luiz schawrcz

Feliz aniversário com um documento histórico

Por Luiz Schwarcz

daniella

Danielle Ardaillon durante debate sobre curadoria e acervo de documentos públicos (Magdalena Gutierrez/Acervo Pr.FHC)

niverHoje, terça-feira, dia 27 de outubro, a Companhia das Letras celebra 29 anos de vida. Em algum momento deste mesmo dia, chegarão às minhas mãos alguns exemplares do primeiro volume dos Diários da presidência, de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se de um documento histórico sem precedentes, para ser lido como talvez a mais profunda radiografia do poder no Brasil — tanto por simpatizantes como por opositores do seu autor.

Para nós da Companhia, este é, portanto, um dia da maior importância. O término da manufatura deste livro — sim, edição ainda tem muito de manufatura — é um daqueles momentos que permitem vislumbrar como a Companhia vem evoluindo no seu trabalho editorial. Tal sensação ocorreu em vários momentos da minha vida de editor, como durante a realização da coleção História da vida privada no Brasil, dirigida por Fernando Novais; ou com os quatro volumes da História da Ditadura Militar no Brasil, de autoria de Elio Gaspari — estes últimos, infelizmente, não fazem mais parte de nosso catálogo. Neste ano, há alguns meses, senti o mesmo com a edição de Brasil: uma biografia, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, por ter sido um livro de encomenda, realizado em conjunto com a Penguin, no qual a atuação editorial se deu desde a ideia inicial até a confecção final do livro — com dez capas de cores diferentes, simbolizando um dos pontos-chave do texto, onde as autoras exploraram, entre outros temas, o assim chamado enigma racial brasileiro.

Os Diários da presidência cobrirão os oito anos em que Fernando Henrique Cardoso governou o país e serão publicados em quatro volumes, em princípio em menos de dois anos. O calor do relato gravado a cada semana pelo presidente mostra, sem retoques, a solidão do poder, as agruras e fragilidades do cargo. O texto é límpido e transparente. Não sei julgar se há outros retratos sobre o funcionamento do poder com este grau de profundidade publicados em outros países. Aqui, como escrevi acima, certamente não há.

A grande realização editorial — depois das gravações feitas solitariamente por FHC — começou no Instituto que leva o seu nome e foi comandada por uma fantástica antropóloga argelina, radicada há décadas no Brasil, Danielle Ardaillon, que cuidou da manutenção das fitas e de sua transcrição. Há poucos profissionais do nível de Danielle no Brasil, juntando-se todas as áreas possíveis e imagináveis. Um jornalista escritor que conheci bem costumava dizer que gostara tanto do trabalho de nossa preparadora Márcia Copola que ela seria sua candidata ao Ministério da Economia do Brasil, cargo que reúne historicamente os maiores desafios profissionais do planeta. Pois, fazendo uso da mesma expressão, sugiro que qualquer futuro governo cogite escolher Danielle para o Ministério da Economia. Não sei como FHC não pensou nisso. Depois de Danielle, Miguel Darcy foi o intelectual que fez a primeira edição e organização do material transcrito com o mesmo profissionalismo de sua antecessora. Sem Danielle e Miguel estes livros talvez não existissem, ou não teriam tal grau de excelência. Foi só após o trabalho da dupla do Instituto FHC que a equipe da editora entrou em ação, comandada pelo Otávio Marques da Costa e pela Lucila Lombardi. Os dois contaram com o apoio da Márcia Copola, já citada aqui; de Ciça Caropreso na preparação do texto; e do meticuloso talento de Érico Melo, responsável pelas notas de conjuntura e de contexto que acompanham o livro. Espero olhar para esse documento em forma de diário, logo mais, e sentir o peso e a leveza de mais um feliz aniversário.

Um site jornalístico atribuiu a mim e ao João Moreira Salles o incrível poder de convencer Fernando Henrique Cardoso a publicar seus diários em vida. Não se trata da verdade. João contribuiu muito mais do que eu para isso, insistindo — de maneira menos tímida que a minha — no pedido de publicar alguns trechos no número de aniversário da revista Piauí. Minha colaboração foi irrisória. Apenas ofereci a dignidade da editora e a vontade pessoal de ver tal documento publicado um dia pela Companhia das Letras, e mesmo assim fiz isso em poucas ocasiões. A decisão, é claro, nada se deve à minha vontade, ou mesmo do João, mas sim à coragem e ao desejo de FHC de ver suas anotações lidas e comentadas em vida.

Mas uma história de bastidor que gostaria de contar começou logo nos primeiros dias da presidência, nos idos de 1995. Foi quando procurei o recém-empossado presidente para sugerir que um grande jornalista, Roberto Pompeu de Toledo, acompanhasse a nova gestão e fizesse uma grande reportagem dos anos que, todos imaginavam e com razão, iriam começar a mudar o nosso país. Meu convite foi encaminhado ao presidente através de Ana Tavares, sua assessora de imprensa, que gentilmente logo me retornou dizendo: “Luiz, o FHC agradece o convite, respeita muito o Pompeu, mas ele quer escrever ele mesmo este livro”. Restou a vontade que resultou na realização, por Roberto Pompeu, de um excelente livro-entrevista com FHC, intitulado O presidente segundo o sociólogo. Nele já apareciam as primeiras reflexões de Fernando Henrique sobre a sua presidência ainda em curso.

Alguns anos depois, numa jogada certeira, a editora Record se adiantou, encaminhando a FHC — às vésperas deste se desincumbir do cargo — a proposta de editar suas memórias. Jogo jogado e vencido pela Record, com justo e largo placar.

Para nós, a comemoração agora se dá com o primeiro volume dos Diários publicado, texto através do qual FHC se coloca de peito aberto para a análise e julgamento da história. Em conjunto com as edições da Record, fica evidente o papel cultural das editoras no Brasil; papel que ainda persiste, apesar do país, apesar da realidade que nos empurra para o raciocínio de curto prazo, em que o lucro rápido assume papel central.

Esta história talvez se complemente com o livro que encomendamos ao presidente Lula em parceria com Fernando Morais; desta vez com o registro das memórias, em primeira pessoa, do presidente que sucedeu ao FHC. Com esta outra encomenda a Companhia mostra seu apartidarismo político, como cabe a uma boa editora, que vive de bons títulos, independente das opiniões pessoais de seus proprietários ou funcionários.

O livro de Lula e Fernando Morais ainda não foi entregue. Está três anos atrasado, segundo nossas previsões iniciais e o contrato. Durante esse período, tivemos notícias de que os autores talvez preferissem transformar a obra em uma biografia autorizada, isto é, com narração em terceira pessoa. Torço para que o livro seja realizado como a encomenda inicial, com a visão direta do presidente Lula sobre os seus anos no exercício do poder.

São livros como os Diários da presidência que fazem a história de uma editora saltar de nível. Livros para o julgamento do leitor, especialista ou não, através dos quais nos confrontamos com a trajetória de um país que reluta em dar certo. Com o autoconhecimento e a reflexão propiciados pela melhor literatura, de ficção e não ficção, quem sabe ainda haja alguma chance para os nossos tristes trópicos.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.