mauricio lyrio

A primeira vez que traí um personagem

Por Mauricio Lyrio

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. No post de hoje, Mauricio Lyrio, autor de Memória da pedra, fala sobre sua primeira experiência cara-a-cara com o leitor em um clube de leitura.

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Com o primeiro livro publicado, podem vir outras iniciações, e foi assim que participei pela primeira vez e como autor de uma sessão de um clube de leitura.

A Companhia das Letras tinha lançado, em 2013, um romance meu, Memória da pedra, e algum tempo depois me convidou para participar de um clube de leitura em Brasília. Os integrantes leriam o romance ao longo do mês e, no dia marcado, eu conversaria com eles sobre o livro.

No palco do auditório da livraria, sobre as cadeiras dispostas em círculo, a atmosfera era de simpatia e gratidão, pela suposta generosidade do autor de se materializar num clube acostumado a discutir autores que não podiam estar presentes, por pertencerem a outro continente ou mesmo a outro século.

Ao longo das primeiras interações tudo transcorreu de maneira suave, como deve ser: discussões sobre o processo de escrita, a origem dos personagens e situações, as ideias por trás, a razão para esta ou aquela solução da história.

Já estávamos no terço final quando uma senhora até então calada levantou o braço para falar. Tinha uma voz muito segura, quase o tom de uma tutora, o que contrastava com os olhos pregados no livro aberto em seu colo. Fez alguns elogios protocolares e logo foi ao ponto que parecia lhe interessar: por que diabos eu tinha feito aquilo com o Romário no final?

No romance, Romário é um menino de rua que passa a morar com um casal de classe média alta do Rio de Janeiro. Ao cabo, faz algo grave supondo ser um gesto de retribuição e solidariedade.

Expliquei que uma solução mais solar para o personagem faria do livro um romance social edificante, o que jamais tinha sido minha intenção.

Balançando a cabeça de um lado a outro, os olhos nunca dispostos ao contato, a senhora disse que o final era cruel. Romário não merecia aquilo. Por sua trajetória, pelos afetos desenvolvidos.

Ponderei que não havia crueldade. Afinal no horizonte das páginas em branco do romance, em seu futuro oculto, o personagem continuava vivo. Não morreu nem sofreu qualquer dano físico.

Não morreu, mas fez algo horrível, ela retrucou. Perguntou o que eu tinha contra o rapaz.

Respondi que lhe tinha dado uma vida, ficcional ao menos. Não era uma prova de afeto. Mas tampouco era um indício de perseguição.

Não sei se ela disse que eu não tinha o direito de dar a alguém uma vida se era para desdobrá-la daquela maneira. Talvez tenha dito, ou imaginei depois. A frase passou a integrar a memória daquele diálogo.

Saí do clube de leitura ao mesmo tempo contente e intrigado. Contente por ter despertado numa leitora certa paixão sobre o comportamento de um ser que não existia para além das páginas do romance. Ela argumentava como se uma vida estivesse em jogo.

Intrigado, no entanto, por aquela curiosa disputa de apropriação dos rumos de um personagem. Em que momento o personagem acompanhado por um leitor ganha uma segunda vida ao refletir os sentimentos, valores e expectativas deste novo “autor”? Ou em que medida um personagem requer um desenvolvimento particular, numa direção específica, movido de maneira consistente por uma suposta essência, que se manifesta e reforça a cada ato e pensamento seu? Coerência psicológica vale mais do que a concepção estética do que deve ser uma obra de ficção? Talvez minha interlocutora estivesse correta ao sugerir que eu havia traído os desejos de libertação e curso autônomo do personagem, ao amarrá-lo à minha visão do que deveria ou não deveria ser aquele romance.

Veio à mente a resposta de Vladimir Nabokov quando lhe perguntaram o que achava da tese de E. M. Foster, hoje um tanto gasta, de que, no ato de se escrever um livro, os personagens podem ganhar vida própria, se apoderar da trama e ditar seu curso.

Com a mordacidade usual, Nabokov alegou que até simpatizava com os personagens do inglês em seu desejo de fuga dos lugares onde Foster os metia, mas no caso dele a história era diferente. Meus personagens são “galley slaves” (galeotes  escravos remadores de galé), dizia o russo.

Talvez eu não tivesse por que discordar.

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Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York. Seu primeiro romance, Memória da pedra, recebeu menção honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2010 e foi 2º lugar no Prêmio José de Alencar 2014, da União Brasileira de Escritores.

