má companhia

Eu e meu primeiro romance, meu primeiro romance e eu, dez anos depois

Por Joca Reiners Terron

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Quando escrevi meu primeiro romance, Não há nada lá (que será relançado amanhã, 28/9, pelo selo Má Companhia), eu era outra pessoa. Tinha por volta de trinta anos (passei dois anos escrevendo-o), minha filha ainda era uma bolota risonha e babona de cabelos encaracolados e não mais que 60cm de altura; eu ia então de carro todo dia ao trabalho. Era o feliz beneficiário de um plano de saúde graças àquele emprego, duas vantagens que não duraram muito logo que comecei a escrever o livro.

Meu primeiro romance causou minha demissão. Por algum tempo, enquanto o texto não engrenava, eu conseguia disfarçar que escrevia durante o expediente. Mas depois, quando não era mais possível pensar em outro assunto, a bandeira tremulou, altaneira. Um dia meu chefe sugeriu que fosse terminar o livro em casa. Não tive alternativa senão aceitar. Assim, a ficção terminou por afetar gravemente minha realidade.

Usei parte da multa rescisória para pagar a impressão do livro. Publiquei-o através de minha própria editora mambembe, a Ciência do Acidente. No dia da entrega da gráfica, o produtor me explicou que a quebra da tiragem havia sido um pouco acima dos 3% usuais, e os quinhentos exemplares da 1ª edição viraram 413. Assim mesmo, eu nunca tinha sido tão feliz. Admirava aquelas 413 capas azuis esparramadas na sala de casa e não sabia se ria ou chorava.

O lançamento foi em março de 2001 num Bar Balcão repleto de ex-colegas da antiga firma. Até o chefe que me demitiu estava lá: levara junto o Ignácio de Loyola Brandão, que era seu amigo. Muita coisa aconteceu comigo e ao Não há nada lá depois daquela noite. Eu, por exemplo, participei de uma associação de pequenos editores. Em nossas feiras brincava que aquilo parecia reunião dos Alcoólicos Anônimos: “Oi, meu nome é Fulano de Tal, sou editor e não vendo um livro há dois anos, cinco meses e três dias”. Não que hoje eu seja um Paulo Coelho, claro. Mas muito longe disso.

O romance recebeu boas críticas de uns caras bacanas que nem eram meus amigos e praticamente esgotou tempos depois; “praticamente” significa que sobraram 50 exemplares devidamente guardados debaixo de minha cama, pois imaginava que o livro nunca mais seria impresso. Conforme os exemplares minguavam, meus cabelos caíam. Engordei. Fui feliz, fui triste, fui feliz de novo: ainda sou, mais ou menos (minha filha, agora adolescente, já não me dá a menor pelota). Depois, umas três ou quatro teses citaram o Não há nada lá, que continuou sem muita perspectiva de voltar a existir. E o tempo passou.

Dez anos se passaram. Publiquei outros livros no período e eis que agora, numa inexplicável manobra da literatura, essa ciência do mais puro acaso, o Não há nada lá está de volta. Quem poderia dizer que a redenção viria por meio de Más Companhias? Já não nos tratamos mais por “você”, eu e o livro, pois nossa intimidade diminuiu com o passar dos dias. Também não sei mais quem foi que o escreveu, quais eram seus interesses etc. Lembro vagamente, porém, que aquela foi uma época cheia de incertezas, e que muito do espírito de fin de siècle impregna suas páginas fugidias: o fim do mundo, o fim do livro, o fim do emprego.

Hoje é possível verificar que eu estava certo ao menos em relação ao fim do emprego: nunca mais tive carteira assinada. É engraçado: conforme a gente envelhece vai percebendo que pode aprender a fazer de tudo, e a fazer bem: se eu chegar aos 90 anos poderei até mesmo ser um campeão internacional de sinuca ou, quem sabe, de bocha. Só uma coisa não dá pra recuperar: o fervor da juventude, e a crença absoluta naquilo que está sendo feito. E às vezes, quando se acredita de verdade, acabamos nos tornando meio geniais. Nem que seja um pouquinho.

