mariana mendes

Viagem em busca de Ana C. — 4º e último dia

Por Mariana Mendes

15805746758_a93429c06b

“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

3º Dia

* * *

Estou em casa, Ana, cheguei do Rio. Retornei da busca. Trouxe você comigo, mas confesso estar deprimida. De leve. Sai cedíssimo do albergue para a rodoviária. Acordei antes das cinco. Sabe aquele medo básico de perder a hora? Peguei o ônibus às 8h na rodoviária. A viagem até foi boa. Consegui vir metade do caminho sozinha com os dois bancos só para mim. Dormi umas 5h das 6h de viagem. O que também contribuiu para essa sensação de mudança brusca de paisagem. Como se eu tivesse atravessado uma porta: Rio de Janeiro — São Paulo. É de deprimir qualquer um. São Paulo é mais massacrante, nos levamos muito a sério e não temos a beleza da cidade a nosso favor.

Cheguei na rodoviária, peguei o metrô e, olha, foi um baita de um perrengue que não vem ao caso.

Estou em casa, o Jorge comigo. Fui buscá-lo na avó. Estamos na sala, ele recortando figuras do jornal.

Tive um sábado carioca delicioso com paradas para ler você, lá na Argumento li todinho o A teus pés, lembra? Hoje, no ônibus, li umas 50 páginas do Autobiografia de Alice. Estou adorando, te contei? É fascinante o ponto de vista, a distorção entre o que se lê e o que acontece, o texto e suas camadas de sentido. Muito bom, Ana, excelente recomendação.

Acabo de ver na minha estante um livro da Katherine Mansfield. Uma edição luxuosa, não sei se tem o “Bliss”, seria maravilhoso se tivesse e a tradução fosse a sua, mas não olhei ainda. Vou tentar ler rápido o livro da Gertrude, ele pede essa velocidade, acho. Agora, Ana, me dá licença que vou tentar voltar aqui pra minha realidade. Tem uma boa reportagem na Ilustríssima hoje, da Francesca Angiolillo, amiga do Armando. Ele me falou dela. O olho da matéria cita você:

Na esteira da reedição de Leminski, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão, encontro literário de Paraty recebe ex-integrante do coletivo carioca que fazia teatro e música e ‘dizia poesia’ nos anos 1970. Autores, estudiosos e editores analisam como a geração que nasceu à margem do mercado editorial é agora assimilada por ele.

Vou tentar assimilar a vida por aqui, Ana, teu nome lá no jornal e diz que estamos todos a teus pés. Vou ler.

Um grande beijo, Mariana

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Viagem em busca de Ana C. — 3º dia

Por Mariana Mendes

5466200225_e575b95126

“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

* * *

26-07-2014

Hoje é sábado te escrevo do Leblon, de dentro do café da Livraria Argumento. Você frequentava livrarias, eu sei. Vi os marcadores guardados no seu acervo. Lembro-me de ter visto uns três marcadores, dois eram de livrarias. Uma delas em Buenos Aires, na Corrientes. Coleciono marcadores de livro.

Estou aqui olhando para o seu índice onomástico ao final de A teus pés. Gertrude Stein, Katherine Mansfield. Quem sabe aproveito sua recomendação e compro algum livro delas, são mulheres que ainda não li.

Tem um verso seu, no primeiro poema de A teus pés, que diz assim:

É domingo de manhã (não é útil às três da tarde).

Aqui, agora, é sábado, Ana, já te disse. E são duas da tarde.

Vim te buscar e, acredita Ana, que, sem querer, escolhi um albergue que fica na Rua Toneleros. Não foi de propósito, juro. Hoje é dia de passear — quinta e sexta fiquei concentrada nos seus papéis, lá no Instituto. Hoje sai do albergue e passei em frente ao 261 da Toneleros. O Armando me contou, Ana, que você dizia a ele não saber se o seu prédio, quer dizer, o dos seus pais, se pronunciaria Edifício “Líbera” ou “Libera”. Realmente não vi o acento, mas acho mais charmoso Líbera, não? Olhei pra cima quando cheguei em frente ao prédio. Você se jogou do sétimo.

Estou tomando chá no café Severino, dentro da Argumento, e você me diz:

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.

É o “Sete chaves”, lembra dele? Você é muito mentirosa, Ana, muito fingida e dissimulada. Sou um pouco assim também.

Continuo andando com o meu lindo guarda-chuva. E graças a você ainda não o perdi. Continue me protegendo e protegendo meu guarda-chuva, Ana?