O Rio de Janeiro como personagem (ou o lugar onde se escreve)

Por Mauricio Lyrio

Pitch-up

Ian McEwan, Salman Rushdie e Martin Amis, três velhos amigos, marcam um encontro num prédio da esquina da rua 92 com a avenida Lexington, em Nova York, na noite de 22 de julho de 2013. Contam piadas, falam de seus novos livros, exaltam a genialidade do amigo comum, o recém-falecido Christopher Hitchens, fofocam sobre autores. Amis e Rushdie não resistem à velha mania de quebrar a solenidade de qualquer discussão mais séria declamando títulos reinventados de livros, filmes e músicas. Desta vez trocam “amor” por “sexo histérico”: “Hysterical Sex in the Time of Cholera”; “All You Need is Hysterical Sex”; “Shakespeare in Hysterical Sex”.

A conversa segue leve e ligeira, como deve ser, até que alguém da plateia (sim, o encontro íntimo era acompanhado por cerca de 800 pessoas) arrisca uma pergunta: mudar de país ou de cidade afeta significativamente a obra de um escritor? Rushdie olha os amigos. Prefere não mencionar o fato de que trocou a Índia pela Inglaterra e pelos Estados Unidos. Passa a palavra a Amis, o expatriado neófito, que fez a travessia inversa de Henry James e deixou Londres para morar no Brooklyn há dois anos. Amis pensa e pontifica: sim, o lugar de adoção pode afetar a obra de um autor, mas é preciso tempo de sedimentação para que o novo ambiente seja assimilado não apenas mentalmente, mas fisicamente, como se tivesse de percorrer a espinha antes de produzir sentido. “Stop, in the Name of Hysterical Sex”, diria Rushdie ou McEwan.

O lugar onde se escreve (e o lugar que se retrata) é um tema interessante da literatura, mas não necessariamente central — ao menos fora dos domínios da literatura de viagem ou da literatura regionalista, em que o lugar é o próprio foco (do olhar em deslocamento ou da busca de raízes). Na teoria literária, o espaço é o primo pobre do tempo, talvez porque, como queria Kant, o tempo é nossa forma mais fundamental de experiência, aplicável até àquilo que transcende o espaço: nossos sentimentos, ideias e percepções. Já se disse que o romance como gênero literário talvez seja, no fundo, uma tentativa de enfrentar a questão do tempo.  Depois de Kant e Bergson…, Proust.

Nem por isso o lugar é um não-lugar, ao menos na cabeça do escritor, que sabe da importância, em vários níveis, do espaço em que escreve: como domínio da privacidade (como reivindicava Virginia Woolf no caso das escritoras); como fonte de experiência; ou como cenário de ambientação de uma obra. E nisso não há regras rígidas, especialmente na relação entre ambiente externo e vivência pessoal. Embora o senso comum recomende ao escritor vivenciar o lugar antes de transformá-lo em literatura, tanto a proximidade como a distância podem ser formas de inspiração: Joyce foi viver em Zurique e Paris para escrever sobre a Dublin de Ulysses; e o próprio Rushdie escreveu, em Londres, Filhos da meia-noite e outros de seus romances que se passam na Índia.

Nem sempre a partida física significa um retorno mental. Nem sempre a distância é exílio. Hemingway e Fitzgerald foram à Espanha e à França não para redescobrirem os Estados Unidos de origem, mas para retratarem o Velho Mundo com olhos frescos. Nabokov fez o caminho inverso e encontrou não apenas um novo lar, mas uma nova língua e um novo cenário, casando idioma e ambientação em seus romances norte-americanos, como Lolita e Fogo pálido.

Há aqueles, como Machado ou Beckett, que já não percorriam caminho algum, mergulhados cada vez mais dentro de si, herdeiros de De Maistre na viagem em torno de seus quartos (ou mesmo de suas camas, como no caso de Proust). Há aqueles, como Kafka, Orwell ou Huxley, que conceberam lugares tão distópicos, que nunca foram nem poderão ser visitados senão na própria imaginação.