[Joca Terron participa amanhã de bate-papo com o editor André Conti. A partir das 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915. Após a conversa, ele autografa Não há nada lá.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Amaldicionário da Literatura Brasileira (parte III de III)

Por Joca Reiners Terron

[Leia as partes I e II do Amaldicionário.]

Marcando o lançamento do selo Má Companhia, eis um dicionário deveras idiossincrático acerca da literatura maldita brasileira em três capítulos. Ó raios, que maldição!

Quimera – O anseio literário costuma nascer desse aniquilante desejo de expressão subjetiva, invariavelmente descambado num sonho inatingível que, no início de uma manhã qualquer, metamorfoseia-se em Quimera mitológica, cuja bocarra só de caninos devora o escritor quando ele menos espera.

RawetSamuel Rawet, o autor de Abama (1964), Os Sete Sonhos (1967) e O Terreno de Uma Polegada Quadrada (1969), judeu polaco de nascimento, apóstata, homossexual, primeiro um engenheiro calculista na construção de Brasília, depois imerso na própria solidão nos subúrbios do Rio de Janeiro, explorou em sua ficção e ensaística embebidas em filosofia essa dupla condição estrangeira, de imigrante e homossexual. A novela que dá título ao volume de contos O Terreno… talvez seja um dos monólogos mais violentos jamais escritos em língua portuguesa (Começa assim: “— Merda, aqui não há uma explosão metafísica, sem uma outra, psicopatológica!”). Teve sua obra ficcional reunida não faz muito tempo, o que costuma ser raro com malditos desse naipe.

Realismo – Não existe coincidência alguma no fato de a quase totalidade dos textos e autores aqui listados serem trânsfugas de um realismo literário mais plano e conformado. Cito o argentino Marcelo Cohen, cujo ensaio “Como si empezáramos de nuevo — apuntes por un realismo inseguro” me parece bom parâmetro de reflexão: “Meditando sobre a técnica, lá pelos anos 20 Musil escreveu: Conquistamos a realidade e perdemos o sonho. Por um paradoxo cuja origem nos escapa, o relato de hoje, herdeiro de um sonho recente, pleno como um universo, reside num sonho moderado cujas repetições parecem dar o real como perdido”. Nesta época em que termos como “realidade expandida” se tornou um clichê, entretanto, não deixa de ser surpreendente a predileção do público (ou seria das editoras?) pelo romance de talhe decimonônico, linear e redondo. Assim, a ficção realista estaria assumindo sua condição de abrigo contra um mundo caótico e fragmentado, além de um espaço onde o ócio — por meio da extensão que esses romances têm — pode ser exercido num tempo onde não parece haver mais tempo? Fica a interrogação e a anedota, só aparentemente descontextualizada, retirada da orelha de Dia do Juízo (1961), romance do malucaço Rosário Fusco, outro maldito:

“Certa vez alguém perguntou a R.F. com irônica piedade pela vagarosa procura e diminuta audiência de seus livros:

— Por que você não escreve logo uma prosa linear, sem complicações, clara, direta, boa de ler, como as de Fulano e Beltrano, por exemplo? Eu, se fosse você, escreveria. Dá prestígio e dá dinheiro.

A resposta do escritor foi pronta e lógica:

— Aposto que eu não escreveria.”

