontrado no tratamento que Adriana deu a uma obra muito conhecida entre nós. Refiro-me à produção do artista francês Jean-Baptiste Debret, que veio ao Brasil em 1816, e, na falta de pinturas feitas por portugueses (mais acostumados aos temas religiosos), acabou virando um tipo de etnógrafo. Nas suas aquarelas ele retratou uma colônia tropical e marcada pela escravidão. Quase gregos, com seus corpos anatomicamente esculpidos, os negros de Debret parecem modelos de beleza e pouco lembram a violência desse sistema, que supunha a propriedade de um homem por outro.


Um jantar brasileiro, Jean-Baptiste Debret (1821)


O Filho Bastardo, Adriana Varejão (1995)

Já Adriana Varejão releu Debret adicionando sua interpretação ou, quiçá, dando evidência a desejos dissimulados no desenho do francês. Esse é o caso de O Filho Bastardo, que pretensamente recupera o ambiente criado por Debret. Nesse caso, porém, o que era uma possibilidade vira concretização e o colono branco, que na obra original apenas comia sua refeição, olhando para baixo distraído, continua “comendo”, mas agora (e sem metáfora) transa com a escrava que antes abanava sua ama. Observando bem a aquarela de Debret é possível traçar uma linha imaginária que une a bela mucama a seu proprietário. Mas a artista tem a liberdade poética de realizar o desejo. Como diz ela, a colonização trouxe sangue mas também prazer. Escravas tiveram que se sujeitar, muitas vezes aterrorizadas, aos desejos de seus senhores. Entretanto, também agenciaram seu lugar e usaram seu corpo para garantir necessidades que lhes eram negadas por conta do rigor do sistema. É assim, a partir de pequenas falcatruas, grandes descompassos, que Adriana brinca, debocha de sentidos prévios e cria outros.

Cena dois: polvo é povo

Mas Adriana não faz isso apenas com o outro, mais distante. O mesmo acontece com aquele que se encontra bem à sua frente: nesse caso, essa antropóloga que vos escreve. Começamos nosso livro cinco anos atrás. Nesse meio tempo, ela me explicou sobre arte, eu lhe falei, entre outros, sobre raça. Raça e cor sempre fizeram parte dos temas dessa artista, que desde muito refaz seu autorretrato, pintando-se como muitas. Em Testemunhas oculares x, y, z, por exemplo, são três as Adrianas: uma índia, uma moura, uma branca. O tema não era portanto novo; talvez nova era minha entrada em cena. Um tópico comum entre nós duas era pensar sobre o par “cor/raça”. O censo brasileiro qualifica sua população a partir de cinco termos — branco, negro, vermelho, amarelo e pardo —, que mais do que raças são cores em relação. Por efeito da convenção, vermelhos são indígenas; amarelos são orientais, brancos e pretos sabemos muito bem quem são, e pardos conformam uma espécie de etecetera; coringas da classificação. Essas são ambiguidades de um sistema que introduz uma espécie de “nenhuma das anteriores” como descritor de uma (não) cor. Pardo não é cor de auto-definição; sempre de definição externa.

Muito diferente foi o resultado da PNAD de 1976, quando se perguntou aos brasileiros sobre qual seria sua cor. Nesse caso, ao invés de 5 itens, chegou-se a 136. Não há espaço aqui para tratar desse conjunto. Basta mostrar que parte dele mais se parece com uma aquarela do Brasil, sendo algumas cores mais previsíveis — branco, preto, vermelho, amarelo — e outras totalmente imprevisíveis: verde, roxo, azul. Também existem termos que denotam como no Brasil raça é antes uma circunstância passageira. Expressões como “queimada de sol”, “branqueamento”, “tostada” mostram como no país não se tem uma cor; se está com uma cor. Há ainda nomes que descrevem essa mania nacional de brincar com tudo e todos: fogoió, cor de burro quando foge, por exemplo. Mas o que mais chama atenção é a quantidade de termos em torno do branco: “branca, branca-avermelhada, branca-melada, branca-morena, branca-pálida, branca-queimada, branca-sardenta, branca-suja, branquiça, branquinha, puxa para branco, quase branco. Branco é símbolo e alegoria; é projeção social.

