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Os vitaminados

Por Otávio Marques da Costa

Os e-books já estão totalmente incorporados à nossa vida aqui na editora. Ainda nos primórdios do e-reader, quando o dispositivo gerava reações de desconfiança, manifestações de apego ao papel ou, no mínimo, o receio de que ali estivesse o gérmen do fim do mercado editorial como o conhecíamos, percebemos que ele podia ser uma mão na roda para a nossa “hora extra” mais comum dos fins de semana: a leitura de originais. Bastava baixar o arquivo e estávamos livres daqueles calhamaços, folhas se perdendo embaixo da cama ou molhadas de água de piscina.

Quando ainda muito novato na profissão, me lembro de ter ouvido a conhecida editora nova-iorquina Nan Talese — em visita ao Brasil para acompanhar o marido, Gay Talese, um dos pais do new journalism — dizer que desde que comprara seu e-reader nunca mais havia lido um original impresso, e isso tinha mudado a vida dela. Bastava levar o aparelhinho aonde fosse e pronto.  Logo eu quis arranjar um também e me livrar das resmas de papel amassado. Tarefa ainda não tão simples na ocasião, quando as versões internacionais do kindle, nook, kobo ou sony reader ainda não estavam disponíveis, e para comprar um e-book era necessário fazer uma gambiarra envolvendo um domicílio forjado (algo que os atuais usuários do Netflix americano bem conhecem). Mas a novidade me conquistou, e embora longe de ser um entusiasta de gadgets, passei quase que imediatamente a ler e consumir muito mais livros eletrônicos que físicos.

De lá para cá muito mudou, e aprendemos a tratar livros e e-books como um produto só, o que significa dizer que os lançamentos nas duas versões passaram a ser simultâneos, e que fazemos grandes esforços para a conversão do catálogo da editora. Para explorar tudo o que os novos formatos permitem, e até como uma manifestação de otimismo e entusiasmo ante esses novos tempos do nosso mercado, queríamos também experimentar a inclusão de recursos audiovisuais nos livros, produzindo o que no mundo anglo-saxão nossos pares chamam de enhanced e-books (não estávamos muito felizes com a tradução “e-book enriquecido”, então falamos em “edição especial”, mesmo).

O segundo volume de Getúlio nos pareceu o candidato ideal. Não só havia grande quantidade de vídeos (em especial os produzidos pela propaganda oficial do Estado Novo) e áudios disponíveis (entre sambas, marchinhas e discursos de Gegê),  como o material contribuía efetivamente para a compreensão do biografado e seu contexto.

Segue abaixo um vídeo introdutório gravado pelo Lira Neto (espécie de “prefácio visual” ao volume 2). Fica aqui como um convite para a leitura do nosso e-book vitaminado e coda para o making of do livro (que percalços editoriais — sim, tão comuns — tinham nos feito interromper).

[A edição especial do e-book de Getúlio, com mais de vinte extras audiovisuais, está disponível na Apple Store e na Amazon.]

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Otávio Marques da Costa é publisher dos selos Companhia das Letras e Penguin-Companhia.

Semana cento e sessenta e cinco

Os lançamentos desta semana são:

Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes
“Tragédia carioca”, Orfeu da Conceição transporta para um cenário tipicamente brasileiro o mito de Orfeu, filho de Apolo, uma das histórias mais emblemáticas da vasta mitologia grega. Imerso em sofrimento depois da morte da amada Eurídice, o músico vê-se incapaz de entoar suas canções, por os sons melodiosos e tristes de sua lira não o consolam da perda do grande amor. Desesperado, Orfeu decide Descer ao Hades (reino dos mortos) para trazer Eurídice de volta à terra. Ambientado em uma favela carioca, Orfeu da Conceição estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956, com enorme sucesso. Nada mais justo: com músicas de Tom Jobim — a peça inclusive inauguraria a fecunda parceria entre o poeta e o compositor —, cenários de Oscar Niemeyer e figurinos de Lila Bôscoli, o texto é ainda hoje um marco na releitura inteligente dos mitos gregos diante da realidade social, da mistura entre poesia e música popular, entre teatro e canção.

