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A menina que queria ir para a escola

Por Adriana Carranca

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Recebi o convite para escrever um livro sobre Malala pouco depois do atentado contra ela. A ideia inicial era escrever para o público adulto. Mas, na medida em que eu conheci mais e mais sua história, tornou-se impossível ignorar a mensagem poderosa e transformadora que ela traz às crianças.

Quando cheguei ao Vale do Swat, onde ela vivia, Malala ainda estava em coma e não era certo se sobreviveria ao tiro disparado contra ela por um integrante do grupo Talibã, que controla partes do cinturão tribal do Paquistão, na conturbada fronteira com o Afeganistão. Ela era ainda desconhecida do mundo e nada indicava, então, que seu drama seria diferente daquele de milhares de crianças anônimas que morrem em números alarmantes na região, vítimas da violência – região que eu visitara inúmeras vezes como jornalista e onde testemunhara de perto a condição das mulheres e crianças.

Mas algo no caso Malala me intrigava. Ela não tinha sido mais uma vítima da violência generalizada no país, mas de um atentado bem planejado cujo alvo era ela, então uma menina de 14 anos. O que o Talibã temia? O que ela teria feito para despertar a ira dos terroristas? A resposta era tão simples quanto aterrorizante: Malala era uma menina que queria ir para a escola.

Em um mundo em que a educação é tantas vezes preterida por outros valores, não raro materiais, uma menina de uma zona tribal lutava pelo direito de estudar a ponto de arriscar a vida para realizar o que para ela era um sonho. Sua história é também a de um pai e de uma escola – o professor Ziauddin Yousafzai, fundador da Escola Khushal – que ousaram desafiar os terroristas ao continuar educando meninas e meninos e, pelo amor e dedicação ao ensino, transformaram filha e aluna com poucas perspectivas de futuro na mais jovem ganhadora do Nobel da Paz. Sua voz ressoou aos quatro cantos e transformou o mundo.

Sua história comoveu pessoas de todas as idades, mas não tinha ainda sido relatada às crianças. É uma história de amor à escola e aos livros, mas também de igualdade e tolerância, importante de ser lida num momento em que as crianças convivem cada vez mais com as diferenças.

A despeito de tentativas de uso político de sua imagem por governos envolvidos nos conflitos da região ou de certo exagero da mídia em tratá-la como celebridade, por trás dos holofotes Malala é apenas uma menina que queria ir para a escola e brigou por isso de forma pacífica, ao lado do pai e dos professores da Escola Khushal. Ela fez das palavras sua arma.

Eu fui uma menina que queria ir para a escola, tive pais que incentivaram meus estudos mesmo tendo poucos recursos disponíveis, fui acolhida por professores que transformaram meu destino. Talvez por isso, tenha me identificado tanto com Malala. Essa história de amor ao aprendizado e aos livros é um pouco a minha e, tenho certeza, também é do leitor.

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41133_gMALALA, A MENINA QUE QUERIA IR PARA A ESCOLA
Sinopse: 
Por mais absurdo que pareça, Malala Yousafzai quase perdeu a vida por querer ir para a escola. Ela nasceu no Paquistão, em uma região pacífica, e era uma das primeiras alunas da classe. Mas quando tinha dez anos, viu a sua cidade ser atacada e dominada por um grupo extremista chamado Talibã. Eles impuseram muitas regras, entre elas a que determinava que somente os meninos poderiam estudar. Mas Malala foi ensinada a defender aquilo em que acreditava e lutou com todas as forças para continuar estudando. Por isso, em 9 de outubro de 2012, tomou um tiro na cabeça quando voltava de ônibus da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. A jornalista Adriana Carranca visitou o vale do Swat pouco depois do atentado, e conta tudo o que viu e aprendeu por lá, apresentando a história dessa menina que, além de ser a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, é um grande exemplo, no mundo todo, do poder do protesto pacífico.

Evento de lançamento:

São Paulo — Sábado, 16 de maio, às 16h, na Livraria da Vila — Alameda Lorena, 1731.