Relação de cores do PNAD de 1976 sublinhada por Adriana Varejão

Pois bem. Adriana voltou ao assunto mas à sua moda. Retornou à fábrica de Tintas Águia, onde havia comprado suas primeiras bisnagas. Passou então a selecionar tons, pautando-se justamente na PNAD. O resultado foram 33 tubos de tinta bem guardados num estojo de madeira, chamados “Tintas Polvo”, e contando com as seguintes tonalidades:

Fogoió, Branca suja, Morena bem chegada, Amarelosa, Branca melada, Parda morena, Bugrezinha escura, Café com leite, Azul marinho, Branquinha, Agalegada, Chocolate, Burro-quando-foge, Morena-jambo, Turva, Queimada de praia, Escurinha, Mulatinha, Encerada, Sapecada, Puxa para branca, Bahiano, Cabocla, Cabo verde, Cor de cuia, Cor firme, Mestiça, Pálida, Polaca, Parda clara, Retinta, Pouco clara, Meio preta.

Nas fotos inéditas que incluímos aqui ficaram gravados os momentos em que os tons descritos pelos brasileiros viraram matéria: tinta. O que seria “pouco clara”? Qual a cor de “retinta’? Quanto de preto é preciso para chegar num “branco sujo”. Enfim, minhas teorias viraram tinta, e cor virou linguagem. Dizia o viajante seiscentista Jean de Léry que os Tupinambás não comiam para se alimentar: comiam só os fortes para ficar com sua substância. Esse foi também o argumento de Montaigne em “Os Canibais” (1580), quando desabafou: “ou muito bem eles o são ou nós o somos (bárbaros)”. Aí estava a diferença entre antropofagia (um ritual) e o canibalismo (uma prática alimentar). Mas quem sabe na obra de Adriana estejam misturados os dois atos. Se há ritual na pintura; já nossa artista literalmente devora o que vê e faz do alimento fermento e semente. Nessa história que virou livro, foi ficando difícil saber quem era autor e quem era objeto; o que era fato e o que era ficção. Na verdade, a essas alturas, pouco importa!


Tintas polvo, 2013

 


Polvo Portraits I (Classic Series), 2013

 


Polvo Portraits II (Classic Series), 2013

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PÉROLA IMPERFEITA: A HISTÓRIA E AS HISTÓRIAS NAS OBRAS DE ADRIANA VAREJÃO
Sinopse:
Lilia Moritz Schwarcz percorre os caminhos de pesquisa e construção da obra de Adriana Varejão, tecendo um diálogo entre a releitura da história por parte da artista e as várias possibilidades narrativas enredadas nesse processo criativo. Este livro, feito a quatro mãos pela artista e pela antropóloga, perpassa a colonização europeia na América, a reconfiguração da tradicional azulejaria portuguesa, a miscigenação e o contato direto com a cultura Yanomami, entre muitos outros caminhos. Aqui, texto e imagem disputam o mesmo espaço, aprofundando a reflexão sobre as relações entre a história e a arte.

Pérola imperfeita será lançado em São Paulo no dia 3 de abril, na Livraria da Vila Lorena, a partir das 18h30, e no Rio de Janeiro no dia 10 de abril, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, às 19h, com a presença das autoras Lilia Moritz Schwarcz e Adriana Varejão.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Roger Mello é o ganhador do prêmio Hans Christian Andersen

Por Lilia Moritz Schwarcz

Estamos todas aqui na Feira do Livro de Bologna e muito emocionadas com esse prêmio, mais que merecido, que Roger acaba de receber. É a terceira vez que ele é nomeado para o Hans Christian Andersen e finalmente, nesse ano dedicado ao Brasil, ele conquista esse feito.

