maria emilia bender

Maria Emília e Marta

Por Luiz Schwarcz


Luiz e Maria Emília Bender

Acho que me lembro da primeira vez que as vi. Maria trajava calças largas de seda, com estampa florida alaranjada e camiseta branca. Vinha para uma entrevista comigo na Brasiliense, na rua General Jardim. Fora indicada por uma amiga em comum, a mundialmente famosa Terezoca. Era candidata à chefia do departamento de divulgação da editora na qual eu ocupava o cargo de diretor editorial.

O momento era dos melhores na empresa do Caio Graco Prado — vivíamos o começo do apogeu das coleções de bolso e nos preparávamos para lançar um informativo para o público jovem, que na época agia como uma verdadeira legião de fãs, querendo conversar com os caras que pela primeira vez lhes deram atenção no mercado de livros. Foi assim que começou uma das minhas maiores amizades, e a relação de trabalho mais longa que tive na vida. Com Maria Emília Bender a divulgação de livros passou a ser mais profissional, o diálogo, travado em nível muito mais elevado, tanto no aspecto literário como em termos de respeito aos jornalistas. Depois de alguns meses de editora, Maria já participava comigo e com o Caio das decisões editorias e de parte do que se fazia na Leia Livros, onde mais tarde outro Caio, o Caio Fernando Abreu, viria a reinar, e formar com Maria Emília Bender o par de amigos íntimos meus, com quem saía para almoçar, em plena boca do lixo de São Paulo.

Com o tempo, o departamento comandado por La Bender foi crescendo, e um dia fui apresentado a uma de suas ex-alunas do colegial. Maria Emília tinha sido professora carismática do Colegial do Gracinha  e lembrou-se de sua aluna mais querida quando pensamos em aumentar a equipe da divulgação da Brasiliense. Marta, uma mocinha linda de cabelos curtos, que quando conheci acho que vestia camiseta regata azul clara e calça jeans. Vinha ajudar a redigir os releases da Brasiliense, cuja produção editorial crescia vertiginosamente.

Quando decidi que deixaria de trabalhar com o Caio Graco avisei a Maria Emília e falei que ela deveria ser minha sucessora na direção editorial da tradicional editora paulista. Maria disse que preferia não ficar na Brasiliense depois da minha saída e logo em seguida foi convidada a compor o grupo editorial da nova editora Globo, onde comandaria uma equipe de editores muito relevante. No final, Maria saiu da Brasiliense antes do que eu. E levou a Marta consigo.

Depois de um tempo, na recém-fundada Companhia das Letras, eu procurava um profissional para me ajudar na divulgação e na redação de aparatos editoriais da nova editora. Lembrei da aluna da Maria, que conheci na Brasiliense, e a convidei para deixar a Globo. Um ano e meio após a inauguração da Companhia das Letras, Marta foi um dos primeiros reforços com os quais contei. Assim, mais uma amizade e uma relação afetiva de longos anos começava a se formar.

Bem, não tenho como contar tudo em detalhes, ou não consigo fazê-lo aqui, mas todos sabem que dois anos depois a Maria se juntou a nós, como editora, e Marta em seguida ocupou esse cargo também. A partir de então a Companhia das Letras passou a formatar o jeito de editar livros que tem hoje, o que nos levou a ter uma das melhores edições de texto do país.

A Companhia é o que é hoje graças a um grupo de pessoas que me acompanham há tanto tempo, que tiveram tanta paciência, como Maria Emília e Marta entre muitos outros — a primeira por 22 anos de Companhia mais uns 4 de Brasiliense, a segunda por 24 anos de Companhia mais uns dois na editora da General Jardim. Pois no dia que escrevo este post, tudo voltou à minha memória, da cor da roupa que usavam nos primeiros encontros, às festas na casa da Maria Emília, dos autores que dividimos, muitas vezes com certo ciúme da minha parte, aos erros mais crassos, quando achamos que um livro seria um grande êxito e nada aconteceu. Das grandes conquistas às mudanças de endereço. Das festividades de aniversário aos planos econômicos — que às vezes apenas trocavam o nome da moeda que regeria nossas vidas, e em outros momentos tiravam todos os fundos da empresa, inclusive o necessário para pagar os salários dos poucos funcionários que tínhamos então. Lembro de quando as duas vetaram uma versão de um romance meu, que acabou transformando-se anos depois num livro de contos, ou quando juntos trabalhamos na edição de obras clássicas brasileiras de Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade.

