marussia whately e maura campanili

A conta d’água está chegando

Por Maura Campanili

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A relação com as águas para quem nasce em São Paulo é uma questão complexa. Com nossos rios enterrados ou transformados em canais poluídos, falta ao paulistano uma referência próxima para além de um produto que sai das torneiras. Cresci achando que Tietê e Pinheiros eram clubes, e Pacaembu e Anhangabaú lugares de passagem. Parece estranho, mas em toda a minha vida escolar nunca ouvi dizer que água era um problema. Falta d’água na cidade — desde então já coisa comum –, era apenas um problema de infraestrutura, que seria resolvido com o progresso do país.

Talvez seja por isso que, quando comecei a trabalhar como repórter, tenha ficado muito impactada ao descobrir coisas que ainda hoje parecem não ser totalmente claras para os moradores da metrópole: São Paulo não tem água suficiente para sua população. A maior parte da água que consumimos vem de fora (por isso passamos os últimos dois anos preocupados com a chuva em Minas Gerais) e a que temos continuamos a poluir. Nossos principais rios foram retificados, canalizados e afastados da população por meio de grandes avenidas (o pobre Tamanduateí foi literalmente coberto por uma delas). Por isso, não há nada de surpreendente nas enchentes na cidade — os rios simplesmente ocupam a área que sempre ocuparam. Não dá para navegar nesses rios porque parecem um caldeirão de bruxa: a mistura podre que chamamos de “água do rio” explode em bolhas de fermentação.

Desde 1991, quando foi lançada a campanha pela despoluição do rio Tietê pela Rádio Eldorado e pela SOS Mata Atlântica, que promoveu um abaixo-assinado com 1,2 milhão de assinaturas — feito inédito para a época –, o governo teve que se mexer: em âmbito federal, foi encaminhado ao Congresso Nacional o primeiro projeto de lei que tratava da Política Nacional de Recursos Hídricos. Em São Paulo, foi criado o Sistema Estadual de Recursos Hídricos e teve início o Projeto Tietê, com recursos do BID e coordenado pela Sabesp, para a despoluição do rio. Desde então, muitos milhões foram gastos, com resultados altamente discutíveis, já que vemos muito pouco de resultados práticos. Por que as coisas não dão certo e onde essa situação vai nos levar em uma realidade  que ainda precisa considerar os efeitos das mudanças climáticas?

Questionamentos como esse fazem parte da abordagem do livro O século da escassez — Uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios, que escrevi com Marussia Whately, coordenadora da Aliança pela Água e companheira de longa data de discussões e trabalhos relacionados ao tema. Partimos da reflexão de Charles Fishman, autor da obra The Big Thrist, para quem o século XX será conhecido como o século dourado da água (com a revolução verde, exploração de aquíferos, produção de alimentos em áreas desérticas, transposição de rios, construção de represas, despejo de poluentes nos rios e solos, desmatamento das cabeceiras e margens de rios), e o atual será o “da grande sede”, ou seja, aquele no qual vamos ter que pagar a conta.

Acreditamos que não cabe falar em crise da água, pois crise é algo passageiro e os problemas relacionados à água são tão perenes quanto esperamos que sejam os recursos hídricos dos quais tanto dependemos. Para isso, precisamos lembrar que a distribuição da água é desigual no Brasil e no mundo, seja por falta de chuva, excesso de população ou poluição. Vários autores mostram que o sucesso das civilizações está diretamente relacionado com o uso que fizeram da água. Atualmente, vários dos conflitos que temos no mundo têm, em maior ou menor grau, algo a ver com disputas por água. O mesmo vale para as grandes tragédias climáticas, traduzidas em secas e enchentes. As vítimas são, na maior parte das vezes, os mais pobres. Para superar um desafio desse tamanho, é necessário criar uma nova cultura de cuidado com a água, ou seja, pactos, compromissos, mudanças de comportamento e de políticas, que só vão acontecer com a participação de cada um de nós.

