marcelo backes

Semana cento e cinquenta e cinco

Os lançamentos desta semana são:

O último minuto, de Marcelo Backes
Futebol e honra, a vida nos pampas e a violência, amor e perda. Tudo isso está em jogo no monólogo selvagem desprendido por João, um filho de imigrantes russos que nasceu e cresceu no interior do Rio Grande do Sul e percorreu o mundo como treinador de futebol até parar no Rio de Janeiro. Em uma cela de prisão, ele conta a um missionário seus segredos mais inconfessáveis, mas adia sempre o momento de revelar o que o levou à cadeia. Marcelo Backes abre as portas da consciência de um homem de outra geração, que luta para se adaptar e compreender o tempo em que vive. Condenado a lidar com sua consciência e rememorar cenas de sua vida, João, o vermelho, busca de forma incessante uma explicação para as suas atitudes, voltando à infância e à vida humilde no campo. Na tentativa de entender o que fez dele aquilo que é.

A informação, de James Gleick (Trad. Augusto Calil)
O que é a informação? Neste trabalho ambicioso e acessível, o jornalista James Gleick traça uma ampla história desse fenômeno, com seus infinitos desdobramentos e peculiaridades. Partindo da comunicação por tambores na África, ele passa pela criação dos alfabetos e dos dicionários, por invenções como o telégrafo e o telefone e pelos primeiros computadores, até desembocar na chamada Teoria da Informação e em estudos recentes de genética e na já onipresente Wikipedia. A informação não é um livro apenas sobre ideias, mas também sobre pessoas. Ao condensar séculos de estudos e análises a respeito do tema, Gleick vai falar daqueles que estiveram na linha de frente dessa revolução científica. Claude Shannon, Bertrand Russell, Alan Turing, Kurt Gödel e Richard Dawkins – cujo conceito de memefoi apropriado pelas novas gerações – são alguns dos personagens que aparecem, às vezes em confronto direto, nestas páginas. Num mundo afogado pela informação, Gleick realiza o duplo trabalho de arqueólogo e pensador. Seguindo fios soltos e pistas, alguns lançados milênios atrás, ele conecta ideias e expande horizontes, traçando relações às vezes tão evidentes quanto fugidias. Um estudo fundamental para uma era cada vez mais conectada e cada vez mais distante de si.

É proibido falar disso!, de Noemie Shay (Trad. George Schlesinger)

Imagine descobrir que sua família guarda um grande segredo… Foi o que aconteceu com Ruth, que um dia se deu conta, quase sem querer, de que havia muitas coisas sobre sua irmã que ela não sabia. Quando Ruth quis perguntar sobre esse assunto a seus familiares, se deparou com um muro de silêncio, pois todo mundo, exceto ela, sabia que era simplesmente proibido falar disso! Mas Ruth não desistiu. Com ajuda do amigo Dudi, ela empreendeu uma viagem ao passado e conheceu uma história que envolve amizade, coragem e amor, e que não aconteceu só com a família dela; uma história que, na verdade, marcou o seu povo e todo o mundo.

A caraminhola da minhoca, de Blandina Franco e José Carlos Lollo
Eu sei que este livro parece ser muito legal e tudo mais. E deve ser mesmo, mas você não acha meio estranho o fato de ele ter uma minhoca como protagonista? E esse nome? Eu não sei não, mas acho que essa história de A caraminhola da minhoca tem cara de ser uma invencionice criada pra confundir a gente! De qualquer maneira, você é quem sabe. Se quer ler o livro, vá em frente, mas depois não diga que eu não avisei!

Vovô verde, de Lane Smith (Trad. Érico Assis)
Ele nasceu antes dos computadores, celulares e até da televisão. Quando menino, ajudava na fazenda onde morava e lia histórias de jardins secretos, mágicos e marias-fumaças. Depois, já crescido, foi obrigado a ser soldado e durante a guerra conheceu a sua esposa, com quem teve filhos, netos e bisnetos. Hoje, o Vovô Verde, além de velhinho é um jardineiro apaixonado. E, como anda um pouco esquecido, é nas plantas que ele guarda as duas histórias e memórias mais especiais.

Editora Seguinte

O anjo de Hitler, de William Osborne (Trad. Alyne Azuma)
Verão de 1941. A Segunda Guerra Mundial está em curso. Otto e Leni achavam que estavam a salvo na Inglaterra, mas agora o governo britânico os convoca para uma missão ultrassecreta. Enviados além das linhas inimigas, eles devem resgatar uma garota de nove anos que vive em um convento na Alemanha e pode ser a peça-chave para a derrocada de Hitler. Eles embarcarão na maior jornada de suas vidas, repleta de tensão, perigo e aventuras.

Editora Paralela

O homem do engano, de Chris Morgan Jones (Trad. Alexandre Hubner)
Pouco tempo depois do colapso da União Soviética, dois jovens ocidentais se mudaram para Moscou, atraídos pelas oportunidades profissionais que se abrem com a perspectiva de redemocratização do país. Um deles é jornalista e logo se desilude ao observar, no dia a dia da nação formada a partir dos escombros do regime comunista, um vaivém de expectativas e e frustrações que parece não ter fim. O outro, um advogado medíocre, deixa-se seduzir pela opulência em que vivem alguns dos antigos membros da nomenclatura soviética e põe-se a serviço de um deles, emprestando seu nome para camuflar um esquema de corrupção que está por trás do maior conglomerado privado do setor petrolífero russo. Com uma escrita elegante e segura, Chris Morgan Jones usa esses dois personagens – e o entrecruzamento de seus destinos – para construir um romance de espionagem que, embora atualíssimo, recupera a atmosfera gélida e sombria dos clássicos do gênero, onde a Rússia tantas vezes figura como terra de intriga e de promessas.