Não fui o autor da pergunta aos três ingleses, embora estivesse no auditório, ouvindo a conversa amena. Comecei a responder a mim mesmo, porque já me haviam perguntado algo parecido. Como foi a experiência de escrever, na Argentina e na China, o romance Memória da pedra, que se passa no Rio de Janeiro? Por que você quis, a mais de dez mil quilômetros de distância, transformar o Rio numa espécie de personagem do livro, com seus bairros, suas curvas, suas pedras? Respondi ao entrevistador que eu havia morado no Rio ao longo de 26 anos antes de deixar a cidade, e quis retratar o Rio daquele momento em que parti. Talvez eu devesse ter dito que, para melhor expressar aquilo que havia visto e vivido, eu precisava estar no ponto mais distante do planeta — eu, o exato antípoda, noturno e chinês, do carioca que, naquele mesmo instante, saía de casa e pisava o asfalto da rua ou a areia da praia sob o sol morno da manhã. Mas essa não teria sido uma resposta nem charmosa nem necessariamente verdadeira.

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Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York, onde vive atualmente. Em 2010, publicou A ascensão da China como potência, pela Fundação Alexandre de Gusmão. Seu primeiro romance, Memória da pedra, foi publicado em abril pela Companhia das Letras.
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Minhas memórias sobre “Memória da pedra”

Por Mariana Mendes

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Li Memória da pedra no carnaval, antes de ser publicado, por causa da Vanessa Ferrari, amiga e editora da Companhia. Ela estava com o primeiro romance do carioca Mauricio Lyrio impresso em word e veio me perguntar, na surdina, se eu não queria ler. Na verdade não foi tão na surdina assim. Em geral, tenho acesso aos livros da editora e acho que eles são muito bem compartilhados internamente por seus editores. Ela veio com charme e sedução, que é o modo preferido dos editores quando querem a minha opinião para pensar estratégias de divulgação do livro para o seu potencial leitor. Perguntei quem era o escritor, como o livro tinha chegado. Quis saber para estar em pé de igualdade de informações com ela, a editora. Quem trabalha no meio editorial sabe que às vezes informações prévias pesam, às vezes, não. A única certeza é que não existe ciência exata em se tratando de livros.

Sempre que na editora me pedem para ler algo, sei o que está em jogo. Em um primeiro momento, é a minha experiência de quinze anos trabalhando no departamento de educação e na divulgação dos livros entre professores. É claro que o meu olhar é para tentar extrair eventuais potencialidades da obra para este público. E ter acesso ao livro antes é o pulo do gato. Combinei com a Van que faria meus comentários na quarta-feira de cinzas. Ela me avisou que no dia seguinte o Mauricio estaria na editora.

Quando li, veio a paixão. Minha expectativa para o carnaval era alta, tinha a ambição de ler cinco livros. Não deu. Enquanto lia não parei de dizer, à minha volta, que estava impressionada, como eu estava gostando do romance, que não larguei até chegar ao fim. Sabe quando você termina um livro e precisa dar um tempo antes de pensar no próximo? É um misto de não ter disposição para mais nada com querer ficar revivendo a história. Li de domingo para segunda, com paradas necessárias para respirar e me situar, recobrar o fôlego. Com ritmo ágil, múltiplas tramas que se sustentam sem depender de explicações a todo o momento, personagens intensas.

O livro conta a história de Eduardo, professor de filosofia de universidade pública no Rio. Quando sai para dar aula fica observando no caminho uma turma de meninos pedindo dinheiro na rua. De digressão em digressão a respeito do seu passado, vai sendo levado a investigar se a morte de seu pai teria sido realmente acidental. O leitor é seduzido desde as primeiras páginas e a vontade é seguir em frente, de preferência correndo. Ao terminar, a sensação nebulosa de não saber se o que havia passado por mim era um filme, ou um livro. E as imagens do Rio de Janeiro como coadjuvante foram inspiradoras. Eu e o Luiz, aliás, elegemos uma preferida (leia o trecho abaixo). Na quarta-feira de cinzas a notícia de que eu tinha amado o livro se espalhou pela editora. Mentira, não foi assim tão rápido. Contei pra Van da minha empolgação com o livro e até me esqueci de dizer sobre a questão das adoções. “É um p… livro!”. Quando o Mauricio apareceu no dia seguinte conversamos um pouco. Pude dizer o quanto tinha gostado e que, com relação aos professores, era uma questão menor, o livro estaria aí para quem quisesse se aventurar.

