luis fernando verissimo

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

As mentiras que todos contam

mentiras

Quem mente mais? Homens ou mulheres? “Acho que mulher mente mais, mas homem é mais persistente na mentira, que mantém contra todas as evidências em contrário. Homem é mais cara de pau.” Dessa forma, o sempre bem-humorado Luis Fernando Verissimo desliza pela polêmica.

Autor da coletânea de crônicas As mentiras que os homens contam (Objetiva), Verissimo não julga, apenas constata. Os homens não mentem. E, se mentem, é porque precisam. Para poupar as mulheres — e, também, para se proteger delas.

Dez anos depois do lançamento desse best-seller, o escritor abriu espaço para as mulheres darem o troco e responderem à altura com a coletânea As mentiras que as mulheres contam. Afinal, na arte da dissimulação, elas não deixam nada a dever. Mas nem sempre é tudo mentira, às vezes, são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social.

Neste 1º de abril, selecionamos duas crônicas extraídas de ambos os livros, sempre com o humor irresistível de Verissimo. Como já cantou Erasmo Carlos: Pega na mentira, corta o rabo dela…

As mentiras que as mulheres contam: A outra

Apavorada com a perspectiva de envelhecer e o marido trocá-la por uma mais moça, fez plástica atrás de plástica. Com cinquenta anos, ficou com um corpo de vinte e um rosto de trinta, se não se olhasse muito de perto. Alisou as rugas, tirou daqui, enxertou ali, levantou acolá — o acolá é sempre o primeiro a cair — e conseguiu: não envelheceu. Mas no outro dia contou às amigas que o marido a trocara por outra.

Estava arrasada. Só não podia chorar para não desmanchar a maquiagem. As amigas tentaram consolá-la. Chamaram o marido de tudo, inclusive de cego, pois quem procuraria outra mulher tendo uma como ela — corpo de vinte, rosto de trinta — em casa? Os homens não tinham jeito mesmo. Para eles, amadurecer era uma forma de voltar à adolescência. Iam em busca dos hormônios perdidos e só encontravam o ridículo.

— Não me façam chorar, não me façam chorar — pedia ela.

As amigas começaram a desenvolver teses sobre o que leva homens mais velhos a procurar mulheres mais moças. Pânico sexual, antes de mais nada. Descontadas, claro, as falhas naturais do caráter masculino, que também se acentuam com a idade. Mas ela que esperasse.

Cedo ou tarde, ele se cansaria da mulher mais moça, ou ela se cansaria dele, ou…

— Ela não é mais moça — interrompeu a mulher. — É mais velha do que eu!

Abriu-se uma clareira de espanto. O quê? Mais velha?! E ela contou que a outra nunca fizera plástica, que a outra nem pintava os cabelos. Era uma senhora grisalha, matronal, exatamente do tipo que ele esperara em vão que ela ficasse, como ele mesmo dissera. Sim, porque ela fora pedir satisfação, pronta, inclusive, a bater na outra. Não só não batera como acabara tomando chá com a outra e ouvindo seus conselhos num tom maternal.

O que mais doera fora o tom maternal.

 

A mentira que os homens contam: Homens

Deus, que não tinha problemas de verba, nem uma oposição para ficar dizendo “Projetos faraônicos! Projetos faraônicos!”, resolveu, numa semana em que não tinha mais nada para fazer, criar o mundo. E criou o céu e a terra e as estrelas, e viu que eram razoáveis. Mas achou que faltava vida na sua criação e — sem uma ideia muito firme do que queria — começou a experimentar com formas vivas. Fez amebas, insetos, répteis. As baratas, as formigas etc. Mas, apesar de algumas coisas bem resolvidas — a borboleta, por exemplo —, nada realmente o agradou. Decidiu que estava se reprimindo e partiu para grandes projetos: o mamute, o dinossauro e, numa fase especialmente megalomaníaca, a baleia. Mas ainda não era bem aquilo. Não chegou a renegar nada do que fez — a não ser o rinoceronte, que até hoje Ele diz que não foi Ele —, e tem explicações até para a girafa, citando Le Corbusier (“A forma segue a função”). Mas queria outra coisa. E então bolou um bípede. Uma variação do macaco, sem tanto cabelo. Era quase o que Ele queria. Mas ainda não era bem aquilo. E, entusiasmado, Deus trancou-se na sua oficina e pôs-se a trabalhar. E moldou sua criatura, e abrandou suas feições, e arredondou suas formas, e tirou um pouquinho daqui e acrescentou um pouquinho ali. E criou a Mulher, e viu que era boa. E determinou que ela reinaria sobre a sua criação, pois era sua obra mais bem-acabada.

