margaret mazzantini

Semana sessenta e três

Os lançamentos da semana são:

A rosa de Sarajevo, de Margaret Mazzantini (Tradução de Federico Carotti)
A italiana Gemma está de volta a Sarajevo com Pietro, seu filho adolescente. Anos antes ela estivera nessa cidade (que encarna, como poucas, as contradições do nosso tempo) durante os terríveis conflitos da Guerra da Bósnia. Naquela época, atiradores alcoolizados divertiam-se alvejando civis na rua, em plena luz do dia, enquanto as grandes potências ocidentais faziam vista grossa para o massacre em curso. Se a cidade agora está pacificada, o mesmo não parece ocorrer com os sentimentos de Gemma. Em Sarajevo ela conheceu Diego, seu grande amor, e lá também eventos tão decisivos (e muito próximos, como se verá) quanto o nascimento e a morte desfilaram diante de seus olhos — transformando sua vida para sempre. Escrito por um dos grandes nomes da literatura italiana contemporânea, A rosa de Sarajevo é um romance em que a história, os afetos e mesmo a biologia compõem um painel lírico e emocionante.

A flecha de Deus, de Chinua Achebe (Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva)
Depois da chegada do homem branco, a aldeia de Umuaro, no interior da África, sofre mudanças profundas que afetam toda a cultura local. Seu sumo sacerdote, Ezeulu, governante e porta-voz da aldeia, terá de enfrentar tanto a ameaça que o homem ocidental traz consigo como também os próprios habitantes de Umuaro, que passam a questionar até mesmo seus rituais e crenças mais antigos. A flecha de Deus, clássico de um dos maiores escritores africanos da atualidade, apresenta uma África que se constrói tanto através da visão dos colonizadores ingleses como do ponto de vista dos habitantes locais. E é na alternância entre essas duas visões que é possível entrar em contato com o choque dramático entre essa cultura e o sistema de valores ocidental.

Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo
Adoravelmente desabusado, o narrador deste livro herda uma pequena fortunamas nem por isso se dá por satisfeito: casa-se com uma prima (também ela uma herdeira de muitos contos de réis) e passa então a traçar grandes planos, Ingressa na carreira política, faz conchavos, estabelece alianças duvidosas, pede e troca favores — tudo isso enquanto critica acidamente os usos e costumes do seu tempo. Escritas entre 1867 e 1868, estas Memórias do sobrinho do meu tio parecem anunciar tanto a crônica quanto o romance carioca de costumes. Joaquim Manuel de Macedo faz desfilar uma verdadeira comédia humana do Brasil imperial, em que os assuntos de Estado eram conduzidos como negócio de família e a vida privada infiltrava-se sem a menor cerimônia nos gabinetes oficiais. Com introdução de Flora Süssekind, este romance faz picadinho da vida política brasileira e permanece, mais de cem anos depois de sua publicação, uma leitura atual e sempre perturbadora do Brasil.

Sonetos luxuriosos, de Pietro Aretino (Tradução de José Paulo Paes)
Sem papas na língua e há quase 500 anos, o poeta Pietro Aretino satirizou os poderosos e a nobreza com tal vigor que era chamado de “o flagelo dos príncipes”. Despudoradamente erótico, estes sonetos que agora fazem parte do selo Má Companhia descrevem sem censura o universo labiríntico do desejo e são capazes de impressionar até os leitores mais desinibidos. Seu espírito livre e sua crítica desabusada valeram-lhe inimigos, e na ocasião do escândalo causado pela divulgação dos Sonetos luxuriosos o poeta teve de abandonar a corte papal e mudar-se de Roma para Veneza. Ali viveu como um potentado, honrado como o maior poeta italiano de seu tempo. Esse fausto era mantido pelos presentes e doações de reis, de príncipes e nobres de toda a Europa e mesmo do Oriente, atentos ao poder de seus escritos e, especialmente, à força destrutiva de suas sátiras. Esta tradução do poeta e ensaísta José Paulo Paes — a primeira que se fez para a língua portuguesa — é fiel tanto ao espírito como à forma do original e reproduz com felicidade o vigor e a graça da luxúria de Aretino.