lydia davis

Um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992

Por Emilio Fraia

Quando tinha nove anos, durante seis meses, mantive um diário. Escrevia todos os dias. É uma agendinha velha, preta e com adesivos de marcas de surfwear na capa (Hang Loose, Sea Club e Ocean Pacific). Cada entrada possuía doze linhas, que eu preenchia inteiramente, o que pensando agora devia fazer apenas para não deixar espaço vazio.

O caderninho ficava na casa dos meus pais, num armário abarrotado de pastas. Nunca dei muita bola para ele, até ler aquele que se tornaria o meu conto favorito da Lydia Davis.

Em 2009, a Farrar, Straus & Giroux publicou uma edição com os contos reunidos da autora norte-americana, um volume de capa salmão, 733 páginas e 197 histórias. O conto chama-se “We Miss You: A Study of Get-Well Letters from a Class of Fourth-Graders” (“Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, que integra Tipos de perturbação, primeiro livro da autora publicado no Brasil, com tradução da destemida Branca Vianna).

O relato é exatamente o que diz o título: uma dissecação linguística e sociológica de vinte e sete cartas que alunos de uma classe do quarto ano escreveram para um coleguinha, Stephen, enquanto este se recuperava no hospital. Em dezembro de 1950, Stephen teve uma grave osteomielite (espécie de inflamação óssea, causada por uma bactéria) e foi internado. Após as férias de fim de ano, as aulas recomeçaram e a professora pediu, como tarefa de classe, que cada um dos alunos lhe escrevesse uma carta.

Como em praticamente todos os contos de Tchekhov, a tensão aqui não está dirigida para o desfecho. Logo no início, o narrador de Lydia diz, sem alarde: “Após algumas semanas de muita preocupação por parte de médicos, família e amigos, Stephen se recuperou, graças em parte a […]”. Já sabemos, portanto, que nada de pior vai acontecer, que Stephen saiu dessa, que não precisamos passar a história tensos torcendo pela sua melhora.

A linguagem do conto é clara, direta, o que contribui para o efeito maravilhoso de relatório. No mais, nada acontece — ou pelo menos não aparentemente. O narrador descreve a escola (um edifício grande, de tijolinhos, com salas de aula bem iluminadas), fala sobre a aparência geral das cartas (a maioria das crianças usa papel tipo carta, apenas quatro optam pelo tamanho ofício), analisa a caligrafia dos alunos (a letra cursiva “é consistente, toca na linha inferior e tem espaçamento regular”) e a extensão dos textos (“variam de três a oito linhas e de duas a oito frases”).

Seus comentários abrangem estilo, coerência, uso de verbos, conjunções e metáforas, além de categorizar tipos de saudações e expressões de simpatia — “volte logo/ queria que você estivesse aqui” aparece dezessete vezes.

À medida que as cartas vão sendo esmiuçadas, detalhes do cotidiano das crianças, de sua personalidade, seu estado de espírito e a relação delas com Stephen são revelados.

Algumas crianças falam do clima e de seus animais de estimação, outras relatam brincadeiras na neve e o que ganharam de presente no Natal. Cynthia, por exemplo, escreve: “Fui brincar de trenó uma vez e foi divertido. Fiz bonecos de neve mas eles caíram todos”. Joseph abre seu texto com uma expressão de empatia generosa: “Sei como você se sente”. E completa, de maneira 100% coerente: “Vou ganhar um casaco novo com capuz”.

Através desses fragmentos (e suas elipses), Lydia Davis apresenta essa pequena comunidade de crianças de nove anos, confrontada com a morte, a possibilidade da perda e o tédio. Ao terminar a leitura, a pergunta parece ser: quem é o narrador do conto? Por que ele está analisando essas cartas? É alguém que em posse de cartas antigas tenta descobrir ou lembrar algo de sua infância ou de algum irmão ou amigo? Não há nenhuma evidência de que o narrador seja homem ou mulher, mas talvez pelo fato da autora ser mulher, leio sempre como se fosse uma narradora.

Há uma frase de Tchekhov que poderia se passar por uma frase de Lydia: “mandem-me que escreva sobre esta garrafa, e sairá um conto intitulado ‘Uma garrafa’”.

É nas coisas e episódios pequenos, triviais e aparentemente sem importância que recai o interesse da autora, que na semana passada ganhou o prestigioso Man Booker Prize — o que podemos entender como a vitória cabal das garrafas, dos diários escritos aos nove anos, das cartas dos amigos de Stephen, das histórias sem desfecho nem fábula e, sobretudo, de uma outra frase de Tchekhov (que poderia se passar por uma frase de Lydia): “nada de pensamento: as imagens vivas e verdadeiras criam pensamentos, e um pensamento jamais criará uma imagem”.

Quando li “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, pensei que o conto talvez tivesse me ensinado a ler o meu diariozinho — prestando atenção nas lacunas, no que não está lá. Por que meu amigo voltou chorando da diretoria? Por que não gostei das pinturas? Que pinturas eram aquelas? Em que praia estávamos?

Num levantamento rápido, praticamente todas as entradas começam com “Hoje acordei/ Levantei/ Tomei café” e terminam com “vi televisão e fui dormir/ tomei banho, jantei e dormi”. As ações mais recorrentes são: jogar videogame, nadar, ver filmes, jogar bola e gravar programas de tevê. A conjunção mais comum é a inexpressiva aditiva “e”. Quase não há vírgulas nem pontos. Há, todavia, momentos de superação, como em 15 de janeiro: “hoje levantei notei que meu dente estava mole mas não liguei”.

