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Carta a Mia Couto

Por Julián Fuks

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Foto: Fabio Uehara

No dia 28 de setembro, Mia Couto esteve no Brasil para lançar Sombras da água, segundo livro da trilogia As Areias do Imperador. Comemorando também os 30 anos da Companhia das Letras, o autor participou de um encontro em São Paulo que reuniu o escritor Julián Fuks e as cantoras Fabiana Cozza e Lenna Bahule. Entre leituras de trechos do livro e música, Mia Couto e Julián Fuks conversaram sobre as obras do autor moçambicano e também sobre sua parceria no Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, um projeto em que artistas de renome orientam novos nomes da literatura, música, cinema, teatro e outras áreas. Nesse encontro, Julián leu uma carta ao seu mentor, que você pode conferir agora aqui no blog.

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Estimado Mia,

Tudo poderia começar com um olá. Com um amplo meneio da mão eu fingiria estar abrindo as portas de todo um país, lhe daria cálidas boas-vindas, o acolheria com carinho como se entre milhares estivéssemos em família. Tudo poderia começar com um olá, mas não começa. Você ensina que tudo começa sempre com um adeus, e eu entendo que posso prescindir das formalidades, que as palavras têm que fugir desses agrados óbvios demais — e se fazer mais diretas, mais precisas, mais essenciais.

Escrever pode ser tão vital, você diz, que deixemos de sentir toda dor. Escrever é o gesto que se tece no vazio das mãos, que preenche de vazio o vazio, e que ainda assim nos assombra ao criar algo real, ao gestar algo maior. Na sombra das mãos sobre a folha branca parece que algumas palavras se antecipam. É pelas sombras das mãos que lhe digo quanto me alcança a dor através dos seus livros, quanto a dor se faz canoa que transpõe distâncias, que atravessa o largo rio que nos divide.

O meu ceticismo você já conhece, minha desconfiança de todo ímpeto ficcional, meu apego insistente ao mundo tangível. Preciso confessar, porém, que enquanto lia o seu livro me desertavam as precárias certezas, tremia o chão que nunca chegara a ser firme. A dor de Germano eu não sei se existiu, Imani talvez não seja mais que o sangue esquecido de uma mulher negra, o sangue convertido em tinta, e no entanto quão presentes se fizeram esses dois em meu mundo, quanto ainda agora me tangenciam.

Ninguém é uma pessoa se não for toda a humanidade, você diz, ou disse algum velho sábio de Nkokolani. Leio essa frase e me livro de todos os meus receios, me dispo dos meus pudores, me permito afirmar que uma verdade imensa se estampa aí. Imani é toda a humanidade, Germano é toda a humanidade, e é por eles que algo em mim se renova, é com eles que eu me faço mais humano. Têm esses seres, tão distantes no tempo e no espaço, um incrível poder evocatório: seus corpos são feitos de outro barro, outro é o século em que pairam suas vozes, mas quanto não guardam da nossa terra, dos nossos corpos. Não há sombra que não oculte outra sombra, você diz, e eu pergunto, já intuindo a resposta, se seremos nós as sombras ocultas em seus personagens, se eles existem para nos devolver a nossa humanidade.

Alguma vez você me contou, e isso eu não esqueceria, do seu primeiro encontro com Samora, o grande líder da independência moçambicana. Você era ainda muito jovem, imberbe, é provável, em seus olhos ainda não transbordavam tantas águas, e talvez por isso você não tenha sabido lhe oferecer as devidas respostas. Quem se lembra de alguma canção de infância?, perguntou Samora para silêncio geral. Quem se lembra de alguma história de infância?, insistiu para a sua estupefação. Pobre é quem não tem histórias — você disse que Samora arrematou –, o país que não tem histórias está condenado à morte.

Eu ouço essa história e me indago se Samora sabia, se intuía quem era o jovem que tinha diante de si. Depois percebo que isso não importa, que basta que você mesmo o soubesse, ou, menos ainda, basta que tenha se incumbido de recontar as muitas histórias de um povo tão rico, as muitas trajetórias a conformar uma única: a história de Moçambique. Depois me ponho ainda mais circunspeto e me pergunto quem um dia contará a história do meu país, desta ampla família que o recebe, quem percorrerá com as sombras das mãos as nossas cicatrizes. Não me refiro à história de qualquer tempo: hoje me permito indagar como será a narrativa deste presente que tanto nos inquieta, deste tempo de tantos golpes e ardis que nos afligem.

