Luiz Schwarcz

O infinito, só mais uma vez

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Queridos leitores, antes de redigir meu último post, escrevi no ano passado para Alberto Manguel e para Jorge Schwartz tentando averiguar se estava falando uma grande bobagem a respeito da obra de Jorge Luis Borges. A resposta de Alberto Manguel chegou muito tempo após o envio do meu texto para o blog. Achei tão boa a carta que pedi autorização deste para publicá-la, deixando meu texto inicial sem novas alterações ou complementos. Vejam abaixo. Aproveito para agradecer ao Jorge também pelos esclarecimentos preciosos.

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Querido Alberto, como vai?

 

E os planos de voltar a morar em Buenos Aires? Quero saber de tudo!

Venho escrevendo para nosso blog uma pequena série de artigos sobre o ofício do editor, mais precisamente sobre a filosofia da editoração. Batizei a série de “Livre-editar”, referência à expressão “livre-pensar”.

Por ora, publiquei apenas um texto, embora já tenha escrito cinco. Planejo escrever outro, sobre a página em branco e a progressão infinita da escrita, de como uma frase se encadeia necessariamente com a anterior, não importando muito quais eram os planos prévios do autor.

E me deparei com uma questão que talvez somente você possa resolver para mim. Responda quando puder, sem pressa.

Você poderia me dizer como imagina que a cegueira, o não encarar uma página, ou reler a última frase e ter que memorizar as duas — uma página em branco e a última frase de um poema ou de um conto —, influenciaram a obra de Borges? Seria correto afirmar que suas obras-primas foram escritas quando ele podia fazê-lo fisicamente, sem se limitar a ditá-las? Antes de ficar completamente cego?

Estou relendo com enorme prazer grande parte do que você escreveu sobre ele. A noção do Aleph (o lugar de todos os lugares) como sendo mais importante que o labirinto é brilhante, e me ajudou muito.

Agradecer-lhe-ei imensamente se puder me dizer qualquer coisa sobre o assunto, mesmo se considerar isso uma grande tolice, quando puder. Eu adoraria conhecer sua opinião.

Com carinho e os votos de um feliz Ano Novo para você e para o Craig. (Estou muito contente com os novos rumos de sua vida, e por saber que você será parte das comemorações do aniversário de nossa editora no ano que vem).

 

Luiz

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Querido Luiz,

 

Sua pergunta é muito importante.

Conheci Borges quando ele já estava cego, como você sabe. Ele me disse que ainda podia escrever poesia porque os poemas vinham a ele como uma melodia musical, à qual então acrescentava palavras, o que lhe permitia guardar o poema inteiro em sua mente, ditando-o quando estivesse finalizado.

Escrever prosa, porém, era diferente: ele afirmou (era o início dos anos 1960) que jamais voltaria a escrever prosa, porque para isto “é preciso enxergar sua mão escrevendo”. Borges disse que podemos decorar um poema inteiro, mas não um romance: lemos um romance e nos recordamos de umas poucas cenas, alguns parágrafos, ou mesmo frases, jamais de tudo. O poema era para Borges uma entidade individual; o romance (e talvez o conto), uma massa de fragmentos, trechos, episódios que somente podiam ser vistos como um todo. Sendo cego, para ele não havia página em branco, apenas um texto musical completamente acabado em sua visão mental, ou fragmentos esparsos e peças que ele não se julgava capaz de reunir novamente de forma coerente, sequencial.

No entanto, passados alguns anos, ele sentiu que tinha que escrever as histórias que estavam vindo a ele como argumentos e anedotas, as histórias que se tornariam O informe de Brodie. Assim, solicitou-me que lesse para ele as histórias que considerava obras-primas, para sentir como funcionavam, como haviam sido construídas, como um mestre-construtor reaprendendo o seu ofício. E também aqui não havia página em branco, mas somente parágrafos construídos em sua mente, que deviam ser ditados um a um e lidos para ele vezes sem fim, até que considerasse estar perfeito. Esse era o método que ele utilizara no início de sua vida, quando começou a dar aulas: ele ensaiava lendo as aulas em voz alta para si (ou para sua mãe), com as pausas e mudanças de tom, como um ator praticando suas falas.

