luiz gê

Semana noventa e um

Os lançamentos da semana são:

Baú de ossos, de Pedro Nava
A caixinha de música da sinhá recém-desperta recobrindo os lamentos dos escravos açoitados no porão. As penosas viagens das tropas de burros através das sertanias da serra da Mantiqueira. O modo tradicional de preparar quentão, angu e feijão tropeiro. As saborosas crendices e anedotas familiares, transmitidas de geração em geração como os dotes, as mobílias e as heranças. A genealogia dos antepassados confundida com as montanhas de Minas Gerais, as praias do Ceará, os burgos da Lombardia, as ruas de Juiz de Fora e do Rio de janeiro. No prodigioso baú de Pedro Nava, os ínfimos detalhes de um mundo extinto pelo trabalho incessante da morte convertem-se em marcos miliários do mapa da memória. Desbravador dos territórios perdidos da infância e da ancestralidade, tão intrincados quanto as rendas de bilro de suas avós nordestinas, Nava conduz o leitor pelos labirintos da lembrança com uma prosa aliciante, cuja opulência é alusiva ao fascínio inesgotável dos afloramentos do passado.

Balão cativo, de Pedro Nava
Neste segundo volume de sua monumental saga memorialística, Pedro Nava aborda o período delimitado pelo retorno a Minas após a morte do pai e os estudos no Colégio Pedro II, no Rio – marcos do fim da primeira infância e do início da idade adulta. Nava apresenta um abrangente panorama da cultura e da sociedade brasileiras na segunda década do século XX, alternando entre a Juiz de Fora de fechadas famílias tradicionais, a Belo Horizonte dos palácios recém-inaugurados e as ruas apinhadas da antiga capital federal. Dos sobrados da rua Direita às esquinas da jovem capital mineira, do luxurioso pomar da avó materna ao cotidiano do internato carioca, sua escrita magistral, repleta de termos de raro sabor arcaizante, viaja aferrado ao passado agrário. Muito além da mera crônica autobiográfica, as memórias da adolescência de Nava reconstroem a poesia do passado por meio de uma comovente homenagem aos amigos, professores e familiares mais decisivos em sua formação humana e intelectual.

Avenida Paulista, de Luiz Gê
Apesar de praticamente desconhecida do público em geral, a graphic novel Avenida paulista é um clássico dos quadrinhos nacionais. Concebida originalmente com o título Fragmentos completos, foi publicada em 1992 em uma edição especial da Revista Goodyear, de circulação restrita. Ao longo dos últimos vinte anos, tornou-se objeto cultuado e cobiçado entre colecionadores e marcou o início de um longo período de afastamento das HQs de um dos maiores quadrinistas brasileiros. Mesclando pesquisa histórica e iconográfica e o cenário de delírio e fantasia característico dos trabalhos de Luiz Ge, este livro narra cem anos de transformações ocorridas na avenida que simboliza como nenhum outro lugar o desenvolvimento acelerado e caótico de São Paulo.

Città di Roma, de Zélia Gattai
Neste livro da maturidade, Zélia recua no tempo e nos conta a história de sua família italiana no período anterior ao retratado em Anarquistas, graças a Deus. Com a escrita amorosa e sem afetação de sempre, ela passeia pelas lembranças que começam no navio batizado Città di Roma, no qual imigraram suas famílias materna e paterna. Velhas tias, vizinhos gentis, aulas de piano, rusgas com a polícia, rápidas confissões, os passeios de domingo: tudo se mistura na mesma tinta, pintada com o simpático tom intimista da autora.

Cozinha da Dona Nininha, de Lená Loureiro (Ilustrações de Cecilia Afonso Esteves)
Em uma casinha azul, Nininha cozinhava pra chuchu. Fazia receitas deliciosas, sopas maravilhosas. Mas nos doces, uma decepção, ela não acertava a mão! Depois de muito estudar, nas sobremesas passou a arrasar. Seu reinado apenas começava: pedidos e mais pedidos, a cozinha não parava. Eram recheios, pastas, fondants e pavês, enfeitados com flores, frutas, laços e glacês. Você não vai acreditar: a casa não aguentou, e o teto…voou! Quer conhecer essa história saborosa do começo ao fim? Então se prepare…pois neste livro tem muita farinha, “atchim”!

Luiz Gê

Por Érico Assis

Não conheci Luiz Gê. Digo, não conheci “na época”. Sempre ouvi falar que era da mesma geração e do mesmo nível de Angeli e Laerte, tanto que sempre tinha que ser mencionado com os dois. Mas estranhava que, diferente da facilidade em ler Chiclete com Banana ou Piratas do Tietê, não se encontrava dele álbum na livraria, nem revista na banca, nem tira de jornal. O meio da minha adolescência, quando comecei a levar os quadrinhos mais a sério, foi pós-Collor. O quadrinho pop-underground brasileiro, que vendia às dezenas (às vezes centenas) de milhares, tinha sido varrido da banca e das livrarias pela crise.