Infelizmente, o Diabo andou mexendo na lata de lixo de Deus e, com o que sobrou da Mulher, criou o Homem. E é por isso que, alguns milhões de anos depois, a Lalinha e o Teixeira estão sentados num bar, o Teixeira com as mãos da Lalinha entre as suas, olhando fundo nos seus olhos, tremendo romance, e de repente a Lalinha puxa as mãos violentamente.

— Seu grandessíssimo…

— O que é isso, Lalinha?

— Agora eu saquei. Saquei tudo. Foi ele que instruiu você!

— Você está delirando.

— Mas claro. Como eu fui boba. Como é que você ia saber que o meu perfume preferido era aquele? Foi o Vinícius que te disse.

— Lalinha, eu juro…

— Mas eu sou uma imbecil! E o disco. O primeiro disco que você me dá é justamente um disco do Ivan Lins… Meu Deus, até o beijo atrás da orelha!

O Teixeira olha em volta, preocupado. Lalinha está exaltada.

— Lalinha, calma.

— Posso até ver o Vinícius ensinando você. Olha, beija ela ali que é tiro e queda. Ele escolheu você a dedo. Sabia que você é do tipo que gosto. Igual a ele, o cachorro!

— Lalinha, eu juro pela minha mãe…

— Estava tudo bom demais para ser verdade. Agora tudo encaixa.

— Não é nada disso que você está pensando.

— Claro que é! Mas diz pro seu amigo Vinícius que não vai dar certo. Diz que quase deu, mas eu acordei a tempo. Diz que ele vai continuar me pagando pensão por muitos e muitos anos porque tão cedo eu não caso de novo. Ainda mais com um capacho como você!

— Lalinha, então você acha que eu ia me submeter a… Ô Lalinha!

— Acho sim, acho sim.

— Está certo. Foi isso mesmo. Mas eu me apaixonei de verdade, Lalinha. Nosso casamento ia ser um estouro. Vai ser um estouro.

— Pede a conta.

— Mas Lalinha…

— Pede a conta, Teixeira.

Semana duzentos e setenta e um

A resistência, de Julián Fuks
O leitor se descobre de partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante. Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam buscar o exílio no Brasil, o menino cresce, ganha irmãos, e as relações familiares se tornam complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescritura do próprio enredo familiar. Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.

Lugar nenhum – Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura, Lucas Figueiredo
Entre os incontáveis mistérios que cercam o período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-85), a ocultação dos arquivos secretos da repressão é um dos mais controversos. Desde a volta da democracia, em 1985, sucessivas tentativas de abrir os arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foram feitas pelo Ministério Público e pela Justiça. Mas a resposta dos militares era sempre a mesma: foram destruídos e não há vestígio deles em nenhum setor das Forças Armadas. Nesta brilhante reportagem investigativa que inaugura a coleção Arquivos da Repressão no Brasil, Lucas Figueiredo mostra que não é bem assim. O jornalista teve acesso a um conjunto de microfilmes do Cenimar – o temido Centro de Informações da Marinha. O material foi examinado por peritos da Biblioteca Nacional, que atestaram sua autenticidade, e analisado por historiadores renomados, que foram unânimes quanto a sua importância. Os documentos não deixam dúvida: os militares sempre souberam mais do que revelaram. Desde o início, tinham registros precisos sobre o destino de presos políticos tidos como “desaparecidos”, mas na realidade mortos pela repressão. Ainda existem registros desconhecidos sobre o período? Por que os militares insistem em ocultar seus arquivos, mesmo passados trinta anos do fim do regime ditatorial? Por que, de Sarney a Dilma, nenhum presidente civil do pós-ditadura obrigou a Marinha, a Aeronáutica e o Exército a abrir seus arquivos secretos? O que esse impasse diz sobre o poder das Forças Armadas e a democracia no Brasil de hoje?

