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Manolo, 100 anos – Parte II

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Hoje é o centenário do nascimento de Manuel Graña Etcheverry (1915-2015), autor do tão inesperado quando irônico Antologia Hede. O cordobês Manolo foi uma dessas figuras poliédricas que só poderiam ter sido geradas pela cultura argentina do século XX: advogado, poeta, bibliófilo, tradutor, deputado do Congresso Nacional aos trinta anos, amante do xadrez, genro de Carlos Drummond de Andrade, irresistível contador de causos. Uma figura como poucas.

Os textos a seguir testemunham a multiplicidade da experiência de Manolo durante sua longa e fervilhante trajetória. O primeiro deles é a carta em que Carlos Drummond de Andrade responde ao então jovem advogado sobre seu pedido de casamento com Maria Julieta, única filha do poeta mineiro. O casal teria três filhos: Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. Na segunda parte, uma bela evocação de Luis Mauricio sobre uma partida de xadrez com o pai. E, por fim, um poema de autoria do próprio Manolo.

* * *

A última partida

Por Luis Mauricio Graña Drummond

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. 
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza 
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Corria o ano de 1979. Eu morava em Deán Funes, Província de Córdoba, a cidadezinha onde papai havia crescido e onde ainda moravam Nena e Laura, duas de suas irmãs, e Jorge, seu irmão mais novo. Um ano e meio antes, após passar uma temporadinha de quatro dias na sinistra Brigada de San Justo, eu havia sido gentilmente convidado a abandonar o convívio familiar em Buenos Aires e me dedicar à venda de sal das salinas que Jorge e papai tinham no noroeste de Córdoba. (Em matéria de sal, tudo o que consegui foi filmar uma colheita naquele cenário singular, quase lunar, conhecido como “el blanco”.)

Graças aos ensinamentos de Don Carlos Janson, um velho sueco, e seu ajudante Ati, acabei me tornando apicultor. Foram tempos bons, em que, pela primeira vez em anos, me interessava por algo construtivo. Ati e eu tínhamos o hábito de ir ao meio do “monte” capturar enxames africanizados dos “ucles”, cactos típicos da região. Assim, cheguei a ter um apiário de quase 100 colônias de abelhas tão agressivas quanto laboriosas. Utilizando os métodos de Don Carlos — o extrator solar e outros procedimentos na época não menos obsoletos —, ano após ano, em outubro colhíamos mel da florada de “palo amarillo”; logo, em dezembro, de “algarrobo”; e, ainda no verão, o melhor de todos: o de “chilca” — até hoje não provei um que a ele sequer se compare!

Meio entediado de ler manuais de apicultura e de técnica de revelação — também fui fotógrafo naquela época —, me interessei por um velho livrinho de xadrez que encontrei na casa das tias. Tratava-se de Análisis del juego de ajedrez, de Philidor, uma tradução ao castelhano que devia ter mais de 100 anos. O livro havia sido do papai na sua mocidade. Eu já conhecia o jogo, pois, na infância, ele nos havia ensinado os fundamentos. Nós meninos adorávamos seu tabuleiro e, sobretudo, suas peças: eram belíssimas, particularmente os cavalos, que nos pareciam esculturas gregas.

Em casa, o xadrez havia sido parte de uma cultura incentivada pelo papai através de jogos, entre os que estavam “el juego atómico”, uma maleta vermelha com um contador Geiger e outros aparelhos de natureza similar. Havia também uma outra maleta com lentes para montar microscópios, binóculos e telescópios, assim como um kit de tubos de ensaio, pipetas, reativos e até ovos de camarão; não faltavam imãs, giroscópios, lupas, conta fios, mais microscópios, binóculos e telescópios, bússolas, laboratório de revelação de fotografia e uma moviola para edição de filmes de 16mm. Enfim, uma série de objetos de caráter, digamos assim, científico estavam à nossa disposição, mas não se tratava de simples brinquedos: de tanto em tanto e com a devida moderação, podíamos dispor de tudo isso que pertencia ao papai. O xadrez formava parte desse interessante arsenal que, do nosso ponto de vista, eram os “juguetes serios”.