Sim, penso que ele soube que havia escrito suas obras-primas antes de ficar cego. Confira na Autobiografia dele. Na última página ele menciona algo assim.

Se puder te ajudar mais, me diga. Neste exato momento estou atulhado com um milhão de coisas, pra não falar da reinvenção da Biblioteca Nacional.

Com muito afeto,

 

Alberto

Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.

 

O infinito está nos livros — ou quem se dispõe a contar grãos de areia?

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

A coluna Livre Editar agora é semanal.

livre42E se no mundo todos procurassem para sempre a expressão mais perfeita? Como seria se a vida fosse comandada pela literatura e não pela política; se o conflito a ser administrado socialmente fosse um conflito entre formas de expressão e não entre expressões dos múltiplos e contraditórios interesses individuais? Essa é a lição ética à qual me referi no meu último post, e que me levou, desde então, a tantas outras dúvidas. Depois que escrevi sobre a tal busca incessante, não parei de pensar em suas decorrências. Aqui elenco algumas coisas que me passaram pela cabeça após ter escrito os primeiros textos desta série. Tudo sempre em forma de rascunho, escudado pela volatilidade de um blog, que vive nas nuvens — quando um post é publicado, falamos que ele sobe para o blog em vez de descer para a página a ser impressa. Talvez seja por isso que nos blogs o certo dura tão pouco. As certezas sobem e se desmancham no ar. Assim, para os que continuam achando, com razão, que tudo que tenho escrito soa muito etéreo, ou raso, eu só posso me desculpar via Marshall McLuhan; isto é apenas um blog, caros amigos, a culpa não é só minha, afinal: “Os meios fazem os fins!”, ou ainda : “O meio é a mensagem”.

Chegando ao ponto: a insatisfação imanente à literatura, sobre a qual já escrevi a respeito — o que garante que a busca da expressão perfeita seja incessante —, talvez seja o x da questão. Como num círculo vicioso estamos de volta ao infinito e — me desculpem os físicos — o infinito é também uma categoria literária por natureza. Penso aqui a partir do ponto de vista de um editor, e não de um crítico literário, que não sou. Assim o infinito que marca a literatura tem origem na página em branco, aquela que o escritor olha ao começar a escrever. Ela é branca na tela ou no papel, até ser preenchida, até o escritor nela despejar seus sonhos, como disse Faulkner. Quando completa será substituída por outra branca, e assim por diante, por outra branca, outra branca, outra igual…

Pronto para escrever, o escritor contempla, no vazio, além de si mesmo — como explicou Simenon —, o inesperado, ou um pedaço do infinito. Pretendo falar em outra ocasião do quanto é difícil planejar o que será escrito e o tanto de imprevisível que surge ao movimentarmos nossos dedos para escrever. Fica para outro dia, por hoje nos basta o infinito.

Em No bosque do espelho, ao comentar a obra de Jorge Luis Borges, Alberto Manguel menciona um interessante comentário de Calois e Matilde. Estes últimos observam que, muito mais do que a ideia do labirinto, o aleph — local onde se encontram todos os locais do mundo — está no centro da obra do grande escritor argentino. Um homem que é todos os homens ao mesmo tempo, um ser e um lugar eternos; é isso o que, em minha opinião, buscam os escritores.

Mas agora, infelizmente, vem a má notícia: essa busca não traz felicidade. Por isso mesmo continuamos, lendo e escrevendo, sem cessar. Segundo Borges, Dante escreveu a Divina comédia para estar por alguns instantes com Beatriz. Ele próprio, Borges, escreveu O aleph para oferecê-lo a Estela Canto, cujo amor logo mais perdeu. Num outro livro o escritor cego, citando Heráclito, escreveu: “Eu que fui tantos homens, jamais fui aquele, em cujo abraço Matilde Urbach desmaiou”.

