martin kohan

O medo bem construído

Por Vivian Schlesinger

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Você se lembra onde estava no dia 14 de junho de 1982? Nem eu. Mas muita gente se lembra. Todos os argentinos, por exemplo. Nesse dia, o general Mario Menéndez assinou a rendição da Argentina à Grã-Bretanha, perante o general Jeremy Moore, selando a derrota na Guerra das Malvinas. Mas os argentinos sofriam humilhações muito mais pessoais, íntimas até. Como sei disso? O romance Ciências morais recria aquilo que só a ficção pode trazer: o medo e a vergonha da época. O autor, Martín Kohan, nascido na Argentina, publicou coletâneas de ensaios e contos e nove romances, três deles traduzidos para o português: Duas vezes junho (Amauta Editorial, 2005), o premiado Ciências morais (Companhia das Letras, 2008) e Segundos fora (Companhia das Letras, 2012).

Nos dias 22 e 24 de junho, no auditório da Companhia das Letras, em São Paulo, será oferecido o curso “A guerra e o medo na ficção de Martín Kohan”. No primeiro dia, será apresentada uma introdução à obra do autor. No segundo dia, o autor delineará os reflexos da história de censura e guerra em sua ficção.

Kohan é um autor de fazer medo. Essa é uma de suas obsessões. Com suas raízes literárias firmemente arraigadas nos escritores europeus do começo do século XX (Adorno, Benjamin, Arendt), mas regado pelas águas bélicas e ditatoriais do Río de la Plata (San Martín, Saer, Chejfec), produz uma literatura que consegue dizer tudo que já foi dito de forma nova, sem hermetismo mas sem facilidade. Ciências morais, por exemplo, que relata o papel de María Teresa, uma jovem inspetora de alunos em uma escola tradicional de Buenos Aires durante a Guerra das Malvinas, trata do tédio na vida das pessoas, da sensação de impotência mediante um chefe autoritário, do prazer cruel — e fugaz — em vigiar o outro. María Teresa esconde-se no banheiro dos rapazes para descobrir um possível fumante entre eles. O que começa como cumprimento do dever torna-se inconfessavelmente lascivo.

Mas acima dela há outros com ainda mais zelo e menos escrúpulos, cujo tédio ela será convocada a aliviar. Como em tantos de seus romances, Kohan delineia a Argentina de então (e de agora, talvez). O medo permeia cada página, assim como estava misturado ao ar das escolas aos campos de futebol. Quando não havia o que temer, temia-se o medo. Não é fato que cães ferozes farejam o medo em você? Se houver cães por perto, não sinta medo, eles saberão. Mas a palavra medo não aparece em sua prosa. “O conformismo oculta o mundo em que se vive. É um produto do medo”, segundo Walter Benjamin. Nesse jogo de esconde-esconde, os personagens de Kohan — estudioso de Benjamin — optam pelo conformismo e pagam o preço. Não há heróis, e mesmo o vilão não tem um rosto único. Pode exibir talvez um bigode, uma farda, mas sua identidade maléfica está no olhar do narrador. Um dia em que María Teresa está no banheiro, escondida em um cubículo, vigiando, ouve alguém entrar com passos decididos e que bate na porta sem exagero. É seu superior, Biasutto.

Dotado de um olhar complexo, ora em primeira pessoa, ora em terceira, o narrador de Kohan faz mais do que narrar, é estrutural. Conduzido pelas mãos do narrador, o leitor não poderá abandonar-se ao deleite fácil do enredo. Em Segundos fora, ele transforma em câmera ultralenta os dezessete segundos que discorrem entre o golpe de um boxeador que derruba o adversário para fora da lona e o reerguer do adversário, que volta para a luta. São mais de duzentas páginas que o leitor percorre sem parar, porque precisa saber como termina essa queda. O enredo central, a histórica luta entre Jack Dempsey e Luis Ángel Firpo em 1923, é o substrato para três enredos que acontecem em três épocas diferentes: a investigação de um crime que teria ocorrido exatamente no momento da luta; o rompimento entre dois jornalistas de um diário da Patagônia que discordam sobre esse e muitos outros assuntos, cinquenta anos mais tarde (1973); o presente (1990), quando um terceiro jornalista, que trabalhou com ambos, volta à Patagônia para o enterro de um deles. Para desafiar o leitor, há ainda vários narradores e relatos quase ensaísticos sobre Mahler, Strauss, Kafka, Freud, a Plaza de Mayo, futebol e, claro, sobre o boxe. E achados: “E vertigem para ele é isto: uma duração excessiva do ato de cair.”.