Sempre jogamos xadrez entre irmãos e com papai, e ele sistematicamente nos vencia. Aliás, uma das boas lições que implacavelmente nos dava era que não se podia voltar atrás: você devia ser cauteloso nas suas decisões, pois “¡ficha tocada, ficha movida!”, e essa norma, que em forma quase metódica ele invocava, é efetivamente parte do regulamento do jogo. O fato é que meu conhecimento de xadrez não passava das regras e eu nunca havia vencido meu pai numa partida.

Um dia, em Buenos Aires, comentei com papai que estava lendo seu velho exemplar de Philidor, e ele me sugeriu passar depois aos tratados de Ricardo Réti, um excelente enxadrista austro-húngaro de começos do século XX. Um outro tio que gostava de xadrez, em uma viagem a Deán Funes, me recomendou também os livros de Réti, assim como os de Lasker. Em algum tempo, eu já havia estudado esses autores, Capablanca e outros grandes mestres. Conheci os enxadristas amadores de Deán Funes e passei a jogar com eles. Meu trabalho era a apicultura, meu hobby, o xadrez.

Tempos depois, em outra visita à família em Buenos Aires, voltei a falar com papai sobre o assunto. Ele pareceu contente de ver que eu estava gostando de algo que lhe havia despertado interesse na sua juventude, algo que não era um mero jogo, mas uma disciplina rigorosa — não à toa, lá é conhecido como “el juego ciencia”. Trocamos algumas ideias sobre aberturas, meio-jogo, finais, vantagem posicional e mais algumas generalidades. Decidimos então disputar uma partida.

A essa altura, faria mais de dez anos que não nos enfrentávamos num tabuleiro. (Em outros planos, sim, nos havíamos enfrentado tempos antes e de forma virulenta.) Naquela tarde, no apartamento do papai da rua Talcahuano, onde tantos anos moramos juntos, perto da janela do meu quarto e em silêncio, gravemente concentrados, disputamos a partida.

Hoje, passados quase 40 anos, já não lembro detalhes da competição e sequer posso dizer quem jogou com as brancas. Mas nunca esqueci que, após quase uma hora de tenso e equilibrado confronto, consegui comer uma de suas torres. Então, com jeito um tanto severo e sem dizer palavra, papai deitou seu rei, apertou minha mão e voltou ao seu escritório. Suponho que, como jogador, ele talvez tenha ficado algo contrariado, mas imagino também que, como pai, deve ter ficado bastante satisfeito. Quanto a mim, não sei se fiquei muito ou pouco contente, mas estou certo de que aquela partida foi uma espécie de tardio rito de passagem. Nunca mais voltamos a jogar.

* * *

Vilarejo sem ti

Manuel Graña Etcheverry

(Tradução de Aline dos Santos)

 

Vilarejo sem ti… Não sei… Só e vazio

lhe assobia o vento pelas ruas longas.

Em vão percorro suas calçadas

e olho em vão, em vão, suas janelas.

Vai me entregando todo o desalento,

vai me tirando toda a esperança,

quase adormecido, silenciosa abulia,

o vilarejo encostado na montanha.

Aí está teu jardim tão desolado,

dolorido de verde e sem fragrância:

nem os olhos me alegram seus matizes

nem me aquieta a música da água.

Não sei se há pássaros.

Não sei se cantam,

que está o vilarejo sem ti só e vazio

ao coração que em vão te chama.