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Adriana Carranca é repórter especial do Estado de S. Paulo e colaboradora com publicações internacionais. Ela cobriu a guerra no Afeganistão e Paquistão, e mergulhou no universo de países muçulmanos como Irã, Egito, Indonésia e nos territórios palestinos. Escreve principalmente sobre conflitos, tolerância religiosa e direitos humanos, com um olhar especial sobre a condição das mulheres. Lançou pela Companhia das Letrinhas o livro Malala, a menina que queria ir para a escola.

Semana duzentos e trinta e sete

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Glória incerta – A Índia e suas contradições, de Jean Drèze e Amartya Sen (Tradução de Ricardo Doninelli Mendes e Laila Coutinho)
Combinando economia, política, história e direito, Jean Drèze e Amartya Sen apresentam as transformações que aconteceram na economia e sociedade da Índia após a independência, em 1947, que deu fim a dois séculos de subjugação colonial britânica. O país adotou um sistema político democrático, com vários partidos, liberdade de expressão e amplos direitos políticos, e alcançou um crescimento econômico bem acelerado nas últimas três décadas, tornando-se uma das economias que crescem com maior velocidade no mundo.
Ocorreram, porém, grandes falhas, tanto na promoção de um crescimento participativo quanto na aplicação dos recursos públicos gerados pelo crescimento econômico para melhorar as condições de vida dos indianos.
Drèze e Sen oferecem uma análise poderosa das privações e desigualdades do país, bem como mostram a possibilidade de mudanças que seriam permitidas por uma prática democrática com uma compreensão mais clara da gravidade dessas privações.

O livro da gramática interior, de David Grossman (Tradução de Paulo Geiger)
Aos doze anos, Aharon Kleinfeld, segundo filho de uma família de refugiados judaico-polonesa, é a cabeça de seu grupo de amigos em um bairro de Jerusalém, Beit-haKerem. Enquanto se debate com as pulsões de uma sexualidade juvenil tão poderosa, entre 1965 e 1967 ele escuta e observa a realidade cotidiana do entorno, que com as peripécias da história vai se enchendo de feiura, violência e morte. Os canhões da Guerra de Seis Dias ressoam ao longe, mas Aharon já não os ouve mais. Rejeita a ideia de viver conforme a gramática que dita aos homens como deve ser a vida e se refugia na sua “gramática interior”, protegido desse mundo adulto que ele julga tão ameaçador.

O brilho do amanhã, de Ishmael Beah (Tradução de George Schlesinger)
Benjamin e Bockarie, dois amigos de longa data, retornam à sua cidade natal, Imperi, após o fim da guerra. O vilarejo está em ruínas, o chão coberto de ossos, as ruas desertas.
À medida que os antigos moradores começam a voltar, os dois assumem a liderança da nova comunidade, esforçando-se para reatar os laços há muito desfeitos: retomam seus antigo postos de professores, reconectam-se aos veteranos na tentativa de preservar as tradições locais.
Diversos obstáculos, porém, surgem à frente: escassez de alimentos, onda de assassinatos, roubos, estupros e retaliações. São ainda obrigados a enfrentar a destruição causada por uma companhia mineradora que ameaça cortar o abastecimento de água e bloqueia as ruas com fios elétricos.
Com a atmosfera etérea de um sonho e a clareza moral de uma fábula, O brilho do amanhã é um romance poderoso sobre o significado de preservar o que é mais importante, mesmo em tempos de incerteza.

Companhia de Bolso

Muito longe de casa, de Ishmael Beah (Tradução de Cecília Gianetti)
Aos doze anos, Ishamel Beah  fugiu do ataque de rebeldes e vagou por uma terra arrasada pela violência. Aos treze, foi recrutado pelo Exército do governo de Serra Leoa e descobriu que era capaz de atrocidades inimagináveis.
Este é um relato raro e hipnotizante, contado com força literária e uma honestidade de cortar o coração.

