machado de assis

Semana trezentos e oito

Companhia das Letras

O melhor do humor brasileirode Flávio Moreira da Costa (Organizador)
De relatos e poemas anônimos dos primórdios da nossa colonização aos grandes nomes do humor atual, este volume — com textos garimpados durante anos por Flávio Moreira da Costa — é um passeio delicioso e instrutivo pelo olhar brasileiro mais sardônico. Os textos (crônicas, contos, poemas, trechos espertos de peças teatrais e de romances) contam o acidentado percurso do riso em nossa literatura. Modalidade vista às vezes com algum preconceito pelos letrados mais circunspectos, o humor tem se mostrado uma das forças-motrizes mais vitais e revigorantes das letras brasileiras. Muito deboche e inteligência ao longo de mais de 500 anos.

Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout (tradução de Sara Grünhagen)
Uma visita ao hospital serve de mote para este romance que fala da relação entre mãe e filha. Hoje autora bem-sucedida e narradora deste romance, Lucy está há três semanas num hospital se recuperando das complicações de uma simples operação para extrair o apêndice. Sofrendo de saudade das filhas e do marido, ela recebe uma visita inesperada da mãe, com quem não falava havia anos. Mas o que se segue durante as cinco noites em que as duas ficam juntas não são longas discussões de relacionamento ou uma reconciliação verbal. Estimulada pelo exercício da memória, a narradora convalescente lança um olhar aguçado e humano, sem sentimentalismos, para os acontecimentos centrais de sua vida: o isolamento e a pobreza dos anos da infância, o distanciamento de um núcleo afetivo desestruturado, a luta para se tornar escritora, o casamento e a maternidade. Meu nome é Lucy Barton está entre os livros indicados ao Man Booker Prize.

O livro de Aron, de Jim Shepard (tradução de Caetano W. Galindo)
A Europa está em chamas. Com a invasão da Polônia, Adolf Hitler dá início a uma das campanhas de guerra mais sangrentas da história da humanidade, num conflito que irá definir o destino de milhões de pessoas. Aron é uma dessas vítimas colaterais, um garoto cuja vida será transformada para sempre. Morando no campo, ele se vê forçado a mudar com a família para Varsóvia, cidade que vive dias de terror e é assolada pela fome e por uma onda de doenças. Conforme a necessidade aumenta, é obrigado a realizar pequenos trabalhos sujos no mercado negro, onde conhece uma fauna de meninos e meninas que, como ele, farão de tudo para sobreviver e ajudar suas famílias. À medida que o cerco alemão se fecha, a vida de Aron vai se tornando mais difícil. Perseguidos pela Gestapo, os garotos também sofrem extorsões de poloneses, se veem às voltas com a polícia e começam a guerrear entre si. Enfim separado da família, Aron vai parar num orfanato, sem saber que o destino daqueles internos já foi traçado pelo alto-comando nazista. O administrador do orfanato, no entanto, é o célebre médico Janusz Korczak, um humanista e pedagogo que adotará Aron como seu novo pupilo. Com a ameaça dos campos de concentração cada vez mais próxima, será que Aron conseguirá escapar do gueto e expor ao mundo as atrocidades nazistas, exatamente como Janusz espera?

Alfaguara

Fabián e o caosde Pedro Juan Gutiérrez (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman)
Cuba, anos 1960. Em um momento de turbulência política, o acaso une dois rapazes que aparentemente não têm nada em comum. Pedro Juan é um hedonista sedutor e insolente que leva uma vida caótica. Fabián, ao contrário, é um pianista recluso, frágil, medroso e homossexual. Apesar das diferenças, ambos possuem condutas que não se ajustam aos princípios ideológicos do novo regime de Fidel Castro. Anos mais tarde, seus caminhos voltam a se cruzar quando os dois são conduzidos a uma fábrica de enlatados onde trabalham os párias da sociedade revolucionária. Tendo como cenário uma Cuba efervescente e sórdida, Pedro Juan Gutiérrez narra em tom direto e visceral a amizade entre dois jovens que tentam, cada um à sua maneira, enfrentar a repressão e lutar pela liberdade.

