lilia moritz schwarcz

Vencedores do 52º Prêmio Jabuti


(Foto por Danilo Máximo)

O Prêmio Jabuti, organizado pela Câmara Brasileira do Livro, divulgou hoje de manhã os vencedores da edição de 2010. Abaixo você vê os livros premiados da Companhia das Letras; a lista completa está no site do Jabuti. Estamos muito felizes porque, além de tudo, a Companhia foi a editora com mais obras premiadas este ano! Parabéns a todos os autores e colaboradores!

Romance:
2º – Leite derramado – Chico Buarque

Juvenil:
1º – AvóDezanove e o segredo do soviético – Ondjaki

Infantil:
2º – Carvoeirinhos – Roger Mello
3º – A visita dos 10 monstrinhos – Angela-Lago

Ciências humanas:
3º – Um enigma chamado Brasil – André Botelho, Lilia Moritz Schwarcz

Poesia:
3º – Lar, – Armando Freitas Filho

Biografia:
2º – Padre Cícero – Poder, fé e guerra no Sertão – Lira Neto

Reportagem:
1º – O leitor apaixonado – Prazeres à luz do abajur – Ruy Castro

Teoria e crítica literária
1º – A clave do poético – Benedito Nunes
2º – O controle do imaginário & a afirmação do romance – Luiz Costa Lima

Capa:
1º – O resto é ruído – Alex Ross (capa por Retina_78)

Tradução de obra literária do espanhol para o português:
1º – Purgatório – Tomás Eloy Martínez (tradução por Bernardo Ajzenberg)

* * * * *

O Jabuti agora abriu a votação para o melhor livro de ficção e de não-ficção escolhido por Júri Popular : basta ir na página do prêmio e votar no seu favorito de cada categoria. Para facilitar a sua decisão, clique nas capas abaixo e leia um trecho de cada livro:

Conversando sobre o Brasil com Lilia Schwarcz

Por Robert Darnton*


(Foto por Alex)

Em recente viagem ao Brasil, conversei com Lilia Moritz Schwarcz, uma das melhores antropólogas e historiadoras do país. Nossa conversa acabou convergindo para os dois temas que ela estudou com maior profundidade — racismo e identidade nacional.

Visitei o Brasil pela primeira vez em 1989, quando a economia estava quase paralisada pela hiperinflação, tiroteios irrompiam nas favelas e Lula, herói do movimento sindical mas ainda inseguro como político, realizava sua primeira campanha à presidência. Tudo aquilo me pareceu fascinante e assustador. Na minha segunda viagem, alguns anos mais tarde, conheci Lilia e seu marido, Luiz Schwarcz, que começava a transformar a editora que tinha fundado, a Companhia das Letras, numa das melhores casas editoriais da América do Sul. Eles me proporcionaram um dia repleto de brasilidade, que guardo na memória como uma das experiências mais felizes da minha vida: pela manhã, um passeio com seus filhos pelo parque mais importante de São Paulo, onde famílias de todas as cores faziam piqueniques e brincavam iluminadas por um sol deslumbrante; no almoço, um excursão por especialidades brasileiras nunca sonhadas por minha filosofia culinária (mas como não era dia de feijoada, nada de orelhas ou rabos de porco); uma partida de futebol internacional (o Brasil ganhou da Venezuela e as arquibancadas explodiram de alegria); e por fim, incontáveis caipirinhas e um espetáculo intimista de Caetano Veloso no auge do lirismo e das provocações políticas.

