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A foto de Lima Barreto

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Há mais de Lima Barreto na literatura do que seus aclamados livros nos levam a imaginar. Muitos textos do autor de Triste fim de Policarpo QuaresmaRecordações do escrivão Isaías Caminha Clara dos Anjos ainda são desconhecidos dos leitores, e assim ficaram durante mais de um século. O motivo, certamente, é o fato desses textos terem sido assinados com pseudônimos. Mas isso muda com o lançamento de Sátiras e outras subversões, que acaba de chegar às livrarias pelo selo Penguin-Companhia.

Felipe Botelho Corrêa, pesquisador e professor de literaturas e culturas do Brasil, de Portugal e da África lusófona na universidade King’s College London, foi atrás dessa obra desconhecida e é o responsável pela organização desta edição, que apresenta 164 textos de Lima Barreto publicados sob pseudônimos em revistas satíricas do Rio de Janeiro. A seguir, leia um trecho da introdução que o pesquisador escreveu para Sátiras e outras subversões, e conheça outro lado de um dos mais importantes autores brasileiros.

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Todos os 164 textos que compõem a edição que o leitor tem em mãos são inéditos em livro, e foram publicados originalmente em periódicos. Nesse sentido, mais do que uma antologia, este volume é a revelação de uma parte da obra de Lima Barreto que permaneceu completamente desconhecida por mais de um século. Embora as razões para tal desconhecimento sejam várias, a que mais pesou certamente foi o fato de o autor ter utilizado pseudônimos em muitas de suas colaborações em revistas desde o início até o fim de sua carreira, em 1922.

O esforço para encontrar material inédito sobre o escritor também logrou identificar uma nova imagem fotográfica que, de certa forma, sintetiza a proposta deste livro. Apesar de ter sido publicada em 1907 numa revista de grande circulação e estar disponível em arquivos diversos — como é o caso dos textos aqui revelados —, somente agora foi possível identificar sua fisionomia, da mesma forma como só agora foi possível identificar alguns dos pseudônimos. Na imagem, o escritor aparece na plateia que lotou o Palace-Theatre no Rio de Janeiro naquele ano para a conferência humorística organizada pela revista Fon-Fon. Intitulado “As cariocas e os cariocas”, o evento apresentou uma galeria de figuras da cidade, que eram comicamente ilustradas no palco por dois desenhistas da revista no decorrer do espetáculo. Em meio a tantos rostos, é preciso se ater ao detalhe para poder identificar a presença de Lima Barreto, autor cuja iconografia não é extensa.

Essa fotografia é um importante registro do início de uma carreira literária e do contexto que cercava o autor naquele momento. À esquerda da imagem, sentado na quarta fileira, sério e concentrado, ele ainda não tinha adquirido o prestígio que lhe trariam Recordações do escrivão Isaías Caminha, que ele começaria a publicar naquele ano em fragmentos na revista Floreal. Ele já era, contudo, colaborador da Fon-Fon naquele momento, com textos publicados desde o primeiro número, editado em abril de 1907, ainda que sob a máscara de pseudônimos. Entretanto, nesse momento ainda não se sentava junto aos principais colaboradores, como os caricaturistas Raul Pederneiras e Calixto Cordeiro, que protagonizaram o evento e que aparecem na primeira fila, na parte inferior da imagem.

A foto nos dá uma amostra do tipo de público que uma revista popular ilustrada como a Fon-Fon tentava alcançar. Com ingressos esgotados e lotação máxima, vemos o teatro repleto de homens e mulheres de variada faixa etária, além de jovens e crianças, o que já serve como um pequeno indício do apelo e do sucesso das substanciais tiragens que a revista teve desde seu lançamento, como veremos mais adiante. Antes, contudo, é importante chamar a atenção para alguns detalhes. Mais do que uma ênfase na individualidade de cada colaborador, o que se tem aqui é uma identidade coletiva assumida e representada pela revista. O espetáculo era do grupo de colaboradores da Fon-Fon, que tinha como símbolo a imagem do automóvel que buzina a modernidade pela via da sátira visual e escrita.

