marcelo rubens paiva

Semana trezentos e dezessete

Companhia das Letras

Diários II, de Susan Sontag (organização e prefácio de David Rieff e tradução de Rubens Figueiredo)
Dos anos turbulentos de sua viagem a Hanói, em pleno auge da Guerra do Vietnã, até a experiência como cineasta na Suécia e às eleições presidenciais americanas de 1980, este volume documenta a evolução de uma mente extraordinária. Em 1966, a publicação de Contra a interpretação lançou Susan Sontag da periferia do ambiente artístico e intelectual de Nova York para os holofotes de todo o mundo, sedimentando seu lugar como uma força dominante no mundo das ideias. Esses registros são um retrato inestimável dos pensamentos íntimos de uma das mais inquisitivas e instigantes ensaístas do século XX.

Roberto Civita: O dono da banca – A vida e as ideias do editor da Veja e da Abril, de Carlos Maranhão
Roberto Civita (1936-2013) era o dono da banca. No auge, seu império editorial – a Abril – teve 10 mil funcionários e mais de trezentos títulos. Workaholic, curioso, grande formador de talentos, homem de convicções fortes mas avesso a confrontos, Civita redefiniu o jornalismo no Brasil ao criar publicações como Veja e Realidade – e por influenciar os rumos do país e da sociedade por meio desses veículos. Das origens familiares na burguesia italiana à crise da mídia impressa no início do século XXI, Carlos Maranhão reconstitui, com elegância, isenção e rigor na apuração, os acertos e os fracassos dessa figura tão fundamental quanto polêmica na história da mídia brasileira.

Companhia das Letrinhas

Abecedário – Abrir, brincar, comer e outras palavras importantes, de Ruth Kaufman e Raquel Franco (ilustrações de Diego Bianki, tradução de Mell Brites)
Com este abecedário ilustrado, ganhador do Prêmio New Horizons, da Feira de Literatura Infantojuvenil de Bolonha, vai ficar fácil aprender a ler. Acompanhando as 26 letras que compõem o alfabeto através dos verbos e suas ações e vinhetas que vão além do óbvio, as crianças vão perceber como o mundo das palavras diz tudo sobre a nossa vida.

Alfaguara

Meninos em fúria, de Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento
O rock não morre. O punk não morre. E não morrerá enquanto existir fúria. Março, 1983. Diante de uma plateia atônita, Clemente e sua banda, os Inocentes, começam a tocar acordes rápidos. Ariel, o vocalista, cai do palco e segue cantando com o microfone desligado. Clemente, no baixo, toma os vocais. Caos e confusão, um show que se tornaria um marco do rock brasileiro. Em 1982, Marcelo Rubens Paiva havia acabado de sofrer o acidente que o colocara numa cadeira de rodas. Conhece Clemente e as bandas punks e começa a escrever seu livro, Feliz ano velho. Um livro vibrante — que se lê como um romance, mas onde tudo é estritamente real — que fala não só do movimento punk e da sublevação da periferia, mas também da abertura política brasileira, da fúria e do desencanto dos anos 1980.

Suma de Letras

Nós dois, de Andy Jones (tradução de Ângelo Lessa)
Se apaixonar é fácil. Difícil é o que vem depois. Durante dezenove dias, Fisher e Ivy vivem uma relação idílica e são praticamente inseparáveis. É claro que os dois sabem que estão destinados a ficar juntos para sempre, e o fato de se conhecerem tão pouco é apenas um detalhe. Nos doze meses seguintes, período em que suas vidas mudam radicalmente, Fisher e Ivy percebem que se apaixonar é uma coisa, mas manter uma relação é algo completamente diferente. Nós dois é um romance honesto e emocionante sobre a vida, o amor e a importância de dar valor a ambos.