Dois discípulos de Borges tematizaram em seus livros o infinito como eixo central da literatura, e o fizeram de maneira magistral. Italo Calvino escreveu uma obra— Se um viajante numa noite de inverno — na qual o fim de cada capítulo leva sempre a um novo início. No centro da história estão dois leitores, e, como não poderia deixar de ser, um amor. Georges Perec situa A vida, modo de usar — uma das obras das quais mais me orgulho de ter publicado — num prédio sem fachada, ou com uma fachada difusa, no qual, em cada apartamento, abre-se uma história que leva a outra, e a mais outra, numa espiral sem fim. O romance é composto segundo uma estrutura matemática que não se realiza plenamente. A vida, modo de usar reproduz uma equação baseada em quadrados de 10 x 10, que deveriam resultar em cem capítulos. Perec, propositalmente, escreveu apenas 99. Para ele, a falta, ou a falha, é que leva ao infinito. O que há de mais humano nos homens, a imperfeição, é o que garante o capítulo que sempre resta por escrever. É assim também com a literatura que cresce como uma incomensurável família: as obras de Calvino e Perec nascem claramente de Borges, cujas narrativas nascem de Henry James, cujos contos nascem de Edgar Allan Poe…

Quando essas ideias me vieram à cabeça fiquei pensando que, por coincidência, o pilar do qual se originam minhas reflexões sobre o infinito na literatura é, justamente, um escritor cego, que em parte de sua vida teve que escrever imaginando uma página em branco, guardando o caminho para o infinito só em sua mente. Sem enxergar ele ditava, não escrevia. Não podia ligar os pontos, olhar para o passado da frase recém-escrita, em busca do seu aleph, o local onde se encontram todos os locais. Teria essa circunstância condicionado Borges a escrever mais poesia no fim da vida? A poesia que justamente busca o infinito no centro da página, ou no âmago da frase, ou na essência de cada palavra, e menos nas páginas que vêm a seguir? Com dificuldade de memorizar teria o tema do infinito dado mais lugar às memórias afetivas, ao temor da morte nos poemas maduros de Borges? Os estudiosos de sua obra podem responder melhor que eu. De qualquer forma, sei que os mais famosos livros de contos de Borges foram escritos antes da cegueira profunda, quando ele provavelmente ainda podia olhar para o papel em branco, aquele que trazia o texto incompleto, recém-escrito.

Se há regras em literatura — e eu creio que não há —, os gênios estão aqui para desmenti-las. Dessa forma, mesmo que eu esteja correto em pensar que a cegueira levou o escritor argentino mais na direção da poesia — e esta fez com que o mago dos labirintos olhasse mais para o passado e contemplasse menos o futuro com suas infinitas possibilidades —, ela não impediu que Borges escrevesse um livro de contos importante em que há ao menos um conto seminal que dá nome à coletânea. O livro de areia foi publicado com o autor em estado de profunda cegueira, e de certa forma sob encomenda da editora Emece, que queria oito contos inéditos do escritor argentino para um novo livro. Recebeu treze. Não consegui descobrir se todos foram escritos na mesma época da encomenda, mas alguns deles com certeza sim.

No conto que dá título à coletânea, um vendedor de bíblias bate na porta da casa do narrador — claramente o próprio Borges — e lhe oferece todo tipo de bíblia antiga. Já tendo um número grande de exemplares em sua biblioteca, Borges agradece. Acaba, porém, cedendo e ficando com um livro, também sagrado, escrito num tempo desconhecido e adquirido pelo vendedor “nos confins de Bikanir”. O pagamento se dá em dinheiro, mas também a partir da troca por uma das bíblias do comprador. O estranho livro adquirido por Borges teria sido propriedade de um homem que não sabia ler e que o teria batizado de O livro de areia pelo fato de conter páginas infinitas. Trata-se de um livro sem começo nem fim. Ao manuseá-lo, o narrador comprova que é impossível abrir as primeiras páginas, sem que milhares de outras surjam, entre a capa e a abertura, impossibilitando que a leitura comece do início ou chegue ao fim. O mesmo se dá com o final, que com a incessante interposição de novas páginas se torna inalcançável. Assim, a convivência com O livro de areia torna-se angustiante. O Borges, personagem, já aposentado de seu cargo de chefe da Biblioteca Nacional — posto que de fato exerceu —, um dia propositalmente esquece o tal livro em meio às estantes da enorme Biblioteca da rua México, para onde, diz ele no final do conto, não pretende mais voltar.