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Emilio Fraia nasceu em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., em parceria com DW Ribatski, que será lançada em junho) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e é colaborador da editora Cosac Naify e da revista Bravo!
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Semana cento e cinquenta e um

Os lançamentos desta semana são:

Memória da pedra, de Mauricio Lyrio
Desde a juventude, Eduardo investiga a fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”. (Leia o post de Luiz Schwarcz sobre o livro)

Tipos de perturbação, de Lydia Davis (Trad. Branca Vianna)
Lydia Davis, uma das ficionistas mais importantes da literatura americana contemporânea, surpreende o leitor com a originalidade vertiginosa das 57 narrativas breves deste volume. Apagando as fronteiras entre ficção, ensaio e poesia, ela se vale das mais variadas formas, abordagens e estilos — do falso diário pessoal à paródia de análise sintática, do inventário ao epigrama — para flagrar seus personagens em momentos de solidão e insegurança. A sociedade norte-americana, com suas insuficiências e contradições, revela-se como que à revelia, nas frestas destes textos muitas vezes serenos na superfície. Aqui, o cotidiano mais convencional deixa à mostra seu substrato absurdo, assim como a linguagem sóbria esconde um humor irônico e matreiro. Não por acaso Franz Kafka é o protagonista de um dos contos. Assim como o escritor tcheco, Lydia Davis expressa com maestria literária o trágico e cômico descompasso entre o homem moderno e o mundo a sua volta.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron
O misterioso crime do Nocturama ocupa os noticiários. Em torno dele, giram as vidas de um entregador coreano, uma enfermeira especializada em pacientes terminais, um taxista com pendor para música clássica, um escrivão insone às voltas com a doença do pai e uma bióloga com pretensões televisivas. E, ao centro dessa trama cada vez mais macabra, está a criatura. Vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha, ela passa os dias num casarão do Bom Retiro, sem jamais sair à rua. Embora pareça uma criança, sua idade é indeterminada, bem como suas intenções. Em A tristeza extraordinádiria do leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron traz ao nosso tempo uma história que poderia pertencer à Inglaterra vitoriana. No lugar da neblina e dos lampiões a gás, um efervescente bairro de imigrantes no coração de São Paulo, onde convivem sucessivas gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Um ambiente ideal para o embate entre seitas secretas, assassinos em série e antigos mistérios de família.

A mente assombrada, de Oliver Sacks (Trad. Laura Teixeira Motta)
Quem nunca fechou os olhos antes de dormir e se deparou com uma série de luzes e manchas? Ou pensou ter ouvido ruídos e vozes que não estavam lá? Quem nunca, em suma, duvidou da própria mente em alguma situação? Para o neurologista Oliver Sacks, um dos grandes cientistas de nosso tempo, as alucinações são parte fundamental da consciência humana. Elas oferecem um vislumbre da arquitetura do cérebro e uma chave para muitos de seus mistérios. Praticamente todas as culturas buscaram experiências alucinógenas nas drogas, o que nos faz questionar até que ponto elas podem ter inspirado nossa arte, folclore e religião. Combinando erudição médica com relatos pessoais, Sacks investiga as causas e consequências das alucinações, seguindo a trilha de autoanálise e compaixão que marca sua obra.

Crônicas escolhidas, de Machado de Assis (Org. John Gledson)
Um Machado de Assis quase desconhecido se revela em suas centenas de crônicas, publicadas na imprensa do Rio de Janeiro entre 1859 e 1900. Nesta seleção, que abrange o principal período criativo de Machado, “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” estão a serviço da atenta observação do cotidiano brasileiro e carioca, bem como do noticiário internacional. Quase sempre sob pseudônimo, Machado se vale do “grande veículo do espírito moderno” — o jornal — para refletir sobre os acontecimentos de sua época. Testemunha privilegiada de marcos históricos como a Abolição, a Proclamação da República, a crise do Encilhamento e a Revolta da Armada, o autor também se debruça sobre questões como o comportamento no interior dos bondes, o casamento sem paixão e a naturalidade dos estrangeirismos na língua portuguesa. Com organização, introdução e notas elucidativas de John Gledson, este livro oferece uma amostra generosa da produção jornalística de nosso grande escritor, que como cronista fez escola, assim como Rubem Braga, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos. (Leia o post de John Gledson, organizador do livro)

Editora Seguinte

A elite, de Kiera Cass (Trad. Cristian Clemente)
A Seleção começou com 35 garotas. Agora, restam apenas seis, e a competição para ganhar o coração do prícipe Maxon está acirrada como nunca. Quanto mais America se aproxima da coroa, mais se sente confusa. Os momentos que passa com Maxon parecem um conto de fadas. Mas sempre que vê seu ex-namorado Aspen no palácio, trabalhando como guarda e se esforçando para protegê-la, ela sente que é nele que está o seu conforto. America precisa de mais tempo. Mas, enquanto ela está às voltas com o seu futuro, perdida em sua indecisão, o resto da Elite sabe exatamente o que quer — e ela está prestes a perder sua chance de escolher.

Editora Paralela

Restos mortais, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Fred e Deborah, jovens, lindos e saudáveis, estão desaparecidos. O pânico toma conta da cidade de Richmond, na Virgínia. Será que o casal de namorados teve o mesmo fim que os outros quatro jovens casais desaparecidos anteriormente? A ideia é aterrorizante,  pois nos outros casos as vítimas foram achadas, meses depois, em estado avançado de decomposição. Suspeitos multiplicam-se como cadáveres abandonados, num quebra-cabeça sinistro e labiríntico onde vamos encontrar, mais uma vez, a dra. Kay Scarpetta: a mais intrigante protagonista do gênero policial moderno.