Elisabeth Bishop é outra da sua lista.

Reli todo o A teus pés aqui no café. O Armando me disse que quando saiu a segunda edição você não estava nem aí, ele ficou feliz por você, pelo sucesso imediato que o livro alcançou, imagina como era raro uma edição esgotar assim. Mas você não estava bem. A angústia te consumia. Um livro é como um filho. Você o abandonou. O Armando se entristeceu.

Dei uma caneta bic pro Armando, na verdade uma mini-bic. Foi assim, ele foi fazer uma dedicatória pra mim, no último livro dele, que eu trazia comigo e chama-se Dever. Eu ofereci essa caneta aqui, com a qual estou escrevendo agora, uma lamy tinteiro, mas ele foi escrever e não se sentiu confortável. Então tirei outra caneta da minha bolsa, a tal da mini-bic preta. Ele ficou tão feliz, disse gostar especialmente de bic e que não tem dessas no Rio. Pior é que se bobear eu comprei essa em Paris. É porque adoro canetas e Paris, Ana.

Saí da livraria, mas trouxe a Gertrude Stein comigo. Você acredita que não tinha nenhum livro, nenhuma edição da Katherine Mansfield? Juro, mas prometo que vou dar um jeito de ler a sua tradução anotada do “Bliss”. Li em um dos seus papéis, lá do acervo, que a sua tese foi muito elogiada e levou aquele título de distinção, uma coisa assim. O Armando falou algo de você que foi muito importante ter ouvido. Você teve muito sucesso durante sua vida. Desde criança você se destacou na escola, na faculdade, no mestrado também, e ainda em outra língua. E você tinha muitas amigas e amigos e foi namoradeira. Tudo de bom! Sucesso é o que todo mundo quer. Outro dia meu filho me perguntou o que significava sucesso e tive dificuldade para explicar, como será que você definiria o sucesso? Eu tentei explicar do meu jeito, tentei pela via do reconhecimento, mas não sei se ficou muito abstrato, se não expliquei direito, sei lá. Percebi então que não gostaria que ele almejasse o sucesso. É algo difícil de obter, para poucos, acho, e quase sempre leva à frustração. Não com você. Você teve êxito, você conseguiu.

É difícil encontrar pessoas tão generosas como o Armando, por exemplo. Cada um está concentrado em seu próprio umbigo. Ele, sem me conhecer, me chamou pra casa dele, jantamos juntos, ele a Cris e eu. Foi ótimo, comemos salada, suflê e frango. De sobremesa, manga e doce de maçã cozida.

Não contei onde estou. Ainda no Leblon, mas agora no Jobi, um bar antigo do Rio, talvez você conheça. Eu gosto de beber, Ana, amo. Sou do tipo boêmia que vai de bar em bar. Sou boa de copo. É claro que fico bêbada de vez em quando, quer dizer, passo do ponto, acontece, mas não tenho, vamos dizer, não me importo tanto com a minha lucidez, quer dizer, tem horas que gosto de não estar perfeitamente no controle das minhas funções, se é que você me entende. É muita pressão, Ana. Viver não é relaxante. E já me conheço suficientemente para saber que sou uma pessoa tensa. Todo mundo diz que não parece mas sou. Como uma pessoa tensa, encontro mecanismos para me aliviar. Por enquanto tudo bem.

Estou sozinha aqui no bar, quer dizer, trouxe você e a Gertrude. Adoro ficar sozinha. É algo raro hoje em dia. Sim, sou deprimida, como todo mundo hoje em dia é (um pouco). Não teria coragem de me jogar. Falei pro Armando que sou uma pessoa corajosa, me vanglorio de ter ouvido isso do meu psiquiatra. Me dou o direito de repetir, mas você era mais corajosa do que eu, Ana, pulou dessa para melhor. Você faz falta, Ana, mesmo pra mim que não te conheci em vida. Apenas pela literatura posso te conhecer agora. É o que ficou e estou na aventura de te resgatar.