Mas isso já não lhe cabe responder, bem sei. A você talvez caiba perguntar se deve o escritor se ocupar do presente, e se é isso o que se alcança ao minuciar as infinitas dores de um tempo pretérito. É assim que podemos chegar a nos compreender, reescrevendo as muitas histórias ocultas debaixo da história oficial? Aqueles mortos cujas vozes você não deixou enterrar, aqueles mortos somos nós?

Tudo poderia terminar com uma palavra de admiração, apenas. Mas nada nunca termina: as palavras são muito imperfeitas; mesmo quando feitas para o adeus, só sabem ser um começo.

Julián

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Veja o vídeo completo do encontro com Mia Couto em São Paulo.

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Julián Fuks nasceu em São Paulo, em 1981. É autor de A resistência. Foi eleito pela revista Granta como um dos vinte melhores escritores brasileiros.

Semana trezentos e dezessete

Companhia das Letras

Diários II, de Susan Sontag (organização e prefácio de David Rieff e tradução de Rubens Figueiredo)
Dos anos turbulentos de sua viagem a Hanói, em pleno auge da Guerra do Vietnã, até a experiência como cineasta na Suécia e às eleições presidenciais americanas de 1980, este volume documenta a evolução de uma mente extraordinária. Em 1966, a publicação de Contra a interpretação lançou Susan Sontag da periferia do ambiente artístico e intelectual de Nova York para os holofotes de todo o mundo, sedimentando seu lugar como uma força dominante no mundo das ideias. Esses registros são um retrato inestimável dos pensamentos íntimos de uma das mais inquisitivas e instigantes ensaístas do século XX.

Roberto Civita: O dono da banca – A vida e as ideias do editor da Veja e da Abril, de Carlos Maranhão
Roberto Civita (1936-2013) era o dono da banca. No auge, seu império editorial – a Abril – teve 10 mil funcionários e mais de trezentos títulos. Workaholic, curioso, grande formador de talentos, homem de convicções fortes mas avesso a confrontos, Civita redefiniu o jornalismo no Brasil ao criar publicações como Veja e Realidade – e por influenciar os rumos do país e da sociedade por meio desses veículos. Das origens familiares na burguesia italiana à crise da mídia impressa no início do século XXI, Carlos Maranhão reconstitui, com elegância, isenção e rigor na apuração, os acertos e os fracassos dessa figura tão fundamental quanto polêmica na história da mídia brasileira.

Companhia das Letrinhas

Abecedário – Abrir, brincar, comer e outras palavras importantes, de Ruth Kaufman e Raquel Franco (ilustrações de Diego Bianki, tradução de Mell Brites)
Com este abecedário ilustrado, ganhador do Prêmio New Horizons, da Feira de Literatura Infantojuvenil de Bolonha, vai ficar fácil aprender a ler. Acompanhando as 26 letras que compõem o alfabeto através dos verbos e suas ações e vinhetas que vão além do óbvio, as crianças vão perceber como o mundo das palavras diz tudo sobre a nossa vida.

Alfaguara

Meninos em fúria, de Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento
O rock não morre. O punk não morre. E não morrerá enquanto existir fúria. Março, 1983. Diante de uma plateia atônita, Clemente e sua banda, os Inocentes, começam a tocar acordes rápidos. Ariel, o vocalista, cai do palco e segue cantando com o microfone desligado. Clemente, no baixo, toma os vocais. Caos e confusão, um show que se tornaria um marco do rock brasileiro. Em 1982, Marcelo Rubens Paiva havia acabado de sofrer o acidente que o colocara numa cadeira de rodas. Conhece Clemente e as bandas punks e começa a escrever seu livro, Feliz ano velho. Um livro vibrante — que se lê como um romance, mas onde tudo é estritamente real — que fala não só do movimento punk e da sublevação da periferia, mas também da abertura política brasileira, da fúria e do desencanto dos anos 1980.

Suma de Letras

Nós dois, de Andy Jones (tradução de Ângelo Lessa)
Se apaixonar é fácil. Difícil é o que vem depois. Durante dezenove dias, Fisher e Ivy vivem uma relação idílica e são praticamente inseparáveis. É claro que os dois sabem que estão destinados a ficar juntos para sempre, e o fato de se conhecerem tão pouco é apenas um detalhe. Nos doze meses seguintes, período em que suas vidas mudam radicalmente, Fisher e Ivy percebem que se apaixonar é uma coisa, mas manter uma relação é algo completamente diferente. Nós dois é um romance honesto e emocionante sobre a vida, o amor e a importância de dar valor a ambos.