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35053_gO SÉCULO DA ESCASSEZ
Sinopse: Um dos indícios de que o Brasil não se deu conta da complexidade do tema é o jargão “crise da água”. Por definição, as crises são períodos de exceção dentro da normalidade. O que vemos, no entanto, é um cenário de difícil reversão. Boa parte dos rios estão poluídos; a indústria, a agricultura e as hidrelétricas consomem grandes quantidades de água e a distribuição irregular no território pode acentuar conflitos políticos e comerciais à medida que a água se tornar um bem cada vez mais raro. O século da escassez apresenta os principais conceitos sobre o tema, mostra dados estatísticos com foco no território brasileiro e aponta caminhos possíveis para evitar o colapso no abastecimento. Mais do que o seu uso consciente, o que está em jogo é o modo de vida do homem moderno e a busca por alternativas que revertam o caráter predatório desse recurso essencial para a nossa sobrevivência.

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Maura Campanili é jornalista e atua há mais de vinte anos na área socioambiental como repórter, editora, coordenadora de comunicação e escritora. Trabalhou, entre outros, na Agência Estado, SOS Mata Atlântica e Instituto Socioambiental. Desde 2004, está á frente do Nuca – Núcleo de Conteúdos Ambientais.

Semana trezentos e oito

Companhia das Letras

O melhor do humor brasileirode Flávio Moreira da Costa (Organizador)
De relatos e poemas anônimos dos primórdios da nossa colonização aos grandes nomes do humor atual, este volume — com textos garimpados durante anos por Flávio Moreira da Costa — é um passeio delicioso e instrutivo pelo olhar brasileiro mais sardônico. Os textos (crônicas, contos, poemas, trechos espertos de peças teatrais e de romances) contam o acidentado percurso do riso em nossa literatura. Modalidade vista às vezes com algum preconceito pelos letrados mais circunspectos, o humor tem se mostrado uma das forças-motrizes mais vitais e revigorantes das letras brasileiras. Muito deboche e inteligência ao longo de mais de 500 anos.

Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout (tradução de Sara Grünhagen)
Uma visita ao hospital serve de mote para este romance que fala da relação entre mãe e filha. Hoje autora bem-sucedida e narradora deste romance, Lucy está há três semanas num hospital se recuperando das complicações de uma simples operação para extrair o apêndice. Sofrendo de saudade das filhas e do marido, ela recebe uma visita inesperada da mãe, com quem não falava havia anos. Mas o que se segue durante as cinco noites em que as duas ficam juntas não são longas discussões de relacionamento ou uma reconciliação verbal. Estimulada pelo exercício da memória, a narradora convalescente lança um olhar aguçado e humano, sem sentimentalismos, para os acontecimentos centrais de sua vida: o isolamento e a pobreza dos anos da infância, o distanciamento de um núcleo afetivo desestruturado, a luta para se tornar escritora, o casamento e a maternidade. Meu nome é Lucy Barton está entre os livros indicados ao Man Booker Prize.

O livro de Aron, de Jim Shepard (tradução de Caetano W. Galindo)
A Europa está em chamas. Com a invasão da Polônia, Adolf Hitler dá início a uma das campanhas de guerra mais sangrentas da história da humanidade, num conflito que irá definir o destino de milhões de pessoas. Aron é uma dessas vítimas colaterais, um garoto cuja vida será transformada para sempre. Morando no campo, ele se vê forçado a mudar com a família para Varsóvia, cidade que vive dias de terror e é assolada pela fome e por uma onda de doenças. Conforme a necessidade aumenta, é obrigado a realizar pequenos trabalhos sujos no mercado negro, onde conhece uma fauna de meninos e meninas que, como ele, farão de tudo para sobreviver e ajudar suas famílias. À medida que o cerco alemão se fecha, a vida de Aron vai se tornando mais difícil. Perseguidos pela Gestapo, os garotos também sofrem extorsões de poloneses, se veem às voltas com a polícia e começam a guerrear entre si. Enfim separado da família, Aron vai parar num orfanato, sem saber que o destino daqueles internos já foi traçado pelo alto-comando nazista. O administrador do orfanato, no entanto, é o célebre médico Janusz Korczak, um humanista e pedagogo que adotará Aron como seu novo pupilo. Com a ameaça dos campos de concentração cada vez mais próxima, será que Aron conseguirá escapar do gueto e expor ao mundo as atrocidades nazistas, exatamente como Janusz espera?

