mário magalhães

Marighella: dois poemas inéditos

Por Mário Magalhães


Marighella, junho de 1939.

No começo da noite da próxima terça-feira, 4 de novembro, a tocaia em que agentes da ditadura fuzilaram o revolucionário baiano Carlos Marighella completará 45 anos. Numa rua escura paulistana, ao menos 29 beleguins do Departamento de Ordem Política e Social, armados até os dentes, assassinaram o guerrilheiro de 57 anos que não portava nem um canivete.

O tempo esclareceu as circunstâncias da morte de Marighella, narrada em pormenores na biografia que a Companhia das Letras lançou no finzinho de 2012. Com o ressurgimento da democracia no Brasil, a União reconheceu duas vezes que em 1969 ocorrera assassinato — e não confronto — e pediu desculpas à família do veterano militante. Seus matadores, embora identificados, nunca foram punidos.

Dois obstáculos conspiraram para tornar ainda maior o desafio de reconstituir a trajetória do antigo líder estudantil, constituinte, deputado, dirigente comunista e guerrilheiro declarado, em 1968, “inimigo público número 1”: determinada historiografia intolerante buscou eliminá-lo da memória nacional, e ele próprio, para sobreviver aos perseguidores, empenhou-se em apagar as pegadas.

Nos últimos anos, Carlos Marighella (1911-1969) inspirou a arte. Isa Grinspum Ferraz dirigiu o documentário Marighella, e Daniel Grinspum, o clipe “Mil faces de um homem leal”, com os Racionais. A música do vídeo havia sido composta por Mano Brown para o filme de Isa. Caetano Veloso reverenciou o conterrâneo com a canção “Um comunista”. O ator Wagner Moura se prepara para estrear na direção de longa-metragem adaptando para o cinema a biografia que eu escrevi. A produtora O2, de Fernando Meirelles, é parceira de Wagner na empreitada.

A vida fascinante de Marighella — goste-se ou não dele, de suas ações e de suas ideias — não se limitou às pelejas da revolução. Desde criança, o filho de italiano e de filha de escravos se dedicou à poesia. Ganhou fama em Salvador aos dezessete anos, não em virtude das querelas da política, mas ao responder em versos rimados uma prova de física no ensino médio.

Aos dezenove, calouro do curso de engenharia civil, fantasiou uma odisseia por Lavras Diamantinas, Jeremoabo e Canudos, terras baianas, e o Saara africano. Concluiu:

 

Andei como o diabo! Enfim… eis-me de novo aqui:

Quero ver se descubro se já me descobri.


O mais renitente adversário de Marighella na Bahia foi Juracy Magalhães, interventor (governador nomeado) do Estado quando o estudante Marighella foi preso pela primeira vez. Corria o mês de agosto de 1932, e o universitário acabou encarcerado com cinco centenas de colegas ao participar de um protesto. Na cadeia, bolou uma versão de “Vozes D’África”, o clássico de Castro Alves.

“Vozes da mocidade acadêmica” principia assim:

 

Juracy! Onde estás que não respondes!?

Em que escusa latrina tu te escondes,

Quando zombam de ti?

Há duas noites te mandei meu brado,

Que embalde desde então corre alarmado…

Onde estás Juracy?

 

Fecha:

 

Basta, senhor tenente! De teu bucho

Jorre através das tripas

Um repuxo de Judas e sandeus!

Há duas noites… eu soluço um grito…

Escuta-o, conclamando do infinito

‘À morte os crimes teus!’.

 

Reproduzi na biografia numerosas poesias de Marighella, das líricas às eróticas. Para assinalar os 45 anos de sua morte, compartilho aqui no Blog da Companhia dois poemas inéditos do revolucionário poeta.

* * *

Em maio de 1939, Marighella foi preso pela polícia política do Estado Novo, iniciando um período de quase seis anos de cana. No quarto onde o militante clandestino vivia em São Paulo, os tiras encontraram dois sonetos de autoria de certo “Dr. Carijó”, como Marighella os assinara.

Os poemas tripudiavam sobre os ativistas da AIB (Ação Integralista Brasileira), fascistoides que haviam sido colocados fora da lei pelo governo do ditador Getúlio Vargas, chamado de “Gegê” por Marighella. Os integralistas eram espinafrados como “galinhas verdes” pelos contendores ideológicos. Seu líder era o jornalista e escritor Plínio Salgado.