Lima Barreto é um dos poucos negros presentes neste prestigiado evento na capital do país. Ele está em meio a tantas caras não identificáveis e alguns rostos que se escondem, outros que deliberadamente gesticulam para o fotógrafo e a maioria que aparenta ignorar a presença do aparato num teatro que emanava modernidade com seus elementos art nouveau. Consciente do uso que será feito da fotografia, Lima Barreto aparece encarando atentamente a câmera, buscando um contato visual com o leitor da revista. Sua vestimenta de terno e gravata está em gritante contraste com as fotos que foram descobertas nos últimos anos, em que ele aparece com o uniforme de interno do Hospital Nacional dos Alienados em 1914 e 1919. Essas três fotografias são momentos da vida e do contexto de uma personalidade que desde o princípio de sua carreira como escritor optou por produzir uma literatura subversiva que é, em grande parte, de base satírica.

A sátira para ele tinha a potência de ser combativa, revolucionária e mortal no âmbito do embate das ideias e das práticas daquele começo de século XX. Em um de seus artigos para a Careta, ele afirma:

A troça é a maior arma de que nós podemos dispor e sempre que a pudermos empregar é bom e é útil.
Nada de violências, nem barbaridades. Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo.
O ridículo mata e mata sem sangue.
É o que aconselho a todos os revolucionários de todo o jaez. […]
Assim é que todos devemos fazer.
Troças, troças, sempre troças.

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Sátiras e outras subversões, de Lima Barreto e organizado por Felipe Botelho Corrêa, já está em todas as livrarias.

Semana trezentos e nove

Companhia das Letras

Atlas de nuvens, de David Mitchell (tradução de Paulo Henriques Britto)
Neste que é um dos romances mais importantes da atualidade, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor pelo quebra-cabeça nabokoviano e o talento para a especulação filosófica e científica na linha de Umberto Eco, Haruki Murakami e Philip K. Dick. Conduzindo o leitor por seis histórias que se conectam no tempo e no espaço — do século XIX no Pacífico ao futuro pós-apocalíptico e tribal no Havaí —, Mitchell criou um jogo de bonecas russas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade.

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, de Elvira Vigna
Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

Raízes do Brasil — Edição crítica — 80 anos, de Sérgio Buarque de Holanda (organizado por Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz)
Raízes do Brasil é uma das obras fundadoras do pensamento sobre a sociedade brasileira. No método de análise e estilo da escrita, na sensibilidade para a escolha dos temas e erudição exposta de forma concisa, revela-se o historiador da cultura e ensaísta crítico com talentos de grande escritor. Esta edição, que comemora os oitenta anos de publicação da obra, traz uma verdadeira arqueologia de sua produção. Por meio de notas e variantes, mostra que, entre a primeira edição e as seguintes, durante mais de três décadas, o autor fez alterações importantes no texto, revisitando hipóteses e mudando, às vezes radicalmente, os argumentos e o tom. Posfácios de nove especialistas trazem leituras originais deste que é, para jogar com as palavras de Antonio Candido, um “clássico” que se constrói pouco a pouco.

K. – Relato de uma busca, de B. Kucinski
Em 1974, a irmã de Bernardo Kucinski, professora de Química na Universidade de São Paulo, é presa pelos militares ao lado do marido e desaparece sem deixar rastros. O pai dela, dono de uma loja no Bom Retiro e judeu imigrante que na juventude fora preso por suas atividades políticas, inicia então uma busca incansável pela filha e depara com a muralha de silêncio em torno do desaparecimento dos presos políticos. K. narra a história dessa busca. Lançado originalmente em 2011 pela editora Expressão Popular, em 2013 ganhou nova edição pela Cosac Naify, e finalmente, em 2016, chegou à Companhia das Letras. Ao longo desses anos, K. se firmou como um clássico contemporâneo da literatura brasileira.

A nervura do real II, de Marilena Chaui
Marilena Chaui, intelectual pública e uma das grandes filósofas de sua geração, completa agora o percurso iniciado com o estudo da ideia espinosana de imanência, obra que causou grande repercussão e debate quando publicada, em 1999. Hoje, filósofos, psicanalistas e neurobiologistas voltam-se para a filosofia de Espinosa para redescobrir um pensamento que enfrentou de modo certeiro questões retomadas no presente. Neste segundo volume, Chaui lida com a questão da liberdade em Espinosa — tema que nos interpela talvez mais que qualquer outro em sua filosofia — e procura demonstrar que a necessidade incondicionada da potência infinita da Natureza, da qual somos uma expressão, é a condição da liberdade humana.

