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Céline, a polêmica e as brancas nuvens

Por Rosa Freire d’Aguiar

Hoje, dia 1º de julho, a França deveria estar celebrando o cinquentenário da morte de Louis-Ferdinand Céline, que, ao lado de Proust, forma a grande dupla da literatura francesa do século 20. Deveria… Pois é. Nada de comemoração oficial. Uma discreta homenagem apenas, iniciativa de François Gibault, presidente da Sociedade de Estudos Celinianos e advogado da viúva Lucette Almanzor, que ainda vive, quase centenária, na antiga casa de Meudon. Ali, no cemitério de Longs Réages, perto da estação de trem dessa cidadezinha entre Paris e Versailles, Gibault fará a aposição de uma coroa de flores na sepultura de Céline, em presença de um punhado de celinianos de ofício e de paixão.

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) é, como se sabe, o autor de Viagem ao fim da noite, romance-cult que traduzi para a Companhia das Letras em 1994, graças ao empenho do Luiz Schwarcz, que no nosso primeiro encontro, três anos antes, me ouviu falar entusiasmada de Céline e me disse que já estava pensando em tê-lo na editora. Não só publicou o Viagem pela primeira vez no Brasil, como mais adiante a ele somou outros dois títulos, que também traduzi: A vida e a obra de Semmelweis (1998) e De castelo em castelo (2004).

A França é, como se sabe, dada a celebrar datas redondas de seus expoentes culturais: um centenário de nascimento aqui, um sesquicentenário de morte ali, relembrados em exposições, publicações, colóquios. Daí o Ministério da Cultura estabelecer, todo ano, o Recueil des célébrations nationales, uma espécie de rol de efemérides que contarão com apoio oficial. No site do ministério fica-se sabendo que em 2011 serão comemorados, por exemplo, os 500 anos do Elogio da loucura, de Erasmo, os 250 anos do La nouvelle Heloise, de Rousseau, os 50 anos de Ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, da criação da maison de couture de Saint-Laurent, e do primeiro álbum das Aventuras de Asterix. O cinquentenário de morte de Céline? Em brancas nuvens. Por conta de uma absurda polêmica — mais uma! — em torno de seu nome.

Céline chegou a figurar na lista, apresentado pelo professor Henri Godard, certamente a maior autoridade em sua obra, organizador dos cinco volumes celinianos na prestigiosa coleção La Pléiade e autor de uma recente e alentada biografia do autor. Ao incluí-lo, Godard explicava as contradições desse romancista que, pela própria complexidade, é um nome fundamental na literatura contemporânea. Foi o suficiente para que, em janeiro, o advogado Serge Klarsfeld pedisse ao ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand, que tirasse Céline da lista oficial. Houve choro e ranger de dentes da turma a favor e da turma contrária à decisão. Céline ainda é uma espinha na garganta dos franceses.

Em Viagem, seu romance de estreia, de 1932, Céline promoveu uma fantástica ruptura da língua literária. Levou a linguagem popular e oral a todas as bocas, e não apenas às bocas de personagens populares, virou de ponta-cabeça a pontuação, criou neologismos. Mais importante, deu uma nova respiração e um novo ritmo à literatura, que, para ele, era fundamentalmente uma pequena música. Influenciou muita gente, que o copiou com mais ou menos talento. Mas esse mesmo Céline que denunciou no Viagem a pobreza dos subúrbios, o colonialismo e o fordismo, e chegou a ser rotulado de esquerda, escreveu três panfletos abjetamente antissemitas. Dois deles antes da guerra, o terceiro, no final de 1940, quando a França ocupada pela Alemanha aplicava o estatuto dos judeus. Nos panfletos Céline leva ao paroxismo os tiques e truques de seu estilo inigualável, mas também leva às raias da histeria o seu antissemitismo, pondo, aliás, no mesmo saco judeus e Igreja católica, capitalistas e comunistas. No pós-guerra os panfletos saíram de circulação, embora sejam encontrados aqui e ali. Sua publicação não está proibida, mas a viúva não deixa que sejam relançados a fim de não pôr mais lenha na fogueira que já chamuscou demais a obra e a vida de seu marido. Por ora, ainda é difícil os franceses conciliarem os dois Céline. É de esperar que daqui a uns poucos anos os panfletos possam ser lidos, sem maior comoção, ressaltando-se então sua imensa qualidade literária. Até porque é impraticável manter distância dos panfletos quando se quer conhecer e estudar Céline.

Talvez por eu ter traduzido três livros de Céline, algumas vezes tive de tentar explicar essa dupla face de Céline, tanto mais que no Brasil ele ainda é pouco ou mal conhecido, ao contrário de países como os Estados Unidos, a Alemanha e mesmo Israel, onde é cada vez mais estudado. Aos que o relembram, num atalho, como “aquele escritor nazista”, convém esclarecer que Céline não era bem visto pelos alemães da administração nazista em Paris. Achavam-no um sujeito incontrolável e um romancista de linguagem chula. Céline, por sua vez, não tinha simpatia pelo nazismo e rejeitava, por vulgaridade, o espalhafato das cerimônias de rua e de massas do nacional-socialismo.

Céline foi uma mistura de gênio e de celerado, com uma sensibilidade doentia. Como disse Dau Bastos, um dos pouquíssimos especialistas brasileiros em sua obra (Céline e a ruína do Velho Mundo, Eduerj, 2003), ele foi “tão obcecado pela catástrofe que a ela submeteu o próprio texto, desenvolvendo um estilo que parece refletir os descaminhos do século”.  Não se trata de desculpar o indesculpável, mas meio século depois de sua morte já não dá para evocar o antissemitismo para rejeitar sua obra in totum. A chancela oficial que foi negada às celebrações pode ter sido uma oportunidade perdida para que os franceses revissem o próprio passado, suas idiossincrasias, e até o antissemitismo secular que despontou mesmo em autores insuspeitos como Voltaire e Montaigne. Mais que uma aula de literatura, eles perderam uma aula de história.

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Rosa Freire d’Aguiar nasceu no Rio de Janeiro. Nos anos 70 e 80 foi correspondente em Paris das revistas MancheteIstoÉ. Retornou ao Brasil em 1986 e no ano seguinte traduziu seu primeiro livro, para a editora Paz e Terra: O conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders. Em mais de vinte anos de atividade, verteu mais de sessenta títulos nas áreas de literatura e ciências humanas. Além do francês, traduz do espanhol e do italiano. Entre os prêmios que recebeu estão o da União Latina de Tradução Científica e Técnica (2001) por O universo, os deuses, os homens (Companhia das Letras), de Jean-Pierre Vernant, e o Jabuti (2009) pela tradução de A elegância do ouriço (Companhia das Letras), de Muriel Barbery.