Seguinte

O menino no alto da montanha, de John Boyne (tradução de Henrique de Breia e Szolnoky)
Quando fica órfão, Pierrot é obrigado a deixar sua casa em Paris para recomeçar a vida com sua tia Beatrix, governanta de uma mansão no alto das montanhas alemãs. Porém, essa não é uma época qualquer: estamos em 1936, e a Segunda Guerra Mundial se aproxima. E essa não é uma casa qualquer: seu dono é Adolf Hitler. Logo Pierrot se torna um dos protegidos do Führer e se junta à Juventude Alemã. Mas o novo mundo que se abre ao garoto fica cada vez mais perigoso, repleto de medo, segredos e traição — e talvez ele nunca consiga escapar.

Penguin-Companhia

Dom Casmurro, de Machado de Assis
Poucos romances examinam as artimanhas do ciúme com tanta sutileza como Dom Casmurro. Publicado em 1899, o livro permanece uma das mais fascinantes radiografias da traição, que, como o leitor mais atento perceberá, são supostamente duas: a de Capitu, exposta pelo marido Bentinho, e a da própria narrativa, revelada pela maneira como Bentinho modifica os fatos para corroborar suas suspeitas matrimoniais. Tudo isso se manifesta com graça e inteligência num romance que jamais parece esgotar suas possibilidades de leitura. Tanto que críticos como Roberto Schwarz e Susan Sontag consideram a obra de Machado um dos momentos mais altos da prosa ocidental do final do século XIX. Esta edição de Dom Casmurro conta com esclarecedora introdução de Luís Augusto Fischer e estabelecimento de texto e notas de Manoel M. Santiago-Almeida.

Quadrinhos na Cia.

Sopa de salsicha, de Eduardo Medeiros
Contando com uma legião de fãs na internet,Sopa de salsicha é a crônica do dia a dia de Eduardo Medeiros, um talentoso quadrinista metido em encrencas clássicas: aperto financeiro, mudanças de lar e um difícil projeto pela frente. O projeto é este romance gráfico, um trabalho de fôlego em que Medeiros narra, com ajuda da indefectível Baixinha e de outros quadrinistas, suas aventuras diárias e seus embates com o processo criativo, a vida nova em Florianópolis e as visitas de um Michael Bolton que talvez esteja tentando conquistar a sua mãe. Um dos mais talentosos nomes do novo quadrinho brasileiro numa história surpreendente sobre amadurecimento, mudanças importantes e chuveiros apertados.

Suma de Letras

Novamente vocêde Juliana Parrini
É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? Maria Rita foi embora para nunca mais voltar. Deixou para trás o marido, os pais, as irmãs e uma vida de pobreza em uma cidade pequena da qual sempre quis sair. Doze anos depois, ela volta como partiu: sem maiores explicações. Mas agora Maria Rita é a sofisticada Miah, acostumada ao glamour e à vida superficial de Hollywood. Ao chegar, ela se dá conta de que não foi a única que mudou: seu ex-marido, Leonardo Júnior, agora é um homem bem-sucedido, diferente do caiçara com quem ela se casou ainda muito jovem. Empresário de sucesso, Léo parece ter superado o trauma de ser abandonado pelo grande amor de sua vida, até que reencontra a mulher que pensou que nunca mais veria. Apesar da mágoa, ele não consegue deixar de ter vislumbres de sua Maria Rita sob a pele da arrogante Miah. E resistir à antiga paixão será o maior desafio que já enfrentou.

A livraria dos finais felizesde Katarina Bivald (tradução de Carol Selvatici)
Sara tem 28 anos e nunca saiu da Suécia — a não ser através dos (vários) livros que lê. Quando sua amiga Amy, uma senhora com quem troca livros pelo correio há anos, a convida para visitá-la na cidade de Broken Wheel, Iowa, Sara decide se aventurar. Mas ao chegar lá, descobre que Amy faleceu. Sara se vê desacompanhada na casa da amiga, em uma cidade muito pequena, e começa a pensar que talvez esse não seja o tipo de férias que havia planejado.  Com o tempo, Sara descobre que não está sozinha. Nessa cidade isolada e antiga, estão todas as pessoas que ela conheceu através das cartas da amiga: o pobre George, a destemida Grace, a certinha Caroline e Tom, o amado sobrinho de Amy.  Logo Sara percebe que Broken Wheel precisa desesperadamente de alguma aventura, um pouquinho de autoajuda e talvez uma pitada de romance. Resumindo: a cidade precisa de uma livraria.