Seguinte

Eu sou Malala – Edição Juvenil, de Malala Yousafzai e Patricia McCormick (Tradução de Alessandra Esteche)
Edição juvenil da autobiografia da mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da Paz,
Malala Yousafzai tinha apenas dez anos quando o Talibã tomou conta do vale do Swat, onde ela vivia com os pais e os irmãos. A partir desse dia, a música virou crime; as mulheres estavam proibidas de frequentar o mercado; as meninas não deveriam ir à escola.
Criada em uma região pacífica do Paquistão totalmente transformada pelo terrorismo, Malala foi ensinada a defender aquilo em que acreditava. Assim, ela lutou com todas as forças por seu direito à educação. E, em 9 de outubro de 2012, quase perdeu a vida por isso: foi atingida por um tiro na cabeça quando voltava de ônibus da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria.
Hoje Malala é um grande exemplo, no mundo todo, do poder do protesto pacífico, e é a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz. 

Paralela

Neil Patrick Harris – A autobiografia interativa, de Neil Patrick Harris (Tradução de Juliana Cunha e Guilherme Miranda)
Primeiro livro do premiado e querido ator americano, Neil Patrick Harris mistura realidade, ficção e muito humor. E o melhor: é o leitor quem escolhe qual vai ser o rumo da história. Em cada momento crítico, é o leitor quem decide como a trama vai continuar. Caso escolha corretamente, Neil Patrick encontrará fama, dinheiro e amor verdadeiro. Se o leitor fizer a escolha errada, o resultado será miséria, sofrimento e uma morte horrível com mordidas de piranhas.
Neil Patrick, apresentador do Oscar, combina episódios de sua vida, comentários afiados sobre o dia a dia das celebridades e bastidores de Hollywood. Ele fala ainda do seu começo de carreira como prodígio ator-mirim e do relacionamento com o também ator David Burtka, com quem se casou recentemente e tem dois filhos. E ainda tem mais: truques de mágica, receitas de drinks, fotos embaraçosas e até uma música para o “grand finale”.

Amor ao pé da letra, de Melissa Pimentel (Tradução de David Agne)
A agente literária Melissa Pimentel, assim como sua personagem, Lauren, se mudou de uma pequena cidade nos Estados Unidos para Londres de um dia para o outro. Assim como a protagonista, seu principal objetivo também era se divertir, sempre que possível acompanhada de britânicos sexy.
Infelizmente, Melissa logo descobriu que conquistar esses homens era mais difícil do que parecia, mesmo quando ela jurava não querer nada sério. Foi aí que surgiu a solução: decidiu seguir os conselhos dos mais populares livros de autoajuda para conquistar homens e criou um blog para narrar suas experiências.

 

Discurso de Malala Yousafzai no Prêmio Nobel da Paz

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Malala Yousafzai e Kailash Satyarthi receberam hoje, 10 de dezembro, em Oslo, o Prêmio Nobel da Paz. A seguir, leia o discurso de Malala feito durante a cerimônia de entrega do prêmio (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

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Bismillah hir Rahman ir rahim. Em nome de Deus, o mais misericordioso, o mais benévolo.

Excelentíssimas majestades, ilustres membros do Comitê Nobel Norueguês, queridos irmãos e irmãs, hoje é um dia de grande felicidade para mim. Aceito com humildade a escolha do Comitê Nobel em me agraciar com este precioso prêmio.

Obrigado a todos pelo apoio e amor permanentes. Sou grata pelas cartas e cartões que continuo a receber de todas as partes do mundo. Ler suas palavras amáveis e encorajadoras me fortalece e inspira.

Queria agradecer a meus pais por seu amor incondicional. Agradecer a meu pai por não cortar minhas asas e me deixar voar. Obrigado, mamãe, por me inspirar a ser paciente e falar sempre a verdade — que acreditamos vigorosamente ser a verdadeira mensagem do Islã.

Muito me orgulha ter sido a primeira pachtun, a primeira paquistanesa e a primeira adolescente a receber este prêmio. E tenho a certeza absoluta de ser também a primeira pessoa a receber um Nobel da Paz que ainda briga com seus irmãos mais novos. Eu quero que a paz se espalhe por todos os cantos, mas meus irmãos e eu ainda estamos trabalhando nisso.

