literatura infantil

iPum

Por Júlia Moritz Schwarcz

Depois de várias reuniões, alguns quilos de biscoito de polvilho e milhares de e-mails, ficou pronto o primeiro livro infantil digital da Companhia. A versão para iPad do livro Quem soltou o Pum? poderá ser comprada na Apple Store a partir do dia 15 de agosto. E já que fazer esse livro foi uma novidade do começo ao fim (pelo menos para quem está acostumado com papel, caneta e uma boa dose de Microsoft Word), vou tentar relembrar um pouco do que se passou ao looongo desse looongo processo.

Sabe aquela sensação de tela em branco? Pois foi assim que tudo começou. Em primeiro lugar, era preciso decidir se queríamos algo próximo do livro em papel ou um “produto” totalmente diferente. Melhor que seja diferente, peromuy importante! — sem que se tornasse um quase jogo eletrônico. Partindo daí, decidimos que cada página teria por volta de duas animações. E bolar o “roteiro” dessas animações foi menos simples do que parecia. O Lollo, ilustrador do livro, sempre chamava a nossa atenção para a história do livro: por que fazer a mosquinha se mexer e zunir se ela não tinha importância nenhuma no que acontecia naquela parte da narrativa? Claro! As animações deveriam incrementar a história e não desviar a atenção do leitor; uma salva de palmas ao Lollo, que, aliás, teve que praticamente redesenhar o livro.

Enquanto isso, já que não entendo bulhufas da parte de programação eletrônica, sugeria as animações mais espalhafatosas e absurdas aos olhos dos meus colegas do outro lado do balcão. “E fazer ele se esconder debaixo da cama, essa é fácil, vai?” Sem dominar a tecnologia, sem poder saber se era possível programar tal movimento e se ele não ficaria artificial porque a ferramenta existente tinha não sei qual empecilho, era difícil bolar essas animações. E os sons, então, mais uma estreia para uma editora de livros, que acabava sempre sugerindo clichês da publicidade e reclamava que o barulho do bebê chupando chupeta não estava bom. De resto, a Helen precisou rediagramar o livro, abrindo espaço para os movimentos das ilustrações, que passavam a ocupar novos espaços nas páginas, e também para juntar o texto, já que o livro acabou com 16 páginas em vez de 32.

Mas ficou pronto e ficou muito bom, espero que todo mundo ache o mesmo. Pena só que não vou poder dar um desses de presente para o filho do Domingos — o entregador da lanchonete aqui perto da editora, que um dia me pediu a indicação de um livro para o filho ler nas férias, ganhou um de presente e depois de um mês se deu ao trabalho de vir me deixar um x-bacon-salada-maionese de presente; maior obrigado que eu já recebi!

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Semana sessenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores da África, reflete sobre as mazelas e maravilhas do continente nos artigos e ensaios deste livro de “interinvenções”. Da corrupção endêmica de boa parte dos governos africanos à destruição do meio ambiente, da força da tradição oral às complexas relações entre as culturas locais e a modernidade urbana, do entrelaçamento do português com as línguas nativas à herança de séculos de escravismo, tudo passa pelo crivo do autor, que também fala de escritores que lhe são caros, como Jorge Amado e Guimarães Rosa. Nestes textos militantes, em que se atacam os principais entraves ao desenvolvimento dos povos africanos, Mia Couto se serve de sua dupla experiência de biológo e escritor, combinando rigor intelectual e imaginação poética para ler melhor um mundo em permanente mutação.

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli
Comprar barato e vender caro pode ser um processo mental vicioso. Devido à prática, o dono de uma loja de quinquilharias atinge essa condição extrema ao expor a clientela a tal materialismo cínico. Prestes a se casar, dispensa a noiva com frieza e apaixona-se pela bunda de uma garçonete. Lê livros policiais e sua mente adota um ritmo alucinante. No entanto, algo de errado no encanamento dos fundos da loja põe tudo sob a seguinte perspectiva: o mau cheiro vem do ralo ou do protagonista? Surpreendente estreia literária de Lourenço Mutarelli, o livro exploca alguns dos temas prediletos do autor, como a desumanização progressiva, o absurdo e a crueldade, com a linguagem ágil que foi amadurecida em sua carreira nos quadrinhos. Adaptado às telas, resultou em atuação memorável de Selton Mello, além de marcar a história recente do cinema brasileiro.