Quanto mais leio você, mais sinto sua falta. Não é assim com o Bolaño, ou com o Tchékhov, dois escritores que admiro demais. Eles também estão mortos, mas não sinto a falta presencial deles, não é engraçado? A sua falta é diferente, você se retirou de nós. Não vou descambar pra melancolia, você pra mim é vida, solar, óculos escuros, bicicleta, praia, pulsão, intensidade. O Armando disse que você acordava cedo. E sem ter te conhecido, aposto que você era uma pessoa divertida. Não o tempo todo, senão seria chata. Entendo que você não tenha suportado, é difícil mesmo, quem vai dizer o contrário? Talvez seja pior ainda para quem tem sucesso. Mas que você faz falta, faz…

Sou pisciana, sabe, aliás lá na sua papelada eu vi o seu mapa astral. Você acreditava nessas coisas? Não acredito não, em nada disso, sou agnóstica, mas acho divertido.

Vi uma mulher fumando um cigarro agora, peguei ela bem no momento de soltar as baforadas. Foi uma sequência engraçada do olhar dela, a fumaça, os trejeitos com a boca. Poesia, Ana, posso chamar assim? Se bem que não sei nem porque te pergunto. Você me parece tão livre, ou melhor, você é livre, Ana. E é o que quero pra mim também.

Hoje, aqui, estando à sua procura, tendo encontrado a sua poesia, sua prosa, me sinto livre, mas acho que a liberdade é como a felicidade. Completamente circunstancial. No Rio me sinto livre, em Paris também. Em São Paulo, onde vivo, trabalho e estudo, não. Mas eu tento, Ana, e tento não me frustrar com isso o tempo todo. Precisamos nos proteger dos serrotes, ó, tá aqui meu guarda-chuva.

Você gosta de confundir e brincar, explico. Uma das minhas ideias para o meu dia hoje era caminhar bastante, fui de Copacabana até o Leblon. Segundo, queria ir numa livraria e comprar algum livro de algum dos autores do seu índice onomástico. Combinei comigo mesma que escolheria um que não tivesse lido ainda, de preferência uma escritora. A edição de bolso que comprei da Gerturde por R$19,90 foi A autobiografia de Alice B. Toklas. Claro que já tinha ouvido falar dela e do livro. Não foi você, definitivamente, quem me convenceu, mas você deu um baita empurrãozão, afinal, muito do que lemos vai da circunstância também. Sei que comecei a ler aqui no Jobi, esse bar barulhento e apertado, só que o livro, mais do que tudo, me desconcertou. Nunca tinha parado pra pensar que, sendo uma “autobiografia” ele nunca poderia ter sido escrito por outra pessoa, que é o caso deste embuste! E já está dado no título. Entrei de cabeça no texto e me vi, deliciosamente, na cilada da Gertrude, mas pra mim, quem me pregou a peça foi você.

Já entendi que essa é sua brincadeira favorita, Ana, você adora uma invencionice, mistura vida e literatura o tempo todo. É o que pretendo pra minha vida também, mas de pretensão estamos cheias.

Saí do Jobi, vim pro Pavão Azul, o mesmo de ontem, eu teimo em chamá-lo de jacaré, um bar da Vila Madalena em São Paulo, mas que não frequento. Aqui me sinto em casa, no Jacaré não.

Reencontrei o Moreira hoje, Ana, meu garçom de ontem, a quem me afeiçoei. Não preciso saber nada do Moreira pra afirmar que ele é casado e safado, tudo ao mesmo tempo. Não é bonito mas ganha a mulherada com outros truques. Aposto que você era bem apaixonante e apaixonada. Qual seria o equivalente a “mulherengo” para quem é mulher? Eu me encaixaria também, gosto de sexo, quanto menos vinculado ao amor, melhor, por isso me separei. Você era cheia de segredos,  nem vem.

Uma pergunta, você gosta de prata? Será que quando você morava na Toneleros já existia essa loja, a Panna Joias? É passando o 261, loja grande, acho que tem ali, em Copa, na rua dos seus pais, e também em Ipanema, se não me engano. E é tudo de prata 925. Teve uma época que inventei o seguinte, sempre que viajasse, não importa o lugar, desde que correspondesse à ideia de viagem, eu teria como missão comprar um anel. Tipo recordação afetiva. Até hoje quando uso os anéis que comprei em Amsterdã, sempre alguém me pergunta, pegam na minha mão pra examinar, e querem saber de onde vem. Parei de usar os da minha viagem ao Egito. Comprei vários em Luxor e eles estão guardados, mas entrei nessa de só usar prata e eles não são de prata, acho que não, é outro material, ainda descubro.

Acho que não sou de ouro, pérola, muito menos de diamante. Sou de prata. E você, que joia seria?