Reimpressões

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
O último voo do flamingo (nova capa), de Mia Couto

ATUALIZAÇÃO: Mia Couto lança “Sombras da água” em São Paulo

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Depois de passar pelo Rio de Janeiro em um evento que contou com a presença de Maria Bethânia, Mia Couto chega a São Paulo para lançar Sombras da água.

Hoje, dia 28, o escritor moçambicano participa de uma conversa com Julián Fuks, autor de A resistência, e com as cantoras Fabiana Cozza e Lenna Bahule. O evento, que faz parte das comemorações dos 30 anos da Companhia das Letras, começa às 20h no Sesc Vila Mariana. Os ingressos já estão esgotados.

Mas amanhã, 29 de setembro, Mia Couto faz duas sessões de autógrafos de Sombras da água na capital paulista. Às 11h30, ele assina seu novo livro na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis. Mais tarde, às 19h, a sessão de autógrafos acontece na Livraria da Vila da Alameda Lorena.

Sombras da água dá continuidade à história iniciada em Mulheres de cinzas, romance histórico encenado à época em que o sul de Moçambique era dominado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza, no fim do século XIX. Alternando as vozes da africana Imani e do sargento português Germano de Melo, Mia Couto apresenta duas visões de mundo muito diferentes, porém profundamente interligadas nesta trama.

O próximo evento de 30 anos da Companhia das Letras acontece no dia 25 de outubro e terá a presença dos autores Ian McEwan, que lança no Brasil o romance Enclausurado, e David Grossman, que acaba de lançar O inferno dos outros. Saiba mais sobre os 30 anos da Companhia das Letras.

Mia Couto se encontra com Maria Bethânia nos 30 anos da Companhia das Letras

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Hoje (26), a partir das 20h, os leitores cariocas poderão participar de um encontro incrível: Mia Couto, que vem ao Brasil lançar seu novo romance, Sombras da água, conversa com uma das maiores cantoras brasileiras, Maria Bethânia. O encontro é gratuito e acontece na Sala Cecília Meireles. A retirada de ingressos acontecerá a partir das 17h, na bilheteria da Sala, com o limite de 2 ingressos por pessoa.Para a sessão de autógrafos de Sombras da água serão distribuídas 200 senhas por ordem de chegada na bilheteria no momento da retirada dos ingressos.

Sombras da água dá continuidade à história iniciada em Mulheres de cinzas, romance histórico encenado à época em que o sul de Moçambique era dominado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza, no fim do século XIX. Alternando as vozes da africana Imani e do sargento português Germano de Melo, Mia Couto apresenta duas visões de mundo muito diferentes, porém profundamente interligadas nesta trama.

O encontro com Mia Couto e Maria Bethânia é o segundo evento que comemora os 30 anos da Companhia das Letras. O autor também estará em São Paulo na quarta-feira, dia 28 de setembro, com Julián Fuks, Fabiana Cozza e Lenna Bahule. E em outubro, a comemoração será com os autores David Grossman e Ian McEwan. Saiba mais sobre os 30 anos da Companhia das Letras.

O evento desta segunda-feira será gravado e disponibilizado no nosso canal no YouTube.

Capas de dentro

Por Angelo Abu

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Em maio, escrevi neste espaço sobre como recebi a missão de ilustrar as capas de quinze (na época seriam catorze) livros do escritor moçambicano Mia Couto, que estão sendo reeditados pela Companhia das Letras em uma nova coleção, e sobre o processo de criação de cada uma.

Já havia, então, manifestado o desejo de conhecer Moçambique, que cresceu pela imersão no universo do autor em que me encontrava e da necessidade que sentia de ampliar o meu repertório visual e cultural sobre aquele país. Pesquisar pela internet era como olhar pelo buraco da fechadura e a necessidade de atravessar de vez o portal começou finalmente a se condensar em decisão. Moçambique representava mais do que uma pesquisa de campo, mas uma oportunidade de cruzar uma fronteira entre realidade e ficção. De adentrar fisicamente no universo que estava ilustrando.