O frango ensopado da minha mãe – Crônicas de comida, Nina Horta
O frango ensopado da minha mãe faz uma nova reunião de textos inéditos em livro – também originalmente publicados na Folha de S.Paulo -, selecionados com a colaboração de Rita Lobo, discípula confessa de Nina Horta. Eles consolidam a presença da autora não apenas como referência na bibliografia gastronômica, o que já seria muito, mas também como lídima continuadora do melhor da tradição da crônica literária brasileira. Os textos de Nina pretendem falar sobre comida, mas falam de vida. De uma vida simples, rica em experiências e repetições que levam à sabedoria – do jeito que ela prefere a culinária: sem esnobaria e afetação. Família, amigos, cozinheiros, livros, filmes, lugares, nomes de pratos, modismos gastronômicos, dietas e cuidados alimentares contemporâneos – tudo serve para mobilizar a escrita afetuosa em tom de troca de receitas, a glosa sagaz de quem conhece muita coisa e as escolhas de quem chegou à plena liberdade. Como essa, por exemplo: “Deixem em paz o porco, esse poema”. Uma sábia, essa Nina Horta.

Alfaguara

Um mapa todo seu, Ana Maria Machado
Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Paralela

Gigantes, Pedro Henrique Neschling
Tudo começa numa festa de formatura de ensino médio. Cinco amigos comemoram juntos o tão aguardado fim da vida escolar. Apesar de bem diferentes entre si, têm algo em comum: enxergam o futuro como um mar de possibilidades a ser descoberto e explorado. Sonham em ser gigantes, tão grandes quanto suas ambições. Mas para nenhum deles o futuro será conforme o previsto. À medida que os anos passam, os jovens deparam com as complexidades trazidas pelo chamado da vida adulta. Desilusões amorosas, questões familiares, conflitos na carreira, dúvidas e mais dúvidas… É inevitável: ao chegar perto dos trinta, todos nos tornamos um pouco mais desencantados e – por que não? – sábios. Mas e os sonhos da juventude, onde vão parar?

Suma de Letras

Revival, Stephen King (Tradução de Michel Teixeira)
Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade. Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra  o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

Objetiva

As mentiras que as mulheres contam, Luis Fernando Veríssimo
Tudo começa com a mãe, com o “Olha o aviãozinho!” à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que vai se desdobrando em outras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social. Na coletânea de crônicas As mentiras que as mulheres contamaparecem, por exemplo, a senhora que tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente a idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

Seguinte

Felizes para sempre, Kiera Cass (Tradução de Sandra Suy)
Esta coletânea traz os contos A rainha, O príncipe, O guarda e A favorita ilustrados e com introduções de Kiera Cass. Conheça o príncipe Maxon antes de ele se apaixonar por America, e a rainha Amberly antes de ser escolhida por Clarkson. Veja a Seleção através dos olhos de um guarda que perdeu seu primeiro amor e de uma Selecionada que se apaixonou pelo garoto errado. Você encontrará, ainda, cenas inéditas da série narradas pelos pontos de vista de Celeste e Lucy, um texto contando o que aconteceu com as outras Selecionadas depois do fim da competição e um trecho exclusivo de A sereia, o novo romance de Kiera Cass. Este é um livro essencial para os fãs de A Seleção, que poderão mergulhar mais nesse universo tão apaixonante.

Mesa de abertura: Flip, ano 10 + Drummond 110

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Convidados:

Uma sessão dupla abre a décima edição da Flip. Em comemoração aos dez anos do evento, Luis Fernando Verissimo começa a noite falando sobre o valor da literatura, razão de ser da festa. Silviano Santiago e Antonio Cicero fazem em seguida a conferência sobre o autor homenageado da Flip 2012, Carlos Drummond de Andrade, cujo nascimento completa 110 anos em outubro. Do panorama da relação de Drummond com o século XX à leitura detalhada de um de seus poemas, Santiago e Cicero descrevem os traços fundamentais da obra de um dos maiores escritores brasileiros.

