manoel de barros

Semana duzentos e noventa e sete

 

Flores, Afonso Cruz
Flores começa com uma perda, a perda do pai. E é a partir daí que o narrador, um jornalista que vive com a filha e a mulher numa relação cheia de incômodos, passa a notar seus vizinhos e a conviver com o senhor Ulme. Ulme sofre além da conta com as notícias que lê nos jornais e com todas as tragédias humanas às quais assiste. Certo dia percebe não se lembrar de seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de já ter visto uma mulher nua. Seu vizinho, talvez por ainda recordar bem do encanto do primeiro beijo – e constatar o quanto a sua vida se distanciava dele –, decide ajudar o senhor a escrever sua história e a recuperar as lembranças perdidas. Ele visita a aldeia alentejana esquecida no tempo e vai aos poucos remontando a identidade de Manuel Ulme, homem que, pelos relatos, parece ter oscilado entre um bom samaritano e um perverso entregue aos prazeres da paixão. O contraste fica cada vez mais claro: enquanto um homem não tem passado e não se lembra do amor, o outro sofre com o presente e com a consciência da rotina que a cada dia destrói sua relação, quando um beijo já perdeu todo o encanto e se tornou tão banal quanto arrumar a cama.

Alfaguara

O livro das ignorãças, Manoel de Barros
Publicado pela primeira vez em 1993, O livro das ignorãças é um dos mais emblemáticos livros de Manoel de Barros, em que o autor desvenda os caminhos de sua criação poética. Desaprender para retornar ao estado da ignorância, procurando dentro de si a disponibilidade necessária para observar e apreender novamente o mundo, é uma das lições do poeta. Dividido em três partes, O livro das ignorãças rompe com as regras da gramática e da linguagem, inaugurando uma forma sofisticada e singular de fazer poesia.

Objetiva

Mais rápido e melhor, Charles Duhigg (Tradução de Leonardo Alves)
Em Mais rápido e melhor, Charles Duhigg faz um exploração inovadora da ciência da produtividade e por que, no mundo de hoje, como você pensa é muito mais importante do que o que você pensa. Com base nas últimas descobertas da neurociência, psicologia e economia comportamental Duhigg explica que as pessoas, empresas e organizações mais produtivas não apenas agem diferente, elas veem o mundo de modos profundamente diferentes. Elas sabem que produtividade tem a ver com fazer escolhas. A maneira como tomamos decisões; as grandes ambições que colocamos em primeiro lugar e as metas fáceis que ignoramos; a cultura que estabelecemos para estimular a inovação; o modo como interagimos com as informações que temos diante de nós: é isso que separa os simplesmente ocupados dos genuinamente produtivos.

De volta aos inutensílios de Manoel de Barros

Por Italo Moriconi

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Arranjos para assobio, de 1982, é o livro de Manoel de Barros escolhido pelo selo Alfaguara para abrir a reedição de sua obras completas, junto com o volume que reúne seus dois primeiros títulos editados — Poemas concebidos sem pecado e Face imóvel, originalmente lançados em 1937 e 1942. Neste ano do centenário de Manoel, o projeto da coleção é ir lançando todos os livros, sem observância estrita da sequência cronológica em que originalmente apareceram. Ao final do percurso, o leitor poderá ter em sua estante, aí sim, a trajetória inteira deste excepcional conjunto de obra, cronologicamente organizado na sequência em que cada livro apareceu.

E por que Arranjos para assobio?  Por que 1982?

É que esse livro e esse ano representaram uma espécie de novo começo na carreira do poeta. Depois do silêncio de dez anos, em que precisara dedicar-se à própria sobrevivência e de sua família, Manoel voltava à cena literária com textos que reafirmavam e acentuavam a originalidade de seu movimento criador. Nele aparecia a palavra “inutensílio”, uma das matrizes de seu especialíssimo vocabulário, a especialíssima rede de imagens-conceitos que constituem seu universo imaginário. A partir desse recomeço, a presença da obra de Manoel se fez cada vez mais insistente, de tal modo que a crítica literária contemporânea tende a vê-lo mais como parte do cenário dos anos 1980/90 que de momentos anteriores.

Na verdade, a linguagem poética especialíssima de Manoel enraiza-se no que pode haver de mais representativo das vanguardas dos anos 1950 e 1960. Como inventor de linguagem, seus livros dos anos 1960 (Compêndio para uso dos pássaros, Gramática expositiva do chão e Matéria de poesia) encontram parentescos de afinidade, contraste ou desafio implícito às poéticas suas contemporâneas de João Cabral, Guimarães Rosa, Haroldo de Campos leitor de Iauaretê, entre outros autores que ainda estão por ser identificados e explorados pelos estudiosos de letras. Mencione-se, por exemplo, Millôr Fernandes, pelo humor aforismático e inusitado da imaginação, com larga presença de passarinhos. Millôr foi um grande divulgador da poesia de Manoel de Barros, contribuindo para que esta saísse do gueto dos “happy few” (os pretensamente  “poucos e bons”) e conquistasse a popularidade de que desfruta até hoje e que, com a reedição e as celebrações do centenário, só fará crescer.

