mário de andrade

Semana duzentos e oitenta e seis

Depois a louca sou eu, Tati Bernardi
Neste volume autobiográfico, porém, é como se a tampa da cabeça de Tati Bernardi fosse desatarraxada para que os fãs bisbilhotassem à vontade lá dentro. Revela-se que a vertigem alucinatória de sua prosa é produto tanto de fibrilação estilística quanto do estado natural do psiquismo da autora. Seu avô já tinha “a coisa”, como sua avó dizia. Medo de ir, ela resume — ataques de pânico, fobia a avião, a patas de barata, a vomitar, a cheiros, festa, a lugar fechado, a Ano-Novo. Sentir-se uma criança em carne viva. E então a maravilha do primeiro comprimido de Rivotril, “chuva fina que caiu sobre uma horta de manjericão fresco”. Perto do desfecho do livro, quando já não há antidepressivo nem terapeuta que dê conta, a literatura aparece como medicina das almas, capaz de remediar o escritor autêntico e o leitor sincero. Pois, numa constatação inquietante mas tranquilizadora, “ninguém está bem”.

A espiral da morte, Claudio Angelo
Um dos mais respeitados jornalistas de ciência do Brasil, Claudio Angelo passou os últimos quinze anos acompanhando o debate em torno das mudanças climáticas. Para desvendar o quebra-cabeça do aquecimento global, o autor passou os últimos anos viajando por todo o planeta e conversando com dezenas de cientistas, políticos, ambientalistas e nativos das áreas afetadas. Leu inúmeros trabalhos acadêmicos e esteve em conferências que tentaram buscar um acordo político para mitigar o problema, finalmente selado em 2015 em Paris. Perseguindo obstinadamente todas as hipóteses, o autor tem três perguntas que norteiam seu trabalho: por que o gelo dos polos está derretendo?; isso está sendo causado ou acelerado pelo homem?; e, por fim, que impactos podemos esperar nas próximas décadas, se falharmos em atacar o problema na escala necessária? Atrás dessas respostas, Claudio Angelo irá conversar com caçadores de ursos-polares, analisar o gelo ancestral da Antártida, viajar num barco do Greenpeace, estudar a florescente agricultura da Groenlândia e testemunhar a redução assustadora das geleiras do Ártico. Por fim, faz uma eletrizante reconstituição do incêndio que destruiu a estação antártica brasileira Comandante Ferraz, ao mesmo tempo que mostra a importância das pesquisas polares para o Brasil entender melhor seu novo clima e adaptar-se ao que vem por aí.

Isso também passará, Milena Busquets (Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)
Um dia, um poderoso imperador convoca os sábios do reino e pede uma frase que sirva a todas as situações possíveis. Depois de meses de deliberação, os sábios aparecem com uma proposta: “Isso também vai passar”. Quando Blanca era pequena, sua mãe contou essa história para ajudá-la a superar a morte do pai, e acrescentou: “A dor e o pesar passam, assim como a euforia e a felicidade”. Agora, com a morte da mãe, Blanca fala da dor da perda neste romance que começa e termina em um cemitério. Diante da ausência, restam as memórias de tudo o que a narradora viveu ao lado de quem a trouxe à vida, e o desejo de reafirmar a existência por meio do sexo, do convívio com as amigas, dos filhos e dos homens do passado. Tudo isso no transcurso de um verão em Cadaqués, com suas paisagens indômitas e sua intensa luz mediterrânea. Milena Busquets parte de seu âmago e combina profundidade e leveza para nos falar de temas universais: a dor, o amor, o medo, o desejo, a tristeza, o riso, a desolação e a beleza de uma paisagem em que se entrevê a mãe falecida passeando junto ao mar, porque aqueles que amamos não desaparecem de um dia para o outro.