O livro da escuridãode John Stephens (tradução de Regiane Winarski)
As aventuras dos irmãos Kate, Michael e Emma tomam o rumo final quando eles começam a busca pelo último Livro do Princípio — o Livro da Morte. Quando os três livros forem reunidos, seus poderes combinados podem ser invencíveis. Por isso, as três crianças correm contra o tempo para deter Magnus Medonho em sua caçada. É a vez de Emma embarcar em uma aventura entre dois mundos, enfrentando inimigos terríveis, monstros e fantasmas, e seus próprios medos mais profundos. Agora, ela deve aprender a dominar os poderes do livro mais perigoso de todos para que, com Kate e Michael, possa salvar o mundo do terrível confronto que Magnus Medonho está planejando; a batalha decisiva entre seres mágicos e pessoas comuns. Este é o último livro da trilogia de sucesso Os Livros do Princípio, que começou com O Atlas Esmeralda. Considerada pelo New York Times “o novo Crônicas de Nárnia”, a série de John Stephens conquistou fãs por todo o mundo.

Paralela

Majude Maju Trindade
Maju Trindade é uma garota simples, mas cheia de personalidade e atitude. Ela impressiona pelo visual, que mistura piercing no nariz com combinações de roupa tiradas de sua cabeça, assim como pelo jeito espontâneo com que fala tanto da vida no interior quanto de Justin Bieber. No seu primeiro livro, Maju, fica claro por que essa menina de 18 anos virou a namoradinha da internet brasileira. Com milhões de seguidores no Twitter, no Instagram e no YouTube, ela fala da sua infância, do seu trabalho, das viagens marcantes que fez e dos seus sonhos.

Companhia das Letrinhas

Quem tem medo de Curupira, de Zeca Baleiro (organização de Gabriela Romeu e ilustrações de Raul Aguiar)
O maior medo dos seres da mata é cair no esquecimento. O que seria da Mãe-D’água sem jogar seus feitiços, do Curupira sem pitar seu cachimbo e do Saci sem pregar peças? Aflitos com a falta de visitas na floresta, eles decidem ir à cidade para recuperar a fama e voltar a fazer parte da imaginação de crianças e adultos. Mas, para isso, vão precisar se adaptar à selva de pedra. O pop e o popular, o tradicional e o contemporâneo, o urbano e o rural são algumas das mesclas que aparecem em Quem tem medo de Curupira?, um musical escrito pelo cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Quarto título da coleção Fora de Cena, este volume inclui entrevista com autor e glossário de ritmos brasileiros.

Claro Enigma

O século da escassezde Marussia Whately e Maura Campanili
Um dos indícios de que o Brasil não se deu conta da complexidade do tema é o jargão “crise da água”. Por definição, as crises são períodos de exceção dentro da normalidade. O que vemos, no entanto, é um cenário de difícil reversão. Boa parte dos rios estão poluídos; a indústria, a agricultura e as hidrelétricas consomem grandes quantidades de água e a distribuição irregular no território pode acentuar conflitos políticos e comerciais à medida que a água se tornar um bem cada vez mais raro. O século da escassez apresenta os principais conceitos sobre o tema, mostra dados estatísticos com foco no território brasileiro e aponta caminhos possíveis para evitar o colapso no abastecimento. Mais do que o seu uso consciente, o que está em jogo é o modo de vida do homem moderno e a busca por alternativas que revertam o caráter predatório desse recurso essencial para a nossa sobrevivência.