Muito me honra também dividir este prêmio com Kailash Satyarthi, que vem lutando pelos direitos das crianças já há muito tempo. Na verdade, pelo dobro do tempo que já vivi. Fico feliz também por estarmos aqui reunidos demonstrando ao mundo que um indiano e uma paquistanesa podem conviver em paz e trabalhar em prol dos direitos das crianças.

Queridos irmãos e irmãs, recebi meu nome em homenagem à pachtun Joana D’Arc, Malalai de Maiwand. A palavra Malala significa “enlutada”, “triste”, mas, tentando imbuir um pouco de alegria a ela, meu avô iria sempre me chamar de “Malala — a garota mais feliz deste mundo”, e hoje estou muito feliz de estarmos aqui reunidos por uma causa importante.

Este prêmio não é só meu. É das crianças esquecidas que querem educação. É das crianças assustadas que querem a paz. É das crianças sem direito à expressão que querem mudanças.

Estou aqui para afirmar os seus direitos, dar-lhes voz… Não é hora de lamentar por elas. É hora de agir, para que seja a última vez que vejamos uma criança sem direito à educação.

Tenho percebido que as pessoas me descrevem de várias maneiras.

Algumas se referem a mim como a menina que foi baleada pelo talibã.

Outras, como a menina que lutou por seus direitos.

Outras, agora, como “a Prêmio Nobel”.

No que se refere a mim, sou apenas uma pessoa dedicada e teimosa que quer ver todas as crianças recebendo educação de qualidade, que quer a igualdade de direitos para as mulheres e que quer que haja paz em todos os cantos do mundo.

A educação é uma das bênçãos da vida — e uma de suas necessidades. Essa tem sido a minha experiência pelos dezessete anos em que vivi. Em minha casa, no vale Swat, no norte do Paquistão, eu sempre adorei a escola e aprender coisas novas. Lembro-me que quando minhas amigas e eu enfeitávamos nossas mãos com hena para as ocasiões especiais, em vez de desenhar flores e padrões nós pintávamos as mãos com fórmulas e equações matemáticas.

Tínhamos sede de educação porque o nosso futuro estava bem ali, naquela sala de aula. Nós sentávamos e líamos e aprendíamos juntas. E amávamos vestir aqueles uniformes escolares limpos e bem passados e sentar ali com grandes sonhos em nossos olhos. Queríamos que nossos pais se orgulhassem de nós e provar que poderíamos nos destacar nos estudos e realizar algo, o que algumas pessoas pensam que somente os meninos podem fazer.

Mas as coisas mudam. Quando eu tinha dez anos, Swat, que era um recanto de beleza e turismo, de repente se transformou em um lugar de terrorismo. Mais de quatrocentas escolas foram destruídas. As meninas foram impedidas de frequentar a escola. As mulheres foram açoitadas. Pessoas inocentes foram assassinadas. Todos sofremos. E os nossos belos sonhos se transformaram em pesadelos.

A educação passou de um direito a um crime.

Mas com a mudança repentina de meu mundo, minhas prioridades também se modificaram.

Eu tinha duas opções, a primeira era permanecer calada e esperar para ser assassinada. A segunda era erguer a voz e, em seguida, ser assassinada. Eu escolhi a segunda. Eu decidi erguer a voz.

Os terroristas tentaram nos deter e atacaram a mim e a minhas amigas em 9 de outubro de 2012, mas suas balas não podiam vencer.

Nós sobrevivemos. E desde aquele dia nossas vozes só fizeram se erguer mais altas.

Eu conto a minha história não porque ela seja única, mas principalmente porque não é.

Hoje, eu conto as histórias delas também. Eu trouxe comigo para Oslo algumas das minhas irmãs, que compartilham esta história, amigas do Paquistão, Nigéria e Síria. Minhas valentes irmãs, Shazia e Kainat Riaz, que também levaram tiros comigo naquele dia em Swat. Elas também passaram por esse trauma trágico. Também a minha irmã Kainat Somro, do Paquistão, que sofreu violência e abuso extremos, até mesmo seu irmão foi assassinado, mas não sucumbiu.