Obras Completas Vol. 02 – Estudos sobre a histeria (1893-1895), Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza e Laura Barreto)
No final do século XIX as neuroses que se manifestavam por meio de somatizações, alucinações e angústias eram chamadas de “histerias”. Para estudar esse fenômeno, Freud escreveu junto com o médico Breuer os Estudos sobre a histeria – obra essencial para a compreensão da psicanálise. Relatando os casos de cinco pacientes – entre elas a célebre Anna O. -, eles argumentam que os histéricos sofrem por haverem sufocado a memória dos eventos que originaram a doença. É preciso, então, trazer à luz esses traumas, inicialmente por meio da hipnose. Mas, como isso não funciona com alguns pacientes, Freud passa a recorrer à associação livre, tornando seu método ainda mais complexo.

Penguin-Companhia

Macunaíma, Mário de Andrade
Mário de Andrade publicou Macunaíma em 1928. O livro foi um acontecimento. Debochado e intensamente brasileiro – ainda que muito pouco ou nada nacionalista -, este romance é ainda hoje um dos textos fundamentais do nosso Modernismo. E continua a influenciar as mais diversas manifestações artísticas. Nascido nas profundezas da Amazônia, o herói de Mário de Andrade é cheio de contradições – assim como o país que lhe serve de berço. É adoravelmente mentiroso, safado, preguiçoso e boca-suja. Suas peripécias vêm embaladas numa linguagem rapsódica e inventiva, um marco das pesquisas de seu autor em torno de uma identidade linguística brasileira.

Alfaguara

Essa menina, Tina Correia
Durante muito tempo, ninguém soube o verdadeiro nome de Esperança. Para todos, ela era Essa Menina. Decidida a reunir num livro as memórias de sua infância, ela desperta a criança curiosa que vivia a escutar a conversa dos adultos. Ao descrever as festas, as comidas e as brincadeiras no quintal, revela ao leitor, ainda que sob a perspectiva infantil, os anseios, fragilidades e sonhos dos que estavam à sua volta. Os grandes eventos políticos dos anos 1930 a 1960 são o pano de fundo dessas dramáticas e emocionantes histórias. Ora testemunha, ora protagonista, é a menina de olhos grandes e curiosos quem nos conduz por essa narrativa quase mítica, ambientada no interior do Nordeste.

Suma de Letras

A coroa escarlate, Cinda Williams Chima
Há mil anos, dois jovens amantes foram traídos – Alger Waterlow foi condenado à morte e Hanalea, rainha de Fells, a uma vida sem amor. Agora, mais uma vez, o reino de Fells está à beira de se desintegrar. Para a jovem rainha Raisa ana’Marianna, manter a paz é quase impossível. A tensão entre os magos e os clãs atingiu o limite. Os reinos vizinhos veem Fells como uma presa fácil, e a maior esperança de Raisa é unir seu povo contra um inimigo em comum – mas esse inimigo talvez seja o homem por quem está apaixonada. Emaranhado em uma complexa rede de mentiras e tênues alianças, o antigo dono de rua Han Alister agora é parte do Conselho dos Magos. Navegar pela mortal política dos sangues azuis nunca foi tão perigoso – e Han parece fazer inimigos por todos os lados. Sua única aliada é a rainha, e, apesar dos riscos, é impossível ignorar o que sente por ela. Então Han descobre um segredo guardado há séculos, algo poderoso o bastante para unir o povo de Fells. Mas será que ele sobreviverá por tempo suficiente para salvar o reino? Uma verdade mascarada há mil anos por uma terrível mentira vem à tona nesta emocionante conclusão da épica série de fantasia Os Sete Reinos.

Companhia das Letrinhas

Dr. de Soto, William Steig (Tradução de Eduardo Brandão)
O dr. De Soto trata dos dentes de bichos grandes e pequenos. Ele é tão bom que seus pacientes nunca sentem dor nenhuma. Mas, por ser um rato, se recusa a atender animais com um certo apetite por roedores, como gatos ou outros bichos perigosos. Porém, um dia, apareceu em seu consultório um raposo uivando de tanta dor. Como o bondoso dentista podia se recusar a tratá-lo? Por outro lado, como teria certeza de que não seria devorado depois que curasse seu feroz paciente? O dr. De Soto é esperto e descobrirá um jeito.

