martha batalha

10 livros nacionais lançados (até agora) em 2016

Na nossa última lista, apresentamos alguns lançamentos estrangeiros do Grupo Companhia das Letras que saíram até o último mês. Agora chegou a vez de conhecer alguns dos nossos lançamentos nacionais para não deixar nenhum livro de fora da sua lista de futuras leituras. Saiba mais sobre as melhores ficções e não ficções brasileiras publicadas até agora em 2016!

1) Outros cantos, de Maria Valéria Rezende

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No final de 2015, Maria Valéria Rezende ganhou o prêmio Jabuti por Quarenta dias. Logo depois, no comecinho de 2016, mais um livro da escritora que vive em João Pessoa foi lançado pela Alfaguara. Em Outros cantos, ela apresenta uma narrativa comovente sobre passado e futuro. Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou sua vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.

2) Esta terra selvagem, de Isabel Moustakas

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Quem é Isabel Moustakas? A pergunta ficou na cabeça dos leitores quando o livro Esta terra selvagem foi lançado em março. Em seu livro de estreia, a autora usa a cidade de São Paulo como cenário de um thriller sangrento repleto de crimes de ódio. João é um repórter policial de um grande jornal paulistano, sem muita sorte na vida pessoal e profissional. Mas sua vida muda quando uma jovem que assistiu à tortura e ao assassinato brutal dos pais — um boliviano e uma descendente de italianos -, e que depois fora abusada das piores maneiras, lhe faz um relato de cada detalhe perturbador do que havia presenciado. Ao final do depoimento, a garota tira a própria vida diante dos olhos dele. A partir deste terrível episódio, o repórter irá seguir pistas que o levarão a um suposto grupo racista que vem cometendo atrocidades contra imigrantes, negros, judeus, nordestinos, gays e quaisquer pessoas que considera impuras.

3) A vida invisível de Eurídice Gusmãode Martha Batalha

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Nossas mães, tias e avós são facilmente reconhecíveis neste romance de Martha Batalha. Nos anos 1940, Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São mulheres invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Marta Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias.

4) Quadrinhos dos anos 10, de André Dahmer

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As tirinhas de André Dahmer são uma das melhores representações dos anos em que vivemos: os anos 2010. Quadrinhos dos anos 10, lançado em maio pela Quadrinhos na Cia.,  tem uma receita simples: três ou quatro quadros em sequência, contendo a mais dolorosa e mordaz crítica à vida moderna. O humor dessas páginas nasce da mesma angústia que sentimos diante das complicações contemporâneas que o autor tenta destrinchar — a política brasileira, a tecnologia, as relações pessoais. Mas as tiras não são pesadas e duras: pelo contrário, são tão engraçadas quanto os absurdos do dia a dia.

5) Histórias naturais, de Marcílio França Castro

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Marcílio França Castro participou da Flip deste ano, dividindo a mesa que levou o nome de seu livro com o mexicano Alvaro Enrigue. Exibindo um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa, o autor se debruça sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana neste volume de contos. A partir de situações aparentemente corriqueiras, um mundo de extravagâncias absorve o leitor, fazendo-o desconfiar das armadilhas que construímos para nós mesmos e para os outros.

6) Minhas duas meninas, de Teté Ribeiro

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A jornalista Teté Ribeiro tentou engravidar durante quase uma década, e estava quase desistindo da maternidade biológica quando resolveu tentar uma última vez por meio de uma barriga de aluguel na Índia. E deu certo: Teté agora é mãe de gêmeas. Minhas duas meninas é o relato dos detalhes que marcaram essa experiência — a relação com a mãe indiana, o dia a dia logo após o nascimento, todas as particularidades da clínica e os dilemas pelas quais passa uma mãe que não carregou suas filhas na própria barriga. Em parte livro de memórias, em parte retrato de geração, mas também reportagem exemplar, Minhas duas meninas é uma radiografia dos dilemas da mulher contemporânea.

7) Os visitantes, de B. Kucinski

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Imagine que você é um autor que escreveu um livro sobre a busca de um pai por sua filha desaparecida durante a ditadura militar. Após o livro ser publicado, lido e criticado, personagens dessa história começam a aparecer à sua porta apontando erros na história, reclamando de como foram retratadas. É esse o enredo de Os visitantes, de Bernardo Kucinski. Personagens de seu romance anterior, K.: Relato de uma busca, ressurgem em sua vida para tirar satisfações sobre como a história foi contada.