Com essa conclusão, será que Borges explica, no último conto de sua última coletânea, por que parou de escrever contos? Será que o infinito angustiava mais ao escritor cego do que ao que ainda podia enxergar? De qualquer forma, a história de um livro sem começo nem fim é o que encerra O livro de areia.

Talvez Borges só quisesse nos mostrar que ainda guardava as páginas brancas na memória, que era capaz de tematizá-las, de voltar ao seu aleph, ou que mesmo cego se dispunha a falar dos que saem por aí a contar os grãos de areia.

Como sempre, não sei as respostas às minhas próprias indagações, sei apenas que O livro de areia é um conto magistral.

A continuar…

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.

Quem sou eu segundo meus personagens — ou a busca incessante da expressão perfeita

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

A partir de hoje, a coluna Livre Editar passa a ser semanal. 

livre42Meus poucos leitores já devem ter se acostumado com essa minha obsessão diante do silêncio. Procuro silêncio na literatura que mais gosto, ou melhor, quando gosto de um livro é porque pude encontrar, no que li, silêncio. Um outro silêncio que não o meu. Talvez seja um viés que aparecerá em demasia nesta nova série de textos para o blog da Companhia.

Sem planejar, por pura sorte, encontrei uma profissão que depende muito de silêncio. Ou, talvez, foi o silêncio dos livros que me encontrou. Por isso, mais uma vez, insisto que o silêncio presente na confecção da ficção é muito importante para entendê-la. A longa solidão que marca a realização literária confere uma profundidade e uma sinceridade à literatura que nem o maior poeta/fingidor consegue evitar. Além do mais, segundo Fernando Pessoa, o escritor finge sentir a dor que deveras sente.

Georges Simenon dizia escrever para encontrar a si mesmo através de seus personagens. Para realizar os romances não comerciais, os que mais prezava em sua obra, o escritor belga colocava-se na posição de um personagem; deixava de pensar e agir como Georges Simenon por onze dias — prazo extraordinariamente curto em que religiosamente dedicava-se a cada um de seus livros. Isolava-se do mundo, compunha o romance e só depois, exausto, voltava à sua existência cotidiana. Para entender a si e ao mundo, em silêncio, se transportava, por intermédio da ficção, para a alma de alguém outro.

William Faulkner dizia escrever para se livrar de um sonho. A presença constante de um sonho o angustiava, e dessa angústia nasciam os seus livros.

Escritores tão diferentes testemunham que o papel em branco não passa incólume; voluntária ou involuntariamente sai muito marcado pela intimidade de quem o preenche. Em apenas dois depoimentos sobre o fazer literário temos categorias que justificam páginas e mais páginas daqueles que se dispuseram a interpretar a alma humana. O autoconhecimento de um lado, os sonhos de outro.

Além disso, é preciso ter em mente que a ficção é a busca constante da expressão perfeita, restando ao autor, após encerrado um livro, a sensação final de que seu objetivo não foi cumprido. Os mesmos dois escritores trataram disso. Vejamos.

Simenon:

“Quando um romance está terminado, sempre tenho a impressão de que não fui bem-sucedido […] desejo tentar de novo.”

“Escrever não é uma profissão, mas uma vocação de infelicidade. Não penso que um artista possa jamais ser feliz.”

