marcílio frança castro

10 livros nacionais lançados (até agora) em 2016

Na nossa última lista, apresentamos alguns lançamentos estrangeiros do Grupo Companhia das Letras que saíram até o último mês. Agora chegou a vez de conhecer alguns dos nossos lançamentos nacionais para não deixar nenhum livro de fora da sua lista de futuras leituras. Saiba mais sobre as melhores ficções e não ficções brasileiras publicadas até agora em 2016!

1) Outros cantos, de Maria Valéria Rezende

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No final de 2015, Maria Valéria Rezende ganhou o prêmio Jabuti por Quarenta dias. Logo depois, no comecinho de 2016, mais um livro da escritora que vive em João Pessoa foi lançado pela Alfaguara. Em Outros cantos, ela apresenta uma narrativa comovente sobre passado e futuro. Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou sua vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.

2) Esta terra selvagem, de Isabel Moustakas

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Quem é Isabel Moustakas? A pergunta ficou na cabeça dos leitores quando o livro Esta terra selvagem foi lançado em março. Em seu livro de estreia, a autora usa a cidade de São Paulo como cenário de um thriller sangrento repleto de crimes de ódio. João é um repórter policial de um grande jornal paulistano, sem muita sorte na vida pessoal e profissional. Mas sua vida muda quando uma jovem que assistiu à tortura e ao assassinato brutal dos pais — um boliviano e uma descendente de italianos -, e que depois fora abusada das piores maneiras, lhe faz um relato de cada detalhe perturbador do que havia presenciado. Ao final do depoimento, a garota tira a própria vida diante dos olhos dele. A partir deste terrível episódio, o repórter irá seguir pistas que o levarão a um suposto grupo racista que vem cometendo atrocidades contra imigrantes, negros, judeus, nordestinos, gays e quaisquer pessoas que considera impuras.

3) A vida invisível de Eurídice Gusmãode Martha Batalha

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Nossas mães, tias e avós são facilmente reconhecíveis neste romance de Martha Batalha. Nos anos 1940, Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São mulheres invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Marta Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias.

4) Quadrinhos dos anos 10, de André Dahmer

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As tirinhas de André Dahmer são uma das melhores representações dos anos em que vivemos: os anos 2010. Quadrinhos dos anos 10, lançado em maio pela Quadrinhos na Cia.,  tem uma receita simples: três ou quatro quadros em sequência, contendo a mais dolorosa e mordaz crítica à vida moderna. O humor dessas páginas nasce da mesma angústia que sentimos diante das complicações contemporâneas que o autor tenta destrinchar — a política brasileira, a tecnologia, as relações pessoais. Mas as tiras não são pesadas e duras: pelo contrário, são tão engraçadas quanto os absurdos do dia a dia.

5) Histórias naturais, de Marcílio França Castro

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Marcílio França Castro participou da Flip deste ano, dividindo a mesa que levou o nome de seu livro com o mexicano Alvaro Enrigue. Exibindo um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa, o autor se debruça sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana neste volume de contos. A partir de situações aparentemente corriqueiras, um mundo de extravagâncias absorve o leitor, fazendo-o desconfiar das armadilhas que construímos para nós mesmos e para os outros.

6) Minhas duas meninas, de Teté Ribeiro

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A jornalista Teté Ribeiro tentou engravidar durante quase uma década, e estava quase desistindo da maternidade biológica quando resolveu tentar uma última vez por meio de uma barriga de aluguel na Índia. E deu certo: Teté agora é mãe de gêmeas. Minhas duas meninas é o relato dos detalhes que marcaram essa experiência — a relação com a mãe indiana, o dia a dia logo após o nascimento, todas as particularidades da clínica e os dilemas pelas quais passa uma mãe que não carregou suas filhas na própria barriga. Em parte livro de memórias, em parte retrato de geração, mas também reportagem exemplar, Minhas duas meninas é uma radiografia dos dilemas da mulher contemporânea.

7) Os visitantes, de B. Kucinski

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Imagine que você é um autor que escreveu um livro sobre a busca de um pai por sua filha desaparecida durante a ditadura militar. Após o livro ser publicado, lido e criticado, personagens dessa história começam a aparecer à sua porta apontando erros na história, reclamando de como foram retratadas. É esse o enredo de Os visitantes, de Bernardo Kucinski. Personagens de seu romance anterior, K.: Relato de uma busca, ressurgem em sua vida para tirar satisfações sobre como a história foi contada.