Reimpressões

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
O último voo do flamingo (nova capa), de Mia Couto

Os melhores livros de 2015

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Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Trinta anos, dois livros

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Como peças de um quebra-cabeça, os livros Feliz ano velho e Ainda estou aqui se encaixam de tal maneira que merecem leitura simultânea. Os relatos autobiográficos do escritor Marcelo Rubens Paiva, separados por três décadas e várias viradas de página da história política do país, tratam da mesma experiência de vida do escritor de forma intensa e arrebatadora, mas sob dois ângulos: juventude e maturidade. Dor, luta e uma enorme vontade de seguir vivendo feliz e produtivo permeiam a narrativa de ambos os livros.

O primeiro, lançado aos vinte e dois anos, foi a principal ferramenta de Marcelo para superar as consequências do acidente que o deixou paraplégico aos vinte, depois de já ter perdido ainda garoto o pai Rubens Paiva para a máquina de morte da ditadura militar. O segundo, publicado agora aos cinquenta e cinco, começa inspirado pelo nascimento do primeiro filho, vai e volta no tempo impalpável da memória para chegar aos dias de hoje recontando como ele, as quatro irmãs e sobretudo a mãe, Eunice, conseguiram manter a integridade da família e das próprias trajetórias pessoais. Ainda em comum nos dois relatos, a admiração de Marcelo — único filho homem de Rubens e Eunice — pela mãe guerreira que, agora, em nova batalha pela vida e dessa vez contra o Alzheimer, reencontra a doçura nos olhos do neto Joaquim.

* * *

Feliz ano velho:

(…) Minha mãe é dessas figuras fortíssimas, que transmitem uma segurança incrível. Sabia que ela estava sofrendo pra burro por ver o filho todo estourado. O que minha mãe já passou na vida a fez ter essa cara de segurança em qualquer momento trágico. Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de quinze anos, sem nenhuma explicação? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido não estava preso? Procurar por dois anos, sem saber se ele estava vivo ou morto. Ter que, aos quarenta anos de idade, trabalhar para dar de comer a seus filhos, sem saber se ainda era casada ou viúva. É duro, né? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo. (…)

Essa é mais ou menos a história da minha mãe. Só que, agora, com uma tragédia a mais pela frente: o que dizer a um jovem de vinte anos, quando ele, depois de ter quase morrido, ficou paralítico? Nada. Diga apenas que o ama. E foi isso que ouvi.

— Pode deixar que a gente vai resolver tudo. Você tem uma cabeça boa, vai sair dessa fácil.

— Eu sei que vou, mas agora eu tô mais preocupado em sair daqui.

— Eu já tô transando isso pra você, fique tranquilo.

Ela nem precisaria ter dito aquilo, tranquilo era uma coisa que eu ficava só em ouvir a sua voz.

 

Ainda estou aqui:

(…) Minha mãe, com Alzheimer, não se lembra do que comeu no café da manhã.

Minha mãe, com Alzheimer, vê meu filho de um ano, que é a minha cara, e o reconhece. Não acha que sou eu, mas o chama de filhinho, de meu filhinho. E sempre diz:

— É a coisa mais linda.

E às vezes se confunde e diz:

— Ela é a coisinha mais linda.

Pode ser ela, a criança. Pode ser que, por ter tido quatro filhas, todos os bebês se tornem ela. Minha mãe reclama muito quando o levamos embora.

(…) Ela ergueu o atestado de óbito para a imprensa, como um troféu. Foi naquele momento que descobri: ali estava a verdadeira heroína da família; sobre ela que nós, escritores, deveríamos escrever.
Minha mãe esteve na capa de todos os jornais no dia seguinte. Com o atestado de óbito erguido, alegre. Uma batalha foi vencida. V de vitória. Ela nunca faria uma cara triste. Bem que tentaram. Por anos, fotógrafos nos queriam tristes nas fotos. Tivemos nossa guerra fria contra o pieguismo da imprensa. Com o tempo,  aprendemos a selecionar qual órgão evitar e como nos portar. Éramos “A família vítima da ditadura”. Apesar de preferirmos a legenda “Uma das muitas famílias vítimas de muitas ditaduras”. Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é a vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Precisamos estar saudáveis, bronzeados para a contraofensiva. Angústia, lágrimas, ódio, apenas entre quatro paredes. Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou.

