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Mia Couto ganha o Prêmio Camões 2013

O escritor Mia Couto ganhou hoje o Prêmio Camões. Conhecido como a premiação mais importante da língua portuguesa, foi criado em 1989 e já foi concedido a João Cabral de Melo Neto, Pepetela e José Saramago, entre outros.

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007 o prêmio União Latina de Literaturas Românicas.

O autor virá ao Brasil no segundo semestre, para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Veja abaixo uma breve entrevista de Mia Couto sobre seu romance mais recente, A confissão da leoa.

Semana cento e cinquenta

Os lançamentos desta semana são:

Jerusalém, de Simon Sebag Montefiore (Trad. Berilo Vargas e George Schlesinger)
Ursalim, Hierosolyma, Aelia Capitolina, Al-Quds, Yerushaláyim, Jerusalém: os muitos nomes dessa cidade sagrada para três grandes religiões dão uma medida da atração irresistível que ela tem exercido sobre crentes, profetas e místicos — e, em especial, sobre as sucessivas gerações de reis, guerreiros e políticos que sonharam conquistá-la. Destruída e reconstruída muitas vezes em trinta séculos de existência, palco de incontáveis milagres e atrocidades, Jerusalém também é um verdadeiro museu a céu aberto da história do mundo. A santidade de seus templos e lugares sagrados — que já foram disputados por judeus, árabes, otomanos, gregos, romanos, armênios e britânicos, entre outros povos — se confunde com a crônica dos sangrentos combates travados em nome de Deus ao pé de seus velhos muros. Neste livro monumental, Simon Sebag Montefiore triunfa com seu notável talento narrativo sobre o desafio hercúleo de reconstituir os principais momentos da longa biografia da capital espiritual do mundo.

O lixo da história, de Angeli
Todos conhecem Rê Bordosa, Benevides Paixão e Bob Cuspe. Para muitos leitores, no entanto, os personagens são apenas a cereja do bolo, principalmente quando falamos das charges políticas de Angeli. Ano após ano, não houve escândalo da República ou evento internacional que não tenha passado por seu escrutínio ferino e implacável. Desde 2001, Angeli dedicou incontáveis charges aos conflitos que atravessaram o Oriente Médio após o Onze de Setembro. Sem escolher lados fáceis, passou pelo governo Bush, pelas guerras do Afeganistão e do Iraque, pelo conflito em Israel e Palestina, chegando até os distúrbios recentes no Egito e na Síria. O resultado é um painel abrangente das principais questões que mobilizaram o noticiário político internacional nos últimos dez anos.

A infância de Jesus, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
“Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão que todo mundo está. Nos deram uma chance de viver e nós aceitamos essa chance. É uma grande coisa, viver. É a coisa mais importante de todas.” São essas as palavras que um recém-chegado dirige à criança que o acaso lhe confiou numa estranha terra de exilados onde a mera possibilidade de substituir é acolhida com enorme gratidão. Desligadas de suas histórias e realocadas segundo regras compreendidas como “o jeito como as coisas são”, pessoas comem um pão que alimenta, mas não tem sabor, e estabelecem relações truncadas em que predomina uma generalizada e anódina boa vontade. Aos olhos de um homem que reluta em se adaptar, esse lugar se revela uma fonte de confusão moral. A partir do estranhamento da própria linguagem cotidiana, os fatos mais básicos da vida são tomados em sua face absurda, no embate entre a lógica impecável do sistema e as razões naturais de alguém ainda preso a hábitos antigos.

Cada homem é uma raça, de Mia Couto
Como ficou o cego pescador? Por que Rosa Caramela enlouqueceu? O que aconteceu com o passarinheiro? Uma princesa russa em Moçambique? Neste singular volume de contos, Mia Couto nos brinda com sua prosa repleta de poesia, em que esses e outros personagens surpreendentes povoam histórias delicadas, que encantam pela beleza que transborda mesmo das situações mais trágicas.

A orquestra da lua cheia, de Jens Rassmus (Trad. Sofia Mariutti)
Era hora de dormir, mas Ana não estava com sono. E, aliás, por que temos que dormir mesmo quando não estamos com sono? Inquieta, ela resolveu plantar bananeira. E, assim do nada, uma coisa muito estranha aconteceu. Ana caiu no teto…

Fervor das vanguardas, de Jorge Schwartz
Entre as décadas de 1920 e 1930, a América Latina foi varrida por uma onda de irresistível renovação cultural. No rastro da urbanização, suas pequenas mas combativas vanguardas de escritores, arquitetos, músicos e artistas visuais já não se contentavam com os modelos estéticos servilmente copiados da Europa. Esses pioneiros se voltam para o substrato “primitivo” das tradições criollas, indígenas e afro-americanas com o ambicioso projeto de fundar uma arte original, ao mesmo tempo enraizada em valores nacionais e conectada com as recentes tendências estrangeiras. Nesta seleção de textos sobre o período mais irrequieto das vanguardas latino-americanas, Jorge Schwartz aborda com uma penetrante visada interdisciplinar o melhor da produção de artistas-chave como Oswald de Andrade, Xul Solar, Joaquín Torres García, Lasar Segall e Oliverio Girondo. O autor analisa a mútua fertilização entre palavra e imagem, assim como os pontos de contato e afastamento entre os modernistas brasileiros e seus confrades hispano-americanos.