8) A Bíblia do Chede Miguel Sanches Neto

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Em meio a escândalos na política brasileira, A Bíblia do Che é um romance que conversa muito com o que estamos vivenciando agora. Morando em Curitiba, o professor recluso Carlos Eduardo é contratado para uma missão insólita: localizar um exemplar da Bíblia com anotações que Che Guevara teria feito durante uma passagem pelo Brasil. Para além da incerteza que ronda a jornada do revolucionário pelo país, a tarefa tem um complicador, justamente na forma de uma dama fatal, a esposa do operador financeiro que o contratou. Peça-chave no mistério da Bíblia do Che, Celina enlaça o professor ainda mais na teia de intrigas que circunda o livro. Em pouco tempo, o operador aparece morto e a investigação de Carlos Eduardo, que antes pertencia ao âmbito dos colecionadores de livros raros, evolui para uma rede de crimes que envolve governo, construtoras, dinheiro sujo de campanha e caixa dois.

9) O conto zero e outras histórias, de Sérgio Sant’Anna

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Um dos maiores contistas do Brasil, Sérgio Sant’Anna lançou em julho mais uma coletânea de textos. Neste que é um de seus trabalhos mais pessoais, Sant’Anna combina lembrança e imaginação para recriar viagens, impressões e momentos únicos que se perderam no tempo. Se é a memória que conduz essas histórias, a força está na maneira como a ficção refaz o passado. Lembranças de uma viagem com o irmão, do primeiro cigarro, de mulheres que cruzaram sua vida, tudo isso serve de pretexto para que Sérgio Sant’Anna atravesse com o leitor um caleidoscópio de estilos e vozes tão belo, complexo e múltiplo quanto sua obra.

10) Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, de Elvira Vigna

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E para terminar, temos o lançamento de uma de nossas maiores autoras brasileiras: Elvira Vigna. Como se estivéssemos em palimpsesto de puta chegou às livrarias no mês passado, e narra o encontro de dois estranhos num verão do Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

Sentiu falta de algum lançamento? Então conte aqui nos comentários. E fique de olho, ainda em 2016 teremos mais grandes lançamentos da nossa literatura. :)

Duas ou três coisas sobre Jonathan Franzen

Por Martha Batalha

Jonathan Franzen, DeLand, Fla. Nov. 22, 2010.

Franzen escreveu três grandes romances — As correções, Liberdade e Pureza. As correções é sobre a desintegração de uma família americana, a partir da doença do patriarca. Liberdade é sobre os altos e baixos de um casamento. Pureza, que sai agora no Brasil, é sobre uma jovem criada por mãe solteira, que busca a identidade do pai (e sobre muitas outras coisas — integridade, privacidade, traição). Tramas à parte, os três livros são, na verdade, sobre a mesma coisa: as dificuldades de relacionamento, as influências do meio, as mudanças que os anos trazem. As metamorfoses do amor e os erros inevitáveis de cada pessoa.

O autor escreveu outros dois romances, The 27th City e Tremor (o primeiro ainda não foi publicado no Brasil). São seus trabalhos de estreia, esteticamente perfeitos e sucessos de crítica. Mas falta algo — falta molho, falta Franzen. Ele só se tornou Franzen com As correções. Neste livro os parágrafos continuam impecáveis, mas há um jogo de cintura e um senso de humor que não vêm apenas do domínio da escrita, mas do fato de ele estar se expondo no livro, e se divertindo durante o processo. Tem muito amor em As correções. O livro foi escrito enquanto Franzen via a desintegração da própria família. O pai apagava aos poucos, vítima de Alzheimer.

Tremor e The 27th City não são irresistíveis como os últimos romances de Franzen, mas ajudam a entender o processo de formação de um escritor. O estilo de Franzen chega aos poucos — aparece em nuances de The 27th City, está mais presente em Tremor e se consolida com As Correções.

A má notícia: Ele escreveu um famoso ensaio para a revista Harper´s chamado “Why Bother” [Para que se preocupar?], que deixa qualquer escritor preocupado. Convence o leitor de que a literatura está acabando, que a cultura de massa, a necessidade constante de estímulo e o tempo fragmentado impedem a produção e a leitura de grandes romances. E isso foi antes da contaminação do mundo por Google e Facebook.