 

Feliz ano velho:

De repente, meu pai se levantava e íamos pra água. Ultrapassávamos a rebentação, até não mais distinguir uma pessoa de um cachorro. Longe de todos, bem lá no fundo, boiávamos. Eu não conseguia, mas não me cansava. Me sentia tão seguro que nem me importava com aquele mundão d’água. Descansados, nadávamos. Cruzávamos o canal do Jardim de Alá e, quase no Country Club, já em Ipanema, a gente parava. Íamos nos aproximando da costa até pegarmos um jacaré. Eu me agarrava nas costas dele como se estivesse numa prancha, e ele, com um bruta fôlego, deixava a onda nos levar até o raso. Era a glória eu ali, sendo levado nas costas do meu pai, preocupado em não machucá-lo com minhas mãos, vencendo todas as barreiras da natureza revolta, deslizando velozmente. Eu e meu pai, juntos desafiando a vida, sabendo que unidos venceríamos, em paz um com o outro, respeitando a vontade e os desejos um do outro.

 

Ainda estou aqui:

O fato é que eu tinha orgulho dele. Não tinha o perfil dos meus heróis da tv ou dos gibis, mas teve o seu momento de fugir sob balas. Poucos tinham um pai assim.

Da embaixada, ele nos escreveu uma carta emocionada, que guardo até hoje, na minha pasta de documentos importantes. Nos chamava pelos apelidos que ele nos deu. E procurava explicar a conjuntura política para os filhos de três (Babiu) a nove anos (Veroca). Claro, no tom de desabafo. A carta vinha com uma ironia: o brasão da Câmara dos Deputados no papel timbrado.

Verinha, Cuchimbas, Lambancinha, Cacazão e Babiu.

Recebi suas cartinhas, desenhos etc., fiquei muito satisfeito de ver que os nenês não esqueceram o velho pai. Aqui estou fazendo bastante ginástica, fumando meus charutos e lendo meus jornais. É possível que o velho pai vá fazer uma viagenzinha para descansar e trabalhar um pouco. Vocês sabem que o velho pai não é mais deputado? E sabem por quê? É que no nosso país existe uma porção de gente muito rica que finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito e às vezes quer trabalhar e não tem emprego. O papai sabia disso tudo e quando foi ser deputado começou a trabalhar para reformar o nosso país e melhorar a vida dessa gente pobre. Aí veio uma porção daqueles muito ricos, que tinham medo que os outros pudessem melhorar de vida e começaram a dizer uma porção de mentiras. Disseram que nós queríamos roubar o que eles tinham: é mentira! Disseram que nós somos comunistas que queremos vender o Brasil: é mentira! Eles disseram tanta mentira que teve gente que acreditou. Eles se juntaram — o nome deles é gorila — e fizeram essa confusão toda, prenderam muita gente, tiraram o papai e os amigos dele da Câmara e do governo e agora querem dividir tudo o que o nosso país tem de bom entre eles que já são muito ricos. Mas a maioria é de gente pobre, que não quer saber dos gorilas, e mais tarde vai mandar eles embora, e a gente volta para fazer um Brasil muito bonito e para todo mundo viver bem. Vocês vão ver que o papai tinha razão e vão ficar satisfeitos do que ele fez.

O velho pai tinha trinta e cinco anos. Queria se justificar para os filhos que, na escola, nas ruas, podiam ouvir que o pai era um comunista. Revelava um otimismo peculiar: todos ali imaginavam que o golpe não duraria muito. Pela lógica e roteiro escrito pelos próprios golpistas, eles devolveriam o poder aos civis em 1966, numa eleição ganha por um jk ainda não cassado. Meu pai não imaginava que duraria vinte e um anos. E que só vinte e seis anos depois teríamos uma eleição direta para presidente. Que o terror seria uma rotina e prática do Estado a partir de 1968, com o ai-5. E que ele estaria sob tortura seis anos e meio depois. Morrendo. E que seu corpo desapareceria.