E há meninas comigo que eu conheci durante minha campanha do Fundo Malala, que agora são como minhas irmãs. Minha corajosa irmã Mezon, da Síria, de dezesseis anos, que atualmente vive na Jordânia, em um campo de refugiados, indo de tenda em tenda para ajudar meninas e meninos a aprender. E minha irmã Amina, do norte da Nigéria, onde o Boko Haram ameaça e rapta meninas simplesmente por elas quererem ir para a escola.

Embora na aparência eu seja uma menina, uma pessoa com um metro e cinquenta e sete de altura, contando com os saltos altos, eu não sou uma voz solitária, eu sou muitas.

Eu sou Shazia.

Eu sou Kainat Riaz.

Eu sou Kainat Somro.

Eu sou Mezon.

Eu sou Amina.

Eu sou aquelas 66 milhões de meninas que estão fora da escola.

As pessoas gostam de me perguntar por que a educação é importante, especialmente para as meninas. A minha resposta é sempre a mesma.

O que eu aprendi da leitura dos dois primeiros capítulos do Alcorão Sagrado foram as palavras Iqra, que significa “leitura”, e nun wal-qalam que significa “pela caneta”.

Assim, como eu disse no ano passado nas Nações Unidas: “Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.”

Hoje, em metade do mundo testemunhamos acelerado progresso, modernização e desenvolvimento. No entanto, há países onde milhões ainda sofrem dos antiquíssimos problemas da fome, da pobreza, da injustiça e de conflitos.

Na verdade, lembramos em 2014 que um século se passou desde o início da Primeira Guerra Mundial, mas ainda não aprendemos todas as lições que surgiram da perda daquelas milhões de vidas de cem anos atrás.

Ainda há conflitos em que centenas de milhares de pessoas inocentes perdem suas vidas. Muitas famílias passaram a ser refugiados na Síria, em Gaza e no Iraque. Ainda há meninas que não têm liberdade para ir à escola no norte da Nigéria. No Paquistão e no Afeganistão vemos pessoas inocentes sendo mortas em ataques suicidas e explosões de bombas.

Muitas crianças na África não têm acesso à escola por causa da pobreza.

Muitas crianças na Índia e no Paquistão são privadas de seu direito à educação por conta de tabus sociais, ou forçadas ao trabalho infantil e, no caso de meninas, a casamentos infantis.

Uma das minhas melhores amigas da escola, da mesma idade que eu, sempre foi uma menina corajosa e confiante, que sonhava um dia se tornar uma médica. Mas seu sonho continuou a ser um sonho. Aos doze anos ela foi forçada a se casar, tendo um filho logo em seguida, numa idade em que ela própria era ainda uma criança — apenas catorze anos. Eu sei que a minha amiga teria sido uma médica muito boa.

Mas ela não pôde… porque era uma menina.

Sua história é a razão pela qual eu dedico o dinheiro do Prêmio Nobel para o Fundo Malala, para ajudar a dar às meninas de toda parte uma educação de qualidade e convocar os líderes a ajudar meninas como eu, Mezun e Amina. O primeiro lugar para onde esse financiamento será aplicado é lá onde reside meu coração, para construir escolas no Paquistão — especialmente na minha terra natal de Swat e Shangla.

Na minha própria aldeia ainda não existe uma escola secundária para meninas. Eu quero construir uma, para que minhas amigas possam ter uma educação e a oportunidade que isso traz na realização de seus sonhos.

É por lá que irei começar, mas não é por lá que irei parar. Vou continuar esta luta até ver todas as crianças na escola. Eu me sinto muito mais forte depois do ataque que sofri, porque eu sei que ninguém pode me parar, ou nos parar, porque agora somos milhões, lutando juntos.

Queridos irmãos e irmãs, grandes pessoas que trouxeram mudanças, como Martin Luther King e Nelson Mandela, Madre Teresa e Aung San Suu Kyi, que passaram todos por este palco, espero que os passos que Kailash Satyarthi e eu percorremos até aqui, e que ainda daremos nessa jornada, também tragam mudança — mudança duradoura.

Minha grande esperança é que esta seja a última vez que tenhamos que lutar pela educação de nossos filhos. Queremos que todos se unam em apoio a nossa campanha para que possamos resolver isso de uma vez por todas.