 

Semana cento e cinquenta e um

Os lançamentos desta semana são:

Memória da pedra, de Mauricio Lyrio
Desde a juventude, Eduardo investiga a fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”. (Leia o post de Luiz Schwarcz sobre o livro)

Tipos de perturbação, de Lydia Davis (Trad. Branca Vianna)
Lydia Davis, uma das ficionistas mais importantes da literatura americana contemporânea, surpreende o leitor com a originalidade vertiginosa das 57 narrativas breves deste volume. Apagando as fronteiras entre ficção, ensaio e poesia, ela se vale das mais variadas formas, abordagens e estilos — do falso diário pessoal à paródia de análise sintática, do inventário ao epigrama — para flagrar seus personagens em momentos de solidão e insegurança. A sociedade norte-americana, com suas insuficiências e contradições, revela-se como que à revelia, nas frestas destes textos muitas vezes serenos na superfície. Aqui, o cotidiano mais convencional deixa à mostra seu substrato absurdo, assim como a linguagem sóbria esconde um humor irônico e matreiro. Não por acaso Franz Kafka é o protagonista de um dos contos. Assim como o escritor tcheco, Lydia Davis expressa com maestria literária o trágico e cômico descompasso entre o homem moderno e o mundo a sua volta.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron
O misterioso crime do Nocturama ocupa os noticiários. Em torno dele, giram as vidas de um entregador coreano, uma enfermeira especializada em pacientes terminais, um taxista com pendor para música clássica, um escrivão insone às voltas com a doença do pai e uma bióloga com pretensões televisivas. E, ao centro dessa trama cada vez mais macabra, está a criatura. Vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha, ela passa os dias num casarão do Bom Retiro, sem jamais sair à rua. Embora pareça uma criança, sua idade é indeterminada, bem como suas intenções. Em A tristeza extraordinádiria do leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron traz ao nosso tempo uma história que poderia pertencer à Inglaterra vitoriana. No lugar da neblina e dos lampiões a gás, um efervescente bairro de imigrantes no coração de São Paulo, onde convivem sucessivas gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Um ambiente ideal para o embate entre seitas secretas, assassinos em série e antigos mistérios de família.

A mente assombrada, de Oliver Sacks (Trad. Laura Teixeira Motta)
Quem nunca fechou os olhos antes de dormir e se deparou com uma série de luzes e manchas? Ou pensou ter ouvido ruídos e vozes que não estavam lá? Quem nunca, em suma, duvidou da própria mente em alguma situação? Para o neurologista Oliver Sacks, um dos grandes cientistas de nosso tempo, as alucinações são parte fundamental da consciência humana. Elas oferecem um vislumbre da arquitetura do cérebro e uma chave para muitos de seus mistérios. Praticamente todas as culturas buscaram experiências alucinógenas nas drogas, o que nos faz questionar até que ponto elas podem ter inspirado nossa arte, folclore e religião. Combinando erudição médica com relatos pessoais, Sacks investiga as causas e consequências das alucinações, seguindo a trilha de autoanálise e compaixão que marca sua obra.

Crônicas escolhidas, de Machado de Assis (Org. John Gledson)
Um Machado de Assis quase desconhecido se revela em suas centenas de crônicas, publicadas na imprensa do Rio de Janeiro entre 1859 e 1900. Nesta seleção, que abrange o principal período criativo de Machado, “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” estão a serviço da atenta observação do cotidiano brasileiro e carioca, bem como do noticiário internacional. Quase sempre sob pseudônimo, Machado se vale do “grande veículo do espírito moderno” — o jornal — para refletir sobre os acontecimentos de sua época. Testemunha privilegiada de marcos históricos como a Abolição, a Proclamação da República, a crise do Encilhamento e a Revolta da Armada, o autor também se debruça sobre questões como o comportamento no interior dos bondes, o casamento sem paixão e a naturalidade dos estrangeirismos na língua portuguesa. Com organização, introdução e notas elucidativas de John Gledson, este livro oferece uma amostra generosa da produção jornalística de nosso grande escritor, que como cronista fez escola, assim como Rubem Braga, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos. (Leia o post de John Gledson, organizador do livro)

Editora Seguinte

A elite, de Kiera Cass (Trad. Cristian Clemente)
A Seleção começou com 35 garotas. Agora, restam apenas seis, e a competição para ganhar o coração do prícipe Maxon está acirrada como nunca. Quanto mais America se aproxima da coroa, mais se sente confusa. Os momentos que passa com Maxon parecem um conto de fadas. Mas sempre que vê seu ex-namorado Aspen no palácio, trabalhando como guarda e se esforçando para protegê-la, ela sente que é nele que está o seu conforto. America precisa de mais tempo. Mas, enquanto ela está às voltas com o seu futuro, perdida em sua indecisão, o resto da Elite sabe exatamente o que quer — e ela está prestes a perder sua chance de escolher.