Companhia de Mesa

Comida de verdade, de Yotam Ottolenghi (tradução de Isabella Pacheco)
A mais nova e aguardada obra do chef londrino Yotam Ottolenghi, cujos livros já venderam mais de meio milhão de cópias. Chegou a hora de os acompanhamentos virarem o prato principal: os vegetais receberam novos temperos e técnicas e se transformaram no centro das atenções. São mais de 150 pratos com deliciosos vegetais, de saladas a sobremesas. Comida de verdade apresenta, através de fotografias magníficas, os pratos que irão inspirar e revolucionar sua cozinha.

 Objetiva

Hotel Florida, de Amanda Vaill (tradução de Ivo Korytowski)
A Guerra Civil Espanhola contada a partir das vidas de Ernest Hemingway, Martha Gellhorn, Robert Capa, Gerda Taro, Arturo Barea e Ilsa Kulcsar. Madri, 1936. Em uma cidade devastada pela guerra civil, seis pessoas se encontram e têm suas vidas transformadas. Ernest Hemingway precisa de material para um novo romance; Martha Gelhorn está em busca de amor e novas experiências. Robert Capa e Gerda Taro capturam a história e inventam o fotojornalismo moderno. E os secretários de imprensa Arturo Barea e Ilsa Kulcsar lutam pela verdade. Hotel Florida traça os destinos desses três casais num momento crítico da história, que revelou o melhor e o pior daqueles que se viram envolvidos nele. Uma reconstrução baseada em cartas, diários, documentos oficiais, filmes, biografias e notícias da época. Uma história impactante escrita com maestria.

Peça-me o que quiser e eu te darei, de Megan Maxwell (tradução de Monique D’Orazio)
A volta de Peça-me o que quiser, a série erótica mais sensual e envolvente dos últimos tempos. Os anos se passaram. Judith Flores e Eric Zimmerman vivem em uma bela casa em Munique com os três filhos. E continuam tão apaixonados quanto no dia em que se conheceram. O alemão e a espanhola enfrentam juntos os desafios de criar um adolescente e de manter o desejo aceso no casamento. Apesar disso, tudo parece ir bem, até o dia em que uma mulher do passado de Eric reaparece e coloca à prova todas as certezas de Jud. Já os melhores amigos do casal, Mel e Björn, estão mais felizes do que nunca. E o advogado sonha com o dia em que a ex-tenente do Exército americano deixará de ser tão teimosa e aceitará se casar com ele. Unidos pela amizade e pelo sexo, os dois casais enfrentarão juntos as armadilhas que o destino coloca em seus caminhos. Será que o amor verdadeiro é mesmo capaz de vencer tudo?

Penguin-Companhia

Sátiras e outras subversões , de Lima Barreto (organizador Felipe Botelho Corrêa)
Durante décadas após sua morte, os estudiosos especularam sobre uma enorme quantidade de textos que poderiam ser atribuídos a Lima Barreto. Mas foi um pesquisador brasileiro radicado na Inglaterra que conseguiu elucidar o mistério — e comprovar a copiosa produção do grande autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha. Todos os 164 textos que compõem a edição são inéditos em livro, e foram originalmente publicados em periódicos. Esta coletânea é a revelação de uma parte da obra de Lima Barreto completamente desconhecida por mais de um século. Embora as razões para tal sejam várias, a que mais pesou certamente foi o fato de o autor ter utilizado pseudônimos em revistas até o fim de sua carreira, em 1922.

O riso, a sina e o sonho

Por Antonio Arnoni Prado

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Antonio Arnoni Prado, autor de Cenário com retratos.

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“Alice, olha que são horas; o major Quaresma já passou”. Era assim que os vizinhos reagiam numa casa afastada de São Januário, no subúrbio, ao avistar a figura de Policarpo Quaresma passando todos os dias, religiosamente às quatro e quinze da tarde, de volta do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário.

A cena, conquanto singela, nos desvenda, já na abertura do romance, aquela que será uma das marcas indissociáveis do espírito de seu protagonista: a regularidade metódica, quase doentia, e a obsessão incontornável frente ao compromisso do dever cumprido.

