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Passo a passo: Getúlio, vol. 2

Recebido o tão aguardado original, Otávio Marques da Costa leu esta semana o volume 2 de Getúlio. Nesta etapa, o editor tem o primeiro contato com o texto: é a oportunidade para fazer sugestões estruturais, discutir opções do autor, apontar eventuais cortes (um velho vício da profissão…), indicar passagens que requerem esclarecimento, elucidar dúvidas. Aqui começa, enfim, um dos momentos chave no processo de produção do livro, aquele da interlocução frequente entre autor e editor a respeito do texto.

Neste caso, vale dizer que além de grande escritor e biógrafo, Lira Neto é também célebre por ser atento aos mínimos detalhes, o que facilita muito a vida do editor! Em seu texto não há arestas a aparar, e mesmo na forma o material vem um primor: Lira procura adotar todos os nossos padrões editoriais, notas de fim vêm quase irretocáveis, e ele chega ao ponto de usar a fonte de nossos livros nos arquivos que entrega.

Hoje autor e editor se reuniram para conversar sobre o material iconográfico para o volume e sobre a versão eletrônica, com a presença do Fabio Uehara, responsável pela área digital da editora. Parte das imagens escolhidas por Lira, que voltam do birô de fotografia na segunda-feira que vem, deve ilustrar o post da próxima semana, que tratará ainda do processo burocrático (e por vezes penoso) de liberação de uso de imagens. Aguardem!

Passo a passo: Getúlio, vol. 2

Com a intenção de mostrar um pouco mais do que acontece dentro da editora, decidimos criar a seção “Passo a passo”, onde observaremos a cada semana as etapas de produção de um livro.

O primeiro título que acompanharemos será o segundo volume da biografia de Getúlio Vargas. O lançamento está previsto para junho de 2013, e Lira Neto acabou de nos entregar o pendrive com a versão original do texto!

Semana cento e dois

Os lançamentos da semana são:

Mr. Peanut, de Adam Ross (Tradução de Daniel Pellizzari)
Depois de treze anos de casamento, David Pepin não consegue imaginar a vida sem a esposa, Alice. Ainda assim, David fantasia diariamente a morte da mulher: seja atropelada por um trem ou atingida por um raio, ela sempre morre no final. Até que ela de fato morre, engasgada com um amendoim. A polícia acaba suspeitando de David, e dois detetives são enviados para investigar o caso. O programador reservado, que cria jogos de computador baseados na obra de M. C. Escher, terá sua vida virada do avesso pelos policiais. E que casamento resiste a um olhar microscópico? Deprimida, instável e presa em eternas oscilações de peso, Alice vinha se tornando uma estranha ao marido. Um dos detetives se encontra em plena guerra particular com a esposa, que há meses se recusa a levantar da cama. O outro investigador, por seu turno, é obrigado a relembrar o assassinato da própria mulher, do qual ele foi o principal suspeito. Conforme a investigação avança, entra em cena um assassino profissional, que pode ou não ter sido contratado por David para matar a mulher.

Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), de Lira Neto
Em uma das páginas de seu diário, escrito entre 1930 e 1942, Getúlio Vargas anotou: “Gosto mais de ser interpretado do que de me explicar”. Essa observação parece ser um desafio irônico para quem buscasse entendê-lo, em vida ou ao longo da história. Lira Neto está entre os autores que aceitaram o desafio. Seu livro contribui significativamente para a compreensão do personagem que, para bem ou para mal, foi a maior figura política do Brasil no século XX. Este primeiro volume da trilogia Getúlio vai do nascimento de Vargas a sua ascensão ao poder, no bojo da Revolução de 1930. O estilo jornalístico do autor resulta num texto fluente, que evita, ao mesmo tempo, os recursos fáceis e a banalidade. Com base numa impressionante pesquisa, Lira Neto narra, com brilho e riqueza de detalhes, a história da vida pessoal e da vida pública de Getúlio, dos tempos do Rio Grande do Sul à entrada na cena política da capital da República. http://biografiagetuliovargas.com/