8) A Bíblia do Chede Miguel Sanches Neto

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Em meio a escândalos na política brasileira, A Bíblia do Che é um romance que conversa muito com o que estamos vivenciando agora. Morando em Curitiba, o professor recluso Carlos Eduardo é contratado para uma missão insólita: localizar um exemplar da Bíblia com anotações que Che Guevara teria feito durante uma passagem pelo Brasil. Para além da incerteza que ronda a jornada do revolucionário pelo país, a tarefa tem um complicador, justamente na forma de uma dama fatal, a esposa do operador financeiro que o contratou. Peça-chave no mistério da Bíblia do Che, Celina enlaça o professor ainda mais na teia de intrigas que circunda o livro. Em pouco tempo, o operador aparece morto e a investigação de Carlos Eduardo, que antes pertencia ao âmbito dos colecionadores de livros raros, evolui para uma rede de crimes que envolve governo, construtoras, dinheiro sujo de campanha e caixa dois.

9) O conto zero e outras histórias, de Sérgio Sant’Anna

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Um dos maiores contistas do Brasil, Sérgio Sant’Anna lançou em julho mais uma coletânea de textos. Neste que é um de seus trabalhos mais pessoais, Sant’Anna combina lembrança e imaginação para recriar viagens, impressões e momentos únicos que se perderam no tempo. Se é a memória que conduz essas histórias, a força está na maneira como a ficção refaz o passado. Lembranças de uma viagem com o irmão, do primeiro cigarro, de mulheres que cruzaram sua vida, tudo isso serve de pretexto para que Sérgio Sant’Anna atravesse com o leitor um caleidoscópio de estilos e vozes tão belo, complexo e múltiplo quanto sua obra.

10) Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, de Elvira Vigna

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E para terminar, temos o lançamento de uma de nossas maiores autoras brasileiras: Elvira Vigna. Como se estivéssemos em palimpsesto de puta chegou às livrarias no mês passado, e narra o encontro de dois estranhos num verão do Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

Sentiu falta de algum lançamento? Então conte aqui nos comentários. E fique de olho, ainda em 2016 teremos mais grandes lançamentos da nossa literatura. :)

Entre o ordinário e o extraordinário

Por Arthur Nestrovski

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Ilustração: DangerPup

O livro se chama Histórias naturais, mas a epígrafe (de Heráclito) avisa logo: “A natureza ama esconder-se”. Ou seja, de naturais essas histórias não têm nada, muito embora num senso profundo seja mesmo sobre essa contradição que se equilibram, entre o ordinário e o extraordinário. E assim como o título esconde potências sob um rótulo aparentemente neutro, também os personagens, variadamente modestos, sem aparentes pretensões, revelam aos poucos camadas de experiência gloriosa ou trágica, tudo sob o controle de uma prosa, ela mesma, controlada e modesta.

Com o mesmo sentido de ordem e uma calma geométrica, quase como um tratado de história natural, o livro se divide em duas partes. A primeira (“Livro I: Coleção de Papéis”, fazendo trocadilho bilíngue com papers científicos) traz seis contos; a segunda (“Livro II: Histórias Naturais”) se divide em cinco seções, cada qual com cinco textos curtos. São todos “ficções”, como define o próprio autor na capa. No total, então, seis partes: um primeiro Livro (dividido em seis) e um segundo dividido em cinco, cada um subdividido em cinco também.

Ninguém deixou de notar, em resenhas já publicadas, as luzes de Borges e Calvino, que colorem os textos de alusões. Mas a voz do autor, aqui, tem acento próprio, forte o bastante para resistir às companhias que ele mesmo convidou. Forte o bastante, na verdade, para entrar no acervo mais íntimo de cada leitor, lado a lado com esses e outros nomes de tamanha envergadura. É uma voz serena, como só poderia ser para alguém tão cuidadoso e maduro no trato do mundo; mas doídamente serena, como não poderia não ser, para quem se abre com tanto afeto à experiência dos outros. Desse ponto de vista, aliás, o controle formal ganha outro sentido. Menos como Borges e Calvino — se quiserem, mais como Nabokov —, a superfície regrada da prosa vira um veículo para transmitir, justamente, aquilo que é sofrido demais para ser tratado de outro modo.