Visto por esse ângulo, Quaresma é o antípoda mais exacerbado de Lima Barreto, como sabemos um libertário apátrida avant la lettre, inconformista e revoltado contra as “formalidades do poder” que o acabariam arrastando para as trincheiras da contestação mais radical, seja no plano social e político, seja no das convicções estéticas e ideológicas.

Daí o peso específico de Policarpo Quaresma em meio ao conjunto das personagens de Lima Barreto. Veemente e incansável na defesa dos valores da pátria, podemos dizer que Quaresma é um recorte irônico do sarcasmo barretiano frente ao passadismo dos motivos retóricos do herói neorrealista. Míope e fardado, folclórico e falando tupi, agricultor atropelado pelas formigas, a sua imagem se confunde com a do medíocre incontido e sempre revoltado frente à mediocridade.

Se é legítimo tomar esse desequilíbrio como forma de explicar a revolta, não há como descurar das três faces críticas de Policarpo Quaresma: a cômica, a delirante e a trágica, uma sobreposta a outra, compondo no todo como que um tríptico amoldável e simultâneo, numa espécie de máscara  reversível sempre pronta a rebelar-se.

O Policarpo da face cômica é um tipo de exceção no conjunto da sociedade em que vivia. Apesar de estudioso, lido e cheio de preocupações com a cultura da terra, no fundo não passava de um contraponto risível e fora de eixo diante das limitações de seus vizinhos do subúrbio, gente como Caldas, Albernaz, Bustamante, Genelício (“ele não era formado, por que meter-se em livros?”) e tantos outros. Para eles, aliás, era justamente o livro, enquanto “instrumento de gerar loucura”, a razão para o escárnio e a chacota ao major Quaresma, transformando a face delirante no traço mais incisivo de seu caráter, a ponto de levá-lo a imaginar-se um conselheiro de Floriano Peixoto durante os episódios da Revolta da Armada: “Marechal Floriano, Rio! Peço energia. Sigo já”, eis o que escreveu, com os olhos brilhando de esperança, assim que leu nos jornais que os navios da esquadra se insurgiram contra o presidente, intimando-o a deixar o poder.

Daí o anticlímax da face trágica, em que a morte e o fracasso – incabíveis no coração arrebatado desse anti-herói intransigente – se encarregam de trazê-lo à realidade sob o brilho indiferente das estrelas.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

Lima Barreto suberviso, por Felipe Botelho Correa

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Antonio Arnoni Prado nasceu em São Paulo. Publicou sua tese de doutorado, Itinerário de uma falsa vanguarda, em 1983, ensaio atualmente consagrado. Foi professor visitante em diversas universidades estrangeiras e leciona na Unicamp desde 1979Em 2015, lançou pela Companhia das Letras o livro Cenário com retratos, que reúne ensaios sobre grandes autores brasileiros.

Lima Barreto subversivo

Por Felipe Botelho Correa

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Rio de Janeiro em 1915.

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Felipe Botelho Correa, pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

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“Subversivo” foi a definição de Triste fim de Policarpo Quaresma em uma das poucas resenhas que apareceram nos jornais logo que a edição em livro do folhetim de Lima Barreto foi publicada em dezembro de 1915. Com ares de denúncia, o autor da crítica aponta o escritor carioca como pertencente a uma nova geração de intelectuais antirrepublicanos que ganharam espaço através de “publicações obscuras e desdenhadas que não receberam a tempo o corretivo devido”.

Foi de fato através de edições de baixo custo que Lima Barreto fez seu nome circular nas livrarias da época numa tentativa de dar sobrevida aos textos que publicava em revistas e jornais. Triste fim… é uma das pérolas dessa atuação incansável, combativa e debochada que ele encarnou sobretudo através da sátira. Atuação essa que ele próprio definia como consequência de suas implicâncias com certas ideias, indivíduos e práticas que surgiam nos primeiros anos da República no Brasil. “Não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada: tenho implicâncias”, afirmou ele em 1911.

Esse foi o mesmo ano em que escreveu a história de Policarpo Quaresma. O herói quixotesco, cujo destino já está marcado no título do romance, é um personagem que cultiva as origens e as características autênticas de sua pátria mítica “no silêncio do seu gabinete” através das leituras de uma seleta biblioteca com obras de ficção e de história exclusivamente sobre o Brasil. A história do triste fim do visionário estudioso do “culto das tradições” brasileiras aparece como subversivo não só por ridicularizar a administração republicana e tratá-la com desdém, como afirma o oficial militar autor da resenha tirânica, mas por expor, como um cronista burlesco que mata pelo riso, o caráter ridículo das ideias que surgiam no contexto político e social da jovem República.