A boa notícia: O ensaio foi publicado depois de Franzen escrever os dois primeiros romances (aqueles que foram sucesso apenas de crítica). Ele ainda não tinha formado uma conexão com seus leitores, não tinha entendido que literatura é também exposição pessoal, que era preciso “abandonar o senso de responsabilidade e aprender a escrever por diversão, e para entreter”.

Seu livro de ensaios Como ficar sozinho é uma declaração de amor aos livros e à leitura. É bom voltar a ele de tempos em tempos — principalmente quando esta nossa cultura fragmentada — tema recorrente no livro — nos corta as horas fundamentais de silêncio dedicadas a um livro (qualquer livro, e apenas um livro). Como ficar sozinho confirma o que nós, leitores, sempre soubemos. Que a leitura é o segredo para nunca estar sozinho. Qualquer pessoa que lê (muitos livros, durante muitas horas) cria um mundo à parte, formado apenas pelo leitor e os autores.

Três iniciativas de Franzen que todo o escritor gostaria de ter feito e / ou deveria fazer:

  • Depois de se formar ele alugou um apartamento com a mulher, comprou quilos de arroz e de frango e se desligou do mundo. Escrevia oito horas por dia, lia cinco horas por noite.
  • Num momento de crise de escrita (forçando a barra para produzir um roteiro que sabia não ser bom), ele deixou seu estúdio na Filadélfia, pegou dinheiro emprestado e sublocou um loft em Nova York. No loft também não conseguiu escrever. Mas deu-se o direito de ler oito horas por dia, sem interrupções.
  • Franzen escreve de um quarto semiescuro, com protetores de ouvido e num computador sem conexão com a internet.

Em outro ensaio do livro Como ficar sozinho ele divide os escritores em dois grupos, Status e Contrato. No grupo de Status ficam os escritores que acreditam apenas no valor estético da obra. O livro se basta como obra de arte, independente de ter ou não leitores. No grupo de Contrato ficam os escritores que acreditam na conexão entre o livro e os leitores. Segundo ele, a ficção deve ser feita levando em conta estes leitores, já que o principal objetivo da literatura é formar uma comunidade entre escritores e leitores para combater a solidão. Leitura é prazer, e conectividade.

O autor empacou no meio de Liberdade. Achava que o livro era para ser uma coisa e estava se tornando outra, passou cinco anos tentando replicar no romance o modelo de As correções. Tinha também uma culpa imensa, por estar trancado em um quartinho fazendo ficção, com tanta coisa errada acontecendo no mundo. Decidiu abandonar o manuscrito e escrever uma reportagem para a New Yorker sobre questões ambientais na China. O artigo saiu, e não obteve o retorno de público ou a mudança do mundo desejados. Entendeu ali que era melhor ficar trancado em seu quartinho fazendo ficção. Era o que sabia fazer de melhor. Depois de mais quatro anos publicou Liberdade, um livro com uma trama forte o suficiente para fazer o leitor se afundar no texto, sem se importar com as distrações do mundo.

Pureza é como Liberdade, e As correções. Um livro típico do modelo Contrato, capaz de gerar uma forte conexão entre autor e leitor. Franzen construiu uma comunidade sólida, com leitores dispostos a doar muitas horas de seus dias em troca das quinhentas (ou setecentas) páginas de seus romances. Talvez o Franzen daquele ensaio da Harper [Para que se preocupar?] tenha razão. Talvez a literatura esteja se esvaindo do mundo. Talvez exista cada vez menos espaço para a leitura, porque os livros e a leitura são anticapitalistas em si — demandam tempo e solidão, em vez de estímulos e consumo. Mas, se for verdade, Franzen é um excelente jogador neste time de escritores perdedores: seus romances são grandes armas de resistência.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

O melhor da literatura brasileira

Por Martha Batalha

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Lendo outro dia o fundamental Os cem melhores contos brasileiros do século, eu encontrei uma frase que ficou comigo por muito tempo. Não é daquelas que nascem para epígrafe, como essa da Elsie Lessa:

“Qual o hormônio, e destilado por que glândula, que dá a uma mulher o gosto de engomar, tão alvamente, a sua toalha bordada para a bandeja do café?”

Ou daquelas que merecem ser sublinhadas, como a definição de genialidade brasileira de Alcântara Machado:

“Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute.”

A frase que me conquistou é muito mais simples. Tem apenas quatro palavras, que são:

“O padeiro está nu.”

O padeiro está nu, diz a vizinha para o homem nu, ao encontrá-lo no corredor do prédio tentando cobrir o corpo com uma bisnaga. Depois disso a vizinha grita, chama a polícia, outros vizinhos aparecem, o homem nu esmurra a porta de casa e a esposa finalmente abre.