Mas não queria ir como turista, estava determinado a conhecer o país mais a fundo, através de uma relação mais próxima com as pessoas de lá. Passei cerca de um mês e meio providenciando visto, pesquisando e fazendo contatos diversos, até que me vi com uma vasta rede trançada para me receber da maneira mais intensa e econômica possível.

Naquele momento de preparativos, ainda antes partir, cheguei a ilustrar três capas (afinal, há um cronograma que segue): Na berma de nenhuma estradaVozes anoitecidas e Estórias abensonhadas, todos de contos.

mia2Algumas delas já se beneficiaram dos novos contatos. O alcance de profundidade da minha pesquisa havia crescido consideravelmente, com tantas fotos e opiniões para consultar. Percebi, por exemplo, nas fotos, que as mulheres enroladas em capulanas (cangas estampadas com padronagens africanas, mas geralmente fabricados em Java), equilibrando algum objeto na cabeça e, muitas vezes, um bebê nas costas, eram onipresentes no país, parte da identidade nacional. Foi então que pensei nas árvores desfolhadas sobre suas cabeças como alegoria da perda de referências e do desenraizamento que o contexto de pós-guerra gerou em muitos dos personagens dos contos de Na berma de nenhuma estrada. Além de uma ótima oportunidade para homenagear aquelas equilibristas presentes em todo país.

 

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Diferente dos romances, em que procuro fazer uma interpretação do todo, nos livros de contos primeiro espero que alguma imagem salte voluntariamente do texto. Se não, procuro dar um sentido visual para o título ou busco alguma interseção de sentido entre os contos. Foi o caso de Vozes anoitecidas, em que os pássaros estavam presentes em várias estórias. Há o corvo vomitado, os pássaros sagrados de plumas brancas, o pássaro da morte e também aqueles em que as mulheres se transformam. Optei por esta revoada noturna (Anoitecida) de uma espécie de pássaro sagrado genérico que não fosse nenhum dos que acabei de citar, mas que ao mesmo tempo fossem todos eles, uma afro-fênix ou algo assim.

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Já em Estórias abensonhadas o conto “O cego estrelinho”, logo no começo do livro, destacou-se para mim e comecei a construir aos poucos uma imagem que refletia não só ele, como também o “abensonhadas” do título.

miaaaResultou em uma silhueta estrelada (como devem ser os objetos percebidos na cegueira: cheios de noite sem lua) em contraste com uma constelação de sóis (que tanto propiciam a visão, como também podem cegar). Pesquisando sóis-mandala-moçambicanos como referência, o mais aproximado do que havia pensado que consegui encontrar foi este ao lado, de Burkina Faso. Arrisquei uma versão baseada nela e submeti à avaliação dos meus novos amigos virtuais para saber se estava muito fora da estética moçambicana. Todos a consideraram pan-africana o suficiente… Que poderia ter sido inspirada na arte de qualquer parte do continente sub-saariano. Aceitei o veredito. Mas minhas incertezas nas tomadas de decisões deste tipo só reforçaram para mim que a travessia do Atlântico, para a qual me preparava, havia sido uma decisão acertada. Precisava atravessar a fechadura, saber pelos meus próprios olhos como seriam os sóis vistos da berma de lá.

 

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Até que chegou o dia de partir. Um dos contatos que fiz previamente foi com o Centro Hakumana, uma instituição que trabalha educando e prestando assistência a pessoas com diversos problemas sociais e de saúde. Me dispus a passar as manhãs dando oficinas para as crianças de lá em troca de estadia e comida. Um escambo perfeito, ótima maneira de me aprofundar na cultura, economizar na viagem e de contribuir para um projeto que me parecia bem bonito. E assim foi.

De um dia para o outro estava cercado de novidades, vivendo uma outra dimensão da nossa língua, outra dimensão de existência. Uma experiência que acabou por transcender as capas, se desdobrando em diversos ramos. Em poucos dias, vínculos fortíssimos foram criados sem que eu me desse conta. Além do próprio Mia, que finalmente tive o prazer em conhecer, fiz diversos amigos. Trabalhei com meninos de 8 a 15 anos com ilustração de estórias inventadas ou recontadas por eles em roda, à sombra de uma mangueira (tudo devidamente gravado). O resultado foi maravilhoso, completamente interrompido por minha pré-marcada data de retorno. Voltei ao Brasil certo de que este é um trabalho que quero dar continuidade, mas antes havia ainda sete livros pela frente para ler e ilustrar suas novas capas. E muita informação para aos poucos digerir.