Faulkner:

“Se pudesse escrever toda a minha obra de novo, tenho certeza de que faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele continua trabalhando, tentando de novo; ele acredita sempre que dessa vez irá conseguir, irá realizar o que quer. É claro que não conseguirá…”

A compreensão do que existe de mais profundo no ímpeto da escrita é fundamental para o editor e para os que trabalham com livros. Muitos se queixam da postura de certos escritores, falam em narcisismo, reclamam da alta exigência de atenção, corriqueira em nosso meio. Estão equivocados e com isso abrem caminho para um conflito perigoso. Colocarão seu próprio ego em contraposição ao do escritor. Enfrentarão os livros em vez de compreendê-los. Ignorando o tanto de entrega que há na escrita, desprezarão as necessidades mais que justas do artista.

Narciso se delicia com sua própria imagem, contenta-se em enxergar a si numa poça d’água ou em algum espelho. A arte como um todo, e a literatura em particular, por mais que contenham uma vontade de autoexibição, transformam o momento da criação solitária em exposição pública. O artista é sempre um narciso que se arrisca, insatisfeito com o deleite que a simples projeção da própria imagem lhe oferece. A partir daí, exibe sua versão da expressão perfeita, possivelmente criada em busca de autoconhecimento.

Publicar implica compartilhar com os leitores a solução que Simenon procurava para suas angústias existenciais. Ou então contar com esses mesmos leitores para se livrar de um sonho, como queria Faulkner.

Por isso, no mundo dos livros só há espaço para o ego dos escritores — aqueles que se expõem através da literatura e arcam com os riscos desse movimento. Como dizia o pensador austríaco Karl Kraus, “O artista (escritor) tem o direito de ser modesto e a obrigação de ser vaidoso”.

O ponto final traz sempre enorme cansaço e a natural ansiedade de quem apresenta seus temores em praça pública. A necessidade natural de atenção dos autores torna-se, assim, mais que compreensível. Ao expor, mesmo que inconscientemente, intimidades ou aspectos da própria alma — ainda mais sabendo que, com mais tempo, poderiam aprimorar o que escreveram —, os escritores não têm como escapar da sensação de profunda insegurança.

Além do mais, há uma lição ética nessa procura incessante da palavra perfeita que por suposto nunca será encontrada. A lição vem da escrita, a edição não é mais que mero instrumento.

Nota: As citações de Faulkner e Simenon foram retiradas das entrevistas concedidas por estes à Paris Review. Foram reunidas em livro sob o título de Os Escritores (Writers at work), Companhia das Letras, 1988 — a entrevista com Faulkner também está no livro As entrevistas da Paris Review — vol. 1 (2011).

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.

Os donos do tempo – ou o silêncio e a fúria

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

Por Luiz Schwarcz

livre42Numa entrevista memorável à Paris Review — à qual voltarei seguidamente nestes textos —, William Faulkner compara a profissão de escritor à de roteirista, dando sempre vantagem sensível à primeira. Estendendo a comparação da literatura com a música, e mesmo aceitando esta última como expressão mais natural da natureza humana, Faulkner reafirma também sua clara preferência para com as palavras como meio de expressão: “Prefiro o silêncio ao som, e a imagem produzida por palavras transcorre em silêncio. Isto é, o estrondo e a música da prosa se processam em silêncio”.

No ótimo Uma história da ópera — os primeiros quatrocentos anos, Carolyn Abbate e Roger Parker nos mostram como o pacto que o compositor e o espectador de ópera celebram é, desde o princípio, irrealista. É bobagem criticar a ópera por seu conteúdo implausível. Quando nos envolvemos com a Violetta, de La traviata, ou com a Brunilde, de O anel dos Nibelungos, entramos numa dupla fantasia, irrealista por natureza, já que, além da representação, a vida não transcorre por meio do canto. Ao cantar uma história, quebra-se qualquer possibilidade de transferência natural ou naturalista. O espectador sabe o tempo todo que assiste a algo que nunca existiu, não se colocando plenamente na pele dos personagens, pelo simples fato de que ele próprio não cantaria segundos antes de morrer, antes de envenenar seu rival, ou até mesmo para declarar seu amor eterno à mulher ou ao homem de sua vida — ainda mais na frente de um bando de outros personagens, um maestro e dezenas de músicos de uma orquestra.