A cena está no breve conto “O homem nu”, de Fernando Sabino. Li a história pela primeira vez quando tinha 11, 12 anos, naquela coleção que marcou uma geração, a “Para Gostar de Ler” (se não me engano, a capa tinha um menino colocando um filhote de tartaruga para nadar na pia). Nos anos seguintes eu me esqueci do conto, mas jamais me esqueci da sensação de ler o conto, que foi boa.

Trinta anos depois eu reli, sem a ingenuidade da primeira vez — às vezes eu invejo aquela menina que lia sem a carga de conhecimento que tenho hoje. A menina que lia só por prazer, e se surpreendia por tão pouco. O fato é que, na segunda leitura, eu vi muito mais do que um conto engraçado.

Vi um conto que reflete o que eu mais gosto na literatura brasileira. É breve (os escritores brasileiros não são de escrever calhamaços), é leve e despretensioso. É pouco mais que uma piada, é um conto com jeito de crônica.

É também um conto sem excesso de palavras. Que diz o que tem que dizer no lugar e na hora certos — e por isso meu amor à frase “o padeiro está nu”.

Quando essa frase aparece o leitor abre um sorriso, e esta escritora, sabendo que o leitor abrirá um sorriso, deseja escrever frases assim. É a minha busca diária. A frase perfeita, no parágrafo perfeito, na história perfeita. A frase simples.

É muito, muito complicado escrever simples. Dá um trabalho danado. E o Brasil conseguiu, neste sentido, criar algumas gerações de estrelas. João do Rio, Machado de Assis, Luiz Edmundo (que merece urgentemente uma reedição). Vinicius de Moraes e Antônio Maria, elogiado num perfil de Vinicius como “um dos primeiros a liberar a língua do seu engravatamento vernacular”. Rubem Braga, que resume numa crônica o motivo de muitas outras: o que ele quer mesmo é escrever uma história muito engraçada, para fazer rir a moça doente, a cozinheira e o casal mal-humorado. Fernando Sabino, que deseja fazer uma última crônica tão pura quanto o sorriso de um pai humilde, celebrando o aniversário da filha com três velinhas sobre um pedaço de bolo de padaria. Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto (que dizia que Paulo Mendes Campos, outro fera, penteava o cabelo com ventilador). E nem dá para citar todos, certamente deixaria alguém de fora, embora seja bom terminar com alguns contemporâneos: Verissimo, que uma vez se definiu como um dinossauro político, e que eu defino como um dinossauro das crônicas — o homem é imenso, e sabe tudo, há muito tempo. Ruy Castro, que quando escreve é como se só tivesse entre ele e o leitor uma mesinha de botequim — como você consegue, Ruy, como? Cora Rónai e Zuenir, Tati Bernardi e Antonio Prata. É muita gente boa.

É interessante escrever sobre estes autores de onde moro, na Califórnia. O preço da mudança de país é sentir no peito saudades constantes. Esta saudade aparece na minha escrita, e na minha estante. Eles estão aqui comigo, todos estes que citei, e muitos outros. Eles me contam do Brasil, me ensinam sobre parágrafos e me deixam tranquila. Preenchem as prateleiras acima dos livros sobre técnicas de escrita, o que diz muito sobre sua função. Porque, quando penso na frase perfeita, não são os livros teóricos que me vêm à mente. Mas o jeito de escrever dos meus mestres brasileiros.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 

Mulheres

Por Martha Batalha

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Foram duas semanas de extremos, com o perfil da bela e recatada Marcela Temer, e da voluptuosa e luxuriante miss Bumbum. E ainda teve Erundina gritando “É golpe”, depois de Cunha manobrar uma eleição na Câmara contra os direitos das mulheres. O deputado Flavinho do PSB dizendo que mulher “de verdade” não quer poder, quer é ser amada. O cancelamento de uma palestra sobre direitos das mulheres no colégio Salesiano, em Niterói, porque grupos religiosos associaram o tema à pauta de esquerda.