Somos bem diferentes, mas é bom. Gosto bastante das diferenças, do desigual, do gauche. Gosto da incompreensão e de você, Ana, da incompletude, do vazio da noite e da escuridão.

Não te contei ainda do Pavão Azul, esse bar onde estou. Olhei pra minha direita e na parede vi um quadro. Sabe quando os donos enquadram uma matéria elogiosa sobre o lugar? Então, é exatamente isso que vou ler pra você:

<Título da matéria>: “Ela é o cara

<Olho>: “Mulheres assumem o comando de botecos redutos tradicionalmente masculinos

<Matéria>: “ O pavão azul é um exemplo. Vera Afonso assumiu o balcão quando se separou. Com o pai do fiho Serginho ela chamou a irmã Bete para dar uma força na empreitada. O resultado foi um fenômeno: na mão das duas, o bar virou referência na cidade ganhou cotação máximo no guia ‘Rio Botequim’ e se tornou tricampeão do prêmio ‘Rio Show de Gastronomia’.”

Situação engraçada, vou te contar. Sentei aqui no bar, estou sozinha. Uma mesa e duas cadeiras, uma com a minha bunda, outra com a minha bolsa. Estou sozinha, Ana, mas nem triste nem deprimida, te falo quando me sentir assim, pode ser? Vim te buscar, lembra? Só posso estar feliz pois, nessa altura, sabemos eu e você que eu te encontrei. E vou poder te levar comigo. Então retomo, repito, estou feliz, por estar aqui.

Fui o banheiro e voltei e você não sabe o que me aconteceu. Na vida, tudo acontece tão rápido, não é. Foi assim, estava tentando te contar que sentei nessa mesa e, bem de frente, mas do outro lado da calçada, de pé, tem um cara me paquerando. Eu estou dando bola, quer dizer, olho de vez em quando, porque ele me pareceu interessante. E afinal, Ana, quem é que hoje em dia sai sozinho para um lugar qualquer? Pouca gente, compreende?

Usei o “compreende” do Armando, ele fala muito compreende no final das frases. É bonito, sonoro, eu gosto. Encontrei esse mesmo “compreende” em um dos seus papéis, mas foi só uma vez. Tudo era Armando, o Armando era o tal? Nananina, Ana, o Armando é o tal. Ele cuida de você até hoje, com muita dedicação.

Pra encerrar, acho que vou ter que dizer com todas as letras pra você e pra ele, o Carlos, que depois de conversarmos um pouco descobri que ele não tem nada a ver comigo. Eu poderia dizer, amigo, vai, vai lá fazer algo que você acredite ser produtivo (ele usou esse termo na conversa). Vai lá. Comigo é só perdição, amor!

Vou fechar esse caderno, acabar aqui, com essa última linha… O problema sabe qual é? Se eu parar de escrever esse tal Carlos pode se achar no direito de ir e vir novamente. E, por mim, ele poderia ser ejetado do bar, mas não que eu queira ser agressiva, é jeito de falar, Ana.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Viagem em busca de Ana C. — 2º dia

Por Mariana Mendes

4184624169_865960a24b

“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi JaffeLeia a primeira parte já publicada.

* * *

Ana, hoje passei na sua rua, não na dos seus pais. Na casa da Gávea: Rua das Acácias, 141 casa 2, “Residenciais Leonor”. Tirei uma foto, achei tão bonito o lugar, a fachada azul e branca, mas a foto saiu bem tremida, ninguém vai enxergar claramente, de tão ruim que ficou. Tem uma ladeirona seguindo reto da calçada da sua casa, fizeram até uma escada, bem íngreme. Quantas vezes você subiu aqueles degraus, me pergunto. Não me animei em contar, muito menos em subir.

Mas não é de você que quero falar, muito menos da escada íngreme que sobe da Rua das Acácias até acabar e começar a montanha. Estou escrevendo sobre a sua obra. É por causa dela que estou aqui. Vim atrás de você, porque quero me apropriar da sua escrita. Colá-la em mim. Acho que você não tinha tatuagens, tinha? Eu tenho uma espiral no pé, chama-se koru e representa uma planta, uma espécie de samambaia comum na região onde vivem os povos Maoris, a Polinésia. Como é bonito esse nome: Polinésia. Quero te contar o sentido do koru no meu pé, significa algo como recomeço. E não quero explicar mais nada, pode ser?