 

Feliz ano velho:

Eu nunca tinha tido contato com a morte na minha vida até os doze anos. De repente, morreu meu pai, o pai do Ricardo (meu tio), uma prima, outro tio, outro tio, meu avô, meu outro avô. Tudo isso em dois anos. Foi um choque, pois, encarando-me como uma criança, nunca me contavam direito a verdade. As pessoas não entendem o que é a morte porque a morte não é para ser entendida, é para ser apenas a morte. A morte é para ser vivida, e minha família não queria que as crianças convivessem com ela.

 

Ainda estou aqui:

Eu era uma das crianças mais felizes do mundo.

Porém, a cortina se abriu e começou o segundo ato do espetáculo, que até então era uma farsa, mas se revelou uma tragédia. Meu pai desapareceu em 1971, no mesmo ano em que morreu meu tio mais velho, Carlos. Meu avô morreu dois anos depois. De enfarto. De tristeza. Logo depois, outro tio morreu num acidente de carro na estrada que ligava a fazenda a São Paulo. Um terremoto abriu uma fenda. O sentido de tudo se modificou. Nos perguntamos o que alimentou uma vingança tão caprichada e cruel. O que fez os deuses da felicidade se voltarem contra nós. Morreu uma prima, a mais animada, que não tinha nem dezoito anos, de uma doença misteriosa. Depois outro primo, um menino lindo, num acidente de moto em Santos.

A tragédia dos Paiva foi um contraste com a alegria das décadas anteriores. A família ruiu: não tinha estrutura emocional para administrar tudo aquilo.

 

Feliz ano velho:

No dia 20 de fevereiro, o ministro da Justiça Alfredo Buzaid disse pra minha mãe que meu pai tinha sofrido “alguns arranhões”, mas que voltaria em breve para casa. As reuniões do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana passaram a ser secretas depois do caso. Mesmo sob censura, a imprensa pegava no pé. Finalmente, no dia 24 de fevereiro, sai no Diário Oficial da União o que até hoje é a versão do Exército:

SEGUNDO INFORMAÇÕES DE QUE DISPÕE ESTE COMANDO, O CITADO PACIENTE, QUANDO ERA CONDUZIDO PARA SER INQUIRIDO SOBRE FATOS QUE DENUNCIAM ATIVIDADE SUBVERSIVA, TEVE SEU VEÍCULO INTERCEPTADO POR ELEMENTOS DESCONHECIDOS, POSSIVELMENTE TERRORISTAS, EMPREENDENDO FUGA PARA LOCAL IGNORADO…

Em outras palavras, ele tinha fugido. Foi a versão mais idiota que já inventaram, mas o que fazer? Logo depois veio a censura da imprensa sobre o caso, foi julgado um habeas corpus numa sessão secreta do Superior Tribunal Militar (obviamente negado), sessão essa a que minha mãe esteve presente, sozinha (só com a ajuda do tio Rafael). Não havia provas. O jeito foi esperar.

Continuamos morando no Rio e começaram a chegar as informações mais terríveis: ele tinha sido torturado e morrera. “Mas como? Não existe tortura no Brasil.”

Doce ilusão, estava-se torturando gente como nunca e havia-se criado uma tática mais eficiente: mata-se o inimigo, depois some-se com o corpo.

 

Ainda estou aqui:

Sabendo que minha mãe e minha irmã Eliana estavam nas mesmas dependências do doi-Codi em 21 de janeiro de 1971, de capuz, prontas para os torturadores caírem em cima, sabendo que minha mãe e irmã não tinham a menor ideia do que faziam ali, ele deve ter sofrido, ele, o irredutível inconformado, que não soube tomar as precauções devidas. Inimaginável o seu sofrimento. Talvez a dor da tortura não chegasse aos pés da descoberta de que tomou decisões erradas, arriscou a vida da mulher e dos filhos, crianças ainda. Deve ter sido a sua derradeira tortura.