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Trecho que começa na página 80:

Ao longo da subida, Eduardo e Laura pararam algumas vezes para olhar para trás. Viam o automóvel desaparecer na distância, o ponto de luz da carrocinha como referência do começo. Era preciso adaptar o passo aos degraus curtos, um degrau por vez parecia pouco, dois, um pouco demais. A escada fora projetada para os corpos menores de um século anterior, para penitentes que se dobravam com os olhos na pedra. A meio caminho, chegaram a um platô, uma espécie de mirante, que se abria para um pátio, um pequeno coreto, outra igreja. Começavam a avistar a cidade, as luzes que se estendiam sem limites em direção ao norte e só se interrompiam à direita, com as águas da Baía de Guanabara. Retomaram a subida, aproximaram-se da senhora que avançava de joelhos, coberta de branco, com seus movimentos lentos e regulares. A vela na mão iluminava a pedra manchada de antigos círculos de cera. Na outra mão, carregava um terço. Tinha o contentamento dos que pagam e a fadiga nas linhas grossas do rosto. Cumprimentaram-na discretamente.

Flutuando no alto, iluminada nos contornos, nas linhas de portas e janelas, a igreja parecia um barco em romaria, desenhado por uma criança de bom humor. A fachada de trás, onde terminava a escada, tinha o aspecto de uma prefeitura de vilarejo, com sua simetria simples, de formas regulares. As pirâmides magras dos campanários da frente, que já se avistavam da escada, eram apêndices externos, uma ideia tardia. A lateral extensa, elegante com suas janelas e arcos, era baixa para a fachada principal, como um edifício de dimensões próprias, projetado por outro arquiteto, mais sóbrio. Romário e Gilberto esperavam sentados no último degrau da escadaria, com um ar de cobrança.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Semana cento e cinquenta e um

Os lançamentos desta semana são:

Memória da pedra, de Mauricio Lyrio
Desde a juventude, Eduardo investiga a fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”. (Leia o post de Luiz Schwarcz sobre o livro)

Tipos de perturbação, de Lydia Davis (Trad. Branca Vianna)
Lydia Davis, uma das ficionistas mais importantes da literatura americana contemporânea, surpreende o leitor com a originalidade vertiginosa das 57 narrativas breves deste volume. Apagando as fronteiras entre ficção, ensaio e poesia, ela se vale das mais variadas formas, abordagens e estilos — do falso diário pessoal à paródia de análise sintática, do inventário ao epigrama — para flagrar seus personagens em momentos de solidão e insegurança. A sociedade norte-americana, com suas insuficiências e contradições, revela-se como que à revelia, nas frestas destes textos muitas vezes serenos na superfície. Aqui, o cotidiano mais convencional deixa à mostra seu substrato absurdo, assim como a linguagem sóbria esconde um humor irônico e matreiro. Não por acaso Franz Kafka é o protagonista de um dos contos. Assim como o escritor tcheco, Lydia Davis expressa com maestria literária o trágico e cômico descompasso entre o homem moderno e o mundo a sua volta.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron
O misterioso crime do Nocturama ocupa os noticiários. Em torno dele, giram as vidas de um entregador coreano, uma enfermeira especializada em pacientes terminais, um taxista com pendor para música clássica, um escrivão insone às voltas com a doença do pai e uma bióloga com pretensões televisivas. E, ao centro dessa trama cada vez mais macabra, está a criatura. Vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha, ela passa os dias num casarão do Bom Retiro, sem jamais sair à rua. Embora pareça uma criança, sua idade é indeterminada, bem como suas intenções. Em A tristeza extraordinádiria do leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron traz ao nosso tempo uma história que poderia pertencer à Inglaterra vitoriana. No lugar da neblina e dos lampiões a gás, um efervescente bairro de imigrantes no coração de São Paulo, onde convivem sucessivas gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Um ambiente ideal para o embate entre seitas secretas, assassinos em série e antigos mistérios de família.

A mente assombrada, de Oliver Sacks (Trad. Laura Teixeira Motta)
Quem nunca fechou os olhos antes de dormir e se deparou com uma série de luzes e manchas? Ou pensou ter ouvido ruídos e vozes que não estavam lá? Quem nunca, em suma, duvidou da própria mente em alguma situação? Para o neurologista Oliver Sacks, um dos grandes cientistas de nosso tempo, as alucinações são parte fundamental da consciência humana. Elas oferecem um vislumbre da arquitetura do cérebro e uma chave para muitos de seus mistérios. Praticamente todas as culturas buscaram experiências alucinógenas nas drogas, o que nos faz questionar até que ponto elas podem ter inspirado nossa arte, folclore e religião. Combinando erudição médica com relatos pessoais, Sacks investiga as causas e consequências das alucinações, seguindo a trilha de autoanálise e compaixão que marca sua obra.