Desde então, nunca mais deixei de ficar maravilhado com a energia e a originalidade da cultura brasileira. Todavia não finjo compreendê-la, especialmente por estar em constante mudança. E eu não falo português. Posso apenas fazer perguntas em inglês e me esforçar para apreender as respostas. Teria o mito do Brasil como um “gigante adormecido” se tornado uma profecia que cumpriu a si mesma? “Ele despertou”, dizem hoje. A economia está em franca ascensão, o sistema de saúde se expande, a alfabetização melhora a cada dia. Há também profecias de ruína, pois a história econômica do Brasil lembra ciclos de crescimento e queda impostos sobre séculos de escravidão e empobrecimento. De qualquer modo, Lula está chegando ao final do segundo e último mandato como presidente. Seja qual for a opinião dos brasileiros sobre sua nova política externa, mais assertiva, que inclui o cultivo de relações amigáveis com o Irã (a maioria da população não parece interessada no assunto), em geral eles concordam que Lula gerenciou bem a economia e fez muito para melhorar a vida dos pobres. Seu mandato termina em outubro e ele está apoiando Dilma Rousseff, ex-chefe da Casa Civil de seu governo, cujas chances de vitória estão em grande parte amparadas na popularidade do presidente. O primeiro debate da nova campanha presidencial, ocorrido em 5 de agosto, foi um evento cordato — indicação, me garantem, de uma democracia saudável, que deixou para trás os tempos dos golpes. Agora os estrangeiros estão fazendo novas perguntas sobre o caráter deste novo grande poder. Transmiti a Lilia alguns dos questionamentos mais comuns.

Robert Darnton: A ascensão do Brasil como um dos protagonistas no cenário mundial suscita questionamentos sobre a identidade nacional do país. Alguns são hostis, como o que você diz ter encontrado em sua última viagem aos EUA: como você pode viver num país tomado por favelas e violência? Qual sua resposta a isso?

Lilia Moritz Schwarcz: É curioso como o Brasil hoje tem uma nova imagem no exterior. Costumávamos ser vistos como “exóticos”; um país de capoeira, candomblé, carnaval e mulatas. Continuamos a ser vistos como exóticos, mas esse exotismo ganhou um novo ingrediente: a violência, até mesmo uma nova estética da violência, especialmente no modo como o Brasil é retratado em filmes contemporâneos, como Cidade de Deus. O fascínio que muitas pessoas de fora do Brasil têm pelas favelas é ambíguo. Por um lado as favelas são vistas como comunidades violentas, sujeitas a líderes violentos alheios à autoridade do Estado. Por outro, são apenas “diferentes” — panoramas de uma cultura alheia à cultura dominante, com maneiras particulares e especiais de comemorar, dançar, jogar futebol. Não temos favelas por todos os lados, mas é o que gostam de pensar os estrangeiros. Criamos uma nova espécie de turismo, que inclui uma “favela tour”. É tudo falso, mas os turistas vivem a ilusão de experimentar um outro mundo. E você, Bob? Tem medo de andar por certas regiões de Nova York? Seria o Harlem um tipo de favela?

Continue lendo »

Quarta-feira entre os clássicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

[Veja em nosso álbum as fotos dos encontros no Rio de Janeiro e em São Paulo]

Quarta-feira à noite, temperatura elevada e em pleno Leblon, não resta nada a fazer senão tomar uma cerveja gelada e conversar com amigos. No entanto, nessa última semana, as coisas andavam meio viradas. O saguão da elegante Livraria da Travessa no shopping local foi invadido por cadeiras e um público saído não se sabe da onde, mas carente de conhecer mais sobre nossos clássicos. À frente do evento (o que já explica a pequena multidão), nada mais, nada menos que dois clássicos nacionais: o africanista, acadêmico, embaixador, poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, e o igualmente embaixador, historiador e polemista de mão cheia, Evaldo Cabral de Mello.

Essa que vos escreve deveria funcionar como moderadora (animadora até) desse encontro feliz, fadado ao sucesso. No entanto, diante de intelectuais desse calibre não é preciso intervir, perguntar ou provocar… tudo isso ocorre normalmente e sem maior esforço. Se comecei lembrando as máximas do escritor Ítalo Calvino — que mostra como clássico é um livro que nunca se lê, só se relê; ou explica que um clássico sempre diz muito sobre aquele que o evoca —, já Alberto reagiu, desfazendo (e com razão) meu discurso tão comportado. Disse ele, em tom debochado, que tudo aquilo era muito bom, mas que clássico é também um livro que ainda não lemos e mais: que não queremos ler.