A importância de ser prudente e outras peças, de Oscar Wilde (Tradução de Sonia Moreira)
Muito da fama de Oscar Wilde se deve ao romance O retrato de Dorian Gray, mas foi como dramaturgo que ele alcançou o maior sucesso em vida, com as comédias de costumes Uma mulher sem importância, Um marido ideal e A importância de ser prudente, reunidas neste volume. Nas peças que em larga medida satirizam a alta sociedade vitoriana que jamais o aceitou de bom grado, Wilde aponta de maneira irônica para si mesmo. Há algo do autor nas observações cínicas de lorde Illingworth em Uma mulher sem importância, assim como no estilo de vida despreocupado de lorde Goring, o bon vivant que é a fonte de sensatez de Um marido ideal, e também no inconsequente dândi Algernon de A importância de ser prudente. Com introdução e notas de Richard Allen Cave, diretor e estudioso do teatro britânico, a edição da Penguin-Companhia situa o leitor sobre o contexto em que as peças foram encenadas e as inovações que Wilde, um intelectual de grande apuro técnico, trouxe para a dramaturgia moderna.

Burocracia e sociedade no Brasil colonial, de Stuart B. Schwartz (Tradução de Berilo Vargas)
Entre o fim do século XV e o começo do século XVI, a monarquia portuguesa passou a contar cada vez mais com a burocracia estatal para centralizar o poder, processo esse quase contemporâneo — e de alguma forma propulsor — da expansão ultramarina. Esse esforço pela construção de uma burocracia régia acabou por legar às colônias a herança de uma estrutura administrativa bem desenvolvida e de uma concepção curiosamente legalista do governo e da vida. Este livro (publicado originalmente nos anos 1970 e reeditado agora com nova tradução, apêndice documental inédito e nova introdução do autor) foi estudo pioneiro da burocracia colonial na América portuguesa, tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abordagem, que privilegiou as teias humanas que formavam a burocracia.

Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub
Rio de Janeiro, últimas décadas do século XIX. Adão Africano, Genuíno, Juvêncio, Bonifácio, Francelina, Maria de São Pedro — todos negros, vários escravos: esses são alguns dos personagens que, outrora esquecidos em meio à documentação dos arquivos, protagonizam este livro. Um trabalho de pesquisa minucioso e sensível permite a Sidney Chalhoub analisar os processos criminais e de obtenção de alforria em que esses negros estavam envolvidos, revelar seus desejos e interferências nas operações de compra e venda a que tinham de se submeter e, por fim, desvendar o papel que a cidade do Rio desempenhava em suas vidas. Recuperando aspectos da experiência dos escravos na Corte, seus modos de pensar e atuar sobre o mundo, Chalhoub mostra que as lutas entre diferentes visões de liberdade e cativeiro contribuíram para o processo que culminou com o fim da escravidão no Rio de Janeiro.

Histórias de mistério, de Lygia Fagundes Telles
Esta bela reunião de seus contos apresenta a escritora Lygia Fagundes Telles em alguns de seus aspectos mais importantes. Seus temas, aqui, são a ansiedade e a morte, assim como o desamparo diante da perda do amor. Ao mesmo tempo encontramos a surpresa, o inusitado surgindo sem aviso do cotidiano bem conhecido. É o que acontece, por exemplo, em “As formigas”, em que duas estudantes alugam um quarto no sótão de uma pensão e descobrem, abandonado pelo locatário mais recente, um caixotinho cheio de ossos. Assustadas, elas veem como noite após noite uma fileira maciça de formigas entra na caixa e, aparentemente, não sai. As formigas parecem ter uma missão. Nesse e nos outros contos deste livro, o leitor encontrará os temas e o clima que caracterizam os contos de Lygia Fagundes Telles, escritos na linguagem ao mesmo tempo delicada e incisiva de uma das maiores escritoras brasileiras de nosso tempo.

Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares)
Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui.

Meu filho pato (Organização de Ilan Brenman e Instituto 4 Estações; Ilustrações de Rafael Anton)
Nem sempre é fácil falar sobre a morte, mas vivemos o sentimento de perda desde a infância. Pensando na dificuldade que muitos adultos têm em falar com seus filhos sobre o tema, o escritor Ilan Brenman, autor de inúmeros livros de sucesso destinados ao público infantil, e a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, resolveram convidar seis escritores de renome (Angela-Lago, Índigo, Lalau, Flávia Lins, César Obeid e Roger Mello) para criar histórias para os pequenos sobre esse assunto. O resultado é um livro tão variado em estilos — há contos de humor, outros mais tristes, um mais psicodélico, cordel e poesia — quanto em conteúdo — muitas possibilidades para que as crianças possam falar sobre a morte e entendê-la como um fenômeno inerente à vida.