Você é minha mãe?, de Alison Bechdel (Trad. Érico Assis)
Depois de falar da relação com o pai na cultuada graphic-novel Fun Home, Alison Bechdel investiga agora a relação com a mãe, uma atriz amante de música e literatura presa a um casamento infeliz. Num relato emocionante e divertido, a autora se debruça sobre o abismo que a separa de sua mãe — que parou de tocar ou beijar a filha antes de dormir, “para sempre”, quando ela tinha sete anos — em busca de respostas e de novas perspectivas para o futuro de ambas.

Barreira, de Amilcar Bettega
Filha de um imigrante turco estabelecido no sul do Brasil, Fátima — uma jovem fotógrafa — vai viver na Turquia. Lá se envolve com um artista performático de intenções duvidosas e com um autor de guia de viagens francês, divorciado, com uma história emocional difícil e acidentada. Paralelamente a isso, o pai de Fátima retorna pela primeira vez ao seu país natal para reencontrar a filha — mas não a encontra. Empreende então uma busca infrutífera pelas ruas da grande metrópole turca. A procura não rende frutos. E a busca pela filha se torna, aos poucos, a busca pela própria identidade de um homem encerrado entre passado e presente. Barreira é mais um título da coleção Amores Expressos, em que alguns dos melhores autores brasileiros escrevem histórias de amor em ambientes como Dublin, Tóquio, Lisboa e São Petesburgo.

A tempestade: histórias de Shakespeare, de Andrew Matthews (Trad. Érico Assis)
Depois de passar doze anos abandonado numa ilha deserta ao lado de sua filha Miranda, Próspero resolve fazer justiça. Para recuperar o trono, o antigo duque de Milão utiliza seus conhecimentos de magia e provoca uma grande tempestade, fazendo naufragar o navio em que estão seus traidores e trazendo-os para perto de si. Mas em vez de semear o ódio e investir na vingança, ele opta pelo caminho da reconciliação através do amor. Será com a ajuda do inexperiente coração de Miranda, que nunca viu outro homem a não ser seu pai, que Próspero reestabelecerá a união e provará a força que tem uma paixão verdadeira. Conheça a surpreendente história da última peça de Shakespeare e descubra qual é a relação desta Tempestade com a própria vida do escritor.

Getúlio (1930-1945): Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, de Lira Neto
Getúlio em sua fase mais Getúlio. Ditador, pai dos pobres. Nesta segunda parte da grandiosa trilogia biográfica de Getúlio Vargas, Lira Neto reconstitui a trajetória do político gaúcho entre o momento de consolidação do poder após a Revolução de 1930 e o golpe militar que encerrou o Estado Novo em 1945. O autor constrói um painel que mescla com grande habilidade narrativa as vidas pública e privada de Getúlio ao longo desses quinze anos, marcados por acontecimentos dramáticos no Brasil e no mundo. Conheça de perto o homem que mudou o país, em seus 15 anos mais emblemáticos no poder.

Editora Paralela

A Equação do Casamento, de Luiz Hanns
A Equação do Casamento apresenta seis dimensões presentes em qualquer relação amorosa que as pesquisas mostram ser cruciais para que marido e mulher permaneçam juntos e tenham satisfação em fazê-lo. A partir dela, o renomado psicólogo clínico e terapeuta de casais Luiz Hanns propõe que você reflita sobre seu casamento e busque mudanças efetivas para melhorar a vida a dois. A partir de casos clínicos e exemplos práticos, A Equação do Casamento propõe exercícios para que você possa lidar com situações comuns nos dias de hoje: resgatar um casamento em crise, aprender a conviver com um cônjuge difícil, incrementar uma relação sem encanto e afinidades, buscar mais sintonia sexual e lidar com um caso de infidelidade.

Portfolio Penguin

A venda desafiadora, de Matthew Dixon e Brent Adamson (Trad. Cristiana Serra)
Partindo de um estudo exaustivo de milhares de representantes comerciais, oriundos das mais variadas indústrias e cenários, A venda desafiadora defende que a abordagem clássica de construção de relacionamentos está fadada ao fracasso. O estudo dos autores constatou que todos os representantes de vendas do mundo correspondem a um de cinco perfis distintos, e embora os profissionais de todos esses tipos possam alcançar um desempenho mediano, apenas um deles — o Desafiador — apresenta, com consistência, resultados elevados. Os traços que fazem dos Desafiadores figuras sem igual podem ser replicados e ensinados aos representantes comerciais comuns. Tendo compreendido como identificar os Desafiadores em sua organização, você poderá usá-los como exemplo para implantar uma nova postura em toda a sua força de vendas.