Lembrar da primeira vez que as vi é apenas o começo de minha homenagem a Maria Emília Bender e Marta Garcia, que resolveram quase ao mesmo tempo deixar a Companhia das Letras. O resto continuarei a curtir a conta-gotas, nem sempre neste blog, mas com as lembranças que nunca me deixarão, e que, com certeza, em alguns momentos se transformarão em esboços de sorrisos silenciosos, em outros tantos numa saudade sem fim.


Fabricio Corsaletti e Marta Garcia na homenagem a Drummond (Foto por Tuca Vieira)

1º aniversário da Companhia das Letras. Da esquerda pra direita, acima: Marta Garcia, José Luiz, Luiz Schwarcz, Ricardo Braga, Amauri, João Baptista da Costa Aguiar; no meio: Lilia Moritz Schwarcz, Moema Cavalcanti, Carlos Tomio Kurata, Gisela Creni, João Moura Jr.; abaixo: Ettore Bottini.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Os que não saíram nas fotos

Por Luiz Schwarcz


Maria Emilia Bender (diretora editorial), Ligia Azevedo (editora assistente), Vanessa Ferrari (editora assistente), Thyago Nogueira (editor), Julia Bussius (editora assistente), Otávio Marques da Costa (editor assistente), Leandro Sarmatz (editor) e Marta Garcia (editora). (Foto por Eliara Andrade, publicada no Globo em 30/outubro/2011)

Momentos de celebração são sempre delicados. No caso dos vinte e cinco anos da editora senti isto mais uma vez, na pele. Desde quando pensamos na divulgação do aniversário redondo mais expressivo da nossa história, tentei uma estratégia que se mostrou fadada ao fracasso. Queria tirar a atenção da minha pessoa e enfatizar como a editora tem se institucionalizado, sem personalismos. Como hoje, mais do que nunca, é fruto de um trabalho mais estruturado, realizado por uma forte equipe que caminha com as próprias pernas.

Convencer a imprensa dessa abordagem, a da Companhia que ninguém conhece, não foi fácil. Tendemos a achar que as façanhas são sempre individuais, e não coletivas. Histórias de sucesso são enunciadas no singular, principalmente nos jornais.

Pois o que eu mais queria era que, ao falar do quarto de século que a Companhia completou no dia 27/10, o fotógrafo fosse obrigado a tirar da mochila uma tremenda grande angular, e que as reportagens dos jornais dessem conta da verdadeira história da vida cotidiana da editora. Foi o que sugeri à Folha, e também ao Globo. O Estado já havia feito uma grande entrevista comigo meses atrás. O Globo quase topou. A Folha já tinha uma ideia na cabeça, e foi com ela até o final. Optou por um retrato parcial, ressaltando o que o jornal julgou digno de nota. Meu entusiasmo com as novas edições de Drummond a sair no ano que vem, além das obras de Pedro Nava, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, deve ter contribuído. Opiniões, opiniães, não há do que se queixar. O espaço de todos foi extremamente generoso, e a linha do tempo, que aparece nas páginas do Globo, é motivo de orgulho para todos nós.

Consegui, no entanto, após alguma insistência, que os repórteres visitassem a editora, vissem por que eu falei tanto na tal equipe, agora cheia de jovens talentosos que se juntaram a uma turma que me aguenta há mais de vinte anos ― no caso da Maria Emilia Bender e da Marta Garcia, são mais de trinta. Assim, quem viu as matérias da Folha e do Globo publicadas semana passada pode conhecer algumas das caras que fizeram, fazem e farão os livros que levam para as livrarias os nossos aviões, barcos e locomotivas.

Como as fotos não foram agendadas, e como o convencimento para que fotografassem a equipe da editora se deu no calor da hora, algumas pessoas fundamentais não apareceram e a elas eu gostaria de fazer justiça aqui e agora. Na verdade seria impossível apresentar todos os departamentos da editora em um clique do fotógrafo. Mas restringindo-me à área editorial, que foi a retratada nos dois casos, ficou de fora, por exemplo, o André Conti , nosso candidato a Rabino-mór do templo de Jerusalém. Ele é nosso editor de quadrinhos e dos livros Penguin-Companhia, frequentador quase assíduo deste blog. A Elisa Braga, o coração eficientemente doce da editora, também não apareceu. Ela é responsável pelo departamento de produção e atua junto ao editorial para que os livros saiam com a qualidade necessária, e na data planejada.