Alfaguara

Fabián e o caosde Pedro Juan Gutiérrez (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman)
Cuba, anos 1960. Em um momento de turbulência política, o acaso une dois rapazes que aparentemente não têm nada em comum. Pedro Juan é um hedonista sedutor e insolente que leva uma vida caótica. Fabián, ao contrário, é um pianista recluso, frágil, medroso e homossexual. Apesar das diferenças, ambos possuem condutas que não se ajustam aos princípios ideológicos do novo regime de Fidel Castro. Anos mais tarde, seus caminhos voltam a se cruzar quando os dois são conduzidos a uma fábrica de enlatados onde trabalham os párias da sociedade revolucionária. Tendo como cenário uma Cuba efervescente e sórdida, Pedro Juan Gutiérrez narra em tom direto e visceral a amizade entre dois jovens que tentam, cada um à sua maneira, enfrentar a repressão e lutar pela liberdade.

Seguinte

O menino no alto da montanha, de John Boyne (tradução de Henrique de Breia e Szolnoky)
Quando fica órfão, Pierrot é obrigado a deixar sua casa em Paris para recomeçar a vida com sua tia Beatrix, governanta de uma mansão no alto das montanhas alemãs. Porém, essa não é uma época qualquer: estamos em 1936, e a Segunda Guerra Mundial se aproxima. E essa não é uma casa qualquer: seu dono é Adolf Hitler. Logo Pierrot se torna um dos protegidos do Führer e se junta à Juventude Alemã. Mas o novo mundo que se abre ao garoto fica cada vez mais perigoso, repleto de medo, segredos e traição — e talvez ele nunca consiga escapar.

Penguin-Companhia

Dom Casmurro, de Machado de Assis
Poucos romances examinam as artimanhas do ciúme com tanta sutileza como Dom Casmurro. Publicado em 1899, o livro permanece uma das mais fascinantes radiografias da traição, que, como o leitor mais atento perceberá, são supostamente duas: a de Capitu, exposta pelo marido Bentinho, e a da própria narrativa, revelada pela maneira como Bentinho modifica os fatos para corroborar suas suspeitas matrimoniais. Tudo isso se manifesta com graça e inteligência num romance que jamais parece esgotar suas possibilidades de leitura. Tanto que críticos como Roberto Schwarz e Susan Sontag consideram a obra de Machado um dos momentos mais altos da prosa ocidental do final do século XIX. Esta edição de Dom Casmurro conta com esclarecedora introdução de Luís Augusto Fischer e estabelecimento de texto e notas de Manoel M. Santiago-Almeida.

Quadrinhos na Cia.

Sopa de salsicha, de Eduardo Medeiros
Contando com uma legião de fãs na internet,Sopa de salsicha é a crônica do dia a dia de Eduardo Medeiros, um talentoso quadrinista metido em encrencas clássicas: aperto financeiro, mudanças de lar e um difícil projeto pela frente. O projeto é este romance gráfico, um trabalho de fôlego em que Medeiros narra, com ajuda da indefectível Baixinha e de outros quadrinistas, suas aventuras diárias e seus embates com o processo criativo, a vida nova em Florianópolis e as visitas de um Michael Bolton que talvez esteja tentando conquistar a sua mãe. Um dos mais talentosos nomes do novo quadrinho brasileiro numa história surpreendente sobre amadurecimento, mudanças importantes e chuveiros apertados.

Suma de Letras

Novamente vocêde Juliana Parrini
É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? Maria Rita foi embora para nunca mais voltar. Deixou para trás o marido, os pais, as irmãs e uma vida de pobreza em uma cidade pequena da qual sempre quis sair. Doze anos depois, ela volta como partiu: sem maiores explicações. Mas agora Maria Rita é a sofisticada Miah, acostumada ao glamour e à vida superficial de Hollywood. Ao chegar, ela se dá conta de que não foi a única que mudou: seu ex-marido, Leonardo Júnior, agora é um homem bem-sucedido, diferente do caiçara com quem ela se casou ainda muito jovem. Empresário de sucesso, Léo parece ter superado o trauma de ser abandonado pelo grande amor de sua vida, até que reencontra a mulher que pensou que nunca mais veria. Apesar da mágoa, ele não consegue deixar de ter vislumbres de sua Maria Rita sob a pele da arrogante Miah. E resistir à antiga paixão será o maior desafio que já enfrentou.