Os que criticam a literatura de cunho realista ou naturalista deveriam pensar mais na frase de Faulkner. A vida também não transcorre em silêncio. Essa é uma das armas naturalmente irrealistas da ficção, o campo no qual a imaginação do autor e a do leitor se encontram. Talvez se possa até dizer que a literatura nada mais é do que o encontro de dois silêncios, separados apenas pelo tempo  o do escritor e o do leitor. Paradoxalmente, é o silêncio que na literatura facilita o caminho da fúria, não o som. Ao ler um livro somos transportados ao tempo escolhido pelo autor. Nele encontramos emoções sutis e arrebatadas, em graus e nuances que não notaríamos ou absorveríamos senão no silêncio do texto. Além disso, na leitura, muitas vezes o tempo é quebrado por idas e vindas, fluxos de consciência e outros recursos narrativos. Também existem as interrupções proporcionadas pela pontuação e pelos capítulos. Na vida real não há capítulos. Só em nossa imaginação sobre a vida. Ao separarmos a vida em capítulos  coisa que só podemos fazer a posteriori , estamos de certa maneira, todos nós, escritores ou não, fazendo literatura.

Outro ponto importante, e que faz da arte da ficção algo tão diverso do teatro ou do cinema, é que o controle do tempo da leitura não pertence exclusivamente ao autor. Num filme ou num espetáculo dramático, o espectador vai a um local que não foi por ele escolhido, em hora marcada pelos encenadores, e assiste a uma representação em que o espaço para a imaginação é constrangido, na maioria dos casos, pelo caráter realista da obra em questão, pela cara e pelo tom de voz dos atores, pela cor do céu e pelo mobiliário que aparece na tela ou no cenário. Por isso Brecht se preocupou com a possível alienação do espectador, e defendeu um teatro pontuado de comentários críticos, que lembrasse sempre ao espectador que ele não faz parte daquela ação. Há inúmeros narradores “brechtianos” na história da literatura, que encheram seus livros de ironias e lembranças críticas sobre seus próprios personagens. Machado de Assis é um exemplo clássico de um brechtiano pré-Brecht.

Quem sabe seja possível afirmar que a escolha da narração em terceira pessoa seja quase brechtiana por natureza, até quando a narrativa não tem qualquer tipo de conteúdo crítico aparente. A voz em terceira pessoa é sempre distante, mesmo que de forma sutil. Além disso, quando o livro é composto por várias vozes narrativas, o realismo tão temido pelos pós-modernos nasce morto desde a primeira linha. Neste caso, há ainda mais espaço para a acomodação do leitor, que sempre pode escolher com quem se identifica ou não e, assim, reagir imaginativamente diferenciando os personagens de sua estima.

Além disso a pontuação da leitura não é feita só pelas vírgulas ou capítulos, mas, principalmente, pelo fato de que um leitor escolhe quando vai ler um livro, escolhe o local da leitura e arbitra suas próprias interrupções: pontua a leitura com respiros pessoais, onde pode incluir suas elucubrações. Neste sentido, o clamor pós-moderno contra a literatura, que deve mais a Tolstói do que à Virginia Woolf, é uma grande besteira. Todas as influências literárias são válidas, todas as formas de silêncio valem a pena. Elas nunca reproduzirão simplesmente a vida real, sempre superarão a mera fotografia realista. Graças ao bom Deus, aquele mesmo que, como dizem, teria ditado, soprado ou inspirado a Bíblia, e que neste caso terá sido, ou ainda é, antes de mais nada, um grande escritor.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal sobre livros e o trabalho editorial.