Evaldo também não deixou por menos. Disse que escritores deveriam começar a produzir tarde e parar cedo, e reservou-se o direito, como historiador, de falar só de livros de não-ficção. Edward Gibbon, por exemplo, converteu-se logo em unanimidade da mesa. Já os autores nacionais não tiveram tempo fácil, ao menos nas mãos do Evaldo, que alegou, por exemplo, que no Brasil todo mundo lê apenas um livro de determinado autor e já se comporta como profundo conhecedor da obra. É claro que pensava em Gilberto Freyre e seu famoso Casa grande & senzala, no que foi logo secundado por Alberto.

O fato é que concordamos, mas, no limite, discordamos de tudo: dos livros que selecionamos, dos nossos clássicos e até dos horários em que lemos ou pensamos. Evaldo disse que só raciocina bem das 10 da manhã às 18 da tarde e Alberto logo discordou. Quando aleguei que já eram quase 8 da noite e ele continuava por lá (e muito bem, aliás), Evaldo respondeu: “eu estou divertido, mas não inteligente”. Eu contei que gostava de A montanha mágica de Thomas Mann, e foi a vez de Alberto acrescentar que José e seus irmãos era infinitamente melhor. Lembrei que Raízes do Brasil era meu clássico nacional, e Evaldo afirmou desconfiar de todos os livros de interpretação do país, os quais, segundo ele, são os que mais sofrem com a ação do tempo.

Enfim, já eram 20h30 e eu tinha que cumprir a minha parte, e encerrar essa sessão, que não tinha hora para acabar já que a conversa corria solta e escorria para todos os lados: lados mais “clássicos” e outros nem tanto. Acho que só concordamos (parcialmente) quando o tema foi literatura infantil. Eu resolvi mencionar a série Babar, do elefante que perde a mãe logo no começo da história e quer ganhar a civilização quando todos, hoje em dia, a estão rifando. Já Evaldo foi obrigado (por conta de minha pergunta impertinente) a recordar de seu personagem mais querido: o carneiro Ferdinando Flores. Em sua opinião, ele (Ferdinando) é infinitamente melhor que seus companheiros. Se os outros são ativos, agressivos até, já Ferdinando é passivo de caráter e, ainda melhor, contemplativo de índole. E completou: “também sou assim; contemplativo”.

É impossível concordar com a ideia de que essas duas grandes personalidades da cultura brasileira sejam apenas contemplativas, que devam evitar falar a partir de determinadas horas, ou que seria bom que encerrassem suas carreiras como escritores, já que atingiram uma bela idade. Em se tratando dos dois, o outro lado desse espelho é o verdadeiro.

Literatura, vida, história, memória, historiografia e muita piada: esse encontro foi mesmo um clássico.

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil(vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Encontro “Os clássicos que eu li”


(Foto por ginnerobot)

Em “Por que ler os clássicos”, Italo Calvino afirma que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. E conclui: ler os clássicos continua sendo melhor do que não ler os clássicos.

Pensando na importância desses livros, a Companhia das Letras promove dois encontros onde diversos autores conversam com os leitores sobre a importância dos clássicos da literatura em suas vidas.

No Rio de Janeiro, o encontro “Os clássicos que eu li” acontecerá no dia 25 de agosto, às 19h, na Livraria Travessa do Shopping Leblon, com a presença de Alberto da Costa e Silva, Evaldo Cabral de Mello e Lilia Moritz Schwarcz.

Em São Paulo, Alfredo Bosi, José Miguel Wisnik e Milton Hatoum participarão do evento, que acontece dia 30 de agosto na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h.