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mia7Li Na varanda do frangipani e Antes de nascer o mundo no decorrer da viagem. Passava os primeiros dias em Moçambique procurando frangipanis para fotografar como referência até que descobri que esta árvore era uma velha conhecida do Brasil, aqui chamada de jasmim-manga, tão comum no sul da Bahia, onde moro. Fotografei vários, mas no final acabei optando por omitir a árvore já contida no título, revelando apenas sua varanda com vista para os dois mundos: o dos vivos, representado pelo Oceano Índico e o dos mortos, com o pangolim (sugerido apenas pela textura das escamas e por sua forma arrenrolada) ensolarando as trevas.

mia8A cena assim leva aos olhos do leitor não o frangipani objetivamente, mas seu ponto de vista,
subjetivo. Que é também o ponto de vista do narrador xipoco(fantasma). Para o pangolim, me baseei em fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo e também nos grafismos de várias capulanas. No final ficou bem simples e
gráfica, com muita influência dos muitos horizontes de lá.

 

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Em O fio das miçangas, de contos, uma imagem ou outra já havia se insinuado como candidata, mas quando me deparei com a chuva de peixes do conto final, não tive dúvida. Acabei optando por alinhar os peixes como as miçangas do conto que dá título ao livro. Mas alinhei numa composição meio amontoada, quase, de novo, como em um grafismo de capulanas, ou uma pintura de Mulangatana. Ou mesmo um Mailove (caminhonetes de transporte urbano em que as pessoas têm que se abraçar para não cair, de tão cheias. Daí o nome, my love). Para os peixes, busquei alguns em selos antigos do país, outros, nas fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo, e o restante, na imaginação.

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mia13E se Obama fosse africano? é o único livro de ensaios da coleção. A princípio, por isso o mais desafiador. Não queria remeter diretamente ao Obama do título. No máximo, sutilmente, através do vermelho e azul norte-americanos ali presentes. Por sorte o próprio texto me entregou de bandeja uma imagem precisa, que dialoga com o título, com o universo geral do livro e com uma das formas de expressão artísticas mais emblemáticas do país. Foi no ensaio “O planeta das peúgas rotas”, no seguinte trecho: “Nós somos como uma escultura maconde uja-ama, somos um ramo dessa grande árvore que nos dá corpo e nos dá sombra. Distintamente daquilo que é hoje dominante na Europa, nós olhamos a sociedade moderna como uma teia de relações familiares alargadas.” Em minha estada em Maputo visitei escultores maconde que me proporcionaram além de fotos e de um amuleto que trouxe, memórias táteis daquele texto.

 

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Antes de nascer o mundo em Moçambique tem como título “Jesusalém”, que viria a ser o nome do país que um dos personagens resolveu criar para nele se exilar com sua família e alguns agregados. O livro acabou rebatizado para a edição brasileira em uma espécie de tradução cultural. Mas quando mencionei pessoalmente para o Mia Couto que era o livro que estava lendo naquela ocasião em que estive por lá, ele me confessou que o título que queria ter dado e que sempre imaginava é O afinador de silêncios. Ao final, trabalhar com uma obra trientitulado acabou ampliando e enriquecendo minha visão sobre ela.

Pensando no significado do livro como um todo, enquanto A confissão da leoa, para mim, mergulha no universo feminino, Antes de nascer o mundo é seu avesso: tem o mundo masculino como matéria-prima. Trata-se de um livro solar. Sabia que devia ter uma luz pré-gênese, de gema do mundo. O amarelo foi minha primeira certeza. Amarelo que vai do chão árido da Jesusalém à velhice do mapa, que na história, quando rasgado, prenuncia na forma dos cacos a chegada da mulher primordial. O mapa também foi um elemento que ficou presente na minha mente durante toda a leitura. Foi minha segunda certeza, que acabou me levando ao centro de Maputo em busca de uma cartografia do país para ser rasgada um dia.