Forma e exegese & Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes
Este livro reúne Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher (1936), o segundo e o terceiro livro de Vinicius de Moraes, respectivamente. Forma e exegese foi publicado quando Vinicius tinha apenas 22 anos. Mas se o jovem poeta já chamara a atenção da crítica com seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), o segundo trouxe a consagração ao receber o prestigioso prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Ariana, a mulher é um único e longo poema que põe em cena, como num transbordamento, o mundo emotivo e existencial de um sujeito. O texto se inicia com o relógio “batendo soturnamente a Meia Noite” e termina com o mesmo relógio “parado sobre a Meia Noite”. É nesse mundo estagnado, morto, que o poeta clama por Ariana. Mas ela não é apenas uma mulher; como o título sugere, ela é a mulher. E é também a morte, a vida, a natureza.

Semana sessenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Causas nada naturais, de P.D. James (Tradução de Fernanda Abreu)
Depois de solucionar um caso difícil, Adam Dalgliesh, inspetor da Scotland Yard, tira férias e vai buscar um pouco de sossego na casa de sua tia, que vive na pequena comunidade de Monksmere Head, em Suffolk, leste da Inglaterra. Ele também precisa decidir se irá se casar com a namorada. Mas logo na manhã de chegada a paz é interrompida: Dalgliesh recebe a notícia de que um romancista policial foi encontrado morto, com as mãos decepadas, em um barco abandonado a poucas milhas dali. Apesar de a autópsia indicar morte por causas naturais, uma herança polpuda e um manuscrito de autoria duvidosa indicam que houve algo a mais. Mesmo não sendo responsável pelo caso, Dalgliesh se vê impelido a desvendá-lo. Afinal, a solução de um crime que envolve um grupo de literatos vaidosos e ressentidos pede a acuidade de um policial que também é poeta.

Microcosmos, de Claudio Magris (Tradução de Roberta Barni)
Claudio Magris, um dos maiores escritores italianos contemporâneos, volta a percorrer os lugares e temas centrais de sua obra. Danúbio e Microcosmos guardam muitas semelhanças, mas, se o primeiro se estendia das nascentes à foz do grande rio europeu, explorando personagens e acontecimentos históricos da Mitteleuropa, o segundo se retrai para a cidade natal do escritor, Trieste, e seu entorno. Magris circula pelos cafés e ruas de sua cidade, visita regiões da fronteira italiana que até recentemente tinham pertencido à ex-Iugoslávia, encontra escritores locais, familiares, figuras anônimas. O resultado é uma sucessão de fragmentos descritivos que não se deixam compor numa narrativa mais ampla, como ocorrera em Danúbio. Microcosmos se mostra apenas como quadros desgarrados da memória sentimental do autor, que olha e registra o que vê.

O silêncio do túmulo, de Arnaldur Indridason (Tradução de Álvaro Hattnher)
Neste premiado romance policial nórdico (mesma região que nos trouxe Stieg Larsson e Henning Mankell), um esqueleto, provavelmente datado da 2ª Guerra, é encontrado por acaso em um canteiro de obras próximo a Reykjavík, Islândia. Enquanto os ossos são removidos por um grupo de arqueólogos, cabe ao inspetor Erlendur e a seus assistentes remexer nas velhas histórias da região, que envolvem violência doméstica, um suicídio duvidoso e a presença de uma base aliada durante a guerra. Paralelamente à investigação, Erlendur precisa lidar com sua filha viciada em drogas, com quem mantém uma relação distante, mas que acabou de entrar em coma. Nessa narrativa concisa e potente, a memória é o grande fio condutor.

Histórias e versos das estações do ano, de vários autores e ilustradores (Tradução de Eduardo Brandão)
As quatro historinhas e os 24 poemas e quadrinhas reunidos neste livro, escritos e ilustrados por diversos artistas, tratam das estações do ano e das principais festas e datas especiais: Natal, Páscoa, o início das férias… A concisão, o tema familiar e os versos e diálogos fáceis de acompanhar fazem com que mesmo as crianças que ainda não sabem ler possam apreciar a leitura dos textos em voz alta. Como nos outros volumes da coleção, a capa dura é produzida com um tipo de acabamento que a torna “fofinha”, fazendo com que fique ainda mais atrativa para os pequenos leitores. Na mesma série já foram publicados os títulos de sucesso: Historinhas de contar, Histórias para todos os dias, Rima pra cá, rima pra lá e Histórias, quadrinhas e canções com bichos.