Vistas assim, as histórias mais longas, como a antológica novela do dublê de datilógrafo, que abre o livro, a do velho ator em fim de carreira (publicada numa Piauí de alguns meses atrás), a do mapa de Gêngis Khan, ou a da busca do desaparecido na ditadura não são tão diferentes das 25 ficções curtas, umas mais, outras menos memoráveis, mas que vão todas do tudo ao nada, ou vice-versa, numa página. Em especial, a quarta seção, “Dos Demônios” parece ecoar, como música de câmara, as texturas mais sinfônicas do “Livro I”. E o último texto de todos consegue, afinal, com exemplar discrição, consagrar um amor entretramado em livros, modesta gloriosa esperança nesse vale de lágrimas.

O que nos leva de volta ao começo, àquele conto longo, ou novela, sobre o dublê de datilógrafo, em filmes sobre escritores, que afinal se torce sobre o próprio autor escrevendo essa história, num fictício filme narrado em prosa. O livro mereceria comentário muito maior, mas aqui basta dizer que esse texto, por si, faz de Marcílio França Castro um dos melhores autores da literatura brasileira do nosso tempo. Ninguém pode prever o passado, diria algum personagem dele, muito menos o futuro, mas há boas razões para imaginar que esse conto há de ser lido enquanto houver livros, leitores, literatura: um clássico.

* * * * *

Arthur Nestrovski é Diretor Artístico da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Violonista e compositor, também escreveu vários livros para crianças, entre eles Histórias de avô e avó, O livro da música, Viagens para lugares que eu nunca fui e Agora eu era (todos publicados pela Companhia das Letrinhas).

Perdeu a Flip? Ouça todas as mesas na íntegra

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Foto: Festa Literária Internacional de Paraty/Walter Craveiro

A Festa Literária Internacional de Paraty acabou no último domingo, dia 3 de julho. O Grupo Companhia das Letras marcou presença com vários autores em sua programação principal e paralela, incluindo a Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch e o norueguês Karl Ove Knausgård. Além, é claro, das mesas sobre Ana Cristina Cesar, grande homenageada desta edição.

Se você perdeu alguma mesa ou não pôde ir à Flip, confira neste post alguns trechos de cada encontro com nossos autores e também o áudio completo das mesas divulgados pela equipe da Flip.

Armando Freitas Filho

Autor de Rol, Armando Freitas Filho foi o grande amigo e confidente de Ana Cristina Cesar e organizador de sua obra. Na mesa “Em tecnicolor”, ele conversou com Walter Carvalho sobre sua poesia, a amizade com Ana C. e o filme Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície, que fala sobre sua obra.

“O poeta procura um modo novo de falar e dizer, pelo menos, o inesperado.” — Armando Freitas Filho

Áudio

Trecho da mesa

Ana Cristina Cesar

As poetas Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia, consideradas as herdeiras da poesia de Ana Cristina Cesar, falaram sobre a influência de Ana C. em suas obras.

“Um erro frequente da leitura da Ana Cristina é querer encontrar a autora ali naqueles versos. Você sempre vai fracassar.” – Laura Liuzzi

Áudio

Trecho da mesa

Misha Glenny

Lançando no Brasil O dono do morro, livro em que conta a história do traficante Nem da Rocinha, Misha Glenny esteve na mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos.

“Rocinha, sob o Nem, se tornou uma marca registrada. Todo mundo queria visitar a Rocinha porque era seguro.” — Misha Glenny

Áudio

Trecho da mesa

Álvaro Enrigue e Marcílio França Castro

Na mesa dedicada à literatura latino-americana, Marcílio França Castro e o mexicano Álvaro Enrigue falaram sobre seus livros, processo de escrita e influências. Marcílio acaba de lançar pela Companhia das Letras o livro Histórias naturaisO primeiro livro de Álvaro Enrigue publicado no Brasil, Morte súbita, também acaba de chegar às livrarias.