Pensava em representar os dois irmãos brincando no rio de seu éden particular, mas não havia ainda definido a cena. Terminei a leitura em Moçambique, mas viria a ilustrá-lo somente semanas depois, no Brasil. Foi então que percebi que aquele estado de suspensão, de gravidez mental de uma imagem estava secretamente afinando meus silêncios. O suspense em si revelou-se para mim um afinador natural de silêncios. Assim que o irmão mais velho acabou suspenso no ar, no meio de um salto no desconhecido do seu mapa-mundo.

mia16A cena estava imaginada, mas continuava sem referências em que me basear. E trata-se de uma imagem que só funcionaria sobre uma base naturalista. Um dia mencionei para uma amiga, a Adriana Londoño, que lamentava a velha amendoeira da ponte de Santo André, onde moro, ter morrido. Além de um ícone local era o único lugar de onde as crianças dali saltavam no rio. Foi quando ela me disse que, por sorte, havia feito as fotos que eu buscava há alguns anos, daquele exato local, e que seria um prazer colaborar. Incrível sintonia. Aproveito para manifestar aqui minha gratidão a ela e também felicidade por termos ressuscitado a amendoeira da ponta.

 

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Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra a presença constante do homem à espera de seu enterro demandava por si alguma forma de representação simbólica. Mas quando, em determinado momento da história, a terra se recusa a se deixar cavar, foi que a pá me surgiu como totem. Cavar uma simples cova se tornou quase uma batalha, física e espiritual. Assim as pás acabaram se desdobrando em variadas formas, algumas meio lança, outras meio carrancas… Ferramentas diversas para cavar nos mais variados planos entre a vida e a morte. As tiras horizontais azuis remetem ao rio-tempo do título, fluxo da vida.

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Até o décimo primeiro e último conto da coletânea Cada homem é uma raça, não havia ainda definido uma imagem para a capa. Foi então que ela apareceu pronta, no finalzinho do livro, na forma de laranjas incandescentes. Em Os mastros do paralém no trecho que segue: “…o mulato era um mussodja e caminhava, por entre o pomar, com sua farda guerrilheira. Mas, de espanto: ele tocava as laranjas e elas se acendiam, em chamas redondas. O laranjal parecia uma plantação de xipefos.” Me pareceu uma ótima chance de novamente padronizar estampa de capulanas.

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Contos do nascer da terra foi o último dos quinze. Um livro de 35 contos, dentre os quais dois foram escritos para sua filha, Rita Couto, que acabei vindo a conhecer pessoalmente e que me recebeu tão generosamente na Fundação Fernando Leite Couto, que ela coordena, e onde acabei dando uma palestra a convite do próprio Mia. Por isso aquelas duas histórias continham uma camada extra para mim, uma vez que os personagens já vinham com fisionomias e relevos pré-traçados. Acabei optando pelo segundo conto, intitulado “A menina sem palavra” em que há uma irresistível cena onírica da lua se estilhaçando no mar abaixo, que se cindia em uma fresta de sangue. Achei que essas imagens, além da força que continham por si mesmas, dialogavam bem com o título do livro. A lua rachada parece o ovo primordial do mencionado nascer da terra. A racha de sangue, remete à própria saída do ventre ou algo assim.

Partindo para a execução, procurei dar uma ambiguidade aos brancos do plano de baixo que funcionam tanto como reflexo quanto como mencionados cacos da lua. Quis também que sutilmente estivessem contidas naquelas formas manchas de leopardos ou girafas e que as nuvens ficassem bem zebradas. Ou como presas de marfim dispostas simétricas em torno de uma máscara. E o mais importante: busquei dar à cena, por causa do título, um clima de último crepúsculo, de pré-primalvorada. E tudo sem perder de vista a voz da Rita.

E eis que chegou ao fim. Ao todo foram quinze livros em onze meses. Hei de sentir falta da constância deste trabalho. Mas o universo do Mia Couto e os tantos outros mundos adjacentes que vim a descobrir seguem presentes em mim. Chegou a hora de digerir cada um deles. Só tenho a agradecer aos moçambicanos pela amorosa maneira com que me receberam. Como se diz em changane, língua original do sul do país, Kanimambo! Abaixo, alguns moçambicanos que cruzaram meu caminho e que refletem a diversidade humana daquele país.

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Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte em 1974. Graduou-se em cinema de animação pela UFMG, e vem ilustrando, nos últimos 20 anos, livros infantis e juvenis para diversas editoras. Em 2010, ficou em primeiro lugar no concurso de caricaturas da Folha de S. Paulo, para onde passou a contribuir esporadicamente. Neste ano, lançou Macunaíma em quadrinhos, adaptado e ilustrado em parceria com Dan X, pela editora Peirópolis.

 

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