Passo a passo: Getúlio (1930-1944)

Numa biografia, a foto que ilustra a capa é fundamental. O ideal é que, de alguma forma, seja uma síntese do biografado, a verdadeira “imagem” daquilo que é narrado em palavras. Justamente por isso a escolha não é simples. Para este segundo volume, Lira acertou em cheio, e sugeriu um retrato bastante emblemático de GV no auge do poder, em seu período mais autoritário.

Mas já deu para perceber por esta coluna que o processo de produção de um livro é por vezes bastante burocrático, e novamente estamos enredados na liberação da imagem, que há de sair… Quando tudo estiver certo, e a foto for definitivamente aprovada na “reunião de capas” que os editores fazem semanalmente com o diretor de arte (o que deve ocorrer nesta quarta), prometemos mostrá-la aqui em primeira mão.

Ainda esta semana, Lira Neto conversou com os editores sobre as primeiras sugestões, tema da coluna anterior. Tudo caminha bem, e o autor deve devolver o arquivo com alterações e complementações nos próximos dias. A Revolução Constitucionalista de 32 e “aventuras” dos irmãos Vargas na fronteira com a Argentina (fato pouquíssimo conhecido que teve implicações políticas importantes) foram o principal objeto das reformulações.

Voltamos na semana que vem com mais novidades.

Passo a passo: Getúlio (1930-1944)

Nos últimos dias, Lira Neto recebeu comentários de Otávio e Luiz sobre o original: observações e sugestões de pequenos cortes e acréscimos no texto.

Otávio também passou ao nosso diretor de arte, Alceu, o briefing que deverá ser enviado ao capista, João Baptista da Costa Aguiar. Como se trata do segundo volume da biografia (uma trilogia), a capa seguirá o mesmo projeto feito por João Baptista para o primeiro volume, mas desta vez a foto terá que retratar o biografado entre o período de 1930 e 1944.

Por fim, retomando o último post, em que falamos sobre a seleção de imagens, o departamento de iconografia fechou com Lira o uso de 27 fotografias em branco e preto. A novidade é que este novo volume contará também com imagens coloridas, num segundo caderno.

Até a semana que vem!

Passo a passo: Getúlio, vol. 2

Esses dias Lira Neto esteve aqui para falar sobre as imagens do segundo volume de Getúlio. Especialmente em biografias e, de modo geral, em livros de não ficção, a escolha acertada da iconografia contribui imensamente para a experiência do leitor. Mas o desafio do autor e do editor é grande: é preciso fugir daquelas imagens muito conhecidas, que por vezes só promovem a reiteração de clichês, e também procurar estabelecer um diálogo construtivo entre texto e imagem, evitando a escolha, por exemplo, de fotografias meramente ilustrativas ou que não tenham conexão com episódios narrados no livro.

Como pesquisador quase obsessivo que é, Lira não descuida da pesquisa iconográfica. Além de visitas ao CPDOC da Fundação Getúlio Vargas e a acervos e arquivos diversos por todo o país, o autor vasculhou sites de compras na internet em busca de memorabilia referente ao período getulista, onde encontrou coisas curiosíssimas (e que tanto dizem da época…), como pequeninas esculturas de bronze e latão do então presidente: em uma bolinha quase portátil, sem membros, são esculpidos os traços de GV! Entre cartilhas escolares com a biografia do líder, apostilas de canto orfeônico (concebido por Heitor Villa-Lobos como atividade cívica durante o Estado Novo) e caricaturas da revista Careta, passamos uma agradável tarde fazendo a primeira triagem para os cadernos.

Mas nem tudo são flores. Há muito trabalho e burocracia por trás das imagens estampadas em nossos livros. Ana Laura e Erica, do nosso departamento de iconografia, se encarregam do processo todo, da pesquisa ou contratação de pesquisador à liberação dos direitos de acordo com os usos pretendidos. Além disso, cuidam dos contratos com fotógrafos, ilustradores, artistas, fotografados, instituições detentoras e organizam  pagamentos. Por fim, recebem os arquivos em alta resolução e os enviam para o departamento de arte, que verifica qualidade, resolução e tamanho. Todas as imagens que são publicadas nos livros da editora passam pelas mãos delas: as que entram no miolo e na capa dos livros impressos e digitais, no material de divulgação e no site da editora, e as fotos dos autores nas orelhas.

Na próxima semana voltamos com mais informações do backstage!

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