luiz eduardo soares

Semana duzentos e sessenta e cinco

 

Nova reunião – 23 livros de poesia, Carlos Drummond de Andrade
Ideal para estudantes e amantes de poesia, é esta Nova reunião de 23 livros em um único volume. Um amplo painel da obra de Carlos Drummond de Andrade, que atravessou boa parte do século XX construindo um depoimento – lírico e político, metafísico e sensual – sobre o Brasil.

Rio de Janeiro – Histórias de vida e morte, Luiz Eduardo Soares
Este livro é resultado dessa experiência singular. O líder do tráfico que deseja sair do crime e procura o então secretário em busca de uma salvação impossível. Os policiais que metralham a casa da família do autor em represália a suas tentativas de sanear a corporação. O rico que abandona uma vida de luxo e conforto para se tornar traficante de drogas. Tudo isso está neste Rio de Janeiro. Mas os relatos ultrapassam o memorialismo. Escrito com mão leve, ritmo de thriller e faro jornalístico, o livro é um retrato impactante das desigualdades, do racismo, da degradação da política, da violência do Estado e do ódio que se derrama sobre a cidade, colocando em risco a beleza exuberante do eterno cartão-postal do Brasil.

A garota na teia de aranha – Millennium vol.4, David Lagercrantz (Tradução de Guilherme Braga e Fernanda Sarmatz Åkesson)
A genial e atormentada justiceira Lisbeth Salander está de volta. Mas por que Lisbeth, uma hacker fria e calculista que nunca dá um passo sem pesar as consequências, teria cometido um crime gravíssimo e ainda provocado de forma quase infantil um dos maiores especialistas em segurança dos Estados Unidos? Depois de finalmente se livrar da polícia sueca e de todas as acusações que pesavam sobre si, que motivo ela teria para se atirar em outro lamaceiro político? É o que se pergunta Mikael Blomkvist, principal repórter da explosiva revista Millennium, além de amigo e eventual amante de Lisbeth. Mas Blomkvist precisa lidar com seus próprios demônios: afundada numa crise sem precedentes, a revista foi comprada por um grupo que pretende modernizá-la. Nada mais repulsivo ao jornalista que prefere apurar e pesquisar suas histórias a ceder às demandas e ao ruído das redes sociais. Ainda assim, há tempos o repórter não emplaca um de seus furos, e por isso não hesita em sair no meio da madrugada para atender a um chamado que promete ser a grande história de sua carreira. Presos a uma teia de aranha mortífera, Lisbeth e Blomkvist terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. Uma volta em grande estilo da dupla que mudou para sempre os romances de mistério e aventura.

Para explicar o mundo – a descoberta da ciência moderna, Steven Weinberg (Tradução de Denise Bottmann)
Nesta envolvente história da ciência, o prêmio Nobel Steven Weinberg conduz o leitor através de séculos de grandes descobertas, da Grécia Antiga à Bagdá medieval, da Academia de Platão ao Museu de Alexandria e à Royal Society of London. Aristóteles, Descartes, Kepler, Copérnico, Galileu e Isaac Newton são alguns dos protagonistas deste enredo armado com leveza e humor – sem a menor cerimônia, o autor faz um acerto de contas com as contribuições de cada um deles.

Paralela

Muito mais que 5inco minutos, Kéfera Buchmann
Se o YouTube é de fato a nova televisão, como acha muita gente, hoje Kéfera é o equivalente aos antigos astros globais. Tão conhecida e amada quanto eles. Neste livro, que tem literalmente a sua cara, Kéfera parte de sua vida para falar de relacionamentos, bullying, moda e gafes e conta uma série de histórias divertidas com as quais é impossível não se identificar.

Suma de Letras

O vilarejo, de Raphael Montes
Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.

Mesa 4: Autoritarismo, passado e presente

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Convidados:

Mediação: Zuenir Ventura

Processos do Ministério Público contra agentes do Estado acusados de tortura e a criação de uma Comissão da Verdade para investigar crimes e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura fizeram com que a sociedade brasileira voltasse a discutir de maneira acirrada um passado que para muitos teria sido oficialmente superado com a promulgação da Lei da Anistia e a redemocratização. O autoritarismo em nosso país, no entanto, não começa em 1964 nem termina em 1985. Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira discutem nossa tradição autoritária e o modo como ela se manifesta no presente.