“Cada romance que se escreve tem uma forma única que não pode ser repetida.” — Álvaro Enrigue

Áudio

Trecho da mesa

Bill Clegg

Na mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo”, Bill Clegg falou com o escritor Irvine Welsh. Lançando no Brasil seu primeiro romance, Você já teve uma família?, Bill Clegg falou sobre o livro, sobre o trabalho como agente literário e também sobre seus livros anteriores, Retrato de um viciado quando jovemNoventa diassobre sua experiência com o crack e sua recuperação.

“Tenha baixas expectativas em termos de dinheiro. Se você realmente quiser ganhar dinheiro, trabalhe no banco ou algo assim.” — Bill Clegg

Áudio

Trecho da mesa: 

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

O Brasil pelos olhos de dois estudiosos estrangeiros: esse foi o tema da mesa “Breviário do Brasil”, com Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, sobre Clarice Lispector (quer será reeditada pela Companhia das Letras), e Kenneth Maxwell, autor de O império derrotado.

“Como intelectuais e como cidadãos, temos a responsabilidade de ver os erros do passado e de corrigi-los.” — Benjamin Moser

Áudio

Trecho da mesa

Valeria Luiselli

Lançando A história dos meus dentes no Brasil pela Alfaguara, a mexicana Valeria Luiselli falou na mesa “A história da minha morte” sobre o processo criativo do livro. Convidada por uma galeria de arte financiada por uma fábrica de sucos a escrever uma fição sobre a coleção da galeria, a autora contou com a ajuda dos próprios operários para criar a história do leiloeiro Gustavo “Estrada” Sánchez Sánchez. A mesa, dividida com João Paulo Cuenca, também falou sobre literatura latino-americana.

“Os livros que eu escrevo sempre funcionam como mapas, procurando unir pontos de uma constelação não antes vista.” — Valeria Luiselli

Áudio

Trecho da mesa

Karl Ove Knausgård

O escritor norueguês era um dos nomes mais aguardados da Flip. Lançando no Brasil o quarto livro da série Minha Luta, Uma temporada no escuroKnausgård conquistou os leitores brasileiros ao falar sobre a exposição de sua vida em seus livros, o início da carreira de escritor e a recepção do público e a reação de sua família após a publicação da série.

“O que você sacrifica não é o que é seu, são os outros. Quando você escreve sobre os outros é como se estivesse roubando algo deles.” — Karl Ove Knausgård

Áudio

Trecho da mesa

 Tati Bernardi

Em uma das mesas mais divertidas da Flip, Tati Bernardi falou sobre o livro Depois a louca sou eu, um relato cheio de humor sobre suas crises de ansiedade e pânico. Também esteve na mesa “Mixórdia de temáticas” o humorista português Ricardo Araújo Pereira, que falou com Tati sobre humor e literatura.

“Acho que virei um pouco um personagem de mim mesma. Tenho um superego cruel que fica torcendo muito pra eu me ferrar porque vai virar texto.” — Tati Bernardi

Áudio

Trecho da mesa

Benjamin Moser e Heloisa Buarque de Hollanda

Benjamin Moser aprofundou sua pesquisa na obra de Clarice Lispector, e Heloisa Buarque de Hollanda, além de amiga, também divulga a poesia de Ana Cristina Cesar. Na mesa “De Clarice a Ana C.” os autores discutiram as obras de duas das principais autoras brasileiras.

“Ana C. e Clarice tinham uma fé inabalável na linguagem como significação, uma aposta na linguagem.” — Heloisa Buarque de Hollanda

Áudio

Trecho da mesa

Svetlana Aleksiévitch

A mesa com a ganhadora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch foi uma das mais cheias da história da Flip, assim como a fila de autógrafos que se formou logo depois. Falando russo, a jornalista contou algumas histórias presentes em seus livros, Vozes de Tchernóbil A guerra não tem rosto de mulherressaltando a importância dos relatos feitos pelas pessoas comuns.

“A única saída para nós é o amor. O amor cura. Acredito que o mundo não vai ser salvo pelo homem racional.” — Svetlana Aleksiévitch

Áudio da mesa

Trecho da mesa

Vilma Arêas

A mesa de encerramento da Flip também foi dedicada a Ana C. Vilma Arêas conversou com Sérgio Alcides na mesa “Luvas de pelica”, dois ensaístas que fizeram um balanço crítico e afetivo sobre a presença de Ana Cristina Cesar no cenário literário atual do país.