Não escrevo tão bem quanto você. Tenho quarenta e dois anos, mas acho que nunca usei um vocabulário rebuscado como o seu, quer dizer, você demonstrava, exibia uma linguagem sofisticada, de quem se letrou muito cedo. Quem sabe, com algum esforço aos quarenta e dois eu consiga usar o mesmo vocabulário que você aos quinze!

Hoje comprei um guarda-chuva, Ana, é lindo. Verde água com serrotes desenhados como se caíssem do céu. O guarda-chuva me protege das serras. Você tinha e perdia seus guarda-chuvas, ou simplesmente escolhia não tê-los? Estou enrolando pra falar da sua obra e é de propósito.

Na verdade, é por que essa é a melhor parte desse meu trabalho em torno de você, quer dizer, aquilo que eu penso e sinto, quando leio você. Sabe quando ficamos guardando o que é bom para o final?

Pra você não ficar brava, vou dizer os dois poemas de que mais gosto e que acho os mais cheios de sentimento e entranha, resultado da combinação de cada uma das palavras:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

e

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.

 

Posso acrescentar um terceiro?

 

Samba-canção

Tantos poemas que perdi.

Tantos que ouvi, de graça,

pelo telefone — taí,

eu fiz tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar,

meia-bruxa, meia-fera,

risinho modernista

arranhado na garganta,

malandra, bicha,

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras

(era uma estratégia),

fiz comércio, avara,

embora um pouco burra,

porque inteligente me punha

logo rubra, ou ao contrário, cara

pálida que desconhece

o próprio cor-de-rosa,

e tantas fiz, talvez

querendo a glória, a outra

cena à luz de spots,

talvez apenas teu carinho,

Mas tantas, tantas fiz…

 

Ana, descobri o que você faz, finge a intimidade pela linguagem, mistura autobiografia, biografias alheias, correspondências para destinatários que não existem, como sua tia Nydia, ou como aquela amiga de infância, Gina, para quem você escreve uma carta e, ao que tudo parece, a tal Regina nunca existiu e é de quem você morre de saudade:

 

Gina,

Será que eu ainda tenho o direito de chamar você assim? Não sei por quê, de repente as recordações do passado começaram a borbulhar dentro de mim. Revi as nossas aventuras no colégio, as tuas idas lá em casa, quando brincávamos com bonecas de papel, simulando mil romances entre o Peter e a Joan; as minhas idas na tua casa, nossas brincadeiras, nossos votos de sempre, permanecermos crianças, Pedro do Rio, o Marcelino e seu rato, morto, a ameixeira Anne Shirley, o Viantarema, o Pentágono, tudo, tudo.

 

Tudo se mistura e resulta em ficção. Quando leio sua poesia, ou a prosa divertida e livre de tudo, ali tenho a certeza de que o processo era o mesmo, não importava o registro formal. Releio:

 

Senhor A

Hoje estou de bata, dando bênção com os olhos

Todo milionésimo de segundos sentidos.

Missionário da cozinha.

Minha mulher foi viajar.

Recebo em casa; velha cúmplice esquenta os pratos,

Sou homem rico,

Também choro.

Fumo com o marido no sofá de couro.

Meus olhos doam a este meu casal

De condenados o calor que posso,

O calor de um negócio travado a altas horas,

Garganta ardendo, Colubiasol a mão, ou então um tanto de chá

Um. Não escondo o uísque.

Também não temo mais meu pânico em flor, regado Regiamente.

Na sala ao lado não há mulheres

Falando de Miguelângelo.

Volto ao meu cachimo.

Não recebo em febre torpedos de perguntas,

Mas sim pedidos de adesão.

Devo impor justiça com um gesto da outra mão:

Alimentá-los. Um e outro jogam verde.

Sou mouco, um bispo,

Double-face de cara lisa,

Connoisseur de vícios.

Sirvo uma dobrada fumegante.

 

O que seria dar benção com os olhos. Poderia ser algo como assentir com o olhar. Noto a profundidade, a falta de conexão aparente, a interrupção. A diversidade toda na mistura de gêneros.

Ana, não me deixe esquecer meu guarda-chuva por aí. Já te falei que ele é lindo? Não é só a cor e os mini-serrotes, não. É o objeto em si. Ele segue um estilo bem clássico com grande cabo de madeira e a ponta também. Será o mais lindo e atual objeto eleito por mim para o dia de hoje. Lembrei-me de um poema teu, mas não consegui localizá-lo agora. É um que você fala da vida dos objetos, sabe qual é?