Horário de início: 19h30

Zuenir Ventura: O autoritarismo é definido como o excesso de autoridade, de poder. Vocês concordam com isso?

Gabeira: Você poderia aplicar o conceito em relações pessoais, mas eu enfoquei a relação Estado-sociedade.

Luiz Eduardo: Mas no caso do Brasil, a linha de continuidade do autoritarismo se mostra tão constante que a relação entre os seres humanos acaba sendo objeto de nosso trabalho também.

Gabeira: O totalitarismo veio porque havia uma opinião de que o povo não saberia votar, e havia receio quanto ao federalismo.

Luiz Eduardo: Hoje em dia nós podemos não apanhar mais, mas negros e pobres vivem sendo abusados e todo mundo sabe, é uma barbárie e um enigma ético pra mim.

Gabeira: As pessoas partem da ideia de salvar o povo, mas na época da proclamação da República, por exemplo, os escravos eram contra. Porque ela seria uma República escravocrata.

Gabeira: Volta e meia surge a vontade de controlar a imprensa. Há uma tentativa de tornar políticos em personagens, porque eles sabem que essa é a única possibilidade de juntar as massas.

Luiz Eduardo: Não há como compreender a presença do autoritarismo no Brasil sem pensar na cordialidade brasileira explicada por Sergio Buarque de Holanda.

Luiz Eduardo: Prestes foi aclamado por deixar o lado privado separado do público no caso da Olga. Mas eu acho que isso mostra uma falta de compreensão dos direitos humanos, uma falta de vontade de transgredir certos valores.

Gabeira: Foro privilegiado é abuso de autoridade, e com voto secreto é praticamente impossível condenar alguém. As evidencias não importam mais, só a versão que eles apresentam. Isso é autoritarismo, a sociedade roubada não consegue se defender. Com a eleição do Lula havia uma expectativa, mas é como se o PT tivesse dito “o mundo fez de mim uma puta, eu vou fazer do mundo um bordel”.

Luiz Eduardo: Há uma retórica pudica, não se chama tortura de tortura, isso afetou a transição. Há uma tolerância com as versões apresentadas. A Comissão da Verdade pode vir a oferecer uma oportunidade de chamar o crime por seu nome.

Gabeira: Pra mim parece que eles não querem apurar a verdade, parece um time jogando a bola pro escanteio pra gastar tempo.

Mediador: Houve um avanço nas relações pessoais no Brasil?

Gabeira: Houve um avanço no respeito às crianças, aos gays (embora ainda haja muitos assassinatos), mas isso é um avanço da sociedade. Na época da aprovação do divórcio também havia tanto aqueles que agradeciam quanto aqueles que diziam que ia acabar com a família.

Luiz Eduardo: Vale a pena invocar o suicídio de Getúlio Vargas. Houve uma ruptura na história que só foi reparada com a morte de Tancredo, que foi oposta.

Mediador: A Dilma é uma presidenta autoritária?

Gabeira: Não conheço a relação dela com os ministros, só com o congresso. É uma relação de distância porque os marketeiros disseram que era importante distanciar a imagem dela do congresso. Porque os presidentes podem governar com MPs. O congresso no Brasil
Passou a ser um carimbador de decisões, e isso é algo autoritário.

Luiz Eduardo: Eu acho que como presidente ela não é autoritária, é centralizadora de um jeito exagerado. É uma tentativa de se distanciar de discussões políticas.

Gabeira: Mas o problema é que ela age como se fosse tudo um céu azul! Alguém precisa ver por que já tanta corrupção.

Luiz Eduardo: Sobre a Lei da Anistia, eu aceitaria não punir os envolvidos contanto que houvesse uma investigação da verdade, ao invés da aceitação de uma versão.

Gabeira: Eu acho que falar em verdade é complicado, mas nessa questão da anistia eu concordo plenamente com você. Foi um arranjo político. Nós exilados voltamos felizes, foi um avanço. Agora a relação de poderes mudou. Mas sobre a punição, também sou contra, eles estão quase morrendo.

Luiz Eduardo: Sobre a Comissão da Verdade, eu queria que houvesse um esforço por fundamentar os fatos, que pudéssemos reunir as versões que poderiam aparecer nos livros de história das nossas crianças.

Gabeira: Eu não espero muito da Comissão porque não espero muito de qualquer comissão. A imprensa e a sociedade é que impulsionam a investigação.

Horário de término: 20h45