A livraria dos finais felizesde Katarina Bivald (tradução de Carol Selvatici)
Sara tem 28 anos e nunca saiu da Suécia — a não ser através dos (vários) livros que lê. Quando sua amiga Amy, uma senhora com quem troca livros pelo correio há anos, a convida para visitá-la na cidade de Broken Wheel, Iowa, Sara decide se aventurar. Mas ao chegar lá, descobre que Amy faleceu. Sara se vê desacompanhada na casa da amiga, em uma cidade muito pequena, e começa a pensar que talvez esse não seja o tipo de férias que havia planejado.  Com o tempo, Sara descobre que não está sozinha. Nessa cidade isolada e antiga, estão todas as pessoas que ela conheceu através das cartas da amiga: o pobre George, a destemida Grace, a certinha Caroline e Tom, o amado sobrinho de Amy.  Logo Sara percebe que Broken Wheel precisa desesperadamente de alguma aventura, um pouquinho de autoajuda e talvez uma pitada de romance. Resumindo: a cidade precisa de uma livraria.

O livro da escuridãode John Stephens (tradução de Regiane Winarski)
As aventuras dos irmãos Kate, Michael e Emma tomam o rumo final quando eles começam a busca pelo último Livro do Princípio — o Livro da Morte. Quando os três livros forem reunidos, seus poderes combinados podem ser invencíveis. Por isso, as três crianças correm contra o tempo para deter Magnus Medonho em sua caçada. É a vez de Emma embarcar em uma aventura entre dois mundos, enfrentando inimigos terríveis, monstros e fantasmas, e seus próprios medos mais profundos. Agora, ela deve aprender a dominar os poderes do livro mais perigoso de todos para que, com Kate e Michael, possa salvar o mundo do terrível confronto que Magnus Medonho está planejando; a batalha decisiva entre seres mágicos e pessoas comuns. Este é o último livro da trilogia de sucesso Os Livros do Princípio, que começou com O Atlas Esmeralda. Considerada pelo New York Times “o novo Crônicas de Nárnia”, a série de John Stephens conquistou fãs por todo o mundo.

Paralela

Majude Maju Trindade
Maju Trindade é uma garota simples, mas cheia de personalidade e atitude. Ela impressiona pelo visual, que mistura piercing no nariz com combinações de roupa tiradas de sua cabeça, assim como pelo jeito espontâneo com que fala tanto da vida no interior quanto de Justin Bieber. No seu primeiro livro, Maju, fica claro por que essa menina de 18 anos virou a namoradinha da internet brasileira. Com milhões de seguidores no Twitter, no Instagram e no YouTube, ela fala da sua infância, do seu trabalho, das viagens marcantes que fez e dos seus sonhos.

Companhia das Letrinhas

Quem tem medo de Curupira, de Zeca Baleiro (organização de Gabriela Romeu e ilustrações de Raul Aguiar)
O maior medo dos seres da mata é cair no esquecimento. O que seria da Mãe-D’água sem jogar seus feitiços, do Curupira sem pitar seu cachimbo e do Saci sem pregar peças? Aflitos com a falta de visitas na floresta, eles decidem ir à cidade para recuperar a fama e voltar a fazer parte da imaginação de crianças e adultos. Mas, para isso, vão precisar se adaptar à selva de pedra. O pop e o popular, o tradicional e o contemporâneo, o urbano e o rural são algumas das mesclas que aparecem em Quem tem medo de Curupira?, um musical escrito pelo cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Quarto título da coleção Fora de Cena, este volume inclui entrevista com autor e glossário de ritmos brasileiros.

Claro Enigma

O século da escassezde Marussia Whately e Maura Campanili
Um dos indícios de que o Brasil não se deu conta da complexidade do tema é o jargão “crise da água”. Por definição, as crises são períodos de exceção dentro da normalidade. O que vemos, no entanto, é um cenário de difícil reversão. Boa parte dos rios estão poluídos; a indústria, a agricultura e as hidrelétricas consomem grandes quantidades de água e a distribuição irregular no território pode acentuar conflitos políticos e comerciais à medida que a água se tornar um bem cada vez mais raro. O século da escassez apresenta os principais conceitos sobre o tema, mostra dados estatísticos com foco no território brasileiro e aponta caminhos possíveis para evitar o colapso no abastecimento. Mais do que o seu uso consciente, o que está em jogo é o modo de vida do homem moderno e a busca por alternativas que revertam o caráter predatório desse recurso essencial para a nossa sobrevivência.