Quem tem um filho faz de tudo para se preservar, para dar o suporte e acompanhar o crescimento daquele que mais ama. O que eu fiz? Por quê? Onde você estava com a cabeça? Agora não dá para voltar atrás. Agora não dá para fazer nada. Agora não dá para evitar a dor. Agora não dá para salvar minha família. Agora não dá para fugir da morte. Eu vou morrer, sinto que vou, espero que me perdoem. O que fiz prova minha vulnerabilidade, falhas do meu caráter, que pôs tudo a perder e causa muito sofrimento. Não tenho palavras, Eunice, Verinha, Cuchimbas, Lambancinha, Cacareco, Babiu… Perdão. Não verei mais vocês crescerem, não estarei mais ao lado de vocês, não consigo mais proteger vocês, não vou mais brincar com vocês, escutar suas risadas, correr atrás, nadar, não acompanharei vocês na escola, nossa casa maluca não sairá do papel, não saberei que faculdade farão, que diploma pegarão, não acompanharei vocês na vida profissional, não conhecerei seus filhos, meus netos, não verei meus netos crescerem, não estarei ao lado deles, não os protegerei, não vou brincar com eles, escutar as risadinhas, correr atrás, nadar, não acompanharei eles na escola, e como é triste saber que tudo isso acaba, que meu momento com vocês foi tão curto, que não pude aproveitar mais, e me arrependo, me arrependo de não ter passado tempo apenas com vocês, que pena que estou indo embora, que triste que não posso ficar, não me deixam ficar, é inevitável que eu vá, eu não queria, eu não queria, estou tão triste. Tenho que morrer agora.

Morreu repetindo o seu nome. Meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva…

Dizem que foi torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, música que a minha irmã Eliana se lembra de ter escutado enquanto estava lá.

(…)

Imaginar este sujeito boa praça, um dos homens mais simpáticos e risonhos que muitos conheceram, aos quarenta e um anos, nu, apanhando até a morte… É a peste, é a peste, Augustin. Dizem que ele pedia água a todo momento. No final, banhado em sangue, repetia apenas o nome. Por horas. Rubens Paiva. Rubens Paiva. Ru-bens Pai-va, Ru… Pai. Até morrer.

 

Feliz ano velho:

Enquanto alguns pais levavam seus filhos pra jogar tênis, o Rubens Paiva levava o Marcelo pra Pavuna, um bairro operário da Zona Norte, onde ele estava construindo umas casas populares. Eu adorava, ajudava a fazer cimento, levantar muro, passar argamassa nas paredes. Aprendi a comer feijão com farinha na marmita, a beber café mineiro no copo, usar capacete de obra e carregar martelo na cintura.

Todo 1º de maio os candangos faziam festa nos canteiros. E, como era meu aniversário, sempre tinha um bolo pra mim. Ganhava os presentes mais incríveis, desde um martelo mirim até um chaveiro de fita métrica. Às vezes, eu ia pro escritório dele no centro da cidade e ficava brincando de engenheiro. Sentava naquelas pranchas enormes e desenhava pontes. Quando mostrava, meu pai sempre dava uns palpites e corrigia. Acho que foi assim que nasceu a vontade de estudar engenharia.

Meu pai me ensinou a andar a cavalo.

Meu pai me ensinou a nadar.

Me incentivou a ser moleque de rua.

Me ensinou a guiar avião (tinha um na firma dele e, depois de decolar, eu pegava no manche e ia mirando até São Paulo).

Mas meu pai não pôde me ensinar mais.