A lentidão, de Milan Kundera (Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands da Silveira)
Nesta que é sua primeira narrativa escrita em francês, Milan Kundera, autor de A insustentável leveza do ser, volta a investigar os limites do romance, mesclando ficção e especulação metafísica, a exemplo de mestres da Ilustração como Voltaire e Diderot. Integrando diversos personagens em planos múltiplos — o próprio autor e sua mulher, um entomólogo tcheco, os personagens de uma novela libertina do século XVIII, o “dançarino” —, Kundera propõe uma discussão a um tempo profunda e prazerosa sobre a dificuldade de apreensão do real ante a velocidade da vida moderna, a memória e o esquecimento, o clima frenético de hoje e uma época em se podia retardar o movimento em favor da fruição.

Semana sessenta e um

Os lançamentos da semana são:

Os fatos são subversivos, de Timothy Garton Ash (Tradução de Pedro Maia Soares)
Timothy Garton Ash dedica-se há décadas a uma atividade híbrida entre jornalismo e historiografia: escrever a “história do presente”. Ele vai ao lugar onde as coisas estão acontecendo, entrevista pessoas nas ruas, discute com políticos, intelectuais e militantes. E essas reportagens são complementadas com a pesquisa e a reflexão que faz nas universidades de Oxford e Stanford, onde leciona. Neste livro estão reunidos artigos sobre a primeira década do século XXI, que tratam, por exemplo, das relações entre islamismo e terror, temática que o autor aborda com uma visão liberal equilibrada, sempre preocupada com a tolerância e o respeito pela diversidade. Com esse mesmo olhar, ele acompanha de perto a situação em países como Ucrânia, Belarus, Sérvia e Macedônia, bem como Birmânia, Brasil, Egito e Irã.

O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado (Posfácio de Anita Leocadia Prestes)
Jorge Amado decidiu escrever a biografia de Prestes em 1941, como forma de pressionar pela libertação do líder revolucionário, preso desde 1936. Viajou então ao Uruguai e à Argentina, onde Prestes havia se exilado anos antes. O autor narra os momentos mais dramáticos da trajetória de Prestes: a épica coluna que atravessou o Brasil entre 1924-27, o exílio, a tentativa frustrada de levante contra Getúlio Vargas em 1935, a prisão na solitária, a entrega de Olga Benário — grávida de Anita Leocadia, que escreve o posfácio desta edição — ao governo nazista, a campanha internacional de Leocadia, mãe de Prestes, pela libertação do filho e de Olga, e pela guarda da filhinha do casal.

Monsieur Pain, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Paris, 1938. Enquanto a maioria dos franceses ainda lutava com os fantasmas da Primeira Guerra, pairava no ar uma tensão causada pela ascensão de regimes fascistas na Europa. Neste peculiar período, a capital francesa era habitada por poetas e romancistas vanguardistas, artistas selvagens e curandeiros nada convencionais: os mesmeristas. Discípulo dessa terapia heterodoxa, o obscuro protagonista do livro tem a missão ingrata de curar um poeta com ataques crônicos de soluço. Monsieur Pain, um dos primeiros romances escritos por Bolaño, é uma peça rara em sua obra: um livro atmosférico, repleto de temas caros à literatura de gênero, como o ocultismo, a busca detetivesca e a confusão entre sonho e realidade. Enquanto Pain se deixa levar pelo mistério, as fronteiras entre o que é real e o que é imaginação se dissolvem.

Borges oral & Sete noites, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Em Borges oral (1979) e Sete noites (1980) se acham escritas palavras que brotaram da boca de um narrador cego, que falava como um sábio sibilino e irônico a auditórios do mundo todo. Sempre modesto, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos — Sócrates, Pitágoras, Cristo, Buda — e a outros mais próximos, como Macedonio Fernández, Borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. A princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. Embora aparentemente abstratos e intelectuais, os temas de suas conferências são tratados num recorte concreto, a que servem exemplos precisos, sempre manipulados com perfeição pelo refinado contador de casos, que não perde uma deixa para uma frase de humor e se orienta em meio às dificuldades do assunto pela força da memória e da imaginação.

O anexo: a incrível história do garoto que amava Anne Frank, de Sharon Dogar (Tradução de Luiz A. de Araújo)
O diário de Anne Frank, um dos textos mais célebres do século XX, lido por jovens e adultos do mundo inteiro, só foi publicado graças ao pai da menina, o único sobrevivente dentre as 8 pessoas que passaram 2 anos escondidas no anexo de uma casa em Amsterdam, durante a perseguição aos judeus organizada pelos nazistas. Neste romance, a inglesa Sharon Dogar se baseia no diário mundialmente conhecido para imaginar como teria sido conviver de perto com Anne Frank e até se apaixonar por ela. É através dos outros de outro adolescente que acompanhamos a sensação clautrofóbica de morar no esconderijo, a revolta por não poder lutar contra o inimigo e as aflições de se viver numa época tão sombria.