Cláudio Manuel da Costa: um homem sem rosto

Por Lilia Moritz Schwarcz


Ilustração de Vila Rica feita por Armand Julien Pallière em 1820.

Nem sempre a capa representa o reflexo, imediato e previsível, do conteúdo de seu livro. Na maioria das vezes, ocorre mesmo o contrário: não se chega a um consenso, nenhuma imagem corresponde ao que se imagina e longos debates se entabulam entre editores, autores, artistas gráficos e por aí afora.

Mas agora temos, aqui na Companhia das Letras, um problema de certa maneira novo. Laura de Mello e Souza acaba de entregar os originais de uma biografia sensacional sobre Cláudio Manuel da Costa, conhecido letrado da Inconfidência Mineira. O livro fará parte da coleção Perfis Brasileiros e trará um pouco da história da mineração no século XVIII e muitos dados inéditos sobre esse personagem até hoje bastante desconhecido.

O problema é, porém, de alto calibre: Cláudio Manuel da Costa chegou até os dias de hoje quase sem rosto. Laura mostra como sobreviveu apenas uma gravura com a fisionomia do poeta. Nela vemos um homem de meia idade; fronte larga; cabelos fartos mas meio lambidos, colados à cabeça e escorrendo por trás do pescoço; sobrancelhas arqueadas; nariz um pouco longo apesar de bastante correto; face escanhoada, como se usava na época ― uma vez que barbas não faziam parte das faces das elites ―; lábios quase grossos esboçando um meio sorriso. Ocorre que essa é uma imagem póstuma, sempre reproduzida quando se trata de Cláudio Manuel da Costa, mas nada factual ou fiável.

Por sinal, os documentos mostram imagem bastante diversa. Num ou noutro registro consta que fosse bem alto, uma vez que assim se designavam, à época, os homens com cerca de um metro e oitenta. Parece que usava óculos, talvez por causa da idade, ou, quem sabe, já tivesse problemas quando moço, uma vez que possuía o “vício da leitura” e gostava de escrever rimas. O importante é que as fontes não confirmam o retrato póstumo feito, ao que tudo indica, com mais traços de imaginação do que da realidade.

Não é estranho que não se encontrem imagens de Cláudio. Afinal, no contexto lusitano, ainda mais em territórios ultramarinos brasileiros, não se cultuou a arte do retrato, tão disseminada no mundo europeu. Por essas e por outras, é que o personagem continua como uma incógnita, e nem mesmo há consenso sobre seu lugar de nascimento.

Aliás, como mostra Laura de Mello, ao longo dos séculos, reinou a confusão. Seus traços se misturaram aos de Tomás Antônio Gonzaga (outro inconfidente) e aos de outro de seus amigos: Inácio José de Alvarenga Peixoto. Talvez por isso Cláudio nunca mereceu uma biografia, nem um esboço biográfico mais alentado, como os que outros letrados e inconfidentes receberam. Sua vida permaneceu na penumbra, assim como sua imagem.

No início dos anos setenta do século XX, Joaquim Pedro de Andrade até que deu um rosto a Cláudio, no filme Os inconfidentes. Um rosto barbudo, que certamente não foi o de Cláudio. O Cláudio de Joaquim Pedro surge barbudo e atormentado, talvez até um pouco além do necessário, mesmo que o poeta tenha sido um homem bem melancólico, como mostra essa sua nova e alentada biografia.

O fato é que agora temos um belo livro nas mãos mas cuja capa terá que obrigatoriamente contrariar a norma da coleção. Ao invés do rosto do poeta, estamos em processo de votação. Alguns defendem que figure apenas a assinatura do letrado. Outros, insistem que a cidade onde Cláudio viveu faria bem as vezes do poeta. Quer votar e ajudar no desempate?

PS: essa pequena nota foi escrita a partir dos dados produzidos por Laura de Mello e Souza para seu novo livro, que tem publicação aguardada (e celebrada) para novembro deste ano.

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raças, As barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.