O livro de Lima Barreto é uma resposta contundente e irreverente aos ultranacionalismos que pipocavam em textos como Porque me ufano de meu país (1900), de Afonso Celso, Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, ou mesmo no próprio Hino Nacional, cuja letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 para idolatrar a pátria amada, que é imaginada deitada “em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.”

Triste fim… é subversivo porque ousa pensar o Brasil para além das ideias de nação e pátria, e em busca de uma perspectiva mais complexa em relação aos problemas e tensões de sua época, como fica claro em outros textos de Lima Barreto publicados na imprensa. Em vários desses artigos, muitos deles recentemente descobertos e ainda inéditos em livro, a implicância com o nacionalismo essencialista fica evidente. Para ele, o conceito de humanidade deveria se sobrepor ao de pátria, e a literatura deveria ser a arte que, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, deveria trabalhar pela união da espécie, e não pela construção de conflitos, como a Primeira Guerra Mundial que já estava em curso quando, há cem anos, Lima Barreto bancou do próprio bolso a primeira edição deste livro que se tornou um clássico.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Felipe Botelho Correa é do Rio de Janeiro e transferiu-se para o Reino Unido, onde concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford. Atualmente é pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

Triste fim

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. Lilia Moritz Schwarcz, que está escrevendo a biografia do autor, estreia a série de posts que serão publicados no blog durante todo este mês.

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Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. Esse era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro e o texto de Lima figurou na seção “Folhetim do Jornal do Comércio”; gênero que se convertera numa coqueluche da cidade. Geralmente escandalosos, os folhetins garantiam o desenrolar de tramas rocambolescas com finais diários sempre emocionante. E Triste fim não fugiria à regra. Dividido em 52 folhetins trazia três diferentes partes com desfechos “tristes”: primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público; segundo, quando há a falência do sítio do herói; e terceiro, com o personagem se voluntariando para o exército; preso e desiludido com a República.

A obra só apareceu sob a forma de livro em dezembro de 1915: praticamente 100 anos atrás. Lima pagou pessoalmente para ver a única edição de Triste fim que conheceu em vida. Em março de 1917, no seu Diário anotou: “Devo unicamente ao Lima pela impressão do Policarpo”. No ano de 1916 assim se referia à publicação: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco. Tomei dinheiro daqui e dali… Audaces fortuna juvat”. O livro representava uma cartada profissional importante para Lima Barreto, e por isso a audácia não tinha preço. Afinal, o autor queixava-se sempre da pouca evidência como escritor — nessa que era também uma República das Letras — e não se pode dizer que seu livro de estreia tenha ajudado.

Lima Barreto havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha em 1909, livro que lhe conferira certa notoriedade, mas custara também caro (e em outro sentido): nele, Lima fazia sérias críticas ao racismo vigente e denunciava a “imprensa burguesa” como o “4o poder da República”. A obra desnudava bastidores do jornal Correio da Manhã e práticas de jornalistas colegas, todos com codinomes facilmente identificáveis. Por isso, com grande dose de premonição, escrevera: “Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá”.

Lima Barreto parece ter pago caro demais, em mais outro sentido. Triste fim era livro muito mais bem-acabado do que Recordações. No entanto, era irônico e alusivo, apesar de recuar ao tempo passado. E mais uma vez o livro foi recebido com um grande silêncio. Apesar da pouca repercussão, o jornal A Época do dia 18 de fevereiro de 1916 deu na primeira página uma entrevista acompanhada de resenha favorável à obra. Entre outros, a matéria destacava o lado marginal do autor e sua origem “suburbana”. “No Rio de Janeiro, não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios: seu elemento é a rua. Pergunta-se a qualquer pessoa: “Tu viste o Lima?”. Ela responderá: ‘Vi-o hoje, pela manhã, jogando bilhar.’ (…) Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria e fomos encontrá-lo em uma brasserie.”