Ulysses, de James Joyce (Tradução de Caetano W. Galindo)
Um homem sai de casa pela manhã, cumpre com tarefas do dia e, à noite, retorna ao lar. Foi em torno desse esqueleto enganosamente simples, quase banal, que James Joyce elaborou o que veio a ser o grande romance do século XX. Inspirado na Odisseia de Homero, Ulysses é ambientado em Dublin, e narra as aventuras de Leopold Bloom e Stephen Dedalus ao longo do dia 16 de junho de 1904. Tal como o Ulisses homérico, Bloom precisa superar numerosos obstáculos e tentações até retornar a sua casa, onde sua mulher, Molly, o espera. Para criar esse personagem rico e vibrante, Joyce mistura diversos estilos e referências culturais, num caleidoscópio de vozes que tem desafiado gerações de leitores e estudiosos ao redor do mundo. Leia o post sobre a tradução do livro.

O vermelho e o negro, de Ruy Castro
Uma história do Flamengo para ser lida pelos rubro-negros de todo o país — uma torcida que nasceu na metrópole, espalhou-se por toda a parte e fixou-se até em cafundós a quilômetros de qualquer civilização — e também pelos que, por motivos óbvios, odeiam o Flamengo. Aqui estão as origens de um clube eminentemente carioca que, quando se dedicava apenas ao remo, no século XIX, já ganhou uma identidade brasileira, e, ao incorporar o futebol, em 1912, fez deste um esporte de multidões. Aqui estão os Flamengos da era Zizinho e da era Zico e os que vieram antes e depois, com seus heróis e vilões — jogadores que, no decorrer de noventa minutos, podiam passar de deuses a excomungados e de novo a deuses. Aqui estão a belíssima tradição dos tris cariocas, a série de campeonatos brasileiros e a conquista do mundo em Tóquio. E aqui também estão as narrativas épicas das muitas vezes em que a flama flamenga teve de entrar em ação para buscar as vitórias impossíveis.

O canto das musas, organização de Zélia Cavalcanti
Para ler um poema, basta abrir uma porta. Ela pode ser uma palavra, um ritmo diferente, um tema interessante… O mais importante é saber que cada leitor é único e que, assim, cada experiência de leitura é única também. Este livro pretende abrir muitas portas para todos que estiverem dispostos a dar o primeiro passo, ou virar a primeira página. São poemas clássicos de autores brasileiros e portugueses, analisados de diferentes maneiras, musicados e declamados, com boxes explicativos, uma pequena biografia de cada poeta e um glossário de termos.

Adeus tristeza – a história dos meus ancestrais, de Belle Yang (Tradução de Érico Assis)
Seguindo os passos das grandes narrativas autobiográficas, como Maus, de Art Spieglman, e Persépolis, de Marjane Satrapi, Belle Yang escolheu os quadrinhos para narrar a tumultuada saga de sua família. A partir das disputas e dos embates entre o patriarca dos Yang e seus filhos, a autora pôde revisitar cem anos de história chinesa. O enfoque na intimidade da família ganha contornos épicos, conforme os Yang vivenciam invasão da Manchúria pelos japoneses, a Segunda Guerra Mundial, a grande fome e a subida dos comunistas ao poder. No traço de Belle Yang, que deve tanto à mais tradicional caligrafia chinesa quanto aos quadrinhos contemporâneos, essa saga familiar ganha uma forte carga de poesia. O resultado é uma jornada que capta não apenas as grandes pinceladas da história, mas também os pequenos traços de uma dinastia chinesa.

A bruxinha e o dragão, de Jean-Claude R. Alphen
Vários contos de fadas têm dragões entre os personagens, você já deve ter reparado. Em muitas das histórias, eles guardam princesas que estão presas em torres altíssimas e enfrentam príncipes corajosos que pretendem salvar as suas damas e mostrar o tamanho do seu amor. Esses dragões agem como verdadeiros pais, defendendo as mocinhas e testando seus pretendentes. Na história deste livro, um pai protetor tenta a todo custo atender às vontades da filha, que é muito caprichosa e não vai arredar o pé enquanto não encontrar um dragão de estimação perfeito. Mas, como além de pai ele também é bruxo, a única solução que encontra para tamanho desafio é se transformar, ele próprio, em um dragão! E não é que dá certo? A menina, sem saber que aquele ali à sua frente é o pai, logo simpatiza com o dragãozinho… E assim o tempo passa, os dois crescem — sempre juntos e em meio a muita confusão —, até que chega o tão temido dia: aquele em que o dragão-mago precisa deixar a sua bruxinha abrir as próprias asas e seguir o seu caminho sozinha.