Gramática das emoções

Por Elaine Lavezzo

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Foto: Tiel del Vale.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Elaine Lavezzo, da Escola Internacional de Alphaville em Barueri, e o projeto literário desenvolvido por ela em parceria com as professoras Anaí Teles (Artes), Carla Litrenta (5º ano do fundamental)  e Natascha Paiva (3º ano do ensino médio) com base na adoção do livro Mário que não era de Andrade.

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Uma experiência pedagógica envolvendo teatro e literatura

O projeto Literatura em Cena nasceu há uma década, a partir da leitura e da adaptação teatral da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, encenada por alunos do então 6º ano, em um teatro improvisado numa grande sala de aula, no ano de 2005. A aventura cênica dessa “turma que gostava de teatro” seguiu pela literatura afora, até inaugurar o auditório da Escola Internacional de Alphaville em 2009, com a apresentação do espetáculo Vida Severina, uma livre adaptação da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, na qual alunos e alunas eram os “Severinos” que migravam pelo universo da pós-modernidade. Os cantos e encantos dessa “Vida Severina” serviram de norte para outros alunos da escola, que também resolveram embarcar nessa caravana teatral, na qual eu também peguei carona. Este passo foi decisivo para eu mudar minha trajetória como educadora, migrando do ensino de português para as artes cênicas.

Esse deslocamento profissional indicou-me novos caminhos e perspectivas para trabalhar com os alunos. Ao invés da gramática do texto, passei a observar mais sensivelmente a gramática das emoções. A singularidade do olhar de cada aluno e a pluralidade da visão do grupo eram destinos incertos a serem cuidadosamente pesquisados. O que mais me impressionou — e emocionou! — nesta investigação foi a descoberta de que o teatro é um território pedagógico democrático e inclusivo, que dá voz e o merecido espaço a alunos que muitas vezes não se expressam tão bem em aulas da grade curricular por motivos cognitivos, étnicos e socioeconômicos. Por trabalhar em uma escola que preza pela visão integral do aluno, a atuação dos estudantes nas peças passou a orientar um olhar mais sensível dos professores em relação à performance pedagógica dos alunos. Nesse cenário que se descortinou, nós, educadores, passamos a aprender muito mais sobre o mundo sem fronteiras que contribui sensivelmente para a formação de alunos disléxicos ou com diferentes questões de aprendizagem.

Um ponto de encontro nesse caminho de confluências entre a literatura e as artes foi o projeto de encenação do espetáculo teatral Maria que era de Andrade, uma livre adaptação do livro Mário que não era de Andrade. Nesta premiada obra da literatura infanto-juvenil, a escritora carioca Luciana Sandroni aborda a vida do escritor paulistano Mário de Andrade e a relevância do modernismo enquanto vanguarda artística no Brasil. Desde 2008, este livro vem sendo lido e trabalhado por alunos do 5º ano do ensino fundamental, que muitas vezes participam de um bate-papo com a autora. No entanto, em 2015 este projeto literário seguiu em busca de novas direções.

Pegando carona no projeto “Literatura em Cena”, este ano o livro Mário que não era de Andrade foi adaptado para teatro, numa montagem protagonizada por alunos do 5º ano do fundamental e do atual 3º do ensino médio — a primeira turma da escola a desenvolver um projeto literário com a obra de Sandroni. A adaptação para o teatro passou por uma mudança no gênero do protagonista e a versão ganhou o título de Maria que era de Andrade, personagem interpretada pela aluna Maria Sarmento, de 11 anos, que brilhou como a criança que viaja pela história de Mário de Andrade e de seus amigos como Dona Olívia Penteado, Villa-Lobos e outros artistas que participaram do Modernismo no Brasil.

A ousadia artística dos modernistas inspirou o projeto literário, que acolheu alunos de diferentes faixas etárias (de 10 a 17 anos) e realidades pedagógicas, abrindo o palco para o talento de alunos com dislexia e com síndrome de Asperger. Nesse cenário inclusivo e democrático que a arte coloca em cena, uma ciranda formou-se com base na trajetória pedagógica de cada um para fortalecer-se com os vínculos criados no trabalho coletivo. Na cena final, todos os alunos estavam juntos, de mãos dadas: os alunos do 5º ano despedindo-se do ensino fundamental I e os alunos do 3º ano despedindo-se do ensino médio e da escola. Tal como na Semana de Arte Moderna, o público presente no teatro não se conteve e reagiu. Os espectadores do ensino fundamental e médio invadiram o palco e entraram na ciranda dessa viagem literária, protagonizada pela sensibilidade cognitiva e pedagógica dos mais diversos Mários e Marias.