Um dos sonetos se intitulava “Verde ilusão”. Garimpei-o no processo judicial preservado pelo Arquivo Nacional:

 

Olá! Meu caro Plínio, estás salgado

Com a baiana mestraça do Gegê!

Parecias o Príncipe Esperado

E agora, de AIB, és ABC!

Eu te supunha cabra quilotado

E és mais arisco que um zabelê!

Hoje, que o teu balão está furado,

Que fazes? Ninguém te ouve, ninguém te lê?

Quem dantes via a crista que sustinhas

Juravas que eras trunfo e bambambão,

Peso pesado, braço, trinca-espinhas!

Calcula que tremenda decepção

Quando o femeaço verde dos galinhas

Viu que tu não és galo e sim… capão!”

* * *

O jornalista Claudio Leal me enviou em dezembro de 2013 um e-mail com o assunto “Marighelliana” e contou: “Topei com algo que pode lhe interessar. É um poemeto de circunstância de Marighella, dos tempos do veranico legal dos comunistas, em 1947, pouco antes da cassação do registro do PCB. Encontrei-o num caderno de mensagens de uma ex-auxiliar da Câmara Federal chamada Helena Prado”.

O generoso Claudio, um dos maiores talentos da sua (jovem) geração, fotografou os versos manuscritos de Marighella — a letra inconfundível era mesmo dele. Observou: “Pelas mensagens [de deputados como Nelson Carneiro, Jorge Amado e Marighella], depreende-se que Helena era loira e superlativamente bonita”.

O deputado federal Marighella versejou, em 28 de janeiro de 1947:

 

Cantar o que é belo, sim,

mas numa quadra pequena,

que tem somente por fim

falar do seu nome, Helena.

Mesmo assim…

Muita gente com certeza

afirmará que os “comunas”

não rendem culto à beleza.

* * * * *

Mário Magalhães é jornalista, blogueiro do UOL e ex-ombudsman da Folha de S. Paulo. Recebeu 25 prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior. É autor da biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012). A obra foi agraciada com o Prêmio Jabuti, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, o Prêmio Brasília de Literatura, o Prêmio Botequim Cultural, o Prêmio Direitos Humanos e o Prêmio Casa de las Américas. Seu próximo livro, cujo tema ainda é segredo, sairá pela Companhia das Letras em 2016.

Semana cento e vinte e seis

Os lançamentos desta semana são:

Marighella, de Mário Magalhães
“Cuidado, que o Marighella é valente”, disse Cecil Borer, diretor do Dops carioca, antes de despachar uma equipe para capturá-lo em seguida ao golpe de 64. De fato, Carlos Marighella, um dos mais destacados revolucionários do século XX, demonstrou muita valentia nos trepidantes 57 anos e onze meses de que dispôs. Foi dirigente comunista, deputado e guerrilheiro. Assaltou banco, escreveu manuais para a luta armada e poemas. Considerava-se discípulo de Marx e Lênin, mas condenava a ortodoxia: esse tipo de rigor, costumava dizer, é coisa de religião. Monitorado tanto pela CIA quanto pelo KGB, Marighella manteve-se ativo por quase quarenta anos de militância, da década de 1930 à de 1960. Viveu clandestino, articulou greves e conspirou por revoluções. Neto de escravos, o guerrilheiro recusava a tutela do medo. E foi intrépido até o fim.

Herança de sangue, de Ivan Sant’Anna
Desde sua fundação por bandeirantes paulistas até meados do século XX, Catalão — atualmente uma próspera cidade do interior goiano — era o lugar mais perigoso do Brasil para forasteiros desavisados. Histórico ponto de repouso das mais variadas espécies de aventureiros em busca de enriquecimento rápido, a localidade foi cenário de terríveis massacres e disputas políticas de lances cinematográficos. Os pistoleiros e valentões catalanos eram famosos em todo o vale do rio Parnaíba, e ainda mais além, por sempre resolver as discussões, até as mais irrelevantes, no tiro ou na faca. Assassinatos cometidos para solucionar questões “de honra” também vitimaram gerações e gerações de famílias rivais, envolvidas numa selvagem espiral de vingança. Neste relato real, mas que parece ter saído das melhores páginas de ficção, Ivan Sant’Anna reconstitui a assombrosa saga de violência da cidade, construindo uma narrativa tão envolvente como um bom filme de faroeste.