Enquanto lia Duas vezes junho, pensava “preciso terminar rápido para controlar essa taquicardia”. Mas não adiantou. A taquicardia volta cada vez que me lembro: “A partir de que idade se pode começar a torturar uma criança?”. Assim começa o relato feroz em linguagem pretensamente domesticada, de um narrador que tudo vê e ouve, mas finge para si próprio que não entende nada. Basta dizer que o cenário é Buenos Aires da Copa do Mundo de 1978. Utilizando seus recursos de concisão e contundência, Kohan reúne, por exemplo, em uma frase, a barbárie de que é capaz um médico, o horror do roubo de bebês, e ainda o preconceito racial. Assim vemos no doutor Padilla, médico do exército, ao comentar sobre uma criança que nasceria de uma grávida presa e torturada.

Kohan não escreve sob a ótica da militância, e sim da infância vivida na ditadura. Da amálgama entre ditadura e Copa do Mundo, ele diz, “A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota”. Parece familiar?

Há algo de obsessivo em sua atração pela obsessão. A minúcia na linguagem, o peso do detalhe (que ao final parece leve), o transtorno que leva à repetição dos atos, aparecem nos personagens e são, confessadamente, reflexos do ato literário. “Detenerse en cada palabra, elegir cada palabra, sopesar cada palabra. Me gusta escribir así. Probar esa intensidad de la escritura.” Valerá a pena ouvi-lo e descobrir como ele escolhe cada palavra para produzir uma das vozes mais originais e maduras da literatura hispânica contemporânea.

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Participe do curso A guerra e o medo na ficção de Martín Kohan, que acontece nos dias 22 e 24 de junho na Companhia das Letras, em São Paulo, às 19h.

A literatura argentina é fortemente marcada por sua história de guerras e ditadura. A obra de Martín Kohan não é exceção, como demonstra seu romance Ciências morais. Este curso ocorrerá em duas etapas: no primeiro dia, Vivian Schlesinger apresentará uma introdução à obra de Martín Kohan: seus ensaios, romances e contos; seu estilo e técnica narrativa; seus personagens e enredos mais marcantes. No segundo dia, Martín Kohan, com mediação de Vivian Schlesinger, irá delinear os reflexos da história argentina de guerra e censura em sua ficção.

Inscreva-se.

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Vivian Schlesinger nasceu em São Paulo, em 1955. É mediadora de sete clubes de leitura. Ministra oficinas de escrita criativa e crítica literária. Mediou debates com autores como Paulo Henriques Britto, Cristovão Tezza, Luiz Ruffato e Michel Laub, entre outros. Autora do livro de poemas Papaya Dawns (Dobra Editorial, 2011), é tradutora (Revista Machado de Assis), jurada em concursos literários, como Jabuti, e colunista do jornal Rascunho.

Semana noventa e três

Os lançamentos da semana são:

Vozes, Arnaldur Indridason (Tradução de  Álvaro Hattnher)
O porteiro de um luxuoso hotel de Reykjavík é encontrado morto em circunstâncias no mínimo estranhas: na cama manchada de sangue, Gudlaugur está com um traje de Papai Noel e um preservativo que parece conter traços de saliva. Ao chegar ao local do crime, o inspetor Erlendur, avesso às festividades de fim de ano em razão de um trauma de infância, decide ficar hospedado no hotel até o fim das investigações. Quem era, afinal, Gudlaugur, funcionário antigo do hotel mas que ninguém parecia de fato conhecer? Alguém frequentava o seu quarto? Para manter a reputação do lugar, ou preservar seus próprios interesses, os funcionários não dizem tudo o que sabem. Mas, entre as visitas da filha e as velhas lembranças que o aterrorizam, Erlendur embrenha-se aos poucos na misteriosa vida da vítima. Tendo como pano de fundo a atmosfera claustrofóbica do inverno islandês, Arnaldur Indridason cria um duro retrato do país, bem distante dos sonhos de Natal, onde intrincadas e violentas relações familiares se escondem sob as vozes do passado.

Preto no branco, Thomas E. Skidmore (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Em Preto e branco, Thomas E. Skidmore, decano entre os “brasilianistas”, examina como as elites intelectuais brasileiras enxergavam a sociedade multirracial do país nas últimas décadas do Império e nas primeiras da República. Com base nos escritos e discursos de uma grande gama de cientistas, políticos e romancistas, o livro revela que a intelligentsia local, influenciada por padrões e formas europeus, procurou acomodar as teorias racistas então em voga – que consideravam o negro inferior e condenavam a mestiçagem – à situação local. A solução original encontrada foi o “branqueamento” da sociedade, por meio da imigração européia. Skidmore mostra, no entanto, como as idéias deterministas foram gradualmente cedendo lugar a novas perspectiva, que davam ênfase aos aspectos positivos da miscigenação, e acabaram por produzir um consenso sobre a existência de uma “democracia racial” no país, tese que gerou uma percepção distorcida do racismo brasileiro. O livro é prefaciado por Lilia Moritz Schwarcz.

Segundos fora, Martín Kohan (Tradução de Heloisa Jahn)
De um lado, o embate mítico entre os boxeadores Jack Dempsey, campeão mundial, e Luis Angel Firpo, conhecido como El Toro Salvaje de lãs Pampas. De outro, a paresentação da primeira sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em BuenosAires, regida por Richard Strauss. Setembro de 1923 foi abalado por esses dois eventos, que décadas mais tarde concorrem para ser a matéria principal da edição comemorativa do cinqüentenário do jornal de uma cidadezinha na Patagônia. A disputa é travada por dois colegas jornalistas: enquanto Ledesma defende Mahler e a cultura erudita, Verani aposta na popularidade da luta que aconteceu em Nova York e foi transmitida pelo rádio, abalando o moral da nação Argentina. À margem desse debate, surge a notícia de um assassinato (ou terá sido suicídio?) naquela mesma época – um mistério não solucionado que será o ponto de interseção entre as esferas erudita e popular, que, à primeira vista, pareciam incompatíveis.

A magia da realidade, Richard Dawkins (Tradução de Laura Teixeira Motta; Ilustrações de Dave McKean)
De que são feitas as coisas? Por que existe noite e dia, inverno e verão? O que é o Sol? Quando e como tudo começou? Existe vida fora da Terra? A resposta para essas e muitas outras perguntas que fazemos sobre o planeta e o universo pode ser encontrada neste livro divertido e surpreendente sobre os cientistas e suas descobertas. Escrito pelo best-seller mundial Richard Dawkins e com ilustrações do renomado Dave McKean, A magia da realidade contrapõe antigos mitos em que muitos ainda acreditam a verdades científicas por vezes desconhecidas para mostrar que a realidade é bem mais impressionante que qualquer invenção.

O acendedor de sonhos, Dorothée Piatek e Gwendal Blondelle (Tradução de Eduardo Brandão)
Num tempo em que a noite tinha se tornado eterna, em que não existiam nbem plantas, nem mesmo água, um acendedor de sonhos trabalhava sem parar, tentando trazer um pouco de luz à Terra. Ele era tão grande que tinha que se curvar para não encostar no céu! Um dia, ele recebe um pedido especial: ajudar uma criança a regar uma flor feita de sol. Juntos em busca da água, os dois vão aprender que a Terra é um bem muito precioso que todos precisamos preservar.