Horário de início: 19h

A conferência de abertura começa com Miguel Conde, curador da 10ª Flip, que apresenta o autor Luis Fernando Verissimo: “ele disse que aceitaria qualquer convite da Flip, mesmo que fosse pra trocar uma lâmpada”.

Verissimo: Há 4 anos fui convidado para apresentar o dramaturgo Tom Stoppard. Subi no palco e disse: “é uma honra estar aqui na Clip.” Acho que 4 anos depois, eles resolveram me dar uma chance de me redimir. Depois de pensar por esses anos, resolvi que a melhor defesa é o ataque: digo que troquei o F pelo C de propósito, acreditando que a plateia entenderia.

Verissimo: Há 10 anos Liz Calder conspira para nos deixar mais inteligentes. O meu C errado pode ser do Circo da Flipinha, ou de Conhecimento.

Silviano Santiago e Antonio Cicero sobem ao palco.

Silviano: O século 20 é o irmão mais velho de Drummond. Os dois viram o cometa Halley, a 1ª Guerra. Drummond vai a BH, publica a pedra no meio do caminho, forma-se em Farmácia, flerta com o trabalho público. Chega a 2ª Guerra, ele entra para o partido comunista, passa a viver apenas de sua produção artística. Século e Drummond chegam à década de 60, os novos universitários são cabeludos e ouvem rock and roll. Mas pouco depois o século e o regime se tornam repressivos, e o sistema faz apologia à sociedade de consumo. Drummond e século sobrevivem no futuro do passado.

Na obra de Drummond estão a oposição e contradição entre razão e emoção, Marx e Proust, e o gosto pelos valores tradicionais da sociedade.

Com o pai trabalhando e o irmão se dedicando à música, o pequeno Drummond passou a viver no mundo dos livros, como mostra o poema “Infância” e a citação a Robinson Crusoé. Depois chega a descoberta amorosa e as mamas da lavadeira. Depois a época de revoluções, em que sua família é o alvo. Mas então o poeta tenta se aproximar da classe trabalhadora, como por exemplo no poema “Operário”.

Foi necessário que ele perdesse a família e amadurecesse como poeta para retornar aos valores familiares e aceitasse sua posição, com a série de livros Boitempo.

Existem 2 Drummonds: o 1º compreendeu as pessoas de seu tempo, fez críticas sociais. O 2º assumiu os valores patriarcalistas e passou a ver o mundo pelo espelho retrovisor.

Antonio Cicero vai ler e comentar o poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo.

O livro foi publicado ao fim da 2ª Guerra. A náusea representa a reificação e a coisificação do ser humano.

Na 1ª parte do poema, o personagem que se mudou para a cidade grande e se frustrou tenta se misturar à multidão e flerta com o suicídio.

Mas na parte “A cidade sou eu” passa a haver identificação do personagem com a cidade.

As máquinas permitem a automatização de muitas tarefas. Era de se esperar que isso resultaria em muito tempo livre, mas a verdade é o oposto: nosso tempo está preso ao trabalho. Mesmo as atividades de lazer, que substituem a poesia, viraram linhas de produção.

A 2ª estrofe apresenta o tempo presente como injusto. O sujeito e o relógio se confundem. Tempo e olhos estão cobertos de pobreza e sujeira.
Na 3ª estrofe o sol consola, mas não resolve.

Na 4ª estrofe, o tédio aparece. “Nenhuma carta escrita nem recebida” mostra a solidão.

5ª estrofe: o poeta parece chamar de crime alguns de seus próprios poemas. Como no poema em que diz “o último poeta morreu em 1914”. Depois de guerras e atrocidades, escrever um poema seria um crime.

Na 7ª estrofe, a ênfase não são as barbaridades, mas uma flor. A flor não é revolução nem manifestações sociais. A 8ª estrofe diz: a flor é feia, difícil de perceber.

Na última estrofe, parece que algo extraordinário aconteceu com o nascimento da flor. O poeta se senta no chão para apreciar o fenômeno. A flor é metáfora não de mudanças sociais, mas sim da própria poesia, que fura o asfalto, o ódio, a náusea. A mensagem do poema é: como é maravilhoso o surgimento da poesia em um mundo tão inóspito.

Horário de término: 20h38