Costumo dizer ao meu filho, Jorge, que as miniaturas têm vida, ele tem cinco anos. É uma ideia que conforta e ajuda a não me sentir só. O Jorge fixou essa ideia e sempre pergunta: “mãe, isso aqui é uma miniatura?” Pena que eu não consiga reproduzir a entonação quando ele faz essa pergunta, Ana, é a entonação de quem pergunta mais de uma vez por dia, pela simples verificação, sabe? Para ele sou eu quem avalio o que tem ou não tem vida. Será que isso não é um tipo de poesia também? É um jogo entre vida e palavra, uma brincadeira. Quem sabe um dia isso o acabe ajudando a não se sentir tão sozinho?

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Viagem em busca de Ana C. — 1º dia

Por Mariana Mendes

Processed with VSCO with b3 preset

“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. No dia em que Ana Cristina Cesar completaria 64 anos, publicamos aqui no blog a primeira parte deste diário. As outras três partes serão publicadas nas semanas seguintes, que marcam o lançamento de A teus péslivro originalmente publicado em 1982, e Crítica e tradução, que reúne os ensaios de Ana C.

* * *

1º dia, quinta-feira

Amanheci no Rio. Saí de São Paulo ontem, de ônibus leito, perto da meia-noite. Vim fazer uma pesquisa. Cheguei e foi como se estivesse contando com o momento certo de cair. Desci do ônibus, sentei à espera de algo, não sabia o quê. Era a queda. Fiquei ao lado do guichê de informações. Só criei coragem uns quinze minutos depois. Vou pra rua Toneleros, em Copacabana, número 171. Fui orientada a pegar o circular, “é sair e seguir à direita, logo ali”. Me estatelei já fora da rodoviária. Foi feio, basicamente machuquei o joelho, mas não me abalei. Ralei a palma da mão direita, examinei se me impediria de escrever ou digitar, mas não, foi só raspão em terreno árido, irregular, cheio de pedrinhas. Perrengue, Ana.

Ônibus circular para a Gávea, destino: Instituto Moreira Salles (IMS). Lá toquei seus papéis pela primeira vez. Sensação de estar diante de parte importante de seu corpo. O papel como matéria, a escrita como continuidade. Passei o dia olhando para tudo o que eu não entendia que era você e ao mesmo tempo eu sabia que era. Vim em busca de seus diários. Me animei a ter você (e seus escritos em forma de diário) como objeto de um trabalho de conclusão de disciplina da pós. Quando ainda estava em São Paulo, imaginei um caminho para o texto. O título e o primeiro parágrafo estavam prontos:

Ana Cristina Cesar, minha mãe e eu

Sou (1974) formada em letras assim como minha mãe (1949) e Ana Cristina Cesar (1952). Nós duas estudamos em São Paulo, na USP; ela no Rio, PUC-Rio. Ana foi professora, tradutora e escritora; minha mãe é professora, tradutora e escritora; e eu trabalho como editora na Companhia das Letras, mas penso que nasci para escrever.”

Note que eu já partia de uma premissa pessoal, particular. Depois do primeiro parágrafo viria uma conversa que tive com a minha mãe, que seria introduzida assim:

“Quando está em Florianópolis (SC), minha mãe mora numa casa que ela planejou e construiu em cima do morro de Sambaqui. O diálogo ocorreu lá, entre os livros dela.”

Eu gostava do texto, tinha uma pegada. Mas mudei radicalmente, escolhi outro sentido e vou seguir por aí. Lembra do seu Master of Arts, em Essex, na Inglaterra? Você viveu algo parecido, guardadas as proporções, claro. Você diz assim na introdução:

Pretendia escrever um ensaio geral sobre a tradução para o português do conto Bliss, de Katherine Mansfield, complementando-o com notas de pé de página, que abarcariam problemas específicos. Mas o processo se subverteu espontaneamente (ou se inverteu) e logo ficou evidente que as notas haviam absorvido toda a substância primordial do ensaio ‘a respeito da tradução’.