Profissão: repórter

Por Lira Neto


(Fotografia de Sioma Breitman. Cortesia de Samuel Breitman. Reprodução de Eneida Serrano.)

Apesar de estar longe das redações de jornal há mais de uma década, continuo essencialmente um repórter. Mesmo depois de seis livros publicados e duas estatuetinhas do Jabuti enfeitando a estante da sala, ainda tenho certo pudor de me identificar como “escritor”. Na portaria dos hotéis, à hora de preencher a ficha de identificação, sempre informo, sem titubear, no quadrinho relativo à profissão: “jornalista”.

Escrevo, na verdade, livros-reportagem. Faço mais jornalismo hoje do que quando trabalhava em jornal. Uma vez liberto dos dois maiores fatores de pressão que incidem sobre o texto de imprensa — o espaço em linhas cada vez mais curto e o tempo de apuração cada vez mais exíguo —, pude enfim me dedicar a investigações de longo fôlego, que me consomem anos de trabalho e exigem algumas centenas de páginas ao serem transpostas para o papel.

Porém, meus métodos, objetivos e ferramentas são os mesmos de todo repórter que se preza. Trata-se de construir e cultivar fontes confiáveis, pôr em dúvida toda e qualquer informação (não existe informação desinteressada, nunca é demais lembrar), entrevistar pessoas, desvendar segredos e tentar estabelecer conexões entre episódios aparentemente estanques. E, acima de tudo, descobrir e contar boas histórias. Em vez de escrever para meu deleite próprio ou por alguma espécie de necessidade artística, escrevo pensando na recepção, na necessária interlocução com o leitor.

Penso nisso agora mesmo, quando me preparo para ter o primeiro dos três volumes da biografia de Getúlio Vargas publicado pela Companhia das Letras. No caso da trilogia “Getúlio”, a exemplo dos meus livros anteriores, faço apenas o bom e velho jornalismo. E digo isso sem a mínima tentação de querer justapor ao substantivo“jornalismo” algum adjetivo mais pomposo — como “literário” — com o intuito de supostamente enobrecê-lo ou distingui-lo. A Companhia das Letras, aliás, tem uma belíssima coleção intitulada justamente “Jornalismo Literário”, onde podemos ler alguns textos de mestres e clássicos imbatíveis do gênero.

Prefiro definir meu trabalho simplesmente como jornalismo. Ponto. Substantivamente. Sem adjetivações. Tive isso em mente ao abraçar a longa pesquisa que tem me levado a mergulhar na vida de Getúlio e nos meandros históricos da chamada Era Vargas. É óbvio que tive de conhecer e rever a caudalosa bibliografia disponível sobre o personagem, ler e reler teses e dissertações acadêmicas, além de relatos memorialísticos, muitos livros de época, alguns hoje raros e esquecidos. Contudo, minha matéria-prima, por excelência, é composta por fontes primárias: cartas, telegramas, diários, jornais do período, fotografias, despachos diplomáticos, inquéritos policiais e judiciais. É isso que fornece o esqueleto e a musculatura de uma boa biografia.

É preciso uma paciência beneditina para vasculhar arquivos, sujar as mãos de pó, decifrar caligrafias garranchudas, passar semanas, meses, até mesmo anos inteiros na caça obsessiva de documentos que ajudem a preencher lacunas, confirmar hipóteses, suscitar novas interrogações.

É isso que busco. Sou movido pela curiosidade. Não corro atrás de verdades absolutas, de certezas peremptórias. Mesmo porque não acredito nelas. Minha profissão é indagar. Meu ofício é a dúvida. Sou repórter.