 

Ainda estou aqui:

Meu filho nasceu às 8h45. Me lembro e me lembrarei de cada segundo do seu parto. Me lembro de ver sua cabecinha saindo. De ele balançar os bracinhos na luz. De eu chorar sem sair lágrimas. Ou de sair lágrimas sem eu chorar. Duvido que me esquecerei de algum detalhe desse dia milagroso. Existir é passar de um estado para outro: tenho fome, como, tenho frio, me agasalho, estou alegre, e agora triste, e depois estarei alegre, penso e chego a conclusões, me lembro de algo que me toca o coração, sinto um cheiro que me lembra alguém, sinto um gosto que me lembra um lugar, me emociono. Emocionar-se é passar de um estado para o outro. Você vê um quadro hoje. Vê o quadro de novo daqui a dez anos, o revê daqui a vinte, trinta, quarenta… É o mesmo quadro com a mesma moldura, na mesma parede do mesmo museu, com a mesma luz, é você, mas cada vez será visto de outra forma. Cada vez ele nos conta uma história. O quadro não mudou. Já nós…

Eunice ainda está aqui

Por Marcelo Ferroni

Eunice e Rubem trsite

14 de dezembro de 1979. Marcelo, um garoto de vinte anos, sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, não mais de meio metro de profundidade, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo.

30 de janeiro de 2008. Marcelo — agora com quase cinquenta anos — vai com a mãe, Eunice Paiva, ao Fórum João Mendes, em São Paulo. Eunice é uma mulher de muitas vidas. Esteve ao lado do marido, Rubens Beyrodt Paiva, quando ele foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a criá-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por militares na própria casa, no Leblon, e depois torturado e morto. Marcelo tinha onze anos. Em meio à dor e às incertezas, Eunice voltou a estudar, tornou-se advogada. Foi defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras.

Agora, na 5ª Vara da Família, ela está prestes a ser interditada judicialmente. Em estágio avançado de Alzheimer, precisa de cuidados constantes da família. “Aquela que cuidou de mim por quarenta e oito anos seria cuidada por mim”, escreve Marcelo. “Eu virava mãe da minha mãe.”

Feliz ano velho e Ainda estou aqui. Dois livros distintos, escritos num intervalo de quase trinta e cinco anos, mas que guardam uma ligação íntima entre si. Separados, são relatos emocionantes e autônomos. Juntos, formam um plano mais abrangente, um desdobramento de uma mesma história — de muitas histórias — de uma família ligada a acontecimentos trágicos e recentes do país.

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Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Escrito com sentido de urgência, relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto depois do acidente. No início, Marcelo não aceita seu estado; quer sair dali, acha que vai sair dali, não tem realmente ideia do que aconteceu. “Foi um acidente bobo e eu tenho uma cabeça boa. Pode ser que eu precise andar com uma bengala, mas tudo bem, é até charmoso, não é?”

Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, ao conhecer outras pessoas nas mesmas condições, ele se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. “Sou um outro Marcelo, não mais Paiva, e sim Rodas. Não mais violonista, e sim deficiente físico. Ganhei algumas cicatrizes pelo corpo, fiquei mais magro e agora uso barba. Não fumo mais Minister, agora passei pro Luiz XV. Meu futuro é uma quantidade infinita de incertezas.”

Trinta e cinco anos depois, ele lutou e aprendeu a superar. Ainda estou aqui é um livro sobre Eunice. É também um livro sobre Rubens Paiva. Mas, ao falar deles, o leitor se dá conta de que o narrador — com um estilo ainda espontâneo, intenso — é outro. Mais maduro, mais seguro de si, ele superou as incertezas e, dentro da nova realidade, partiu para a vida. Ele assume os cuidados da mãe; ele se empenha em descobrir o que aconteceu com o pai. Ele agora é pai, e seu filho de um ano brinca nos cabelos da avó. “Meu filho a reconhecia, e ela o reconhecia. Ele estendia os bracinhos e queria ir para o colo dela. O que a derretia completamente.”

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Falar da mãe é também falar de Rubens Paiva. Em Feliz ano velho, Marcelo faz um desvio na narrativa para contar o que a família sabia de seu desaparecimento. Eram poucas as informações. “As pessoas de farda ainda são as donas do Brasil, e elas têm um código de ética para se protegerem mutuamente.” Terminava dizendo: “Chegará o dia de quem desapareceu com Rubens Paiva”.