Ao ler seus diários, Ana, pensei nos meus. Tenho vários cadernos, guardados desde a época de escola, quando eu tinha uns dezesseis, dezessete anos. Faz um tempo que trabalho nesse material, quero transformar em arquivo eletrônico. É um bom exercício – ler, rever e transcrever da letra à mão para o computador. Nada do que escrevi neles se aproxima do que li nos teus, Ana, e fiquei pensando. Encontrei um ensaio de Maurice Blanchot, “O diário íntimo e a narrativa”. Os meus diários fazem eco à discussão dele sobre o gênero. Reconheço o que escrevo com, por exemplo, esse comentário:

O pacto que o diário assina é com o calendário. Escrever um diário íntimo é colocar-se momentaneamente sob a proteção dos dias comuns, colocar a escrita sob essa proteção, e é também proteger-se da escrita, submetendo-a a regularidade feliz que nos comprometemos a não ameaçar.

Ele continua, é um texto curto, mas muito bom e esclarecedor. Quando resolvi analisar seus diários sob essa ótica, percebi que eles não se encaixavam. Você faz da escrita do diário outra coisa, subverte o Blanchot, ele argumenta do ponto de vista teórico, crítico e formal. Não tem nada de errado no que ele escreve, pelo contrário, a maioria dos diários deve corresponder ao que ele diz, mas não os seus. Foi isso que me trouxe ao Rio.

Em Cenas de abril aparecem as primeiras inserções que simulam um diário formal. A escrita se caracteriza pela informalidade, mas parece cifrada. Dá ao leitor a impressão de que, sem conhecer minimamente sua biografia, o acesso a seu universo literário ficará intransponível. Mas logo na segunda entrada, ao lado da primeira, essa ideia se desfaz. Você faz o que quer dele (e com ele), você o transmuta e se utiliza dele esteticamente. É como te enxergo por trás da sua fala irônica afirmando o poder do diário sobre você, como se fosse um imperativo. Copio as duas entradas pra você se lembrar da brincadeira.

16 de junho

Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem. Ângela nega pelos olhos: a woman left lonely. Finda-se o dia. Vinde meninos, vinde a Jesus. A Bíblia e o Hinário no colinho. Meia branca. Órgão que papai tocava. A bênção final amém. Reviradíssima no beliche de solteiro. Mamãe veio cheirar e percebeu tudo. Mãe vê dentro dos olhos do coração mas estou cansada de ser homem. Ângela me dá trancos com os olhos pintados de lilás ou da outra cor sinistra da caixinha. Os peitos andam empedrados. Disfunções. Frio nos pés. Eu sou o caminho a verdade a vida. Lâmpada para meus pés é a tua palavra. E luz para o meu caminho. Posso ouvir a voz. Amém, mamãe.

18 de fevereiro

Me exercitei muito em escritos burocráticos, cartas de recomendação, anteprojetos, consultas. O irremovível trabalho da redação técnica. Somente a dicção nobre poderia a tais alturas consolar-me. Mas não o ritmo seco dos diários que me exigem!

Como leitora me senti provocada. O passo seguinte foi aceitar a provocação e ir atrás, ler mais, me aprofundar, me retirar de um estado anterior de conhecimento sobre você, sobre sua obra, para poder fazer a passagem. Procurei me deslocar, deixar para trás o que já tinha e ir ao teu encontro. A teus pés.

Leio algo dissimulado em seus diários, você tripudia em cima do gênero, é uma brincadeira feliz. Seu diário é máscara, fingimento, vale muito mais como ficção do que como diário. Você se forja em matéria literária. Assim te escolhi. Quero ser escritora, quero aprender o que você puder me ensinar.

Não é vontade de dissecar, ou simplesmente de entender o modo como você subverte a escrita cotidiana, superficial e a transforma em acaso, quer dizer, literatura. O ponto de partida é a vida, material biográfico, mas desde que ele possa ser fundido. É como penso que você pensava.

Encerro por aqui, Ana, esse nosso primeiro dia. Vou jantar na casa do Armando logo mais. Do Armando e da Cristina, a mulher dele. Você conhece ela, mas acho que eles ainda não eram casados. Não importa. Estou indo lá, adivinha pra quê? De novo estou pensando em te buscar. Te colar em mim.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Minhas memórias sobre “Memória da pedra”

Por Mariana Mendes

Oh... my God ...!!!             ...........DSCF4995110507

Li Memória da pedra no carnaval, antes de ser publicado, por causa da Vanessa Ferrari, amiga e editora da Companhia. Ela estava com o primeiro romance do carioca Mauricio Lyrio impresso em word e veio me perguntar, na surdina, se eu não queria ler. Na verdade não foi tão na surdina assim. Em geral, tenho acesso aos livros da editora e acho que eles são muito bem compartilhados internamente por seus editores. Ela veio com charme e sedução, que é o modo preferido dos editores quando querem a minha opinião para pensar estratégias de divulgação do livro para o seu potencial leitor. Perguntei quem era o escritor, como o livro tinha chegado. Quis saber para estar em pé de igualdade de informações com ela, a editora. Quem trabalha no meio editorial sabe que às vezes informações prévias pesam, às vezes, não. A única certeza é que não existe ciência exata em se tratando de livros.