“Não se deve ler um livro de poesia como um romance, um poema atrás do outro, como se houvesse um enredo. Não se trata disso. Leia um por semana. Leve um ano lendo um livro de poesia. Vale a pena.” — Vilma Arêas

Áudio

Livro de cabeceira

Arthur Japin, Helen Macdonald, J. P. Cuenca, Karl Ove Knausgård, Kate Tempest, Laura Liuzzi, Marcílio França Castro, Misha Glenny e Ricardo Araújo Pereira leem trechos de seus livros favoritos.

Áudio da mesa

Semana trezentos

Diários da Presidência 1997-1998, de Fernando Henrique Cardoso
Os bastidores da emenda da reeleição, crises internacionais e pressões especulativas contra a moeda brasileira, indecisões de fundo quanto à política cambial, a morte de dois fiéis escudeiros, supostos “escândalos” e chantagens. Neste volume de seus diários (1997-1998), Fernando Henrique Cardoso registra alguns dos maiores desafios — tanto políticos quanto macroeconômicos — de seus anos no poder e transmite ao leitor a sensação palpável do áspero cotidiano presidencial. Em meio à tenaz batalha para a implementação de reformas modernizadoras, tendo por aliados setores arcaicos do país ante a impossibilidade de acordo com a esquerda tradicional, o então presidente encontra tempo para reflexões premonitórias sobre o jogo de forças da política brasileira. Leitura indispensável para a compreensão do país hoje.

A memória rota, de Arcadio Díaz-Quiñones (Tradução de Pedro Meira Monteiro)
Em 1993, Arcadio Diaz-Quinones, um dos maiores intelectuais de Porto Rico, publicou La memoria rota, livro de ensaios sobre a polarização do mundo durante a Guerra Fria e a situação porto-riquenha. Mais de duas décadas depois, chega ao Brasil esta edição que reúne reflexões sobre o Caribe e um extenso caderno de fotos. Antologia inédita, traduzida e selecionada pelo professor da Universidade de Princeton Pedro Meira Monteiro, A memória rota reflete sobre as relações entre literatura e história, o poder das palavras e da cultura nas ilhas caribenhas. Um trabalho profundo e contundente sobre a história de um lugar que, embora geográfica, política e culturalmente distinto, dialoga muito com a realidade brasileira.

Histórias Naturais, de Marcílio França Castro
Exibindo um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa, Marcílio França Castro se debruça sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana. Um dublê de mãos em filmes sobre escritores explora a relação entre o ritmo do dedilhado e o estilo de seus escritos. O assistente de um velho ator nota que este já não diferencia sua vida e as peças em que atuou. A partir de situações aparentemente corriqueiras, um mundo de extravagâncias absorve o leitor, fazendo-o desconfiar das armadilhas que construímos para nós mesmos e para os outros. Tudo isso sem que se perca de vista o prazer das melhores histórias.

A teus pés, de Ana Cristina Cesar
A teus pés é o primeiro e único livro de poemas que Ana Cristina Cesar lançou em vida por uma editora, em 1982. Além de material inédito, a obra reunia os três breves volumes que a autora havia publicado entre 1979 e 1980 em edições caseiras: Cenas de abril, Correspondência completa e Luvas de pelica. Desafiando o conceito de “literatura feminina” e dissolvendo as fronteiras entre prosa, poesia e ensaio, o eu lírico e o eu biográfico, Ana logo chamou a atenção de críticos como Heloisa Buarque de Hollanda e Silviano Santiago.

Caprichos & relaxos, de Paulo Leminski
Em 1983 Paulo Leminski lançava um livro que se tornaria best-seller na época e um clássico para as futuras gerações. Ali estavam os principais poemas que o curitibano tinha escrito até então, muitos inéditos e outros publicados em edições independentes ou na revista de arte e vanguarda Invenção, encabeçada pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari. Os pais da poesia concreta no Brasil haviam adotado aquele jovem poeta ilustrado, audacioso e contundente. No mesmo ano, a crítica Leyla Perrone-Moisés cunharia o célebre epíteto “samurai malandro”, reconhecendo no autor o pacto entre a precisão oriental e o jogo de cintura tipicamente tropical.

Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Salomão
Em 1970, Waly Salomão esteve preso no Carandiru por portar, nas palavras do próprio poeta, “uma bagana de fumo”, e ali começou a escrever seu primeiro livro, Me segura qu’eu vou dar um troço, publicado dois anos mais tarde. Entre a prosa, a poesia e o ensaio, esta obra visceral e revolucionária se tornou determinante para o movimento de contracultura que floresceu no Brasil naquela década, tendo inspirado a apreciação crítica de leitores como Antonio Candido, Heloisa Buarque de Hollanda e Antonio Cicero. Incluído em Poesia total, este clássico contemporâneo capaz de nocautear o leitor por sua densidade e potência volta às livrarias em sua forma avulsa, com cronologia inédita do autor.

Suma de Letras

A guerra dos mundos, de H.G. Wells (Tradução de Thelma Médici Nóbrega)
Publicado pela primeira vez em 1898, A guerra dos mundos aterrorizou e divertiu muitas gerações de leitores. Esta edição especial contém as ilustrações originais criadas em 1906 por Henrique Alvim Corrêa, brasileiro radicado na Bélgica. Conta também com um prefácio escrito por Braulio Tavares, uma introdução de Brian Aldiss, membro da H. G. Wells Society, e uma entrevista com H. G. Wells e o famoso cineasta Orson Welles — responsável pelo sucesso radiofônico de A guerra dos mundos em 1938 —, que fazem desta a edição definitiva para fãs de Wells.

Paralela

52 mitos pop, de Pablo Miyazawa
O cenário pode variar: o recreio da escola, a mesa de um bar, o cafezinho do trabalho. Mas quem nunca se viu numa discussão sobre temas como “Han Solo atirou primeiro” (no “Episódio IV” de Guerra nas estrelas) ou “a máfia matou Bruce Lee” ou “Os Simpsons são capazes de prever o futuro”? Se esse tipo de conversa era comum no passado, a internet, esse terreno fértil para espalhar lendas urbanas, fez que ficasse cada vez mais frequente. Ele mesmo um habitué desse tipo de discussão, Pablo Miyazawa decidiu usar seus conhecimentos como um dos jornalistas de cultura pop mais respeitados do país para tentar separar o que é fato do que é ficção. O resultado é um livro divertido e fácil de ler, repleto de anedotas e histórias de bastidores. Informativo sem nunca ficar restrito somente aos fãs de cada tema. Indispensável para viciados em cultura pop (e não somos todos hoje em dia?) ou simplesmente para quem tem um fraco por teorias da conspiração da internet (de novo, todos nós).

Conheça nossos autores confirmados na Flip 2016

De 29 de junho a 3 de julho acontece a 14ª Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2016, o tradicional evento literário de Paraty, no Rio de Janeiro, homenageia a poeta Ana Cristina Cesar, que teve toda a sua obra publicada pela Companhia das Letras em PoéticaNeste ano, onze autores do Grupo Companhia das Letras estão confirmados na programação principal da Flip, e mais cinco autores na Flipinha. Conheça!

Svetlana Aleksiévitch

Escritora Svetlana Alexijevich

O primeiro nome confirmado em 2016 foi o da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. O primeiro livro da jornalista bielorussa publicado no Brasil é Vozes de Tchernóbil, que chegou às livrarias na última semana. No livro, Svetlana reúne relatos de viúvas, trabalhadores, soldados, bombeiros, médicos e cientistas que vivenciaram e sobreviveram ao desastre de Tchernóbil. O livro não só mostra a destruição que o acidente nuclear causou, mas apresenta também as consequências desse desastre na vida daquelas pessoas comuns. Em junho, lançaremos também A guerra não tem rosto de mulher, a história de soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra.

Svetlana participa da Flip no sábado, dia 2 de julho, às 17h15.