[O 1º volume da biografia de Getúlio Vargas tem lançamento previsto para 19 de maio. Para saber mais sobre a trilogia, acesse o hotsite: http://biografiagetuliovargas.com/]

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Lira Neto nasceu em Fortaleza em 1963. Jornalista e escritor, ganhou em 2007 o prêmio Jabuti de melhor biografia, por O inimigo do rei: Uma biografia de José de Alencar (Globo, 2006). Dele, a Companhia das Letras publicou, em 2009, Padre Cícero – Poder, fé e guerra no sertão, premiado com o Jabuti de segunda melhor biografia daquele ano. É autor também de Maysa: Só uma multidão de amores (Globo, 2007) e Castello: A marcha para a ditadura (Contexto, 2004).
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“Guerra e paz” em areias baianas

Por Luiz Schwarcz

Queridos leitores: tirei férias como há tempos não fazia. Graças à generosidade de um grande amigo, fui para uma casa numa praia quase deserta com minha família: apenas a Lili, filhos, genro e netas. Fui com eles e com livros e mais livros. Havia jurado que nessas férias de praia leria apenas livros que não publicara, de preferência clássicos — havia muito que não tirava férias extensas e que meus períodos longos de ausência vinham sendo usados para acompanhar as aulas da Lili em Princeton, conjugados com trabalho na Penguin de Nova York. Mas antigamente, há muitos anos passados, minhas férias eram sempre compostas de praia e livros publicados por outrem, ou passeios para lugares desconhecidos e este tipo específico de literatura: que eu já não pudesse publicar.

Mas praias, ou lugares desconhecidos, eu quase deixei de frequentar. Passei a descansar trabalhando, indo muito para os mesmos lugares de sempre para ouvir música, principalmente enquanto desempenhava meu papel de coordenador da seleção do novo maestro na Osesp. Finda a tarefa, a maestrina a postos para a nova temporada — graças ao santo deus! —, voltei a querer muito descansar ao sol. Com música todos os dias, mas só no iPod.

Pois desta vez armei-me de Guerra e paz, a minha “releitura” obrigatória, já que, como disse, li esse livro na minha outra encarnação, na pele de algum aluno russo de literatura no início deste século, em plena Revolução, ou quiçá como um soldado francês, saudoso de Napoleão.

A promessa, no entanto, não foi totalmente cumprida. Acabei levando dois enormes originais: as memórias de Salman Rushdie e o primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto.

Assim, ainda me faltam 400 páginas das 2500 que compõem uma das obras-primas de Tolstói e 150 páginas das 530 de Getúlio — tendo vencido todas as 740 da história da fatwa do meu amigo Salman. Sobre este último livro que li, tendo assinado um contrato de confidencialidade, nada direi. Mais tarde espero poder contar algo mais pessoal desta história que, apesar de triste, teve final feliz.

Os outros dois livros têm em comum o fato de serem portentosos, cada um a sua maneira.

Levando em conta o total, faltam poucas páginas para terminá-los, e a esta altura do campeonato me pego pensando no que seria então uma obra-prima. Compará-los não é meu intento, seria ridículo. Um é talvez o mais abrangente romance que li sobre a guerra, a nobreza e talvez também acerca do amor. Para entender os motivos que levam os homens a guerrear, é preciso ler Guerra e paz, agora maravilhosamente traduzido por Rubens Figueiredo e publicado pela Cosac. Getúlio, por seu lado, é uma biografia em três volumes, que marcará época neste gênero ainda pouco explorado no Brasil.

Imerso nos três livros, meu prazer foi imenso. Não senti quando trabalhava ou simplesmente lia.

E para explicar o que é uma obra-prima, e por que esta dúvida me veio à mente ao ler estes livros simultaneamente, cito apenas um outro fato, ou melhor, opto por uma explicação casual, nada teórica.

Desde que voltei, enquanto caminho pelas páginas que me faltam, ouço apenas uma música, o tempo todo. Não sei a razão mas tento encontrar em minha discoteca e no Itunes todas as versões que possuo da Sonata para piano número 29, opus 106, a Hammerklavier, de Beethoven. Acompanho a vida de Natasha, Darcy, Andrei, Viriato, Pierre, Nikolay, Washington Luís, Napoleão, Getúlio, Alexandre, Oswaldo Aranha e tantos outros, sempre ouvindo a mais bela sonata de piano já composta — que é também uma das mais longas, se não a mais longa de todos os tempos. Por que a Hammerklavier é uma obra-prima? Por que pode se fazer a mesma pergunta sobre Guerra e paz, e, guardadas as devidas proporções, também sobre o Getúlio, de Lira Neto? O que faz de um trabalho uma obra-prima? Ouçam esta sonata, e dispensem qualquer outra explicação.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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