Editora Paralela

Restos mortais, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Fred e Deborah, jovens, lindos e saudáveis, estão desaparecidos. O pânico toma conta da cidade de Richmond, na Virgínia. Será que o casal de namorados teve o mesmo fim que os outros quatro jovens casais desaparecidos anteriormente? A ideia é aterrorizante,  pois nos outros casos as vítimas foram achadas, meses depois, em estado avançado de decomposição. Suspeitos multiplicam-se como cadáveres abandonados, num quebra-cabeça sinistro e labiríntico onde vamos encontrar, mais uma vez, a dra. Kay Scarpetta: a mais intrigante protagonista do gênero policial moderno.

Machado de Assis, o cronista

Por John Gledson

Entrei no mundo de Machado de Assis há mais de trinta anos, e nunca me cansei de explorar seus lugares escondidos. Habituei-me a buscar um Machado diferente, nas obras ditas “menores”, sobretudo nos contos e nas crônicas. Comprava nos sebos do Rio de Janeiro os volumes destas obras meio esquecidas, muitos deles editados por Raymundo Magalhães Júnior. Um destes, com o estranho título Diálogos e reflexões de um relojoeiro, me atraiu. Continha uma série de crônicas, “Bons Dias!”, escritas em 1888 e 1889, às vezes difíceis de entender para quem não conhecia os meandros do processo que levou à Abolição, em 13 de maio de 1888, e, no ano seguinte, à República.

Eram fascinantes, e perigosas: tanto assim que saíram anônimas, assinadas só “Boas Noites”. Machado estava acostumado a usar pseudônimos mais ou menos transparentes, mas só se veio a saber que esta série era dele na década de 1950. Saltavam aos olhos a graça ferina, a visão nada convencional do processo da abolição, o ceticismo profundo que informava estas crônicas. Quanto havia mudado no 13 de maio? Poucos dias depois da abolição, a crônica apresenta ao leitor o (recém) ex-escravo Pancrácio, e seu generoso ex-dono, que o libertou uma semana antes da aprovação da lei, e nos conta o teatro que encenaram no dia mesmo da libertação. Desde então, diz o ex-dono, pouca coisa mudou: “daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo”. Porque, enfim, como diz: “Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos”!

Havia um só jeito de entender bem estas crônicas: lê-las no seu contexto original. Crônica é criatura de jornal, e já me habituara a deliciar-me com elas “na porta do forno”, por assim dizer, no dia em que saíam – as de Drummond, de Clarice e outros –, nos jornais das minhas primeiras viagens ao Brasil, dos anos 70 e 80.

Em 1987 fui convidado a fazer uma edição de “Bons Dias!” e entrei mais a fundo no mundo dos jornais de um século atrás: sobretudo na Gazeta de Notícias, onde foram publicadas estas crônicas. Não foi um jornal qualquer. Criou uma revolução democrática na imprensa brasileira quando saiu primeiro, em 1875. O nascimento da Gazeta acompanhou o começo de um mundo diferente, um mundo, de fato, reconhecivelmente “nosso”. No espaço de vinte ou trinta anos, vieram o telégrafo, o bonde, o telefone, a bicicleta, os raios-x… O jornal e seus jornalistas e escritores (Eça de Queiroz, entre eles) acompanhavam estes “progressos” no mundo cada vez mais complexo e conturbado do “fim de século”.

A nova antologia de crônicas que acabei de selecionar para a Penguin-Companhia (disponível a partir do dia 24 de abril) pretende mostrar a verve deste “outro” Machado, que será uma novidade para quem só conhece os romances e os contos. Incluí uma boa seleção de “Bons Dias!” e alguns textos anteriores a eles, mas, sobretudo, escolhi mais de trinta crônicas de “A Semana”, a última série que publicou, entre 1892 e 1897.

