literatura brasileira

Semana quarenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes
De volta às livrarias, o lirismo deliciosamente pornográfico destes dois romances cult.
Ricardo de Mello é o herói-narrador de Tanto faz — o garotão à beira dos 30 que deixa um emprego burocrático em São Paulo para morar em Paris, com um ano de bolsa de estudos num curso de economia. Mas seu verdadeiro projeto é ser escritor. E ele logo pula fora da faculdade para investir numa vida aventureira e desregrada, animada com bebida, haxixe, drogas mais pesadas e as dezenas de girls que vai seduzindo.
Depois de um ano de esbórnia em Paris, é hora de voltar para casa. E é essa volta, com escala em Nova York e no Rio, que ele narra em Abacaxi, polvilhada de cenas de sexo ou escatológicas e toda sorte de jorros e fluidos.
Transgressores para a época e ainda capazes de chocar qualquer cidadão, Tanto faz e Abacaxi escancaram o talento de um grande escritor, com seus achados linguísticos, diálogos hilários e um cruzamento vertiginoso e saboroso entre alta e baixa cultura.

O invasor, de Marçal Aquino
Ambientado em São Paulo, o livro narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência.
Assim é O invasor, novela que só foi concluída cinco anos depois de ter virado roteiro do premiado filme do diretor Beto Brant, com Paulo Miklos e Sabotage no elenco.
Junto com Tanto faz & Abacaxi, o livro marca a inauguração do selo Má Companhia, dedicado a autores polêmicos. O evento de lançamento será dia 13 de abril, em São Paulo, com bate-papo entre os autores mediado por Joca Reiners Terron.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
Com uma literatura engajada e realista, Lima Barreto (1881-1922) compôs um romance cuja história oscila do humor ao drama. Ambientado no final do século XIX, o livro conta a história do major Policarpo Quaresma, nacionalista extremado, cuja visão sublime do Brasil é motivo de desdém e ironia. Interessado em livros de viagem, defensor da língua tupi e seguidor de manuais de agricultura, Policarpo é, sobretudo, um “patriota”, e quer defender sua nação a todo custo. O patriotismo aferrado leva o protagonista a se envolver em projetos, que constituem as três partes do livro.
Esta nova edição traz uma introdução da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, um texto de Oliveira Lima, publicado em 1916 no Jornal do Commercio, e também cerca de trezentas notas elaboradas por Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Garcia e Pedro Galdino que recuperam citações, textos, autores e personalidades históricas presentes no romance.

Vesuvio, de Zulmira Ribeiro Tavares
O aviso está nos primeiros versos: “Tua cabeça a prumo emplaca o tempo. Dentro dela guardas o Vesuvio”. É esse conteúdo incandescente que Zulmira exporá aos olhos do leitor com seu estilo direto e provocador, agora organizado em torno do eixo de uma lírica desarmante para quem está habituado a lê-la com o sorrisinho interno suscitado por sua malícia incansável. Claro, é a Zulmira de sempre. Mas que extraordinário encontrá-la assim, exposta, grave — e brilhante, extraordinária.
O livro se divide em sete partes que convergem para a seção final, “Glosa”, que, como ressalta Vilma Arêas no texto de orelha, “pode servir de guia para escalarmos o Vesuvio”. Escalada paradoxal, que não é para o alto mas segue o exemplo das folhas — falsos pássaros que aguardam sua ocasião de voo para atender aos “impulsos precisos que os dirigem pelos declives do ar à terra de sua breve vida”.
Primeiro livro de poesia de uma escritora premiada que não cessa de surpreender, Vesuvio reúne poemas da vida inteira.

Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg (Tradução de Julia Romeu)
O relato comovente — e assustador — do jovem agente literário Bill Clegg, que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício em crack. Ele experimenta a droga pela primeira vez no apartamento de um advogado no Upper East Side. A fumaça com “gosto de remédio, ou desinfetante” gera “um raio de energia renovada” que “eletriza cada centímetro do seu corpo”. Rapidamente a experiência o atira no circuito costumeiro dos viciados: em vez de pensões imundas e noites na sarjeta, porém, sua via crucis inclui hotéis e bares de luxo, aeroportos e táxis que o conduzem de um lado a outro em Manhattan enquanto duram as dezenas de milhares de dólares em sua conta. Escrito com uma sinceridade atordoante, o livro acompanha a queda e a redenção final, quase por milagre, de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama.