Como eu disse, já demos muitos passos na direção certa. Chegou a hora de dar um salto.

Não é mais o caso de convencer os governantes do quão importante é a educação — isso eles já sabem, seus próprios filhos estão em boas escolas. A hora agora é de convocá-los a agir.

Pedimos aos líderes mundiais que se unam para fazer da educação a sua principal prioridade.

Há quinze anos, os líderes mundiais chegaram a um consenso sobre um conjunto de metas globais, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Nos anos que se seguiram, testemunhamos alguns progressos. O número de crianças fora da escola foi reduzido à metade. No entanto, o mundo se concentrou apenas na expansão do ensino fundamental e o progresso não chegou a todos.

No próximo ano, em 2015, representantes de todo o mundo se reunirão na Organização das Nações Unidas para decidir sobre o próximo conjunto de metas, os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. Isto irá definir a ambição do mundo para as gerações vindouras. Os líderes devem aproveitar essa oportunidade para garantir uma educação fundamental e secundária gratuita e de qualidade para cada criança.

Alguns dirão que isso é impraticável, ou muito caro, ou muito difícil. Ou mesmo impossível. Mas é hora de pensar grande.

Queridos irmãos e irmãs, o chamado mundo dos adultos pode compreender isso, mas nós, as crianças, não. Por que os países que chamamos de “fortes” são tão poderosos em criar guerras, mas tão fracos em trazer a paz? Por que fornecer armas é tão fácil, mas doar livros é tão difícil? Por que fabricar tanques é tão fácil, mas construir escolas é tão difícil?

Vivemos na era moderna, o século XXI, e passamos a acreditar que nada é impossível. Chegamos à Lua e talvez em breve pousaremos em Marte. Então, neste século, temos de insistir em que o nosso sonho de uma educação de qualidade para todos também se torne realidade.

Por isso deixem-nos levar igualdade, justiça e paz para todos. E não apenas os políticos e os líderes mundiais, todos precisamos contribuir. Eu. Vocês. É nosso dever.

Ao trabalho, então… sem esperar.

Apelo às crianças como eu a levantar-se em todo o mundo.

Queridos irmãos e irmãs, que nos tornemos a primeira geração a decidir ser a última [a ficar fora da escola].

As salas de aula vazias, as infâncias perdidas, o potencial desperdiçado — que tudo isso se encerre conosco.

Que esta seja a última vez que um menino ou uma menina desperdice sua infância em uma fábrica.

Que esta seja a última vez que uma garota seja obrigada a se casar na infância.

Que esta seja a última vez que uma criança inocente perca a vida na guerra.

Que esta seja a última vez que uma sala de aula permaneça vazia.

Que esta seja a última vez que se diga a uma menina que a educação é um crime e não um direito.

Que esta seja a última vez que uma criança permaneça fora da escola.

Que comecemos nós a encerrar essa situação.

Que sejamos nós a dar um fim a isto.

Que comecemos a construir um futuro melhor, aqui, agora.

Obrigada.

* * * * *

Em outubro de 2012, Malala Yousafzai foi perseguida pelo Talibã e atingida na cabeça por um tiro quando voltava de ônibus da escola. Contrariando as expectativas, ela sobreviveu e agora continua sua campanha por educação por meio do Fundo Malala, uma organização sem fins lucrativos de apoio educacional em comunidades ao redor do mundo. Sua história de luta pela educação é contada no livro Eu sou Malala, em co-autoria com a jornalista Christina Lamb, que ganhará uma edição juvenil em 2015 pela Editora Seguinte.

Dicas para o Dia das Mães

O Dia das Mães está chegando, e se você ainda não pensou em um presente para a sua, podemos ajudar.

Preparamos uma lista com dicas de livros para todos os tipos de mães para você não errar no presente. De guerreira a boa de cozinha, de trabalhadoras e independentes a sonhadoras e religiosas, há sempre uma boa leitura que poderá inspirar e emocionar a sua mãe. Confira a lista!