“ A Semana” é de longe a série maior, a mais ambiciosa, a mais próxima ao nosso mundo, e dela vêm praticamente todas as crônicas mais célebres: “O sermão do diabo”, “Conversa de burros”, “O punhal de Martinha”, “O autor de si mesmo” etc. Todo mundo sabia que estas crônicas eram dele – só ele para escrever com aquela graça, muitas vezes com um gostinho amargo. Não assinou, mas agora não era para esconder sua identidade. Pelo contrário, em alguns momentos fala de si mesmo, seja para queixar-se de suas enxaquecas, ou para lembrar a primeira vez que viu sua futura mulher, em 1868, no Cassino Fluminense, ou as suas conversas sobre literatura com José de Alencar na livraria Garnier, ou um encontro com um burro semi-morto na Praça Quinze. A variedade dos assuntos é quase sem limite, tratados sempre com a ironia, o inesperado que fazia com que os leitores esperassem, a cada domingo, a elegância descontraída destas obrinhas de mestre.

* * * * *

John Gledson nasceu em Beadnell, Northumberland, Inglaterra, em 1945. Doutor pela Universidade de Princeton, é professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool. Publicou três livros sobre Machado de Assis no Brasil: Machado de Assis: Ficção e história, (Paz e Terra, 1986), Machado de Assis: Impostura e realismo (Companhia das Letras, 2005) e Por um novo Machado de Assis (Companhia das Letras, 2006).

Semana cento e vinte e seis

Os lançamentos desta semana são:

Marighella, de Mário Magalhães
“Cuidado, que o Marighella é valente”, disse Cecil Borer, diretor do Dops carioca, antes de despachar uma equipe para capturá-lo em seguida ao golpe de 64. De fato, Carlos Marighella, um dos mais destacados revolucionários do século XX, demonstrou muita valentia nos trepidantes 57 anos e onze meses de que dispôs. Foi dirigente comunista, deputado e guerrilheiro. Assaltou banco, escreveu manuais para a luta armada e poemas. Considerava-se discípulo de Marx e Lênin, mas condenava a ortodoxia: esse tipo de rigor, costumava dizer, é coisa de religião. Monitorado tanto pela CIA quanto pelo KGB, Marighella manteve-se ativo por quase quarenta anos de militância, da década de 1930 à de 1960. Viveu clandestino, articulou greves e conspirou por revoluções. Neto de escravos, o guerrilheiro recusava a tutela do medo. E foi intrépido até o fim.

Herança de sangue, de Ivan Sant’Anna
Desde sua fundação por bandeirantes paulistas até meados do século XX, Catalão — atualmente uma próspera cidade do interior goiano — era o lugar mais perigoso do Brasil para forasteiros desavisados. Histórico ponto de repouso das mais variadas espécies de aventureiros em busca de enriquecimento rápido, a localidade foi cenário de terríveis massacres e disputas políticas de lances cinematográficos. Os pistoleiros e valentões catalanos eram famosos em todo o vale do rio Parnaíba, e ainda mais além, por sempre resolver as discussões, até as mais irrelevantes, no tiro ou na faca. Assassinatos cometidos para solucionar questões “de honra” também vitimaram gerações e gerações de famílias rivais, envolvidas numa selvagem espiral de vingança. Neste relato real, mas que parece ter saído das melhores páginas de ficção, Ivan Sant’Anna reconstitui a assombrosa saga de violência da cidade, construindo uma narrativa tão envolvente como um bom filme de faroeste.

Mick Jagger, de Philip Norman (Trad. Álvaro Hattner e Claudio Carina)
Mick Jagger é o astro da música que melhor encarnou o ideal de sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Nesta que é a mais completa biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman apresenta um relato sem precedentes da trajetória de uma lenda viva. De estudante no interior da Inglaterra a superstar do rock nos anos 1960 e ídolo global, o autor decifra a mítica em torno do vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos com uma intimidade de quem acompanhou o mito em sua formação. Hoje, sir Mick Jagger é um respeitado avô de quase setenta anos, mas sua imagem e voz ainda inspiram fãs admiradores. Esta biografia restitui ao astro sua dimensão humana, retratando um personagem complexo, vulnerável e afetivo.