Amor sem fim, de Ian McEwan (Tradução de Jorio Dauster)
Joe e Clarissa Mellon eram um casal feliz. Professora e crítica literária, ela acabara de retornar de uma longa viagem de pesquisa sobre o poeta John Keats. Joe mal podia esperar por seu retorno. Escritor de divulgação científica, autor bem-sucedido de diversos livros e artigos, ele não era alguém que se deixasse levar facilmente pelas emoções, mas Clarissa, acreditava, era a mulher com quem dividiria o restante de seus dias. Eles haviam decidido fazer um piquenique no campo, e para lá seguiriam imediatamente após o reencontro no aeroporto. A poucos quilômetros de Londres, a paisagem verdejante das Chilterns oferecia um cenário perfeito para aquele idílio de primavera. Comida italiana e vinho francês completavam a felicidade da ensolarada excursão campestre. Ao fundo, um balão pairava sobre as árvores, como se simbolizasse a tranquila harmonia da tarde. Antes de ouvirem o grito aterrorizado que deflagrou a catástrofe, eles ainda não sabiam que suas vidas mudariam para sempre.

Semana quarenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

A vida imortal de Henrietta Lacks, de Rebecca Skloot (Tradução de Ivo Korytovsky)
A vida imortal de Henrietta Lacks reconstitui a vida e a morte de uma das mais injustiçadas personagens da história da medicina. O livro demonstra como o progresso científico do século XX deveu-se em grande medida a uma mulher negra, pobre e quase sem instrução. Doadora involuntária da linhagem “imortal” de células HeLa, a mais pesquisada em todo o mundo, a protagonista do premiado livro de estreia de Rebecca Skloot recebe uma merecida e tardia homenagem. O livro foi eleito pelo New York Times como um dos melhores de 2010, e você pode ver seu trailer e ler a resenha publicada pela revista Época.

Diário da queda, de Michel Laub
Um garoto de treze anos se machuca numa festa de aniversário. Quando adulto, um de seus colegas narra o episódio. A partir das motivações do que se revela mais que um acidente, cujas consequências se projetam em diversos fatos de sua vida nas décadas seguintes — a adolescência conturbada, uma mudança de cidade, um casamento em crise —, ele constrói uma reflexão corajosa sobre identidade, afeto e perda. Dessa reflexão fazem parte também as trajetórias de seu pai, com quem o protagonista tem uma relação difícil, e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz que passou anos escrevendo um diário secreto e bizarro. São três gerações, cuja história parece ser uma só. É uma viagem inusitada pela memória de um homem no momento em que ele precisa fazer a escolha que mudará sua vida. Assista ao trailer no nosso canal do YouTube.

O décimo primeiro mandamento, de Abraham Verghese (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Em 1954, nascem num hospital de Adis Adeba os gêmeos Marion e Shiba, filhos da união trágica entre um cirurgião inglês e uma jovem freira indiana. Com a morte da mãe no parto e o desaparecimento do pai, os meninos são criados por um casal de médicos missionários. Crescem unidos e interessados em medicina, numa Etiópia marcada pela turbulência política. Mas é o amor de Marion por uma mulher, muito mais do que a política, que vai separar de vez o destino dos dois irmãos. E é a medicina que vai uni-los quilômetros e anos depois, quando Marion terá de confiar sua vida aos dois homens de quem ele mais desconfiava: o pai, que o abandonou, e o irmão, que o traiu. Uma viagem inesquecível pela África e pelos Estados Unidos, pela medicina e pela literatura, e uma história sobre o poder, a intimidade e a beleza que existe no trabalho daqueles que cuidam de salvar a vida dos outros.