Misha Glenny

MishaGlenny - © Ivan Gouveia

Misha Glenny é um renomado jornalista e historiador britânico, trabalhou como correspondente do diário inglês The Guardian e da emissora BBC na Europa Central. Cobriu o colapso do comunismo nos países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia e as guerras que despedaçaram a ex-Iugoslávia. Em junho, lança no Brasil o livro O dono do morro, que conta a história de Antônio Francisco Bonfim Lopes, um jovem pai trabalhador, que se transformou em Nem, o líder do tráfico de drogas na Rocinha. A partir de uma série de entrevistas na prisão de segurança máxima onde o criminoso cumpre sentença, Misha Glenny narra a ascensão e a queda do traficante, assim como a tragédia de uma cidade. Misha Glenny também publicou pela Companhia das Letras os livros McMáfia, sobre o crime organizado na globalização, e Mercado sombrioem que fala dos crimes na internet.

Misha Glenny divide a mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos na quinta-feira, dia 30 de junho, às 15h.

Karl Ove Knausgård

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Karl Ove Knausgård nasceu em Oslo em 1968 e é considerado o mais importante escritor norueguês de sua geração. Conquistou leitores do mundo todo com a série Minha luta, livros híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea. No Brasil, os três primeiros títulos da série já foram lançados — A morte do pai, Um outro amor A ilha da infância. Em junho chega às livrarias Uma temporada no escuro, quarto livro da série que será centrado na juventude do escritor.
O encontro com Knausgård acontece na sexta-feira, 1º de julho, às 17h15.

Marcílio França Castro

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De Belo Horizonte, Marcílio França Castro é mestre em teoria literária pela UFMG, publicou A casa dos outros e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional. Pela Companhia das Letras, publica em maio Histórias naturais, livro que exibe um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa em contos sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana.

Marcílio França Castro divide a mesa “Histórias naturais” com Álvaro Enrigue na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Bill Clegg

Bill Clegg © Brigitte Lacombe

Bill Clegg é agente literário em Nova York. Sua estreia como autor foi com Retrato de um viciado quando jovem, livro em que narra sua experiência como usuário de crack. O livro recebeu elogios de diversos críticos e de escritores como Michael Cunningham e Irvine Welsh, e ganhou uma sequência em Noventa dias, que aborda sua reabilitação. Em maio, lança no Brasil Você já teve uma família?, seu primeiro romance, com personagens que procuram conforto nos lugares mais improváveis para superar suas tragédias pessoais.

Bill Clegg participa da mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo” com Irvine Welsh na quinta-feira, 30 de junho, às 21h30.

Tati Bernardi

Retrato Tati Bernardi para Companhia das Letras, Janeiro de 2016.

Tati Bernardi já conquistou uma legião de leitores com a sua coluna na Folha de S. Paulo. Além da sua coluna, também é autora da Rede Globo e roteirista de cinema. Em fevereiro deste ano, lançou Depois a louca sou eu, um relato bem-humorado e escrachado que relembra suas histórias de pânico e ansiedade. As primeiras crises de pânico, a mania de fazer listas, o medo de viajar de avião, os remédios tarja-preta estão neste livro, onde tudo aparece sob o filtro de uma cabeça fervilhante de pensamentos, mãos trêmulas, falta de ar, taquicardia e, sobretudo, humor.

Tati Bernardi divide a mesa “Mixórdia de temáticas” com Ricardo Araújo Pereira no domingo, 3 de julho, às 12h.

Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho -® Bel Pedrosa

O poeta Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa, secretário da Câmara de Artes no Conselho Federal de Cultura, assessor do Instituto Nacional do Livro no Rio de Janeiro, pesquisador na Fundação Biblioteca Nacional, assessor no gabinete da presidência da Funarte. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3×4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003). Pela Companhia das Letras, publicou os livros Dever, Lar, Raro mar. Em junho, lança Rol. 

Armando Freitas Filho participa da mesa de abertura da Flip na quarta-feira, dia 29 de junho, com Walter Carvalho.

Valeria Luiselli

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Valeria Luiselli nasceu na Cidade do México, em 1983. É colaboradora da revista Letras Libres e seus textos já foram publicados nos jornais The New York Times e Reforma. Ela vive atualmente entre o México e Nova York, onde faz um doutorado na Universidade Columbia. No Brasil, publicou pela Alfaguara Rostos na multidão, um romance multifacetado e emocionante sobre uma jovem mãe de duas crianças pequenas que tenta escrever um romance sobre sua juventude em Nova York e a obsessão que tem por um excêntrico e obscuro poeta mexicano. Em junho, a Alfaguara lança seu novo romance, A história dos meus dentes.