Roger é o primeiro ilustrador da América Latina a receber um reconhecimento dessa importância, que abre as portas também para o Brasil e para o trabalho tão relevante que nosso país tem feito na área da literatura infantil. Roger Mello é um grande artista, um grande pesquisador e um grande inovador. Além do mais, ele está sempre nos desafiando com projetos tão originais como ousados; nos ajudando a crescer como editoras e nos forçando a querer ser sempre mais.

Todos os livros que o Roger criou para a Letrinhas estão exposto aqui em Bologna  para o nosso imenso ORGULHO.

Parabéns, Roger: nosso amigo, nosso artista, nossa inspiração.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil(vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Semana cento e noventa

Os lançamentos desta semana são:

Milagre em Joaseiro, de Ralph Della Cava (Tradução de Maria Yedda Linhares)
Este clássico ensaio do brasilianista Ralph Della Cava sobre o padre Cícero Romão Batista (1844-1934) e a cidade de Joaseiro (atual Juazeiro do Norte) é um dos trabalhos historiográficos e de ciências sociais mais influentes das últimas décadas no país. Amparado em documentação inédita na época, Della Cava mergulha na história e na cultura do Nordeste brasileiro entre o século XIX e o XX para compor um extraordinário retrato do “Patriarca do Cariri” e de um pretenso milagre, que suscitou em torno do devoto sacerdote um movimento religioso popular que repercute até os dias de hoje. Na medida em que ele e os fiéis defenderam o milagre, padre Cícero entrou em acirrado conflito com a hierarquia da Igreja católica, que o privou das ordens. Na busca de sua restauração, arvorou-se, quase por acaso, em um dos mais controvertidos políticos do Nordeste. O livro, publicado originalmente nos Estados Unidos em 1970, desvela as raízes socioeconômicas e políticas do movimento popular de Joaseiro e argumenta que sua história é parte e parcela da própria ordem social nacional.

Schmidt recua, de Louis Begley (Tradução de Rubens Figuereido)
O advogado Albert Schmidt usufrui da confortável aposentadoria enquanto trabalha para uma fundação humanitária e transita pelo mundo exclusivo dos endinheirados americanos. Não está livre, no entanto, de relacionamentos conflitantes ao chegar à terceira idade. A ex-namorada Carrie, décadas mais jovem, está grávida de um bebê que pode ser dele. Charlotte, sua única filha, ensaia uma reaproximação que resulta em um conflito ainda maior com o pai. E, por fim, Schmidt se apaixona por Alice Verplanck, viúva de um antigo colega. O mesmo Schmidt que protagonizou dois romances anteriores de Louis Begley percorre neste “terceiro ato” um período de mais de uma década, em que sua história de amor com Alice se desenrola entremeada a confusões familiares. Tentando resolver uma equação que envolve afetos, antigos preconceitos e casos do passado, ele busca afastar a solidão da velhice.

Prosa, de Elizabeth Bishop (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Elizabeth Bishiop sempre foi celebrada como grande poeta, mas sua prosa não é menos extraordinária. Este volume reúne boa parte de sua produção publicada em vida ou postumamente, entre contos, memórias, artigos, resenhas e cartas. Estão aqui os textos de Esforços do afeto e outras histórias, mas também alguns inéditos sobre o Brasil e a correspondência da escitora com a crítica Anne Stevenson. Além de um deleite literário — com uma ficção que beira o memorialismo e memórias e ensaios que bem poderiam ser ficções –, este é um livro indispensável para se conhecer as fontes concretas da poesia de Bishop.

O ladrão do tempo, de John Boyne (Tradução de Henrique B. Szolnoky)
Matthieu Zéla parou de envelhecer no final do século XVIII, quando se aproximava da meia-idade. Duzentos anos depois, ele rememora as muitas vidas que teve desde que fugiu da França para a Inglaterra, após ter presenciado o assassinato brutal de sua mãe. Seus companheiros na empreitada foram o irmão mais novo, Tomas, e Dominique Sauvet, seu único amor verdadeiro. Mas Matthieu sobreviveu aos dois, e desde então não parou de sobreviver a todos. Foi soldado, engenheiro, cineasta, investidor, executivo de televisão e amante de muitas mulheres. Em seu romance de estreia, John Boyne construiu uma trama maravilhosamente articulada, que nos leva a visitar os grandes eventos que marcaram o mundo nos últimos dois séculos pelos olhos de um personagem extraordinário.