Além deles, não participaram das seções de fotos a Sofia Mariutti, que atua na editoria de aquisições, e a Lucila Lombardi, parte do grupo de editores juniors ― e que no momento se ocupa exclusivamente da Lina, agora com 2 meses, futura leitora da Companhia das Letrinhas. Da divulgação e marketing apareceram Joana e Clara, mas não estão Juliana (que hoje em dia é só da Valentina), Thais, Carol, Pedro, Janine e Diana.

Outra ausência mais que sentida é a da Lili, que edita junto com a Júlia os livros juvenis e infantis, e responsável pela área de ciências humanas. Mais do que isso, a Lili está por trás de tudo que aconteceu de importante na minha vida, e justifica aquele chavão: os erros são todos meus, os acertos eu devo principalmente a ela! Lili é basicamente a “editora” da minha mente e do meu coração. Nenhuma foto seria capaz de dar conta da sua importância na vida da editora desde a sua pré-história.

Sinto não poder falar de todos, mas, preenchendo aqui algumas lacunas, espero simbolicamente dar conta dos 150 funcionários que nesta avalanche de celebrações têm tanto a comemorar, e que merecem assim todas as homenagens.

Veja nas legendas os nomes e cargos de quem aparece nas fotos das reportagens.

Além disso, a partir do mês que vem este blog apresentará fotos, nomes e a descrição de quem é quem na Companhia das Letras.


Joana Fernandes (diretora de marketing), Clara Dias (assistente de divulgação), Marta Garcia (editora), Ana Paula Hisayama (diretora de direitos autorais estrangeiros), Camila Leme (assistente de direitos autorais estrangeiros), Eliane Trombini (diretora de direitos autorais nacionais), Matinas Suzuki Jr. (diretor executivo), Otávio Marques da Costa (editor assistente), Júlia Moritz Schwarcz (editora), Júlia Bussius (editora assistente), Maria Emilia Bender (diretora editorial) e Luiz Schwarcz (diretor-presidente). (Foto por Moacyr Lopes Junior, publicada na Folha de S.Paulo em 27/outubro/2011)

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

A Companhia das Letras responde – parte 1

A reação ao post “Pergunte à Companhia das Letras” foi incrível, agradecemos a todos que participaram.

Em vez de responder por escrito aqui no blog, pedimos aos funcionários da editora que respondessem em vídeo. Como foram muitas as perguntas, e nem todas as pessoas puderam gravar esta semana, tivemos que organizar as respostas em mais de um post.

Abaixo você assiste a Maria Emilia, Thyago, André e Ana Paula respondendo questões sobre processo de edição, Jorge Amado, tradução e aquisição de direitos autorais estrangeiros, entre outras coisas.

Colocaremos mais vídeos na próxima quinta-feira, mas resolvemos adiantar algumas respostas mais pontuais:

André Siqueira: Quando serão lançados mais livros do Rex Stout?
R: No momento não temos mais títulos do autor programados.

Xerxenesky: Alguma previsão de quando será lançada a versão brasileira de Against the day, meu Pynchon favorito do coração? (isto é, supondo que vocês pretendem lançar esse livro)
R: Against the day tem lançamento previsto para julho, com o título Contra o dia.

Rafael Pereira Telles: Queria muito que vocês lançassem uma nova edição do livro O leilão do lote 49. Está previsto? Acho que muitos querem essa informação!!!
R: Infelizmente não há previsão de nova edição, mas obrigada pela dica!

Raphael Payayázes: Como posso me tornar um colunista do Blog da Companhia?
R: Os colunistas são pessoas vinculadas à editora, sejam funcionários, autores ou colaboradores. Entretanto, caso você escreva sobre algum livro da Companhia em seu próprio blog, ficaremos felizes em indicá-lo nos nossos posts semanais de links.

Ronnie: Gostaria de saber se a editora pretende traduzir e publicar algum livro de ensaios de W.G. Sebald (ou outro livro dele além dos 4 já publicados).
R: O lançamento do ensaio Guerra aérea e literatura está previsto para abril.

Confira o blog quinta-feira que vem para ver mais respostas, e obrigada, novamente, pela participação!