Manolo, 100 anos – Parte I

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Imagem: Pedro Augusto G. Drummond

Hoje é o centenário do nascimento de Manuel Graña Etcheverry (1915-2015), autor do tão inesperado quando irônico Antologia Hede. O cordobês Manolo foi uma dessas figuras poliédricas que só poderiam ter sido geradas pela cultura argentina do século XX: advogado, poeta, bibliófilo, tradutor, deputado do Congresso Nacional aos trinta anos, amante do xadrez, genro de Carlos Drummond de Andrade, irresistível contador de causos. Uma figura como poucas.

Os textos a seguir testemunham a multiplicidade da experiência de Manolo durante sua longa e fervilhante trajetória. O primeiro deles é a carta em que Carlos Drummond de Andrade responde ao então jovem advogado sobre seu pedido de casamento com Maria Julieta, única filha do poeta mineiro. O casal teria três filhos: Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. Na segunda parte, uma bela evocação de Luis Mauricio sobre uma partida de xadrez com o pai. E, por fim, um poema de autoria do próprio Manolo.

* * *

Rio, 3 outubro 1949

A Manuel Graña Etcheverry.

Meu amigo — não estranhe que o chame assim, dado o vínculo afetivo que se estabeleceu entre nós, sem sequer nos conhecermos —, aqui tenho sua carta de 24 de setembro, que minha mulher e eu lemos com o mais justificado interesse. Embora não disse nada de substancialmente novo sobre o acontecimento que a determinou e que já conhecíamos através de Maria Julieta, teve para nós o mérito de um cordial primeiro contato, feito de uma maneira tão pouco convencional, tão espontâneo, que nos causou uma grata impressão.

Vejo que avaliou bem o sentido de nossa atitude, ao aprovarmos logo a escolha de Maria Julieta, que implicava na perspectiva de uma separação bastante dura num casal que já não é rigorosamente jovem e não tem outros filhos com que se distrair. Realmente, abrimos mão da convivência com Maria Julieta e não temos nada para substituí-la, pois somos bastante misantropos. Mas nem eu nem minha mulher desejaríamos retê-la junto a nós em tal circunstância, movidos por um amor que seria afinal puro egoísmo de nossa parte.

O que nos diz a seu respeito aumenta as minhas esperanças de que este casamento constitua um belo e duradouro entendimento entre duas pessoas preparadas para isto. Maria Julieta é quase uma criança, mas, como terá visto, bastante amadurecida intelectualmente. Alguma das concepções que ela tem sobre o mundo e das coisas serão fruto desse avanço da experiência intelectual sobre a experiência propriamente humana. Caberá a seu marido ajustar no mesmo plano sensibilidade e razão. Ela não somente o ama como o admira tanto, que não tenho dúvida sobre a boa influência que poderá exercer sobre o destino de minha filha. Oriente-a e guie-a sempre no sentido mais elevado, de modo a que ela se realize plenamente e seja uma boa companheira sua para tudo — no bom como no mau tempo — e nós lhe seremos infinitamente reconhecidos por isso.

Desde já, o que lhe posso dizer é que nos sentimos ligados a V. pelo bem que quer a Maria Julieta e pela confiança que igualmente depositou nela.

Aqui o esperamos dentro de alguns dias e ficamos confiados no seu propósito de nos podermos ver a todos, no futuro, com a desejada frequência.

Cordial abraço de

Carlos Drummond de Andrade.

* * *

Leia a segunda parte da homenagem a Manolo pelo seu centenário.

Morre Manuel Graña Etcheverry

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A Companhia das Letras lamenta a morte de Manuel Graña Etcheverry, que nos deixou na madrugada desta quarta-feira, 27 de maio. Manolo nasceu em Córdoba, na Argentina, onde foi advogado e deputado do Congresso Nacional aos 30 anos. Foi casado com Maria Julieta, filha única de Carlos Drummond de Andrade, e pai dos três netos do poeta — Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. Manuel traduziu as obras de Drummond e de diversos poetas brasileiros. Aqui no Brasil, a Companhia das Letras publicou em 2012 a Antologia Hede, um “manual da literatura fantástica” em que exalta a poesia de um povo fictício.