Nos meses anteriores teve Câmara aprovando projeto que dificulta o aborto legal. E a mulherada indo pra rua, com muita raiva do autor da proposta, Eduardo Cunha (ele, de novo, como sempre). Enquanto isso, editoras do mundo inteiro negociavam a publicação dos livros esgotados ou não traduzidos de Svetlana Aleksiévitch, como o que traz depoimentos de mulheres russas no front da Segunda Guerra. A desconhecida Elena Ferrante, com sua escrita universal, lançava best-sellers que contêm o ponto de vista feminino (uma literatura sobre mulheres, e não para mulheres). E Chimamanda Ngozi Adichie vendia centenas de milhares de exemplares de seu preciso e precioso manifesto feminista (onde diz, simplesmente, que feminismo é tratar os outros com respeito).

Que época para ser mulher, escrever, e tentar entender o Brasil e o mundo. É o que penso o tempo todo, foi o que pensei ontem, depois de terminar a releitura de 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura. Olha, Zuenir, a gente está com um 1968 por mês, quero ver quem será o gênio capaz de escrever 2016, o ano que englobou uma década.

No meio de tanta coisa eu me pergunto qual a missão do escritor (eu sei, missão é uma coisa meio 1960, mas acho mesmo que o escritor tem um papel a cumprir, principalmente em tempos conturbados como este). E acredito que este papel, esta missão, seja desconstruir estereótipos.

Marcela Temer, por exemplo. No fundo não importa se ela é bela, recatada e do lar. Que goste de cores claras, saias na altura do joelho e cabelos com luzes fininhas. Para mim ela poderia passar o resto de seus dias fazendo bolinhos de chuva para o filho Michelzinho, que eu não ligaria. O importante, no caso, é que uma reportagem escrita por uma mulher escolhe os termos “bela”, “recatada” e “do lar” como principal forma de definir — e elogiar — outra mulher. Não é Marcela que está errada, mas as escolhas da jornalista, e o espaço dado na imprensa para esse tipo de perfil.

Ou Milena Santos, a miss Bumbum e primeira-dama do turismo brasileiro. Esta nem precisa ser definida por jornalistas, porque se tornou um estereótipo de si mesma. Abandonada pela mãe, cresceu numa favela e usou o corpo como moeda de troca. E o corpo como moeda não é, neste caso, um problema em si. O problema é que Milena deve ter crescido tão influenciada por estereótipos (das novelas, das músicas, das revistas femininas), e acreditado tanto nas imagens pré-fabricadas, que se tornou, ela própria, uma imagem pré-fabricada.

Marcela Temer e Milena Santos me fizeram refletir sobre meu primeiro romance. Sem perceber (e acredito profundamente no subconsciente na hora da escrita) eu fiz das duas protagonistas, Eurídice e Guida, lutadoras contra estereótipos. Eurídice é tida como bela, recatada e do lar. Guida é vista como deslumbrante, efusiva e da rua. Durante toda a trama elas tentam se desfazer destes estereótipos. Isso em 1940.

Estamos em 2016, e as questões continuam as mesmas. A mudança da mulher na sociedade — e da percepção da mulher na sociedade — passa primeiro pela mudança da construção da imagem desta mulher. E isso é com a gente — escritores, editores, designers, roteiristas, músicos, pintores, desenhistas, jornalistas.

Outro dia li um quadrinho de uma desenhista de Brasília, a Lovelove6. Em poucas linhas ela deu um recado fundamental para quem faz arte hoje no Brasil:

“Autores costumam considerar suas tramas apenas quando a mulher tem função sexual no roteiro, ou quando o foco da sua representação é estereotipado — a mãe, a filha, a esposa, a mulher, a prostituta.” No caso da protagonista, a mulher é “jovem, branca, magra, atraente e heterossexual, de traços finos e cabelos lisos”.

Para Lovelove6 (e para mim), não tem que ser assim. E esta é a parte mais linda:

“Sério, caras, as mulheres não precisam despertar o seu tesão e vocês não têm que querer comer todas. Na maior parte das vezes as mulheres estão por aí, existindo de boa, como as pessoas fazem. Se virando, trabalhando, querendo ter pensamentos complexos e profundos, querendo vencer e crescer, como você.”