Crônicas escolhidas, de Machado de Assis (Org. John Gledson)
Um Machado de Assis quase desconhecido se revela em suas centenas de crônicas, publicadas na imprensa do Rio de Janeiro entre 1859 e 1900. Nesta seleção, que abrange o principal período criativo de Machado, “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” estão a serviço da atenta observação do cotidiano brasileiro e carioca, bem como do noticiário internacional. Quase sempre sob pseudônimo, Machado se vale do “grande veículo do espírito moderno” — o jornal — para refletir sobre os acontecimentos de sua época. Testemunha privilegiada de marcos históricos como a Abolição, a Proclamação da República, a crise do Encilhamento e a Revolta da Armada, o autor também se debruça sobre questões como o comportamento no interior dos bondes, o casamento sem paixão e a naturalidade dos estrangeirismos na língua portuguesa. Com organização, introdução e notas elucidativas de John Gledson, este livro oferece uma amostra generosa da produção jornalística de nosso grande escritor, que como cronista fez escola, assim como Rubem Braga, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos. (Leia o post de John Gledson, organizador do livro)

Editora Seguinte

A elite, de Kiera Cass (Trad. Cristian Clemente)
A Seleção começou com 35 garotas. Agora, restam apenas seis, e a competição para ganhar o coração do prícipe Maxon está acirrada como nunca. Quanto mais America se aproxima da coroa, mais se sente confusa. Os momentos que passa com Maxon parecem um conto de fadas. Mas sempre que vê seu ex-namorado Aspen no palácio, trabalhando como guarda e se esforçando para protegê-la, ela sente que é nele que está o seu conforto. America precisa de mais tempo. Mas, enquanto ela está às voltas com o seu futuro, perdida em sua indecisão, o resto da Elite sabe exatamente o que quer — e ela está prestes a perder sua chance de escolher.

Editora Paralela

Restos mortais, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Fred e Deborah, jovens, lindos e saudáveis, estão desaparecidos. O pânico toma conta da cidade de Richmond, na Virgínia. Será que o casal de namorados teve o mesmo fim que os outros quatro jovens casais desaparecidos anteriormente? A ideia é aterrorizante,  pois nos outros casos as vítimas foram achadas, meses depois, em estado avançado de decomposição. Suspeitos multiplicam-se como cadáveres abandonados, num quebra-cabeça sinistro e labiríntico onde vamos encontrar, mais uma vez, a dra. Kay Scarpetta: a mais intrigante protagonista do gênero policial moderno.

Causas justas

Por Luiz Schwarcz



Sakineh Mohammadi Ashtiani

Foi num sábado de manhã que surpreendentemente recebi um telefonema de minha amiga Louise Dennys, editora da Knopf Canadá, com quem não falava há muito tempo. Um autor da Companhia das Letras, que trabalhava em Washington e havia conhecido o presidente Lula ao lançar seu livro no Brasil, disse a Louise que eu poderia ajudar a contatar o governo brasileiro, visando evitar o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani — a iraniana acusada de adultério e de cumplicidade no assassinato de seu marido.

— Luiz, eu coordeno um grupo que defende direitos humanos e me foi dito que só o governo brasileiro pode salvar Sakineh. A questão é premente, ela pode ser colocada no paredão do apedrejamento a qualquer momento. Você pode nos ajudar?

Na hora me ocorreram dois caminhos: tentar achar Marco Aurélio Garcia, que eu conhecera nos tempos em que trabalhei na Unicamp e que faria o assunto chegar ao presidente Lula, ou conversar com Alberto da Costa e Silva para que este me ajudasse a localizar o ministro Celso Amorim o quanto antes. Os dois caminhos se mostraram difíceis. Não encontrei nenhum contato que me levasse a Marco Aurélio rapidamente, e Alberto da Costa e Silva não encontrou prontamente o ministro Amorim. De qualquer forma, esperançoso, ele me passou um endereço eletrônico do Ministério das Relações Exteriores para onde podem ser encaminhadas mensagens do público.

— Pode mandar, meu filho, que no Itamaraty essas coisas costumam funcionar. Enquanto isso continuarei tentando encontrar o ministro Amorim.

Caprichei no teor do texto, para tentar chamar atenção de alguém relevante, bastante descrente no que Alberto me dissera.