Reinaldo – Moraes, claro, e a maldição do Reinaldão procede por três motivos: 1) Seu alter-ego Ricardo (o protagonista de Tanto Faz) importa a maldição (de baixo, de cima, de onde vem a maldição, do céu ou do inferno?) para a classe média (“O que acontece na frente do pênis? O que acontece atrás do pênis?”); esse movimento é inaugural na literatura brasileira, geralmente mais afeita ao maldito de extração lúmpen ou aristocrata decaído; 2) Contudo, Moraes é um sobrevivente de sua geração, um Keith Richards em melhor estado que sobreviveu a P. Leminski, Ana C., Caio F. e ao abecedário inteiro, conseguindo usufruir naturalmente (em vez de sobrenaturalmente) de sua obra ainda em andamento; 3) Sobreviver, claro, cobra suas tarifas, e uma delas foi a de permanecer quase trinta anos sem escrever, pasmado que esteve por todo esse tempo diante do umbigo da existência. Outro Reinaldo importante é Reinaldo dos Santos Neves ou Reinaldo dos Santos Never, tamanha a maldição desse capixaba que permanece exilado em sua própria genialidade lá pras bandas de Vitória (o que não deixa de ser irônico); autor de romances de alto nível de fatura e experimentação tais como As Mãos no Fogo (1984), A Longa História (2007) e A Ceia Dominicana: Romance Neolatino (2010), entre outros, Santos Neves é sempre temerário ao exigir inteligência demasiada do leitor contemporâneo: seu último livro, o recém lançado A Folha de Hera: Romance Bilíngue, cria uma estrutura na qual o romance fictício (?) The Alfield Manuscript, de Alan Dorsey Stevenson, é traduzido ao português por Reynaldo Santos Neves (sic): “será uma obra de literatura em língua portuguesa com uma “concessão” inglesa, como está sendo editada, ou de literatura inglesa com tradução portuguesa, já que o texto inglês precedeu o texto português? Ou, se ambas as coisas, então teríamos aqui um romance de dupla nacionalidade?” (excerto da apresentação). Rapaz, que amaldiçoada erudição!

Surrealismo – Quase não zaranzou por aqui, e que falta isso fez. Mas não sua facção bretoniana, mais política, metida e delirante (essa é bem representada por poetas como Roberto Piva e Cláudio Willer). Autores que tenham devorado a loucura divertida e desregradora dos sentidos de Apollinaire, de Jacques Prévert e de Benjamin Péret, por exemplo, a não ser por uma ou outra mastigação de Murilo Rubião (catolicão demais), Murilo Mendes (outro carolão, embora genial) e Oswald de Andrade (comunista alterado e loucão). É muito pouco, né. Todavia, houve um Campos de Carvalho, e isto talvez nos baste.

Sussekind & Sussekind – O que dizer de Carlos Sussekind que já não tenha sido dito neste perfil feito por André Conti & Vanessa Barbara?; ou então de livros como Ombros Altos (1960), Armadilha para Lamartine (1976) e Que Pensam Vocês Que Ele Fez (1994), a não ser WAKE UP, BRAZIL!? Carlos Sussekind precisa ser descoberto, lido e amado, pois é, senza dubia, um dos mais divertidos, líricos, elegantes, melancólicos e inteligentes escritores brasileiros do século 20 em plena ebulição no século 21. Assim sendo, pra que deixar pra lê-lo somente no século 22?

Uilcon – De superego ligado na literatura pós-moderna, o paulista Uilcon Pereira concebeu ao menos um feito, sua trilogia No Coração dos Boatos (composta pelos romances Outra Inquisição, 1982, Nonadas, 1983, e A Implosão do Confessionário, 1984, nunca foi reunida num só volume). Entrevista em formato pingue pongue que ao longo de três volumes cita, parafraseia, plagia e liquidifica trocentas referências numa variação sem fim de registros de linguagem que vão de crônicas de futebol e Homero, de Montaigne às Seleções do Reader’s Digest, da Bíblia ao caipirês do Vale do Jequitinhonha, necessitaria ser republicada para que sua literatura tão livre das relações de causa e efeito possa com efeito ser revista. Aqui, um bom artigo de Nilto Maciel sobre Uilcon.

Valêncio – Em meio à mesmice, ser dono de originalidade extrema pode atrair maldições implacáveis. Esse parece ser o caso de Valêncio Xavier, autor de O Mez da Grippe (1981), O Minotauro (1985), entre outras “novellas” e “raccontos”. Criador único, em sua exploração obsessiva da morte nas mais variadas encarnações (a morte coletiva, a morte individual, a morte na mídia, a morte anônima, a morte autoral, entre tantas mortes). Sua obra esparsa publicada ao longo das décadas de 80 e de 90 implora por publicação imediata. Está me ouvindo, Companhia das Letras?