Mick Jagger, de Philip Norman (Trad. Álvaro Hattner e Claudio Carina)
Mick Jagger é o astro da música que melhor encarnou o ideal de sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Nesta que é a mais completa biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman apresenta um relato sem precedentes da trajetória de uma lenda viva. De estudante no interior da Inglaterra a superstar do rock nos anos 1960 e ídolo global, o autor decifra a mítica em torno do vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos com uma intimidade de quem acompanhou o mito em sua formação. Hoje, sir Mick Jagger é um respeitado avô de quase setenta anos, mas sua imagem e voz ainda inspiram fãs admiradores. Esta biografia restitui ao astro sua dimensão humana, retratando um personagem complexo, vulnerável e afetivo.

Esaú e Jacó, de Machado de Assis
Originalmente publicado em 1904, Esaú e Jacó trata de uma “história simples, acontecida por acontecer”: dois jovens bem-nascidos, os gêmeos Pedro e Paulo, digladiam-se em intermináveis conflitos e reconciliações desde o útero da mãe até o começo da idade adulta. Os irmãos lutam pelo amor da “inexplicável” Flora Batista, e o enredo desse embate é narrado em terceira pessoa pelo conselheiro Aires — alter-ego de Machado de Assis, que usa o personagem para as suas reflexões autorais. O narrador-personagem compartilha com o leitor suas indagações sobre a arte do romance, por isso, o crítico e professor Hélio Guimarães, que assina a introdução e as notas do volume, considera esta obra uma verdadeira “teoria da composição ficcional”. Ambientado no Rio de Janeiro durante os anos finais do Império e o início da República, o livro ecoa diversos acontecimentos da história do Brasil — incluindo a Abolição, a Proclamação da República e as revoltas contra o governo Floriano Peixoto —, além de passagens da Bíblia, da Divina comédia e do Fausto de Goethe.

Quem é Carlos Marighella?

A biografia Marighella — O guerrilheiro que incendiou o mundo chega às livrarias dia 29 de outubro, e o autor gravou alguns teasers com pequenas histórias que apresentam este personagem da história brasileira. Estamos divulgando um vídeo por semana, veja os cinco primeiros:

Mário Magalhães ministrará o curso “Luta armada, movimentos de resistência e comissão da verdade” no dia 30 de outubro, na loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura (Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP). Saiba mais: http://companhiadasletras.com.br/cursos/

Oitenta anos nesta noite

Por Mário Magalhães (publicado em 22 de agosto de 2012 no jornal baiano Correio)


No dia 22 de agosto de 1932, Carlos Marighella era preso pela primeira vez

Logo mais, quando a noite cair sobre o Terreiro de Jesus, completará 80 anos a primeira prisão de Carlos Marighella (1911-69), um dos baianos mais conhecidos do planeta. Foi ali, no prédio da Faculdade de Medicina, que o então estudante de engenharia civil da Escola Politécnica da Bahia e outros 513 universitários se renderam às tropas de Juracy Magalhães, o interventor despachado para o Estado pelo presidente Getúlio Vargas.

Em 22 de agosto de 1932, nasceu uma história política que só terminaria a bala, com o assassinato de Marighella. Ou melhor, pareceu terminar: nunca ele foi tão falado e comentado como hoje.

A internet e a MTV exibem clipe com direção de Daniel Grinspum e música dos Racionais MC’s, dedicada ao revolucionário carimbado pela ditadura militar (1964-85) como seu inimigo número um. Por todo o Brasil, também em Salvador, os cinemas passam Marighella, filme de sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz.

A revista piauí de agosto narra a prisão, em 1964, do antigo deputado federal comunista (1946-48). É a íntegra do primeiro capítulo do meu livro “Marighella — O guerrilheiro que incendiou o mundo”. A biografia consumiu nove anos de trabalho. Sai em outubro, pela Companhia das Letras.

Exatas oito décadas atrás, Marighella era um dos acadêmicos do ensino superior que reivindicavam a elaboração de uma Constituinte democrática no país. Aqui em Salvador, eles se uniram aos garotos do legendário Ginásio da Bahia, que se mobilizavam pelo adiamento das provas. Ocuparam a Faculdade de Medicina, gritaram slogans contra o autoritarismo, proclamaram “Às armas, baianos!” e empunharam velhos fuzis de Canudos.