Ficaram só as menções recorrentes e a sensação de que eu tinha chegado atrasado na festa. O homem do sobrenome-letra já tinha ido embora.

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Edição número 2 da revista Circo, 1987. É Gê, de camiseta sem mangas e pose de machão, no índice da revista, início da fotonovela “Como é que se faz uma revista de história em quadrinhos“. Atrás dele, subindo uma escadaria, estão os colaboradores da revista Laerte, Glauco, Alcy e o editor Toninho Mendes. A fotonovela conclui nas páginas finais da edição, com todos descendo a escada a rolar e se estropiar. “Vamos de novo”, dizem. “O último a chegar é um Garfield”, conclui Gê.

Tivesse o Brasil alguma tradição de crítica e história dos quadrinhos, a Circo seria citada constantemente como marco. Bom, tivesse o Brasil tantas outras coisas, a Circo não teria durado só oito números. Só nesta mesma edição da fotonovela, havia histórias de Moebius e Crumb, lado a lado com a “Balada do Lobisomem” de Laerte (com narrativa e traço que não deixam nada a desejar em 2012, assim como irreverência que falta a 2012) e “Uma história de amor”, de Luiz Gê.

“Uma história de amor” é talvez o ápice da sua técnica de desenho. Treze páginas de batalha medieval com armas e armaduras pesquisadas, narrativa impecável — a sequência de planos-detalhe sem balão é quase sua marca registrada —, coisa que quadrinista brasileiro hoje só faz quando trabalha para o exterior. A reviravolta final lembra as de Moebius, e tem o humor irreverente que unia todos os colaboradores nacionais da Circo.

Na edição anterior, havia saído “Futboil (Fenomenozinho Urbano Tipicamente Brasileiro Observado In Loco)”. Na seguinte, “Presidente Reis”, que provocou polêmica no Estado de S. Paulo ao ser cancelada. Antes da revista acabar, ainda teve “Perdidos nos Espaço”, a revelação de que tatus-bola são naves alienígenas tentando invadir nosso planeta. Cada uma, um estilo de desenho — geometria meio Ziraldo em “Presidente Reis”, fotorrealismo em “Perdidos no Espaço” — experimentos de narrativa, misturas de sci-fi com política, crítica social e, sempre, ironia fina.

Hoje em dia, todo quadrinista que se preze diz que é difícil competir com a Laerte. Na época da Circo, eram os leitores na seção de carta que diziam não saber se gostavam mais de Laerte ou de Luiz Gê.

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No mês que vem, a Quadrinhos na Cia. lança Avenida Paulista, um dos trabalhos mais comentados e menos lidos de Luiz Gê. Publicado em edição especial da Revista Goodyear, no início dos anos 90, é a HQ que mais absorve sua formação universitária em arquitetura. É a biografia da avenida mais famosa de São Paulo, contada ao mesmo tempo com rigor histórico e delírios fellinianos. Serve como registro da criação e do desenvolvimento da Paulista, mas ao mesmo tempo trabalha a sensação poética do que foi passar por todas as renovações da Avenida do século XIX até as projeções para o futuro.

Numa das minhas sequências prediletas, um jato se arremessa para pouso complicado entre os dirigíveis e plataformas aéreas que formam o “céu” da Paulista. A pista de pouso é como a de um porta-aviões sobre um arranha-céu. O piloto desce auxiliado por uma comitiva de funcionários, tira o macacão e revela o uniforme de executivo, com o qual já entra no arranha-céu a comandar uma mistura de banco e indústria onde todo mundo usa jargões de business. O texto jornalístico que acompanha a HQ explica, nesta parte, a fase da globalização neoliberal, a relação do Brasil com o FMI e a crise de 2008.

Parece confuso, e certamente é complicada de fazer. Mas é o tipo de alegoria brilhante que só funciona na página de quadrinhos.

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Gê parou com a Circo e ficou meio sumido das HQs a partir do mestrado que fez na Inglaterra, no final da década de 1980. A partir daí começou carreira de professor e continuou produzindo, com menos destaque. Duas entrevistas relativamente recentes, com Télio Navega e Ronaldo Bressane, dão conta dessa história. E prometem mais republicações e mais inéditos de Gê no futuro próximo.

Laerte, seu reinado está a perigo.

[Atualização: o álbum será lançado dia 22 de fevereiro.]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/