WolffFausto Wolff ou Faustin von Wolffenbüttel escreveu um dos grandes romances brasileiros dos anos 90, À Mão Esquerda (1996). Coisa, aliás, que até mesmo o Jabuti percebeu, premiando-o. Porém muito antes disso, lá no início da carreira, Wolff publicou dois livrinhos que compõem a maior homenagem — pois caprichadas imitações de estilo e tema — que a obra de Campos de Carvalho poderia ter recebido, O Acrobata Pede Desculpas e Cai (1966) e Matem o Cantor e Chamem o Garçom (1976). Deste último o próprio imitado afirmou: “Diante das insólitas florestas pintadas por Franz Marc, criou Marcel Brion a expressão DEMÔNICO (tão diferente de demoníaco) para apontar a onipresença do Diabo numa obra de arte, na própria pessoa da artista. Pois estamos aqui diante de um livro demônico”.

X – da Questão: no Brasil maldição é regra, não exceção.

Y – Complicou.

Z – Zhe End.

Tupi Continued?

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Má Companhia em vídeo

Em março nós lançamos o selo Má Companhia, dedicado a obras polêmicas. Por enquanto já estão disponíveis Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes, e O invasor, de Marçal Aquino. Em breve Não há nada lá, de Joca Reiners Terron, também fará parte da coleção.

Para vocês conhecerem um pouco mais sobre os livros, pedimos para várias pessoas lerem um trecho deles, e o resultado foi o seguinte:

Amaldicionário da Literatura Brasileira (parte I de III)

Por Joca Reiners Terron

Marcando o lançamento do selo Má Companhia, eis um dicionário deveras idiossincrático acerca da literatura maldita brasileira em três capítulos. Ó raios, que maldição!

AgrippinoJosé Agrippino de Paula representa a quintessência da maldição literária brasileira. Teve grana, amou uma das mulheres mais bonitas de seu tempo, depois pirou, empobreceu e acabou morrendo sozinho. Isso tudo apesar de ter meio que inventado o Tropicalismo com Panamérica, romance pop de 1967 (ou seja, publicado na hora certa) que poderia ter rodado mundo e determinado seu lugar no futuro. Também publicou Lugar público (1965), romance tão raro que consegue traduzir literariamente o caos urbano da cidade de São Paulo com técnicas do nouveau roman. Nada disso deu certo, e seus livros continuam na vala lamacenta destinada aos autores cult.

Borges – E o que Jorge Luis Borges faz num amaldicionário de literatura brasileira? Bom, a obra do grande argentino não fez sombra apenas em seus compatriotas, estendendo-se malignamente pro lado de cá e deixando marcas (complexo de inferioridade extremo) em parte significativa da produção literária brasileira dos anos 70 e 80. É a maldição do tango que contaminou o samba com arritmia. (Gabriel García Márquez causou semelhante epigonismo agudo, sobre o qual comentei aqui).

Brasil – É a razão de ser de toda a maldição literária brasileira. Um lugar lotado de mulher gostosa, ensolarado, com carne de vaca relativamente barata e praias (todavia, coliformes fecais e termotolerantes) não poderia gerar boa literatura. E não existe maldição superior a  essa. Somando-se ao cálculo a rede de dormir e a feijoada, então, e pronto: ninguém mais faz porra nenhuma. A poeta Elizabeth Bishop deu a deixa ao criticar Manuel Bandeira por escrever e se deixar fotografar deitado na rede, afirmando que nenhuma literatura digna de nota sairia de posição tão relaxada. Quem discordaria dela?

BrevidadeAugusto Monterroso afirmou que “o bom, se breve, duas vezes bom”. Mais problemático é identificar o que pode ser bom numa vasta produção obcecada pela brevidade e por sua contrapartida literária, o conto, ou pior, pela sua versão autoindulgente, o microconto, essa praga que amaldiçoa a literatura brasileira com rapidinhas e rasteiras anedotas de salão.

Campos – de Carvalho, não os Irmãos Campos (que, vá lá, já tiveram fase mais abençoada). O mineiro de Uberaba, esse sim, bebeu e se empanturrou de surrealismo e de literatura francesa. Conta da esbórnia: tornou-se dono de obra verdadeiramente maldita em âmbito nacional. Dúvida: ele merece isso? É claro que não: o autor de A lua vem da Ásia, tão cheio de graça, merece ser lido por multidões. Jorge Amado, que comprava seus livros às mancheias para presentear os amigos, sabia muito bem disso.