Passados trinta e cinco anos, esse dia não chegou. Os restos mortais de Rubens Paiva continuam desaparecidos. Depoimentos e documentos dão mais indícios de quem conduzia as sessões de tortura no antigo DOI-Codi na Tijuca, mas os responsáveis seguem impunes. “A morte do meu pai não tem fim”, escreve ele. A falta de dados, ao contrário de não informar, nos mostra um aspecto maior, perturbador: como o país lida mal com o fim da ditadura, e como a tortura e a repressão repercutem na nossa vida atual.

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Eunice Paiva aparece em Feliz ano velho como uma pessoa levada pelos acontecimentos: uma mulher forte, que em nenhum momento chora ao lado do filho ou o desencoraja. Que reage de forma pragmática às circunstâncias. Ela está presente, a todo momento, apesar de nem sempre ser nomeada. Em Ainda estou aqui, no entanto, Eunice é a base do próprio livro. Ela e Marcelo; ela e a família; ela sozinha buscando notícias do marido. Ela como uma mulher que se reinventou, que sustenta a família e no fim trava uma nova luta, interna, desta vez contra o Alzheimer. Aí, mais uma vez, os livros se complementam. Vemos a mesma Eunice Paiva sob dois pontos de vista, deslocados em trinta e cinco anos. E entendemos como ela foi a figura central de todas essas histórias. “Ali estava a verdadeira heroína da família”, diz Marcelo. “Sobre ela que nós, escritores, deveríamos escrever.” Ainda estou aqui é o resultado dessa busca.

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Marcelo Ferroni é publisher da Alfaguara e autor dos livros Método prático da guerrilha Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, publicados pela Companhia das Letras.

O Deus das coincidências

Por Luiz Schwarcz

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A vida é feita de coincidências. Foi o que tentei dizer em um conto que está no meu primeiro probecito, que é como chamo meus livros de contos. São as coincidências que marcam nossos momentos de felicidade, que provam que não antecipamos o que há de melhor na vida e tampouco conseguimos prever totalmente o que iremos escrever, especialmente quando a matéria-prima é a ficção. Não programamos os nossos sentimentos, assim como não programamos o que irá acontecer ao lermos um livro. As maiores alegrias são quase sempre as inesperadas, que vêm de surpresa, ou as que superam as nossas expectativas.

Outro dia eu disse para um amigo, que reencontrei por coincidência, uma frase quase exagerada, mas que tem muito de verdade e de como enxergo a vida. A frase revela que entendo o lado bom da nossa existência como uma sucessão de encontros não planejados, como os que ocorrem entre o escritor, o leitor e os personagens num bom livro de ficção.

A coincidência de que falo aqui, e que celebrei com Marcelo Rubens Paiva, foi a de — após uma operação longa e trabalhosíssima, que resultou na compra da Objetiva pela Companhia das Letras — eu me tornar novamente editor de um livro deste autor que marcou o começo da minha carreira na Brasiliense.

Brinquei com Marcelo e, em tom de blague, lhe disse:

— Hoje me dou conta de que acho que comprei a Objetiva para me tornar seu editor novamente.

O que quis dizer é que, pela reaproximação com ele (e com Reinaldo Moraes e Roberto Pompeu de Toledo, de quem a Objetiva acaba de publicar o ótimo A capital da vertigem), a compra da editora já teria valido a pena.

Em agosto a Alfaguara publicará Ainda estou aqui, um livro que fará, em minha opinião, carreira tão emblemática quanto a de Feliz Ano Velho. Nele, Marcelo pega o fio da vida de sua mãe, Eunice Paiva, para contar a história da sua família, num perfeito retrato dos anos da repressão e da superação da dor, causada pela ditadura. No texto estão tanto o que aconteceu com os Paiva, após o trágico evento do assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, pai de Marcelo (não o desaparecimento, que é um termo que se presta a ambiguidades), quanto a história que tem que ser construída a partir dessa morte, do vazio.