É isso, companheiros artistas. A marquinha de catapora no queixo de uma mulher não tem que ser sexy. Pode ser a lembrança de uma noite de muita febre na infância, em que foi gostoso dormir na cama dos pais. A gente usa minissaia não para despertar instintos, mas porque aqui faz quarenta graus. Mulher também faz os cálculos para ver quando vai se aposentar, sonha com aquela casinha de campo, já pensou em estudar violão ou tocar tambor. Acorda suada depois de um pesadelo, cheira o garfo com comida, corta as unhas perto do sabugo e depois se arrepende. Já cogitou largar tudo e recomeçar muito longe. Consegue — ou não — fazer as palavras cruzadas sem olhar para as dicas da última página. Tem medo — ou não — de espíritos. Jogou no bicho, quase acertou a quina, perdeu tempo numa fila, se irritou com a porta giratória do banco. E até mesmo Marcela Temer com todo o seu recato, e Milena Santos com todo o seu silicone, ou as duas com todos os seus estereótipos, já pensaram, sentiram ou viveram algumas das coisas descritas acima.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Semana duzentos e noventa e três

Foe, J.M. Coetzee (Tradução de José Rubens Siqueira)
Neste clássico da literatura contemporânea, publicado originalmente em 1986, o prêmio Nobel J.M. Coetzee reinventa a história de Robinson Crusoé. No início do século XVIII, Susan Barton se vê à deriva após o navio em que viajava ser palco de um motim de marinheiros. Ao desembarcar em uma ilha deserta, encontra abrigo ao lado de seus únicos habitantes: um homem chamado Cruso e seu escravo Sexta-feira. Cruso é um sujeito irascível, preguiçoso e autoritário: perdeu interesse em fugir da ilha ou mesmo em rememorar os eventos que marcaram sua chegada àquele lugar. Sexta-feira, por sua vez, não pode falar: teve a língua cortada, não se sabe se por proprietários de escravos ou pelo próprio Cruso. Depois de um ano, eles são resgatados por um navio que rumava para a Inglaterra, mas apenas Susan e Sexta-feira sobrevivem à viagem a Bristol. Determinada a contar sua história, ela busca um famoso escritor de seu tempo, Daniel Foe, na esperança de que ele escreva um livro sobre sua experiência na ilha. Mas com a morte de Cruso e a incapacidade de articulação de Sexta-feira, a tarefa se mostra mais difícil do que pensava. Vaidoso, Foe insiste em adaptar a narrativa a seus caprichos. Susan, por sua vez, tem de convencê-lo de que sua versão é melhor e luta para manter viva a memória de um passado do qual permanece como única testemunha — ou ao menos a única capaz de transformar aquela experiência em linguagem. Traiçoeiro, elegante e inesperadamente lírico, Foe é uma das obras de construção mais complexa na carreira de um mestre absoluto da literatura.

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha
Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha.  Enquanto acompanhamos as desventuras de Guida e Eurídice, somos apresentados a uma gama de figuras fascinantes: Zélia, a vizinha fofoqueira, e seu pai Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; e o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.

O livro dos bichos, Roberto Kaz
Um dos grandes nomes do novo jornalismo brasileiro, Roberto Kaz chegou a escrever sobre figuras das artes, do futebol e da política, mas especializou-se em textos sobre animais. Cada bicho serve para conduzir o leitor a um universo desconhecido. Assim, quando fala de um touro reprodutor, Kaz revela todo um mundo de negociações milionárias e intrigas políticas. Quando conta sobre a quase extinta ararinha-azul, dá um panorama rico e informado a respeito do protecionismo ambiental. Quando perfila uma celebridade animal, revela uma guerra de patentes nos bastidores da maior emissora do país. Sempre com empatia, Kaz extrai desses bichos histórias carregadas de tristeza e humor, que revelam tanto sobre o mundo animal quanto sobre nós mesmos.

Alfaguara

Memorial da fraude, Jorge Volpi
No auge da crise imobiliária de 2008, um dos mais respeitados gênios financeiros de Nova York é acusado de desfalcar seus clientes em quinze bilhões de dólares — uma fraude histórica que o alça ao rol dos grandes criminosos financeiros de nossa época. Enquanto narra suas confissões, o protagonista admite: “sou um canalha e um ladrão”. Ao mesmo tempo, faz questão de expor outros criminosos que atuam no mercado financeiro e cometem fraudes ainda piores.

Diário do farol, João Ubaldo Ribeiro
Em Diário do farol, um clérigo amoral e inescrupuloso relata as maldades que perpetrou ao longo da vida. Os maus-tratos que sofreu na infância mudaram profundamente sua forma de ver o mundo: ele constatou que não havia motivos para ser bom, e decidiu que seria para sempre mau. Deixando de lado o filtro de qualquer valor moral, o padre lança mão de astúcia, dissimulação, violência e todo tipo de recurso torpe para atingir seu principal objetivo — tornar-se o pior dos seres humanos.

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