Catatau – Brincadeira fascinante com a linguagem realizada por um dos poetas mais populares dos últimos trinta anos, o romance de Leminski nunca passeou por aí como deveria ter passeado. Nisso, ficou restrito ao gueto dos leitores de poesia; ou pior, restrito ao gueto dos leitores dos livros de prosa escritos por poetas, que é habitado por um ou dois poetas que nem ao menos se olham a não ser se for pra se estapearem. Tristeza de maldição, essa.

DécioDécio Pignatari sempre foi o mala-mor entre os concretistas, mas também o dono da melhor prosa (tá, vamos descontar as Galáxias do Haroldão). Seus textos críticos eram plenos de verve e rebolado sintático. Seus livros de ficção, entretanto, (provavelmente devido à porra-louquice profunda de forma e de conteúdo, exceto talvez pelo romance Panteros) caíram no esquecimento sem nunca terem sido lembrados.

ExperimentalWilliam S. Burroughs afirmou certa vez que se algo era chamado de experimental só podia ser sinal de que a “experiência não dera certo”. De fato, tachar um livro de experimental é destiná-lo ao limbo no qual se encontram laboratórios explodidos e cientistas chamuscados, além de não fazer muito sentido numa época em que as conquistas da literatura pós-moderna estão incorporadas ao mainstream. Não, é claro, que os críticos se importem com isso.

Estilo – Grande maldição da literatura em língua portuguesa, praia pro tatibitate bacharelês se esparramar rotundamente, o estilo pode ser catástrofe maior se for confundido com escrever “difícil” (normalmente uma escrita romântica e pernóstica repleta de lirismo). Parte considerável da produção literária brasileira sofre dessa maldição que une idéias rasas à prosa complicada. Nesse aspecto a culpa é toda de Guimarães Rosa.

Ficção Científica – Uma literatura onde a presença da ficção de gênero (devemos também incluir o Policial nessa lista de ausentes) é tão inócua só pode ser amaldiçoada.

FragaFraga, Antônio, anarquista da malandragem, antecipador de João Antonio e suas artes de chutar tampinhas e perdigotar gírias, é que era maldito de verdade. Nunca assimilado, nunca lido, o autor de Desabrigo sabia enfiar o romantismo no saco junto do cavaquinho: “Ó lua cheia / cheia de graça / este teu bucho / tá repleto de cachaça”. Foi o primeiro (com Clarice e Rosa) a receber o epíteto de “post-moderno” por Oswald de Andrade, que afirmou: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova literatura do Brasil”.

Tupi Continued…

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Semana quarenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes
De volta às livrarias, o lirismo deliciosamente pornográfico destes dois romances cult.
Ricardo de Mello é o herói-narrador de Tanto faz — o garotão à beira dos 30 que deixa um emprego burocrático em São Paulo para morar em Paris, com um ano de bolsa de estudos num curso de economia. Mas seu verdadeiro projeto é ser escritor. E ele logo pula fora da faculdade para investir numa vida aventureira e desregrada, animada com bebida, haxixe, drogas mais pesadas e as dezenas de girls que vai seduzindo.
Depois de um ano de esbórnia em Paris, é hora de voltar para casa. E é essa volta, com escala em Nova York e no Rio, que ele narra em Abacaxi, polvilhada de cenas de sexo ou escatológicas e toda sorte de jorros e fluidos.
Transgressores para a época e ainda capazes de chocar qualquer cidadão, Tanto faz e Abacaxi escancaram o talento de um grande escritor, com seus achados linguísticos, diálogos hilários e um cruzamento vertiginoso e saboroso entre alta e baixa cultura.