Se alguns livros marcaram minha vida de editor, Feliz Ano Velho está entre eles. Ainda estou aqui é de certa forma uma sequência daquele primeiro livro, com a mesma força, a ponto de justificar a blague acima, típica de um editor afeito às coincidências.

Lembro muito bem quando Caio Graco chegou ao escritório e relatou o acidente que deixou Marcelo tetraplégico. Caio e seu amigo Rubens eram até parecidos, no sentido de juntar em suas vidas boemia e revolução. Caio ficou abaladíssimo com o salto num lago raso que tirou o controle de alguns movimentos físicos do Marcelo para sempre. Passou a visitá-lo no hospital. Numa dessas visitas teve a ideia e sugeriu que escrevesse um livro. Caio era um homem intuitivo e com grandes e incompreendidas sacadas, que só se revelariam como acertos um bom tempo depois. Quando Caio falava do livro de Marcelo Paiva, nós, que não conhecíamos o futuro escritor, achávamos que se tratava de um relato convencional de superação. — “Mais um caso verdade”, dizíamos, comparando o livro, que estava somente na cabeça do Caio e do Marcelo, com um programa banal de televisão.

Só o Caio sabia então que o Marcelo poderia ser porta-voz de uma geração que se abria naquela época para novos prazeres, para novas reivindicações.

Vivíamos tempos em que a superação ainda era esperada mais no campo coletivo: quem superaria a opressão seria a revolução, quem redimiria o homem e traria a alegria seria uma classe, o proletariado, em nome de todos nós. Apesar da cabeça aberta do Caio, a geração que chegava ao poder na editora Brasiliense, justamente com a abertura que ele nos dera, ainda via com preconceito os relatos de superação individual.

Sem conhecer o Marcelo, não nos dávamos conta de como o trágico acidente poderia se transformar tão bem em livro, em literatura, em retrato da nossa geração e dos novos desejos, de como a política e a vida social teriam que se integrar entre nossas futuras bandeiras.

Sim, eu estava lá na hora em que o texto chegou. Provavelmente fiquei de queixo caído pelo acerto do Caio e do Marcelo, pela força do livro, pela surpresa, pelo meu erro de previsão.

Estava lá para trabalhar na capa e na edição, para promover o livro com o sistema de divulgação da Brasiliense, do qual me orgulho até hoje, talvez o primeiro departamento verdadeiramente profissional de imprensa, que montei com a Maria Emília Bender no começo dos anos 1980.

Sim, eu estava lá quando, por um erro terrível, o livro já impresso foi confundido com outra remessa, na Biblioteca do Sesc Pompeia, na noite do lançamento, e tivemos de abrir o depósito para trazer os exemplares com uma hora e meia de atraso, enquanto uma fila constrangedora nos olhava com recriminação.

Estava lá quando a Brasiliense incluiu o livro na série Cantadas literárias, que ajudei a batizar e criar com meu saudoso chefe, que hoje seria chamado em e-mails de CG. Mas talvez Caio Graco não aguentasse abreviações, como MRP também não aguenta.

O primeiro era um editor intuitivo. Um destrambelhado do bem. Um visionário dos livros e do Brasil democrático — que ameaçava dar seus primeiros passos junto com a revolução jovem, que o país vivenciou plenamente alguns anos depois. O segundo era um escritor criado pela tragédia pessoal. Mas que só pôde ser criado porque nele já havia essa substância, no fundo de seu coração. O Marcelo que conhecemos não é só fruto das duas tragédias, ele existia como um sujeito muito especial antes delas, e o Caio sabia disso, nós não.

Se fosse só para editar Ainda estou aqui, o projeto ambicioso em que me meti ao comprar a Objetiva já teria valido a pena. Era isso o que eu queria dizer ao Marcelo, aos meus leitores e a um Deus dos ateus como eu, o Deus das coincidências, a quem reverencio todos os dias: obrigado, sim, senhor!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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