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Elaine Lavezzo é educadora e criadora do projeto “Literatura em Cena”, que promove a leitura por meio de adaptações cênicas de obras da literatura universal protagonizadas por alunos do ensino fundamental e médio.

Amigos escritos

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Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade se conheceram em Belo Horizonte no distante abril de 1924, durante a expedição dos modernistas que Mário, junto com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o escritor suíço Blaise Cendrars e outros, empreendeu pelas cidades históricas de Minas. Àquela altura o poeta paulista era uma figura de proa da cultura brasileira, enquanto o itabirano ainda não havia publicado seu primeiro livro —  Alguma poesia só iria sair em 1930. A correspondência entre os dois poetas tomaria corpo pelos vinte anos seguintes, até às vésperas da morte de Mário, em 1945, e as suas cartas foram reunidas e anotadas pelo próprio Drummond no início da década de 1980 em A lição do amigo, que agora reeditamos como um tributo ao autor homenageado da edição da FLIP, que começa amanhã.

Pois A lição do amigo é um desses livros aparentemente singelos que, na verdade, encerram uma série de leituras: o relevo dos afetos na constituição de um cenário cultural, a relação entre dois artistas decisivos de nosso país e o processo de amadurecimento de um jovem poeta que, como saberíamos mais tarde, seria um dos mais importantes nomes da lírica de língua portuguesa. Além disso é uma deliciosa viagem por um tempo de livros e delicadezas.

Leia a seguir trechos selecionados da carta que Mário de Andrade enviou quando Drummond publicou Alguma poesia, já percebendo a importância e o enorme poder de permanência desse livro que, oitenta e cinco anos depois de sua publicação, continua um dos mais importantes da nossa lírica.

“A primeira vitória do seu livro e a decisiva, que assegura o valor extraordinário e permanente dele e da sua poesia, é não dar a impressão de passadismo. Me explico. O que eu mais temia, diante da evolução rapidíssima da poética no século XX, é que os poemas de você, muitos antigos e refletindo processos de cinco, seis anos atrás ou mais, e já abandonados, produzissem mau efeito reunidos em volume. Dessem a impressão de adesismo retardatário ou de carneirismo a certos assuntos poéticos que os moços de todo o Brasil se encarregaram de vulgarizar ao excesso, abastardar com a precariedade dos jovens de vinte anos e ficaram reduzidos a pó de traque. Assuntos como recordações de infância, descrições rápidas haicaizadas, a temática nacional, paisagismo sensacionalístico etc. são assuntos já revelhos na poesia modernista e de todos você usa. Compreende-se: o perigo era enorme. (…) Ora, o que me surpreendeu mais foi a integralidade segura, bem macha, com que seus poemas reunidos e em tipografia vencem os perigos que atravessavam. É inútil a gente datar de cinco anos atrás um poema como “Infância” pra que ele readquira o valor qualitativo. Podia ser datado de 1o de julho de 1930. Vence da mesma forma pela quantidade das anotações sensíveis e pela qualidade do todo. Não fazia mal ser de adesão a um assunto rebatido, porque era melhor que os outros sobre o assunto. Seu livro é de hoje, de ontem e de amanhã. Não tem valor episódico. Vale pela força intensíssima do lirismo de você, pela originalidade dele dentro do assunto mais batido. É a melhor vitória dele e de você: livro que ficará entre os melhores do lirismo brasileiro.