Lionel Asbo, de Martin Amis (Tradução de Rubens Figuereido)
Lionel Asbo é um jovem arruaceiro de um subúrbio londrino. Vive com o sobrinho adolescente Desmond Pepperdine e dois pit bulls, Joe e Jeff, que ele considera “ferramentas de trabalho”. Ao ganhar 140 milhões de libras na loteria, Lionel Asbo tem a vida virada ao avesso. Catapultado à fama, à fortuna e às páginas dos tabloides ingleses, o novo Lionel promete reorganizar as relações familiares e sociais dos Pepperdine. A um só tempo hilariante, sensível e dramático, Lionel Asbo é uma fábula contemporânea sobre quatro gerações de uma família problemática, inesperadamente agraciada pela fortuna.

Os mundos de Teresa, de Marcelo Romagnoli (Ilustrações de Carlo Giovanni)
Teresa acabou de fazer seis anos e agora tem uma nova missão: descobrir o mundo. Mas, para desvendar tudo o que está à sua volta — e também aquilo que está mais longe –, Teresa não quer apenas saber. O que interessa, para ela, é ser. De verdade. Então ela decide se transformar em menino e fazer tudo o que um menino faz. Depois, quer ser cachorro, e então planta, e pedra, e coisa… Tudo muito divertido porque, desde sempre, ser criança é a melhor descoberta que existe.

As barbas do imperador — D. Pedro II, a história de um monarca em quadrinhos, de Lilia Moritz Schwarcz e Spacca
Misto de ensaio interpretativo e biografia de d. Pedro II, As barbas do imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, foi um marco na historiografia brasileira, apresentando uma visão nova e reveladora de nosso passado. Nesta edição em quadrinhos, Schwarcz volta à parceria com o premiado ilustrador Spacca, na dobradinha que já rendeu o best-seller D. João Carioca. Aqui, eles conduzem o leitor a um verdadeiro passeio pela história do Brasil, transpondo a linguagem do ensaio e da biografia para o universo das HQs de forma vibrante e esclarecedora.

Editora Seguinte

O alçapão (Infinity Ring, vol.3), de Lisa McMann (Tradução de Alexandre Boide)
Em mais uma viagem com o Anel do Infinito, os três jovens viajantes do tempo mal voltam para os Estados Unidos e já caem em uma armadilha — Riq é confundido com um escravo e perde sua liberdade. Tentando desvendar as pistas deixadas pelos Guardiões da História, Dak e Sera precisam ajudar o amigo e descobrir como evitar que a SQ acabe com a última esperança de fuga de muitos escravos do país. Riq, por sua vez, não está tão preocupado assim com a missão. Ao longo da jornada para se libertar, ele conhece um garotinho muito importante — não para a história do planeta, mas para a história do próprio Riq. Agora ele correrá todos os riscos para salvar a vida desse menino, mesmo que o preço a ser pago seja alto demais.

Editora Paralela

Quando estou com você, de Beth Kerry (Tradução de Flávia Yacubian)
Elise sempre foi linda, impulsiva e incontrolável. Foi exatamente isso que Lucien reencontrou enquanto tentava seguir uma nova vida. Mesmo decidido a afastar Elise e o passado que ela representa, Lucien logo percebe que sua tarefa não será fácil. Além de ser uma tentação, Elise não desiste facilmente, o que obriga Lucien a tomar uma decisão: permite que ela fique, mas de acordo com as regras dele. Caso queira ficar por perto, ela terá que se submeter a ele sexualmente. Mas as coisas não saem exatamente como planejado. A impulsividade de Elise e os segredos de Lucien colocarão tudo em risco ou permitirão que eles se entendam?