Ao ser reapresentado ao público leitor dos anos 1980, o projeto poético da escrita de Manoel, já dotado de extrema coerência desde fins da década de 1950, revelou-se perfeitamente ajustado às necessidades das novas gerações, através da mescla entre poema curto e andamento narrativo, da presença do tom conversacional, sobretudo pela ética poética do traste, da gosma, do entulho, do riacho, daquilo que por sua própria natureza escapa e critica, pela imagem, os rituais e tramas discursivas do poder. A alma construtora e arrogante do poder.

A poesia de Manoel de Barros é desconstrução o tempo todo. Há nela uma sobranceria da não arrogância. O poeta calça as sandálias da humildade de Francisco de Assis, que surge como ícone, como se lê no poema “Cisco”: “Pessoa esbarrada em raiz de parede / Qualquer indivíduo adequado a lata / Quem ouve zoadas de brenha. Chamou-se de / O CISCO DE DEUS a São Francisco de Assis / Diz-se também de homem numa sarjeta.” O poeta é, pois, o ser que cisca nos dicionários e nas sarjetas. Já a poesia, na mesma página, é definida como “produto de uma pessoa inclinada a antro”, “espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem”. Religando-se aos preceitos arcônticos dos mestres modernistas que o antecederam e de certa forma o possibilitaram (refiro-me aqui a Manoel Bandeira e Oswald de Andrade), Manoel afirma ainda que a poesia é “armação de objetos lúdicos (…) geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados”.

Assim, em seus textos, Manoel busca projetar por imagens e palavras o ver da criança, em ato. Mas há também a sonoridade, a contiguidade musical de toda poesia. Há o assobio. No universo de Manoel, o assobio é a música produzida intuitivamente pelo menino que percorre as fímbrias do seu mundo, explorando os quintais da Casa. O menino vai ao encontro do bugre, do caboclo de sua região pantaneira. Na fronteira: diálogo, escuta. Em toda a sua obra, Manoel de Barros explora sistematicamente esta matéria-prima: a combinação entre o olhar da criança, a linguagem louca do “bugre” e a erudição que vem como bagagem e referência. A palavra poética é a hora do recreio da erudição, hora da incursão curiosa pelas vísceras do terreno.

Com tudo isso, por tudo isso, penetrar na poesia de Manoel de Barros é adentrar todo um universo intricado, ao mesmo tempo muito nítido, de sensações entrelaçadas: talvez tenhamos nessa obra a realização mais radical da sinestesia poética em toda a poesia brasileira, pari passu com Jorge de Lima. Na precisa expressão de Luiz Ruffato, que prefacia o volume agora lançado pela Alfaguara, a poesia de Manoel é constituída de frases “que se sucedem formando riachos, mais tarde rios”. Navegar por essas águas é uma experiência de leitura de que ninguém sai ileso.

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Italo Moriconi é o organizador dos consagrados Os cem melhores contos brasileiros do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, ambos editados pela Objetiva. É doutor em Letras e professor de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Semana duzentos e oitenta e nove

Esta terra selvagem, Isabel Moustakas
João é um repórter policial de um grande jornal paulistano. Aos trinta e dois anos, já coleciona um casamento fracassado e ainda não fez nada de muito grandioso na profissão. Mas o envolvimento na investigação de um crime hediondo irá transformar sua vida de modo devastador. Uma jovem que assistiu à tortura e ao assassinato brutal dos pais — um boliviano e uma descendente de italianos —, e que depois fora abusada das piores maneiras, ainda não havia falado com a imprensa. Sete meses após esses crimes, João é o primeiro jornalista a ouvir o relato de cada detalhe perturbador do que ela havia presenciado. Ao final do depoimento, a garota tira a própria vida diante dos olhos dele. A partir deste terrível episódio, o repórter irá seguir pistas que o levarão a um suposto grupo racista que vem cometendo atrocidades contra imigrantes, negros, judeus, nordestinos, gays e quaisquer pessoas que considera impuras. O pouco do que se sabe sobre eles é que usam coturnos pretos com cadarço verde-amarelo. Neste romance de estreia, Isabel Moustakas cria uma trama extremamente ágil e violenta, que mal permite um respiro do leitor.

Alfaguara

Arranjos para assobio, Manoel de Barros
Arranjos para assobio, de 1982, marca o período em que Manoel passou a ser reconhecido pelo grande público, ao redimensionar a relação entre homem e natureza, marcando o território de sua criação como contrário a tudo o que é útil ou racional.

Poemas concebidos sem pecado e Face imóvel, Manoel de Barros
Face imóvel, de 1942, antecipa os ecos de uma poesia meditativa, em que fica evidente a ampliação de sua experiência de mundo, sua releitura do espaço urbano.

Companhia das Letrinhas

A mãe que chovia, José Luís Peixoto
O menino desta história é filho da chuva. E, com uma mãe tão necessária a todos, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. Através do seu percurso, ele dá aos leitores uma lição de generosidade e perseverança — e acaba por descobrir uma das forças mais poderosas da natureza: o amor incondicional das mães.