Para mães guerreiras

  • Eu sou proibida, de Anouk Markovits: Partindo da zona rural da Europa Central pouco antes da Segunda Guerra, passando por Paris e chegando a Williamsburg, no Brooklyn dos dias de hoje, Eu sou proibida dá vida a quatro gerações de uma família chassídica em que as escolhas acabam levando duas irmãs para caminhos opostos.

Para mães batalhadoras

  • Eu sou Malala, de Malala Yousafzai: Aos dezesseis anos, Malala se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher.

Para mães politizadas

  • Almanaque 1964, de Ana Maria Bahiana: Com a linguagem mais descontraída do almanaque, muitas fotos, texto leve e altamente informativo, Ana Maria Bahiana faz um passeio delicioso e instrutivo por um tempo que ajudou a definir, com violência, paixão, som e fúria, o mundo de hoje.

Para mães nostálgicas

  • Nu, de botas, de Antonio Prata: O autor retrocede ao ponto de vista da criança e revive sua infância, em que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular – cômico, misterioso, lírico e encantado.

Para mães cult

  • Fim, de Fernanda Torres: O livro conta a história de um grupo de cinco amigos cariocas que rememoram as passagens marcantes de suas vidas: festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos. Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim. Mas elas também são cheias de resignação e cobertas por uma tinta de melancolia.

Para mães bem-humoradas

  • Bridget Jones: Louca pelo garoto, de Helen Fielding: Quatorze anos depois do último livro, o tempo se encarregou de trazer à vida de Bridget Jones outros dramas e dilemas, mas não levou embora seu jeito estabanado e a personalidade luminosa sem a qual ela não poderia enfrentar os momentos comoventes que a aguardam.

Para mães saudáveis

  • O melhor momento, de Jane Fonda: Abordando questões sobre sexo, amor, sociabilidade, espiritualidade, alimentação, atividade física e autoconhecimento na maturidade, Jane Fonda mostra como a fase após os sessenta anos pode ser aquela em que realmente nos tornamos as pessoas ativas, afetuosas e plenas que sempre deveríamos ter sido.

Para mães trabalhadoras

  • Faça acontecer, de Sheryl Sandberg: Eleita uma das dez mulheres mais poderosas do mundo pela revista Forbes, Sheryl encoraja as mulheres a sonharem alto, assumirem riscos e se lançarem em busca de seus objetivos sem medo. Ela acredita que um maior número de mulheres na liderança levará a um tratamento mais justo de todas as mulheres.

Para mães independentes

  • O amor chegou tarde em minha vida, de Ana Paula Padrão: Neste livro comovente e inspirador, Ana Paula Padrão abre o jogo e revela que por trás da jornalista bem-sucedida há uma mulher profundamente humana, que amadureceu tendo de lidar com inseguranças, dores e desejos.

Para mães boas de cozinha

  • Pitadas da Rita, de Rita Lobo: Livro inédito de receitas e dicas que foram testadas e aprovadas pela chef Rita Lobo. Deliciosas e práticas, essas Pitadas prometem trazer novo fôlego para a cozinha do dia a dia.

Para mães vaidosas

  • Mulheres francesas não fazem plástica, de Mireille Guiliano: Mireille Guiliano, ex-presidente da Clicquot, Inc., revela os segredos e truques das francesas na alimentação, estilo e hábitos, e convida o leitor a abandonar alguns padrões, redefinir prioridades, aproveitar os anos de maturidade  e cuidar da aparência de uma nova forma, antes de recorrer ao bisturi do cirurgião plástico.

Para mães religiosas

  • A Igreja da misericórdia, de Papa Francisco: Escrevendo pela primeira vez como papa, Francisco nos passa uma bonita e esperançosa mensagem de misericórdia, em que busca rever seu papel no mundo moderno, ressaltando a importância de servir e acolher os necessitados.

Para mães sonhadoras

  • A invenção das asas, de Sue Monk Kidd: Uma obra-prima de esperança e ousadia, A invenção das asas usa a imagem histórica de Sarah Grimké para contar a história de duas mulheres que questionam as regras da sociedade em que vivem e buscam a liberdade.