Mas Triste fim não era apenas mais um retrato “triste” de seu autor. Ele traduziria um pouco de tudo: o lugar marginal de Lima, a situação declinante de sua família, mas também o ambiente conturbado e a fragilidade do nosso nacionalismo. Lima recua, porém, aos idos de 1893, período em que começava a Revolta da Armada; que sacudiu o país. A circunstância não lhe poderia ser mais significativa. Foi em 1890 que seu pai, João Henrique é demitido da imprensa nacional, sob alegação de conivência com a monarquia. Por ingerências de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, poderoso político do Império, João Henrique aceita emprego como escriturário das Colônias de Alienados na Ilha do Governador. Nesse meio tempo, Lima Barreto é matriculado como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense e entra na Politécnica. Mas a calmaria duraria pouco. No ano seguinte, o presidente Deodoro da Fonseca fecha o Congresso; frente à pressão política pede demissão, sendo sucedido num contragolpe por seu vice, Floriano Peixoto.

O próprio pai de Lima seria diagnosticado como neurastênico, uma doença mental que o obrigaria a ficar recolhido pelo resto da vida. Por isso, loucura é metáfora pessoal e social para pensar o público e o privado, e a sina do país. Ajuda a pensar também no escritor, sua falta de sorte, e a pouca fortuna do nosso Estado.

Na vida pessoal, a história de Lima daria, então, uma guinada — ele abandona a Politécnica, atua como arrimo de família na condição de Amanuense do Ministério da Guerra, e muda-se para o subúrbio de Todos os Santos. Já nosso Triste fim ficaria imortalizado por conta da sua galeria de tipos impagáveis, que não se prendem à experiência íntima de seu autor. De um lado há Policarpo, “um visionário” e defensor das “coisas do Brasil”, tão pontual que servia de “relógio da vizinhança”. De outro, Floriano com seu “bigode caído; traços grosseiros, pobre de expressões, a não ser a da tristeza que não lhe era individual, mas nativa”. É também forte o contraste entre Ismênia a Olga: a primeira frágil como o pai de Lima, logo sucumbe à loucura; já Olga, afilhada de Policarpo, é a ética do major inscrita no corpo de mulher. Há também a contraposição entre o bondoso artista, Ricardo Coração dos Outros, e Genelício, empregado do tesouro que não passava de um “artista na bajulação”. Mas não existem heróis ou vilões no livro; eles são todos uns talvezes, na feliz expressão de Oliveira Lima. O general Albernaz e o contra-almirante Caldas ostentavam seus títulos com galhardia, mas nunca haviam participado de qualquer batalha. Doutor Florêncio “era mais guarda de encanamentos do que engenheiro”. E assim por diante, com cada figurante expressando seus dilemas. Ceticismo e otimismo; honestidade e contravenção; sanidade e loucura; progresso e decadência são dilemas desse momento que oscilava entre a profunda crença no futuro, o olhar saudoso para o passado, a descrença diante do porvir.

Obras como essa acabam por merecer várias redescobertas, muitas vezes relidas por questões do presente. Pensar nas ciladas do patriotismo, olhar com ceticismo para os projetos de nacionalidade, denunciar desigualdades fazem parte das muitas inspirações dessa obra, que se lê com facilidade, mas que permite várias esquinas de interpretação. Além do mais, sua crítica fina e bem-humorada não permite que o texto se torne datado. Há ironia até no nome do personagem central da narrativa. Policarpo significa aquele “que tem e produz muitos frutos”, a despeito da vida do herói não resultar em qualquer “produto”. Quaresma é também palavra de vários sentidos: significa o período de quarenta dias de jejum, que se segue ao sacrifício de Cristo; sacrifício entendido como ato de consagração, cujo desenlace pode ser triste mas igualmente fundar um pacto com a sociedade. O verbo “carpo” (que vem de carpir, chorar, lamentar) remete à ideia de tristeza, presente no título da obra. Por fim, Quaresma é também um tipo de coqueiro; essa árvore presente já nos nossos primeiros mapas seiscentistas. Policarpo Quaresma seria assim um pouco de tudo: uma espécie de Cristo ressabiado dessa nacionalidade tropical; um líder melancólico de um novo e eterno porvir. Pois livros bons são assim mesmo: não se deixam apanhar e desfazem das pistas que eles próprios deixam. Triste fim de Policarpo Quaresma faz 100 anos, cada vez mais jovem.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Lima Barreto subversivo, por Felipe Botelho Correa

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

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