No vestiário de “O último minuto” (ou De como nasce e a que vem um romance)

Por Marcelo Backes


(Uma preleção ensimesmada de Marcelo Backes)

O time do seminário São José de Cerro Largo, nos confins do Rio Grande do Sul, era bom, mas não porque eu era o treinador. João, o Vermelho, protagonista de O último minuto, é um velho treinador de futebol, mas não porque eu fui treinador. Descendente de russos, ele não conversa com um seminarista no romance porque eu fui seminarista, muito menos porque fui treinador, embora minha cidade natal seja colonizada por russos.

Quando o futebol mal existia, Bentinho, o Bento Santiago, também estudou no seminário São José, mas não porque queria ser padre. Eu também não queria ser padre, nem treinador, e João, o Vermelho, que é treinador, só conversa com um seminarista carioca porque eu nunca quis ser padre e sempre fui um tanto casmurro, além de conviver com os russos. Machado de Assis não teve tempo pra falar de futebol, nem deve ter pensado em ser padre e gostava mais dos alemães do que dos russos. Guimarães Rosa era do interior, não missioneiro, mas mineiro, e podia bem ter sido seminarista. Seu Riobaldo, que é um fausto brasileiro, mesmo assim seria um líder de jagunços no sertão e não jogaria futebol com seus camaradas como fizeram bósnios e sérvios, outros eslavos, ou turcos, desrespeitando padres e genocidas, num intervalo da guerra dos Bálcãs, segundo um romance em que um soldado conserta um gramofone.

Eu sempre quis entender as Capitus que passavam por mim, o mundo em seu viés mais difícil, descobrir as Deodorinas da vida antes de elas irem embora, brasileiras, sérvias e bósnias, e russas, depois confessar comigo mesmo na solidão, e não mandar como um deus nem como um general no destino de uns 60 seminaristas divididos entre a titularidade e a reserva dos três quadros da gloriosa equipe do seminário, que viajava de comunidade em comunidade pra enfrentar as agremiações locais, sempre na carroceria do caminhão cedido pelo prefeito.

Olha o galho, alguém gritava, e todos se abaixavam, praguejando ao constatar que o galho havia sido inventado pelo gaiato. Olha o galho, alguém gritava de novo, e todos voltavam a se abaixar, indignados outra vez com a mentira desavergonhadamente repetida. Quando alguém gritava olha o galho pela terceira vez, ninguém mais se abaixava, e uma unha-de-gato na beira da estrada arrancava metade da orelha do primeiro incrédulo da fila junto à borda balouçante e colorida da carroceria.

Piores são os espinhos de dentro!

João, o Vermelho, ex-treinador de futebol, confessa na cadeia, abrindo as cortinas de sua alma diante de um seminarista desconhecido na tentativa de compreender por que cometeu o crime terrível que o levou pra trás das grades. Ele não ama o filho, não perdoa o filho, o filho não tem talento, mas acaba escolhendo-o como titular por culpa, uma culpa ancestral, deixando um centroavante talentoso na reserva, antes mesmo de saber que este, rival do filho, também destruiu a vida dele, do pai, numa rivalidade ainda mais íntima.

O seminarista, que de sua parte não consegue amar o próprio pai, apenas ouve, apesar de também ter suas perdas, enquanto vai se aproximando cada vez mais do estranho homem à sua frente, que conta e conta e não para de contar. O treinador só aceita conversar com o seminarista porque precisa falar, falar pra entender, e não quer falar com as paredes. O seminarista só encontra o treinador porque o treinador não se converteu, como os outros presos, às igrejas neo-evangélicas, porque é o único que ainda não diz dos nadas da vida, foi jesus quem me deu. E assim um pai vai encontrando um filho, um filho vai encontrando um pai.

Na decisão do campeonato, o treinador se mostra justo pela primeira vez, e conta ao seminarista que escolheu o centroavante talentoso em lugar do filho, pra logo em seguida, depois de constatar que sua mudança foi um sucesso, fazer o sangue rolar com suas próprias mãos. Um pobre palhaço, preso entre a barbárie de onde veio e a civilização onde está – qual será a pior – se revolta de repente, ao perceber que o futebol, que tomara o lugar de sua vida, também só lhe trouxe desgraças e desilusões. Durante o périplo da fuga, o treinador conta ao seminarista como desvendou o Brasil e suas mudanças mais recentes, mostrando que o futebol funciona como a metáfora mais perfeita da vida e ajuda a compreender o mundo inclusive em suas manifestações mais complexas e contemporâneas.

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Marcelo Backes é escritor e tradutor brasileiro nascido em Campina das Missões (RS), em 1973. Em sua obra, destacam-se os romances maisquememória (2007) e Três traidores e uns outros (2010). Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Friburgo, Backes verteu ao português obras de Arthur Schnitzler, Franz Kafka, Hermann Broch e outros.

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Sinopse: Em romance denso e cheiro de lirismo, Marcelo Backes conta a história de um ex-treinador de futebol que, dentro de sua prisão, relata sua história de vida a um missionário enquanto busca sentido para o crime que cometeu.
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Eventos de lançamento:

  • Rio de Janeiro: Quinta-feira, 23 de maio, às 19h30 – Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290
  • Porto Alegre: Quinta-feira, 6 de junho – StudioClio – Instituto de Arte & Humanismo – Rua José do Patrocínio, 698
  • São Paulo: Sexta-feira, 21 de junho – Casa do Saber – R. Dr. Mário Ferraz, 414 – Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (11) 3707-8900