Valeria Luiselli participa da mesa “A história da minha morte” com J. P. Cuenca, na sexta-feira, 1º de julho, às 12h.

Álvaro Enrigue

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Álvaro Enrigue nasceu em Guadalajara, México, em 1969. Tem sido considerado um dos mais imaginativos e poderosos ficcionistas da literatura de língua espanhola. Publicou contos e romances, mas foi a partir de Morte súbita que se tornou um autor mundialmente reconhecido. O romance chega às livrarias brasileiras em maio, uma narrativa alucinante e vertiginosa que começa em uma partida de tênis e se transforma numa história alternativa da humanidade.

Álvaro Enrigue divide a mesa “Histórias naturais” com Marcílio França Castro na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Vilma Arêas

Vilma Areas©Lucila Wroblewski

Fluminense, Vilma Arêas estreou na ficção com Partidas (contos, Francisco Alves, 1976). Aos trancos e relâmpagos (literatura infantil, Scipione, 1988) e A terceira perna (contos, Brasiliense, 1992) mereceram o prêmio Jabuti. Em 2002, Trouxa frouxa (contos) recebeu o prêmio Alejandro José Cabassa (44o. aniversário da União Brasileira de Escritores), e em 2005 Clarice Lispector com a ponta dos dedos (ensaio) recebeu o prêmio APCA categoria literatura. Professora titular de literatura brasileira na Unicamp, Vilma Arêas ainda publicou pela Companhia das Letras o livro Vento sul.

Vilma Arêas participa da mesa de encerramento “Luvas de pelica” com Sérgio Alcides no domingo, 3 de julho, às 14h.

Patrícia Campos Mello

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Patrícia Campos Mello, jornalista paulistana, atualmente é repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Cobrindo economia, relações internacionais e direitos humanos há 15 anos, já esteve em quase 50 países fazendo reportagens. É autora de Índia: da miséria à potência (Planeta, 2008) e prepara Lua de mel em Kobani, com publicação prevista pela Companhia das Letras, em que narra a história da guerra contra o estado islâmico na Síria através do olhar de um casal de refugiados.

Participa da mesa “Siria mon amour” no domingo, dia 3 de julho, às 10h com Abud Said.

Flipinha

Ernani Ssó

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Ernani Ssó é autor de livros infantis como Castelos e fantasmasCom mil diabos! Contos de gigantesTambém é tradutor da edição da Penguin-Companhia de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Na Flipinha, o autor participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h do dia 30 de junho, com Lázaro Ramos, Angela-Lago e a dupla Palavra Cantada. Já no sábado, dia 2 de julho, ele participa da mesa “Histórias de arrepiar!”, com Alexandre de Castro Gomes, às 10h30.

Angela-Lago

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Nasceu em Belo Horizonte, em 1945. Viveu na Venezuela e na Escócia. Há vinte anos escreve e ilustra livros para crianças, como os livros O caixão rastejante e outras assombrações de família, Muito capeta Sete histórias para sacudir o esqueletoNa quinta-feira, dia 30 de junho, participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h, e da mesa “Caderno de segredos” com Lázaro Ramos, às 10h30.

Patricia Auerbach

Nasceu em São Paulo, em 1978. Se formou em arquitetura e trabalhou como diretora de arte, artista plástica e professora de história da arte. Desde pequena sempre adorou desenhar, escrever e inventar histórias. Hoje é autora e ilustradora de livros infantis, professora e mãe, e lançou pela Companhia das Letrinhas o livro Histórias de antigamentePatricia participa da mesa “Diálogos texto e imagem” no dia 1º de julho, às 10h30, com Aline Abreu.

Blandina Franco e José Carlos Lollo

Blandina Franco e José Carlos Lollo são a dupla responsável pelas historinhas do cãozinho Pum, como Soltei o Pum na escola! e Quem soltou o Pum?Em 2016 lançaram ErnestoBlandina e Lollo participam da mesa “Histórias parceiras” no dia 3 de julho, às 10h30, com Laura Castilhos.