2 cores, de Renata Bueno (Ilustrações de Mirella Marino e Renata Bueno)
Este livro é o resultado de uma espécie de jogo: duas amigas ilustradoras escolheram duas cores — preto e vermelho — para criar ilustrações juntas. Uma começava o desenho e depois o passava à outra para que ela o terminasse. Manchas viraram bichos, linhas formaram pessoas, um simples círculo se transformou em um monstro. O último desafio foi criar o texto para cada uma dessas ilustrações, que, agrupadas, dão uma aula de imaginação às crianças. Ao final do livro, as autoras falam sobre essa experiência e sugerem aos leitores que se divirtam da mesma maneira: basta chamar um amigo para que um complete o desenho do outro.

Às avessas, de Joris-Karl Huysmans (Tradução de José Paulo Paes)
Este romance turbulento e original tem apenas um personagem. Des Esseintes é um aristocrata doente e em decadência que, ao se refugiar no campo, entrega-se à luxúria e ao excesso. Oscilando entre a inquietude e a debilidade, ele satisfaz seu apetite estético com literatura clássica, arte, joias exóticas, perfumes caros e um caleidoscópio de experiências sensuais. Às avessas, nas palavras do autor, caiu “como um meteorito” no cenário literário de sua época, e seu status de obra cult só fez aumentar ao longo do tempo. Esta edição traz introdução e notas de Patrick McGuinness e um prefácio escrito pelo autor em 1903, vinte anos deois da publicação do romance. E, complementando a fortuna crítica do livro, uma seleção de textos escritos por Mallarmé, Émile Zola e Oscar Wilde, entre outros.

Fama, de Daniel Kehlmann (Tradução de Sonali Bertuol)
Nove histórias se entrelaçam para formar este romance do premiado escritor alemão Daniel Kehlmann. Ele nos apresenta situações absurdas, mal-entendidos ou trocas de papéis, decisões inusitadas, encontros e desencontros que revelam a fragilidade das relações humanas nos universos da fama e do anonimato. Entram em cena escritores, um ator de cinema famoso e pessoas ditas “comuns”. Logo percebemos que todos eles correm o risco de perder a própria identidade, por conta da exposição excessiva a que estão sujeitos — uma das consequências de tantas novas tecnologias e meios de comunicação. Com uma prosa elegante, boas doses de humor e sem cair nas armadilhas da superficialidade, Kehlmann constrói um jogo provocador, em que não para de questionar as fronteiras entre ficção e realidade.

Na casa do Leo — Os egípcios, de Philip Ardagh (Ilustrações de Mike Gordon; Tradução de Érico Assis)
Leo é um menino como outro qualquer, a não ser por um detalhe: em sua casa, ele costuma receber as visitas mais extraordinárias. Desta vez, são os antigos egípcios que vão aparecer por lá — e tudo pode acontecer ao se abrir uma porta, como dar de cara com uma pirâmide no quintal ou um faraó na sala de estar. Com seu cachorro de estimação, o Naftalina, Leo vai percorrer os cômodos da casa guiado por Bata, o herdeiro do faraó, e descobrir, entre outras coisas, as brincadeiras preferidas das crianças egípcias; a escrita em hieróglifos; as pirâmides e seu método de construção; e como os mortos eram mumificados. Repleto de ilustrações e em formato de história em quadrinhos, o livro é escrito em linguagem acessível para leitores que estão começando a aprender sobre as antigas civilizações.

Move tudo!, de Marcelo Cipis
Ao assistirmos às imagens projetadas na imensa tela do cinema, muitas vezes sentimos vontade de estar naqueles incríveis cenários, ou até nos identificamos com os personagens, como que entrando imaginariamente em seus papéis. A brincadeira deste novo livro do artista plástico Marcelo Cipis é exatamente esta: em uma projeção de cinema, cenário e personagens do filme influenciam a plateia, assim como os espectadores acabam imprimindo modificações no que se passa na tela, entrando e saindo de lá. O fundo do mar projetado transforma espectadores em banhistas; ao assistir a uma cena de corrida, todos viram corredores; um balão sai da tela, recolhendo os espectadores e levando-os para bem longe… Não há regras e a movimentação é intensa.