O invasor, de Marçal Aquino
Ambientado em São Paulo, o livro narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência.
Assim é O invasor, novela que só foi concluída cinco anos depois de ter virado roteiro do premiado filme do diretor Beto Brant, com Paulo Miklos e Sabotage no elenco.
Junto com Tanto faz & Abacaxi, o livro marca a inauguração do selo Má Companhia, dedicado a autores polêmicos. O evento de lançamento será dia 13 de abril, em São Paulo, com bate-papo entre os autores mediado por Joca Reiners Terron.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
Com uma literatura engajada e realista, Lima Barreto (1881-1922) compôs um romance cuja história oscila do humor ao drama. Ambientado no final do século XIX, o livro conta a história do major Policarpo Quaresma, nacionalista extremado, cuja visão sublime do Brasil é motivo de desdém e ironia. Interessado em livros de viagem, defensor da língua tupi e seguidor de manuais de agricultura, Policarpo é, sobretudo, um “patriota”, e quer defender sua nação a todo custo. O patriotismo aferrado leva o protagonista a se envolver em projetos, que constituem as três partes do livro.
Esta nova edição traz uma introdução da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, um texto de Oliveira Lima, publicado em 1916 no Jornal do Commercio, e também cerca de trezentas notas elaboradas por Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Garcia e Pedro Galdino que recuperam citações, textos, autores e personalidades históricas presentes no romance.

Vesuvio, de Zulmira Ribeiro Tavares
O aviso está nos primeiros versos: “Tua cabeça a prumo emplaca o tempo. Dentro dela guardas o Vesuvio”. É esse conteúdo incandescente que Zulmira exporá aos olhos do leitor com seu estilo direto e provocador, agora organizado em torno do eixo de uma lírica desarmante para quem está habituado a lê-la com o sorrisinho interno suscitado por sua malícia incansável. Claro, é a Zulmira de sempre. Mas que extraordinário encontrá-la assim, exposta, grave — e brilhante, extraordinária.
O livro se divide em sete partes que convergem para a seção final, “Glosa”, que, como ressalta Vilma Arêas no texto de orelha, “pode servir de guia para escalarmos o Vesuvio”. Escalada paradoxal, que não é para o alto mas segue o exemplo das folhas — falsos pássaros que aguardam sua ocasião de voo para atender aos “impulsos precisos que os dirigem pelos declives do ar à terra de sua breve vida”.
Primeiro livro de poesia de uma escritora premiada que não cessa de surpreender, Vesuvio reúne poemas da vida inteira.

Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg (Tradução de Julia Romeu)
O relato comovente — e assustador — do jovem agente literário Bill Clegg, que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício em crack. Ele experimenta a droga pela primeira vez no apartamento de um advogado no Upper East Side. A fumaça com “gosto de remédio, ou desinfetante” gera “um raio de energia renovada” que “eletriza cada centímetro do seu corpo”. Rapidamente a experiência o atira no circuito costumeiro dos viciados: em vez de pensões imundas e noites na sarjeta, porém, sua via crucis inclui hotéis e bares de luxo, aeroportos e táxis que o conduzem de um lado a outro em Manhattan enquanto duram as dezenas de milhares de dólares em sua conta. Escrito com uma sinceridade atordoante, o livro acompanha a queda e a redenção final, quase por milagre, de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama.

Amor sem fim, de Ian McEwan (Tradução de Jorio Dauster)
Joe e Clarissa Mellon eram um casal feliz. Professora e crítica literária, ela acabara de retornar de uma longa viagem de pesquisa sobre o poeta John Keats. Joe mal podia esperar por seu retorno. Escritor de divulgação científica, autor bem-sucedido de diversos livros e artigos, ele não era alguém que se deixasse levar facilmente pelas emoções, mas Clarissa, acreditava, era a mulher com quem dividiria o restante de seus dias. Eles haviam decidido fazer um piquenique no campo, e para lá seguiriam imediatamente após o reencontro no aeroporto. A poucos quilômetros de Londres, a paisagem verdejante das Chilterns oferecia um cenário perfeito para aquele idílio de primavera. Comida italiana e vinho francês completavam a felicidade da ensolarada excursão campestre. Ao fundo, um balão pairava sobre as árvores, como se simbolizasse a tranquila harmonia da tarde. Antes de ouvirem o grito aterrorizado que deflagrou a catástrofe, eles ainda não sabiam que suas vidas mudariam para sempre.