Um homem foi morto na refrega com militares e policiais. O bacharel Nelson Carneiro, um dos líderes da ocupação e futuro senador da lei do divórcio, foi detido e tomou uma tunda dos tiras. Encarcerado por dois dias, Marighella compôs na penitenciária um poema atacando Juracy, que não o perdoou. Os originais do inquérito, em papel almaço intacto, foram uma das minhas fontes para reconstituir o episódio.

Muito tempo mais tarde, no finalzinho dos anos 1960, Marighella e sua organização armada, a Ação Libertadora Nacional (ALN), viriam a receber apoio de celebridades como o pintor Joan Miró, o filósofo Jean-Paul Sartre e os cineastas Jean-Luc Godard e Luchino Visconti.

No Brasil, colaboraram com a ALN artistas como Augusto Boal, Norma Bengell e Glauber Rocha — como Marighella, ex-aluno do Ginásio da Bahia, colégio depois denominado Central. Os escritos de Marighella viajaram mundo afora. As buscas no Google estampam seu nome como autor de textos reproduzidos em idiomas, para nós, exóticos.

Por mais que tenha se tornado uma personalidade internacional, Marighella jamais diluiu sua identidade — “Sou um mulato baiano”, definiu-se à poeta Ana Montenegro (entrevistei-a para o livro).

No Ginásio da Bahia, ele se beneficiou da reforma implementada pelo educador Anísio Teixeira. Teve aulas com a primeira mulher a lecionar na instituição, Heddy Peltier Cajueiro (outra entrevistada). Sua prova de física respondida em versos jamais foi esquecida, testemunhou um aluno bem mais novo, o futuro governador Antonio Carlos Magalhães (também entrevistado).

Candidato vitorioso a deputado em 1945, Marighella apoiou na campanha a construção de um estádio na Fonte Nova — por coincidência, nascera ali pertinho, como revela sua certidão. Pelejou de novo contra Juracy Magalhães, seu colega na Constituinte de 1946. Subiu no palanque do candidato a governador Otávio Mangabeira, em 1947, e não tardou a romper com ele.

Teve como motorista o camarada João Falcão (com quem conversei), depois um dos empresários mais bem-sucedidos do Estado. Foi amigo de Jorge Amado e Zelia Gattai. Caetano Veloso e Gilberto Gil (este me deu depoimento em Brasília) simpatizavam com sua luta.

O trio elétrico passa pela família Marighella: Osmar Macedo, um dos seus criadores, foi aprendiz na oficina mecânica do italiano Augusto, o pai de Marighella, na Baixa dos Sapateiros. A mãe, Maria Rita, era uma descendente de escravos africanos vinda ao mundo em maio de 1888, o mês da Abolição.

A prisão em 1932 e a perseguição desencadeada pelo poema escrito na cadeia o impediram de se formar engenheiro. Em 1934, ele ingressou no Partido Comunista, como lembrou em detalhes numa autobiografia manuscrita em Moscou e à qual tive acesso. Marighella foi dos poucos brasileiros espionados pela CIA, agência dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo monitorados pelo KGB, sua congênere da ex-União Soviética.

Suas batalhas ecoaram longe, mas Marighella teve uma história entrelaçada como poucas à da Bahia e seu povo. Quando lançar o livro em Salvador, entregarei ao seu filho, o advogado Carlos Augusto Marighella, preciosidades documentais que acumulei na garimpagem de informações por quase uma década. Será o meu tijolinho para a construção de um memorial Marighella em sua terra.

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Mário Magalhães nasceu em 1964, no Rio de Janeiro. Formou-se em jornalismo na UFRJ. Trabalhou nos jornais O Globo, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. Recebeu cerca de vinte prêmios e menções honrosas no Brasil e no exterior, entre os quais o Prêmio Vladimir Herzog, o Prêmio Dom Hélder Câmara, o Prêmio Folha de Reportagem e o Prêmio Esso de Jornalismo. Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo será lançado em outubro e já está em pré-venda (Livraria Cultura | Livraria Saraiva | Livraria da Travessa | Submarino | Fnac).