Esaú e Jacó, de Machado de Assis
Originalmente publicado em 1904, Esaú e Jacó trata de uma “história simples, acontecida por acontecer”: dois jovens bem-nascidos, os gêmeos Pedro e Paulo, digladiam-se em intermináveis conflitos e reconciliações desde o útero da mãe até o começo da idade adulta. Os irmãos lutam pelo amor da “inexplicável” Flora Batista, e o enredo desse embate é narrado em terceira pessoa pelo conselheiro Aires — alter-ego de Machado de Assis, que usa o personagem para as suas reflexões autorais. O narrador-personagem compartilha com o leitor suas indagações sobre a arte do romance, por isso, o crítico e professor Hélio Guimarães, que assina a introdução e as notas do volume, considera esta obra uma verdadeira “teoria da composição ficcional”. Ambientado no Rio de Janeiro durante os anos finais do Império e o início da República, o livro ecoa diversos acontecimentos da história do Brasil — incluindo a Abolição, a Proclamação da República e as revoltas contra o governo Floriano Peixoto —, além de passagens da Bíblia, da Divina comédia e do Fausto de Goethe.

Semana cento e vinte

Os lançamentos desta semana são:

Freud: uma biografia em quadrinhos, de Corinne Maier e Anne Simon (Trad. Sandra M. Stroparo)
Mais de setenta anos após sua morte, o inventor da psicanálise continua a exercer grande influência em inúmeras áreas do conhecimento. Medicina, ciência da informação, crítica literária e sociologia são apenas algumas das disciplinas em que as descobertas do austríaco Sigmund Freud (1856-1939) sobre a psique humana permanecem fomentando investigações.
Por meio do estudo atento de nossos sonhos, desejos e fobias, Freud revelou novas dimensões do ser. Como o próprio autor de A interpretação dos sonhos certa vez afirmou, toda a sua obra é uma tentativa de “libertar a humanidade”
da opressão e da culpa. Este livro, realizado em parceria pela dupla francesa Corinne Maier (texto) e Anne Simon (ilustrações), mostra os principais momentos da fascinante biografia de Freud num registro leve e bem-humorado.

Totem e Tabu, contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos, de Sigmund Freud (Trad.Paulo César de Souza)
O volume 11 das Obras completas de Sigmund Freud traz um de seus textos mais conhecidos: “Totem e tabu”, acompanhado por “Contribuição à história do movimento psicanalítico” e outros textos. “Totem e tabu” foi a primeira aplicação da psicanálise a questões de psicologia social. A “Contribuição à história do movimento psicanalítico” descreve o desenvolvimento inicial da psicanálise e foi escrita com intenção polêmica, depois que dois dos principais discípulos de Freud, Alfred Adler e C. G. Jung, divergiram do mestre. “O interesse da psicanálise” procura sintetizar tudo o que na nova disciplina podia ser de interesse para a psicologia e para as outras ciências – entre essas, a linguística, a filosofia, a biologia, a antropologia, a história, a sociologia e a estética. “Sobre a fausse reconnaissance no trabalho psicanalítico” explica o fenômeno de o paciente afirmar já ter dito algo, quando na realidade não o fez. Por fim, o ensaio sobre o Moisés de Michelangelo oferece uma nova descrição e interpretação da célebre estátua do gênio renascentista.

Quincas Borbade Machado de Assis
Publicado pela primeira vez em livro em 1891, depois portanto de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e antes de Dom Casmurro (1899), Quincas Borba é uma das obras mais marcantes da fase realista de Machado de Assis. É uma das mais interpretadas pelos mais diversos críticos: trata-se de um dos mais penetrantes estudos desumanização escritos em língua portuguesa. Narrado com o ceticismo e a ironia implacável tão presentes na obra machadiana, o romance conta a história do provinciano Rubião ― herdeiro do filósofo Quincas Borba ― em meio a um triângulo amoroso que o leva à ruína moral e financeira. Esta edição de Quincas Borba, além de mais uma centena de notas explicativas, traz uma extensa e abrangente introdução do britânico John Gledson, estudioso da obra machadiana e tradutor de Dom Casmurro para o inglês.

