literatura infantil

O desaparecimento da infância

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por pimpexposure)

Martin Amis, prestigiado e polêmico autor inglês, soltou mais uma de suas frases amargas, atacando desta vez a literatura infantil. Em seu novo programa na BBC, disse que só escreveria para crianças se sofresse algum sério dano cerebral. Para ele, o problema é precisar se dirigir a um público específico. Ter algum tipo de restrição na hora de escrever é um anátema, pois, em suas palavras, “ficção é liberdade”. Amis disse ainda que nunca criaria um personagem que o forçasse a escrever em um registro inferior ao que ele é capaz.

Claro que muitos autores reagiram a tamanha indelicadeza. Ainda mais porque Amis tocou em uma questão delicada: uma certa hierarquia (velada) existente dentro da literatura, que coloca a ficção adulta acima da infantojuvenil. Já tratei desse assunto em outro post — sobre a necessidade de exigirmos o mesmo rigor na forma, no texto, quando estamos falando de livros para crianças. Acho mesmo que a história não deve bastar para compor um bom livro infantil, que não se mantém em pé sem o texto bem escrito, rico na linguagem e cuidado em sua composição, mas também não acho que exista a mesma liberdade em ambos os campos.

Lucy Coats, autora inglesa que costuma escrever aos jovens, respondeu furiosa, dizendo, entre outras coisas, que, quando está escrevendo, não lembra que está se dirigindo aos pequenos, que não há censura na hora de colocar a narrativa no papel, pois as crianças são espertas e odeiam que os adultos sejam condescendentes com elas. Coats disse que escreve da maneira mais rica possível para que seu leitor se sinta atraído pelo que está lendo, não importando sua idade.

Não sei se concordo com isso. Há um certo tempo atrás, li um livro chamado O desaparecimento da infância, do americano Neil Postman, que me deixou muito impressionada e que me voltou à cabeça quando acompanhava a polêmica de Amis. Postman explica como a ideia de infância pôde surgir com a criação da imprensa, que criou um novo mundo simbólico, o qual excluía as crianças, pois acabava por limitar a circulação de certo tipo de informação. Até a Idade Média, a cultura era algo que acontecia no campo da oralidade, e as crianças estavam expostas a todo tipo de assunto, pois não se acreditava que elas necessitassem de proteção nem cuidado nem escolarização — elas não estavam a salvo dos segredos dos adultos. Com a disseminação da palavra impressa, criou-se uma nova compreensão de infância, que se baseava na ideia de incompetência de leitura. “Ser um adulto em pleno funcionamento exigia que o indivíduo fosse além do costume e da memória e penetrasse em mundos não conhecidos nem contemplados antes”, ou seja, a idade adulta tinha de ser conquistada, era uma realização simbólica e não mais biológica. As crianças não eram mais vistas como miniaturas de adultos, mas como adultos ainda não formados, e precisavam frequentar escolas para adquirir a capacidade de leitura. Resumindo bem, para Postman, foi como uma bola de neve: a necessidade de alfabetização trouxe consigo a multiplicação das escolas, que hierarquizaram o conhecimento por faixas etárias, criando dois mundos bastante separados.

Assim como a imprensa foi capaz de gestar a ideia de infância, a televisão e a informação eletrônica estão apagando a linha que separa a idade adulta da infância. Isso porque as crianças estão mais uma vez expostas aos tais segredos do mundo adulto: seja na televisão, seja pelo computador, ou mesmo nas conversas entre os adultos, que usam palavras inadequadas para falar de temas inadequados na frente dos filhos, as crianças não estão mais protegidas de certos conteúdos. Como consequência, para Postman, as crianças e os adultos estão cada vez mais parecidos — desde as roupas até o seu comportamento.

Tudo isso para dizer que tenho muito medo de um tipo de discurso que acaba por levantar barreiras que separam a literatura infantil da adulta. Não concordo nem com uma vírgula do que disse Martin Amis, mas também não acho que seja fácil para um escritor acostumado a falar ao mundo adulto se dirigir às crianças. Seja no mundo da educação, seja no mundo da arte (representado aqui pela literatura), precisam estar bem claras algumas diferenças, assim como precisam ser estabelecidas algumas barreiras importantes.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Semana trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

O campo e a cidade, de Raymond Williams (Tradução de Paulo Henriques Britto)
O campo e a cidade é considerado a obra-prima de Raymond Williams, um dos mais finos e respeitados críticos literários ingleses do século XX. O autor oferece leituras detalhadas de poemas bucólicos e antibucólicos, comparando-os com o desenvolvimento efetivo da sociedade rural inglesa, e examina as reações aos centros urbanos a partir dos séculos XVI e XVII, as mudanças decisivas ocorridas na Londres do século XVIII e a nova literatura urbana dos séculos XIX e XX.

O caderno de Liliana, de Livia Garcia-Roza (Ilustrações de Taline Schubach)
Liliana não entende por que a mãe, que foi internada, não vai mais voltar para casa. Como não pode visitá-la, a menina se põe a escrever. Contar sua rotina — as visitas da avó, os irmãos bagunceiros, o batizado da boneca preferida… — é uma forma de continuar conversando com a mãe. Palavra atrás de palavra, com leveza e sabedoria que só as crianças têm, Liliana vai aprender a dizer o que sente e a descobrir como dar sentido a sua tristeza, a suas alegrias e a sua maneira de ver o mundo.

Ordinário, de Rafael Sica
Ordinário é uma coletânea da série de tiras de mesmo nome, publicada por Rafael Sica em seu blog desde 2009. Essas tiras, em preto e branco e sem falas, retratam a vida na metrópole, marcada por sentimentos intensos como solidão, tristeza, medo e horror, sempre com um humor ácido e um toque de surrealismo. Nesse universo bastante particular — e facilmente reconhecível — criado por Sica, de um modo quase tragicômico questiona-se a vida urbana e o comportamento do homem contemporâneo. O resultado seria algo próximo de Macanudo, se fosse escrito por alguém como Tim Burton. Haverá lançamentos com sessão de autógrafos em Porto Alegre, São Paulo e Curitiba.