Eu estava errado. Menos de um dia após enviar minha mensagem, recebi uma resposta de um assessor do Ministro, dizendo que já havia falado com Celso Amorim e que o governo brasileiro iria tentar ajudar, mas que era importante que o assunto não vazasse, para que o governo iraniano não soubesse do assunto pela imprensa.

Daí em diante uma correspondência ativa aconteceu entre o ministério, principalmente através do assessor do ministro, e o grupo ativista, passando por mim como mero intermediário. O resultado nós conhecemos: o assunto chegou ao presidente Lula, que ofereceu asilo para Sakineh. Suponho também que ocorreram prováveis gestões do ministro Amorim, que já havia se posicionado anteriormente contra casos semelhantes que aconteciam e ainda acontecem no Irã de Ahmadinejad. A mais que discutível política de aproximação do governo brasileiro com um governo autoritário e tirânico por vezes servia para causas nobres.

Em meio a esse evento, o tal assessor, de quem eu já ficara quase íntimo, um dia me fez a questão que mais temo, embora sua abordagem trouxesse uma delicadeza diplomática, e uma timidez com a qual me identifiquei. Perguntava-me se a Companhia das Letras ainda aceitava ler romances de escritores neófitos, e se apresentava como um deles.

Encaminhei o romance em questão para uma das nossas editoras, a Vanessa Ferrari, que vocês conhecem aqui do blog. Vanessa demorou um mês ou um pouco mais, e, corada como sempre, veio até a minha sala dizer que o livro era muito bom. Necessitava de trabalho, mas revelava um escritor de grande talento e potencial. Felizes, resolvemos bancar a aposta da Vanessa, mesmo sem a minha leitura.

Ela e Mauricio Lyrio começaram, desde então, a trabalhar juntos no livro. O autor aceitou inúmeras sugestões, fez várias versões, e depois de meses de idas e vindas, o original ficou pronto.

Memória da pedra seria um livro dos quais, de certa forma, eu me desincumbiria, num período especialmente atribulado de minha vida profissional. Entretanto, uma outra entusiasta do livro, Mariana Mendes, do departamento educacional da Companhia das Letras, inconformada, chamou minha atenção algumas semanas atrás dizendo:

— Luiz, você leu este livro? Tem que ler, é o máximo.

Hoje divido com a Vanessa, a Mariana e o Mauricio Lyrio meu entusiasmo por Mémoria da pedra, que li em uma sentada, com imenso prazer, há dois fins de semanas, em meu sítio. Fiquei encantado com um escritor que nasce muito maduro — desenvolvendo os personagens secundários com uma qualidade incomum, traço importante para avaliar o fôlego literário de um texto —, capaz de trechos belos como este que escolhi para encerrar o meu post. É uma alegria quando o acaso de uma causa humanitária tão justa leva a outra igualmente importante como a descoberta de um grande escritor.

P.S.: Procurei me informar agora sobre o que aconteceu afinal com Sakineh e não obtive nenhuma resposta assertiva. Minha amiga canadense, em resposta à minha questão, marcou um encontro pessoal comigo em Londres, que acontecerá na semana que vem. Enigma. Perguntei a uma amiga iraniana, cuja família ainda mora no Irã, e ela também não soube me dizer com certeza. Do que sei Sakineh continua presa, mas não foi apedrejada.

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Trecho de Memória da pedra, de Mauricio Lyrio:

A tristeza, a persistência das crises eram os sinais de que, ainda que ela o amasse, ele não seria capaz de tirá-la de seu estado. O amor era um costume, uma acomodação. Não adiantava amá-lo se ela mal podia tolerar sua presença. A figura dele representava, antes de tudo, a lembrança das dores dela, o testemunho de que, apesar de todo o charme e o brilho, era uma mulher no limite, cuja angústia era aliviada com a lâmina na perna, os dedos sobre o fogo, o golpe inesperado contra os cabelos. Era triste perceber a mudança súbita de tom e a repressão do sorriso, quando ela virava o rosto em direção à porta e descobria que não era a secretária ou um paciente que entrava em sua sala, mas ele, que decidira fazer uma visita sem avisar e via aquele rosto contrair-se como o corpo de um pequeno animal subterrâneo, como se precisasse reprimir os sinais de satisfação para que ele não se esquecesse de que era o principal responsável pela miséria estampada à sua frente.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.