De olho em Mário de Andrade, de André Botelho
A trajetória de Mário de Andrade está profundamente ligada à moderna cultura brasileira. Líder do movimento modernista, Mário participou da Semana de 22, em São Paulo, escreveu obras importantes, como Macunaíma, e, acima de tudo, viveu intensamente o espírito modernista nas mais diversas esferas. Nas artes, procurou promover o diálogo criativo entre formas populares e eruditas; a partir da música, estudou e refletiu sobre as mais variadas manifestações artísticas; como intelectual e homem público, experimentou e praticou a tão almejada renovação cultural. O sociólogo André Botelho apresenta esse grande personagem, chamando atenção para a atualidade do legado intelectual de Mário de Andrade, que, ao fim e ao cabo, tornou o Brasil mais familiar aos brasileiros. Um poeta, romancista, professor e leitor inverterado, que um dia se definiu dizendo: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta”.

Páginas sem glória, de Sérgio Sant’Anna (assista ao booktrailer)
Trinca de ases na mesa. Três ficções de um consumado mestre das formas breves, que volta a confirmar sua única fórmula: nunca se repetir ― sem trair suas obsessões de cabeceira. Nestas páginas retornam muitos dos elementos que identificam e magnetizam a prosa de Sérgio Sant’Anna: o jogo voyeurístico de espelhos e simulacros, a subjetividade fraturada, o clima de violência sexual, de pulsões obscuras. São, porém, mobilizados por novo impulso, representados por outros ângulos e com tonalidades diversas. A rodada é aberta com o naipe da ficção radical,num conto em que a crítica da narrativa toma o lugar da própria e desdobra em cascatas de vozes e sentidos, tendo no âmago a angústia do amor mal correspondido e a impotência da vontade. Na cartada seguinte, certo enviesado neorrealismo hardcore se apresenta na voz de um mendigo messiânico, com fome de operar milagres. E fechando a mão, o trunfo maior desta jogada: uma pequena obra-prima de ficção memorialista no ambiente do futebol, mas que transcende esse campo com uma tragicomédia de subúrbio para a qual Nelson Rodrigues tiraria o chapéu.

Joseph Anton, de Salman Rushdie (Trad. Donaldson M. Garschagen)
“Ah, não se preocupe muito, Khomeini sentencia o presidente dos Estados Unidos à morte toda sexta-feira.” Carregado de humor sardônico, o consolo ouvido de um correspondente estrangeiro logo após a decretação de sua sentença de morte naturalmente se revelaria sem fundamento para Salman Rushdie. Ao longo de mais de uma década, diversos grupos terroristas islâmicos perseguiram o autor de Os versos satânicos com determinação implacável. Rushdie foi proibido pelas autoridades indianas de pisar o solo do seu próprio país, sob o pretexto de prevenir distúrbios religiosos. As companhias aéreas de quase todo o mundopassaram a recusar a transportá-lo. Muitas editoras suspenderam ou adiantaram a publicação de seus livros. Até 2002, quatro anos após a revogação formal da fatwa, ele teve de sobreviver entre diversos esconderijos, além de assumir o pseudônimo de Joseph Anton, título desta corajosa autobiografia que reconstitui o período em que Rushdie precisou viver escondido, sob a proteção de policiais armados, e lutar pela liberdade de expressão.

Editora Seguinte

A seleção, de Kiera Cass (Trad. Cristian Clemente)
Nem todas as garotas querem ser princesas. America Singer, por exemplo, tem uma vida perfeitamente razoável, e se pudesse mudar alguma coisa nela desejaria apenas ter um pouquinho mais de dinheiro e poder revelar seu namoro secreto. Um dia, America topa se inscrever na Seleção  só para agradar a mãe, certa de que não será sorteada para participar da competição em que o príncipe escolherá sua futura esposa. Mas é claro que seu nome aparece na lista sas Selecionadas, e depois disso sua vida nunca mais será a mesma…

Editora Paralela

21/12, de Dustin Thomason (Trad. Marcelo Barbão)
Em Los Angeles, nem todo mundo acreditava que o mundo acabaria em 21 de dezembro de 2012: luzes vermelhas e verdes decoravam cada canto da cidade para as festas de fim de ano. Mas quando uma doença altamente transmissível começa a se espalhar pela humanidade deixando as pessoas insones ― e descobre-se que seu surgimento está intrinsicamente ligado ao aparecimento de um antigo manuscrito maia ―, até os mais céticos começam a temer o fim do mundo.

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