(Araraquara, lo de julho de 1930)”

Mário e seu riso aberto

Por Luciana Sandroni

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Antes de rascunhar o texto do livro O Mário que não é de Andrade, como sempre, preparei o terreno: espalhei, sobre a mesa, os livros do Mário, sobre a semana de 22, suas cartas, tudo. Na parede, fiz um mural com fotos do escritor com a família, com os amigos, na praia, no meio do povo, em sua casa, entre os livros, sempre rindo. Aquele riso aberto, franco, aquela simpatia já me contagiava.

Conhecia a obra do escritor homenageado da FLIP 2015 como artista e intelectual, mentor da Semana de Arte Moderna, autor de Macunaíma, pesquisador da cultura popular, a atuação no Departamento de Cultura de São Paulo. Era fã de carteirinha, desde a adolescência. Mas e a pessoa? Precisava ter uma certa intimidade para inventar o meu personagem. Queria conhecer o Mário do dia a dia, como filho, irmão e amigo.

Fui então, reler suas cartas — Mário escreveu milhares de cartas para os amigos; dizia que sofria de “gigantismo epistolar”. São cartas íntimas, bem à vontade, sem salamaleques, “cartas de pijama”, como ele dizia.  Em, Mário de Andrade — Cartas a Manuel Bandeira, ele escreve sobre uma festa futurista:

“…em vez de voltar do baile à uma hora, voltei às seis e trinta, pleno dia. Esteve estupendo. (…)  O Segall pedira 3 contos pra decorar três salas. As outras decoradas por não sei quem, muito idiota, sem alegria, sem beleza, porcaria. Em compensação a sala do Segall era maravilha. Um espírito, um colorido, uma leveza, uma alegria estupenda. Em vez de flores, vegetais comestíveis! Uma pândega.” 

Aquela descoberta me espantou: então o célebre escritor ia às festas e voltava de manhã! Mário de Andrade, o papa do Modernismo se divertia a valer… Em A lição do amigo, cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, o artista comenta sobre a mesma festa e dá um “puxão de orelha” no poeta, que devia ser bem sério:

“Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma boa tocata de Bach… (…)”

As fotos do meu mural refletiam bem aquela alegria de viver. Com a leitura dessas cartas, Mário foi se tornado mais próximo, mais real.

Mas, e o Mário como filho e irmão? O Mário em família?  Lendo o livro A imagem de Mário, organizado por Telê Ancona Lopes, descobri que seus contos são baseados na própria infância e na adolescência. Numa entrevista, ele comentou:

“Aliás não tenho nenhum personagem nos meu livros que seja inventado por mim. Todos eles existem ou existiram”.

Mário era de uma família de classe média de São Paulo. Cresceu com os pais, irmãos, primos e tias. Vi esse cotidiano no conto Peru de Natal, que fala sobre o primeiro Natal depois da morte do pai:

“ (…) Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas ‘loucuras’. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de ‘louco’. ‘É doido, coitado!’ falavam. (…)”

Depois da leitura desses contos, já me sentia bem íntima do Mário e percebi que até nas conferências ele era autobiográfico. Na famosa palestra “O Movimento Modernista”, ele comenta como teve a ideia de escrever seu primeiro livro de poesias modernistas, Pauliceia desvairada. Ele havia comprado uma escultura de Brecheret, uma “Cabeça de Cristo” e, quando a levou para casa, a “parentada” correu para ver:

“(…) E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Estrilava a senhora minha tia velha, matriarca da família. Onde já se viu Cristo de trancinha! (…)  Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era de bater. (…) Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título que jamais pensara, ‘Pauliceia desvairada’.”

Através dos seus poemas, contos, romances e cartas fui chegando perto, me aproximando de um Mário menos “monumento” e mais amigo. E, a partir daí, construí o meu Mário personagem. E, claro, sempre contando com aquele riso aberto, franco, das fotos do meu mural.

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Luciana Sandroni nasceu no Rio de Janeiro em 1962. É autora de O Mário que não é de Andradepublicado pela Companhia das Letrinhas. Autora de vários livros infantis e juvenis premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Luciana também recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil pelo livro Minhas Memórias de Lobato, e indicação para a lista de honra do Ibby, International Board on Books for Young People. Seu livro mais recente é Memórias Póstumas de Noel Rosapublicado em 2014.