Macbeth, de Andrew Matthews (Ilustrações de Tony Ross; Tradução de Érico Assis)
Macbeth, general do exército escocês, é um defensor leal do rei e de sua pátria. Mas, ao voltar de uma batalha, depara com três bruxas que lançam uma profecia: ele se tornará rei. A previsão desperta as ambições mais secretas de Macbeth: impelido pela esposa, ele assassina o rei e é proclamado o novo regente. E este é só o primeiro de uma série de crimes que irá cometer. Bruxas, um fantasma e um punhal espectral… prepare-se para muita aventura, nesta que se tornou uma das mais famosas peças de Shakespeare. Além da adaptação em prosa da peça, o livro traz um prefácio da autora e pesquisadora brasileira Marta de Senna e dois posfácios: um sobre a questão do mal em Macbeth e outro sobre a dificuldade enfrentada pelos escritores da época de Shakespeare em encontrar papel para escrever.

Livros infantoadultos

Por Júlia Moritz Schwarcz

Joy of reading

Que livro devo dar de presente ao meu sobrinho de 4 anos? Será que posso contar essa história a uma criança que cursa a educação infantil? Quais os temas mais adequados a um leitor de 7 anos? — essas são perguntas comuns de se ouvir. A resposta não é muito difícil. Tudo bem, conheço muitos livros infantis, mas basta pensar naqueles de que gosto e pronto. Porque livro bom é bom para criança e para adulto. E não sou só eu que acho isso: Walter Benjamin concorda comigo, oquei?

Em um texto chamado “Livros infantis antigos e esquecidos” (obrigada, Tinas!) ele mostra como “nada é mais ocioso que a tentativa febril de produzir objetos — material ilustrativo, brinquedo ou livros — supostamente apropriados às crianças”. Contando a história de um grande colecionador de livros infantis, Benjamin chama atenção para uma coisa muito importante: as crianças não são seres incompreensíveis para os adultos nem muito diferentes de nós, e por isso não precisamos realmente ser muitos inventivos na hora de criar histórias e desenhos que as agradem.

Os pequenos se interessam pelas respostas verdadeiras e não aquelas “criadas” para atender ao seu universo particular. E isso acontece de maneira saudável, pois, ao entrar em contato com aspectos do mundo adulto, as crianças sabem reorganizá-los em uma relação nova e original, construindo “seu mundo de coisas, um microcosmos no macrocosmos”.

Quem convive com crianças sente na prática como elas trazem mesmo tudo para a sua própria chave e repertório. Pegue um tema tabu como a morte, por exemplo, e duas meninas bem pequenas chamadas Zizi e Alice. Fomos à praia esse feriado, na casa de amigos. O lugar era lindo, a companhia estava ótima e minha filha mais velha (4 anos) foi embora chorando. No carro, aos prantos, dizia que queria ficar ali até morrer. Em 2 segundos mudou de expressão e corrigiu: “Peraí, não quero morrer”. Eu disse que isso ia demorar muito para acontecer porque ela era nova. “Mas um dia eu vou ter que morrer?” Sim, filha, todo mundo morre. “Então quer dizer que vai chegar um dia em que vou viver sem ter pai nem mãe?”. A irmã mais nova (2 anos) ouviu a conversa bem quieta e na noite seguinte, acordada por causa de uma dessas viroses chatas, com muita febre, me disse que também não queria morrer e me perguntou “aliás, por que a Alice nasceu?”.

A vida e a morte — até a morte da mãe —, esses não são temas “indicados” a duas pequenas desse escalão. Mas e daí? Na prática isso não vale. Acho que com os livros é parecido: podem interessar a todos e qualquer um, sem muita restrição de idade, e pelos motivos mais diversos possíveis. Lembro da Lili (que criou o selo infantil da Companhia e é a editora master) contando sempre como a Letrinhas nasceu com a aposta de que um bom livro não tem pátria ou origem, de que poderíamos editar livros estrangeiros, sim. Essa questão já está totalmente superada hoje em dia, mas tenho achado que, salvo algumas honrosas exceções, os livros podem não ter, também, idade. E por isso procuro manter com eles a minha postura de mãe: aquela que, de coração aberto, prepara cada volume para o mundo inteiro gostar.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.