Sempre que na editora me pedem para ler algo, sei o que está em jogo. Em um primeiro momento, é a minha experiência de quinze anos trabalhando no departamento de educação e na divulgação dos livros entre professores. É claro que o meu olhar é para tentar extrair eventuais potencialidades da obra para este público. E ter acesso ao livro antes é o pulo do gato. Combinei com a Van que faria meus comentários na quarta-feira de cinzas. Ela me avisou que no dia seguinte o Mauricio estaria na editora.

Quando li, veio a paixão. Minha expectativa para o carnaval era alta, tinha a ambição de ler cinco livros. Não deu. Enquanto lia não parei de dizer, à minha volta, que estava impressionada, como eu estava gostando do romance, que não larguei até chegar ao fim. Sabe quando você termina um livro e precisa dar um tempo antes de pensar no próximo? É um misto de não ter disposição para mais nada com querer ficar revivendo a história. Li de domingo para segunda, com paradas necessárias para respirar e me situar, recobrar o fôlego. Com ritmo ágil, múltiplas tramas que se sustentam sem depender de explicações a todo o momento, personagens intensas.

O livro conta a história de Eduardo, professor de filosofia de universidade pública no Rio. Quando sai para dar aula fica observando no caminho uma turma de meninos pedindo dinheiro na rua. De digressão em digressão a respeito do seu passado, vai sendo levado a investigar se a morte de seu pai teria sido realmente acidental. O leitor é seduzido desde as primeiras páginas e a vontade é seguir em frente, de preferência correndo. Ao terminar, a sensação nebulosa de não saber se o que havia passado por mim era um filme, ou um livro. E as imagens do Rio de Janeiro como coadjuvante foram inspiradoras. Eu e o Luiz, aliás, elegemos uma preferida (leia o trecho abaixo). Na quarta-feira de cinzas a notícia de que eu tinha amado o livro se espalhou pela editora. Mentira, não foi assim tão rápido. Contei pra Van da minha empolgação com o livro e até me esqueci de dizer sobre a questão das adoções. “É um p… livro!”. Quando o Mauricio apareceu no dia seguinte conversamos um pouco. Pude dizer o quanto tinha gostado e que, com relação aos professores, era uma questão menor, o livro estaria aí para quem quisesse se aventurar.

* * * * *

Trecho que começa na página 80:

Ao longo da subida, Eduardo e Laura pararam algumas vezes para olhar para trás. Viam o automóvel desaparecer na distância, o ponto de luz da carrocinha como referência do começo. Era preciso adaptar o passo aos degraus curtos, um degrau por vez parecia pouco, dois, um pouco demais. A escada fora projetada para os corpos menores de um século anterior, para penitentes que se dobravam com os olhos na pedra. A meio caminho, chegaram a um platô, uma espécie de mirante, que se abria para um pátio, um pequeno coreto, outra igreja. Começavam a avistar a cidade, as luzes que se estendiam sem limites em direção ao norte e só se interrompiam à direita, com as águas da Baía de Guanabara. Retomaram a subida, aproximaram-se da senhora que avançava de joelhos, coberta de branco, com seus movimentos lentos e regulares. A vela na mão iluminava a pedra manchada de antigos círculos de cera. Na outra mão, carregava um terço. Tinha o contentamento dos que pagam e a fadiga nas linhas grossas do rosto. Cumprimentaram-na discretamente.

Flutuando no alto, iluminada nos contornos, nas linhas de portas e janelas, a igreja parecia um barco em romaria, desenhado por uma criança de bom humor. A fachada de trás, onde terminava a escada, tinha o aspecto de uma prefeitura de vilarejo, com sua simetria simples, de formas regulares. As pirâmides magras dos campanários da frente, que já se avistavam da escada, eram apêndices externos, uma ideia tardia. A lateral extensa, elegante com suas janelas e arcos, era baixa para a fachada principal, como um edifício de dimensões próprias, projetado por outro arquiteto, mais sóbrio. Romário e Gilberto esperavam sentados no último degrau da escadaria, com um ar de cobrança.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

12