Cheirar e tocar o livro — ou o editor é apenas um parteiro

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Com apenas dois textos publicados nesta nova série “Livre editar”, sinto como se já tivesse usado recursos simbólicos à exaustão. Me perdoem, mas vamos lá, eu continuo! Como escrevi no post anterior sobre a propriedade do livro, vale lembrar mais uma vez da imagem tão conhecida do casal que se separa e aparece encaixotando seus livros, cada um debruçado sobre sua caixa de papelão, como no filme Kramer vs. Kramer, Dustin Hoffman de um lado, Meryl Streep do outro. Ou então de um recém-desquitado, cantando para si mesmo: “Devolva o Neruda que você me tomou”. São situações que mostram o quanto somos apegados fisicamente aos nossos livros, e não só ao modo como os guardamos em nossa memória ou imaginação. O livro eletrônico, não sendo palpável, sem cheiro nem cor, rompe um pouco com essa lógica. Mas seu crescimento estancou mesmo nos países onde mais se vendem e-books. Chegou a 30% do mercado e parou por aí. Talvez tal fato queira dizer algo sobre o apego ao formato tradicional do livro, ao papel, que permite o encontro com a tinta, do qual lembramos remotamente a cada página que viramos, ou por vezes após passar o dedo nos lábios ou na ponta da língua…

Por isso também a edição de um livro permite tantas metáforas relacionadas ao parto de uma criança. O tempo de escrita, que, por menor que seja, é longo, feito de meses; a solidão do escritor semelhante à da mãe, que carrega sozinha o bebê em sua barriga; e esse aspecto corpóreo, que faz com que, mesmo tendo visto as provas do livro, desejemos intensamente vislumbrar sua cara final — tudo isso contribui para que esperemos um livro como aguardamos um filho.

Muitos não sabem ou imaginam que os editores, boa parte deles, ao receberem um livro da gráfica, cheiram o objeto e apalpam suas páginas, roçando o dedo nas primeiras páginas de maneira — guardados os devidos exageros — quase erotizada. Sim, os livros têm um cheiro e um toque especiais ao chegarem, recém-empacotados, da máquina de impressão.

Antigamente, muitos livros tinham sua integridade garantida pela cola e não pela costura entre as páginas, e por isso carregavam um cheiro mais intenso ainda. Se mal aplicada, ela vazava grosseiramente para as páginas, deixando marcas fortes.

Lembro de sentir seu cheiro em muitos livros da Brasiliense, ou em me preocupar com a eficiência da sua aplicação, mais barata que a costura. Os livros colados, no começo da minha atividade como editor, “desmilinguiam” em futuro breve, causando transtorno aos leitores.

Creio que na Companhia das Letras sempre usamos a linha. Mas em todo caso, seja cola ou costura, ambas garantem um aspecto fundamental do livro: sua unidade. O livro é sempre um todo, mesmo sendo feito de contos ou poesia, é sempre um conjunto absolutamente singular e fechado. Formado por um tema, por uma fase da vida do escritor, por uma trama ou por uma intenção. É indivíduo ou individualizado. Tem nome, abertura e ponto final.

Cheirar a cola das edições recém-nascidas, ou sentir o odor da costura aplicada a quente no livro; buscar com o olfato o cheiro da tinta ainda fresca aplicada no papel; abrir as páginas do novo “rebento” recém-embalado e manuseá-lo pela primeira vez, são prazeres que aprendi com Caio Graco, o primeiro editor com quem trabalhei. Mas vi Jorge Zahar fazer o mesmo, com idêntica expressão de prazer. Vejo Elisa Braga, responsável pela produção dos livros da Companhia das Letras quase desde sempre, verdadeiro coração da editora, fazer o mesmo gesto ainda hoje, com mais de 4000 livros publicados em nosso catálogo. Além de mero costume de velhos editores, o cheiro e o tato do livro têm muito a nos dizer. Falam também da natureza da profissão do editor, o parteiro e nunca o pai ou a mãe das edições. Não há orfandade possível no mundo editorial. Um livro pode até ser renegado, no futuro, por seu autor, mas tem DNA inescapável, e conta conosco, editores, como meros auxiliares para que venha à luz. Editores são canais entre os dois polos que realmente interessam, caro leitor e caro escritor.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal sobre livros e o trabalho editorial.