Juventude, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
John está prestes a se formar em matemática, mas sua grande aspiração na vida é tornar-se poeta. O problema é que a poesia — como as mulheres mais interessantes — não se entrega para qualquer um. Assim, o rapaz aguarda ansiosamente pelas experiências de vida que farão com que ele entre em contato com “o fogo sagrado” da inspiração poética e do verdadeiro amor. É em busca desse ideal que ele abandona a turbulenta África do Sul dos anos 1960 e vai para Londres. Tudo o que arranja na antiga metrópole, porém, é um tedioso emprego de programador de computadores. Além de uma ou outra namorada, que nunca está à altura das paixões que ele imagina necessárias para que um homem seja tocado pela chama da arte e da poesia. Com a mesma força narrativa de seus outros livros, Coetzee desfere frases curtas e certeiras, sem nenhuma afetação, desenhando personagens que vão crescendo e se tornando mais complexos a cada parágrafo.

Editora Paralela

Sobre o Céu e a Terra, de Jorge Bergoglio (papa Francisco) e Abraham Skorka (Trad. Sandra Martha Dolinsky)
O que o papa Francisco pensa intimamente sobre temas espirituais como Deus, a fé, a religião, a morte? E sobre questões essenciais como a política, a pobreza, a educação e a ciência? E quais são suas reflexões mais profundas sobre assuntos polêmicos como o aborto, a eutanásia e o casamento de duas pessoas do mesmo sexo? Em conversas de coração aberto que não evitaram os assuntos mais difíceis — e que estão documentadas neste livro ímpar —, o ainda arcebisto de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio e o rabino Abraham Skorka compartilham a fé na capacidade de suas religiões em fazer pessoas melhores. São diálogos entre dois homens simples e eruditos que acreditam que as igrejas precisam “sujar os pés” para ajudar quem precisa de ajuda. Para um dos mais importantes jornalistas brasileiros, Elio Gaspari, da Folha de S. Paulo e de O Globo, este livro é uma obra “inteligentíssima” e quem desfrutá-lo “viverá umas boas duas horas”.

Semana cento e vinte e dois

Os lançamentos desta semana são:

Os destituídos de Lódz, de Steve Sem-Sandberg (Trad. Jaime Bernardes)
Mistura de romance social e literatura do holocausto, Os destituídos de Lódz enfileira personagens inesquecíveis enquanto retraça, com os poderosos instrumentos da melhor ficção, a história do gueto de Lódz, a macabra cidade segregada erguida pelos invasores nazistas da Polônia no início da Segunda Guerra. Chegando a reunir cerca de 200 mil almas em seu auge, o gueto era administrado por uma figura que, ainda hoje, mais de meio século depois de sua extinção definitiva, permanece um enigma. Trata-se de Mordechai Chaim Rumkowski, um judeu que vivia mergulhado em pensamentos de grandeza enquanto gerenciava a miséria humana: a fome, as precárias condições de higiene e a violência dos guardas nazistas. Escrito a partir da farta documentação sobre um dos episódios mais sombrios da trajetória humana, este é um romance destinado a ocupar um lugar especial na literatura contemporânea. Uma obra cuja denúncia ressoa na alma do leitor mesmo muito depois de seus acontecimentos já constarem dos livros de história.

O muro, de Peter Sís (Trad. Érico Assis)
Imagine crescer em um lugar de onde não se pode sair, em que tudo é regulado ou proibido, até mesmo desenhar. Peter Sís, vencedor do maior prêmio de literatura infantil, o Hans Christian Andersen, responde a essa pergunta narrando, com traços e memórias, o seu dia a dia no lado oriental e comunista da Cortina de Ferro, durante a Guerra Fria. Desde a infância, repleta de privações e obrigações, até os tempos de revolta, quando o garoto conhece o outro lado do muro, a história de Sís nos mostra como a arte – tão prazerosa para ele e ameaçadora para os outros – aproximou-se do sonho de ser livre.

A confissão da leoa, de Mia Couto
Ataques de leões aterrorizam uma aldeia de Moçambique. Da capital do país, um experiente caçador é enviado à região para liquidar as feras. Ao chegar ao local ele se depara com um mundo mais complexo e ameaçador do que imaginava, no qual mito e realidade se entrelaçam. Narrado em primeira pessoa alternadamente por dois personagens – o caçador e uma moradora da aldeia -, este romance inspirado em fatos reais desvenda aos poucos uma África profunda e sombria, onde o impulso rumo à liberdade e a uma vida digna é continuamente obstruído por práticas ancestrais de opressão política, social e sexual. Com sua prosa encantatória, o autor moçambicano chama a atenção para o papel da própria linguagem como força de recriação do real e transfiguração dos males do mundo.

Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade
Histórias, pequenas fábulas, iluminações cotidianas, causos deliciosos muitas vezes calcados nas pequenas e grandes notícias do jornal: esse é o refinado – e sempre encantador – cardápio oferecido pela prosa de um dos nossos autores mais importantes nestes Contos plausíveis. Poéticos, realistas e cheios de maravilhamento, os textos em prosa reunidos neste volume são “contos de bolso”, como dizia o próprio Carlos Drummond De Andrade, que os experimentou a partir de 1969, quando passou a assinar pequenas histórias no Jornal do Brasil.

Carcereiros, de Drauzio Varella
Em Estação Carandiru Drauzio Varella focou seu corajoso relato na população carcerária de um dos presídios mais violentos do Brasil. Mas os vinte e três anos atuando em presídios brasileiros como médico voluntário também o aproximaram do outro lado da moeda: as centenas de agentes penitenciários que, trabalhando sob condições rigorosas e muitas vezes colocando a vida em risco, administram essa população. Foi com um grupo desses agentes que Drauzio passou a se reunir depois das longas jornadas de trabalho, em um botequim de frente para o Carandiru. E essa convivência pôs o autor em contato com os relatos narrados em Carcereiros, segundo volume da trilogia iniciada por Estação Carandiru – o terceiro livro, Prisioneiras, terá como ponto de partida o trabalho do médico na Penitenciária Feminina da Capital. Acompanhamos, assim, uma rebelião pelos olhos de quem tenta contê-la. Entramos em contato com o cotidiano dos carcereiros e as situações desconcertantes impostas pelo ofício, que eles resolvem com jogo de cintura e, não raramente, com humor. O que emerge é um retrato franco de um mundo totalmente desconhecido para quem está de fora.

As respostas de Mia Couto

Algum tempo atrás pedimos para vocês, leitores do blog, enviarem perguntas para Mia Couto. Escolhemos 5 delas, que o escritor moçambicano responde agora:

Sandra Moret: Mia, seus livros parecem sempre ter uma saída especial perante os outros autores. É como se pudéssemos nos transportar para outro lugar, outro corpo, e estar realmente no lugar do personagem. Quando você cria seus personagens ou histórias, consegue realmente fazer com que não tenham nada de você ou existe sim um Mia nos personagens?
Mia Couto: Existe um pouco de mim em todas as personagens. Creio que, na chamada vida real, também existe um pouco dos outros em nós mesmos. Há um provérbio africano de que gosto muito que diz: eu sou os outros. A nossa identidade é relacional, nasce não de uma construção solitária e individual mas de um cruzamento e mestiçagem que representa, afinal, a humanidade inteira. A minha escrita é feita a partir de personagens e não de uma ideia antecipada da narrativa. Essas personagens precisam crescer dentro de mim, e nascer entre mim e elas uma relação apaixonada. Só assim elas me autorizam a chegar perto e a escutar o que elas têm para me dizer.

Filipe Chamy: Você acredita que livros devem falar à geração atual, respondendo a questionamentos da sociedade contemporânea, ou se esforçar por trazer reflexões perenes, que nunca envelhecerão?
Mia Couto: Nenhuma reflexão é tão perene assim, todas envelhecem. Ainda hoje relemos com prazer e com espantosa atualidade alguns tempos dos clássicos não contemporâneos. Mas mesmo nesses casos, o que sobrevive é mais a arte com que criaram a reflexão do que a reflexão propriamente dita. A literatura responde por via da inventividade literária às questões sociais. Essa é a distância entre ensaio e texto ficcional. Assim sendo, o texto literário não é pensado em função de um público. É uma história. O seu valor tem a ver com o mundo que ela inventa.

Felipe de Souza Fernandez: Mia Couto, não é engraçado que o maior escritor Moçambicano seja de tez branca e o maior jogador de futebol de Portugal seja de tez negra? Afinal a literatura é livre de fronteiras, ou é na fronteira que ela constrói seus significados, seus valores, sua etnicidade?
Mia Couto: A literatura brinca com as fronteiras e encoraja a que olhemos para elas como artifícios, construções que são sempre datadas. As fronteiras passam a ser vistas mas como lugar de trocas, como linhas de separação. As identidades que se constroem a partir das fronteiras também deixam de ser vistas como lugar de refúgio perante uma realidade exterior ameaçadora. A escrita sugere também que as identidades são invenções que devem ser olhadas com a mesma distância crítica de um texto literário. A literatura não está livre das condicionantes sociais e culturais do mundo em que ela é produzida, essas condicionantes resultam sempre de uma lógica de poder a que a literatura se deve esquivar. O poder da literatura resulta do seu distanciamento dessas relações de poder. No meu caso, agrada-me muito trabalhar nessa zona de interstício, em territórios onde as águas parecem se separar. Sou um africano cujos pais são europeus, sou um filho de emigrantes que lutou pela independência, sou ateu num universo dominado pela religiosidade, sou um cientista que procura resposta mais na poesia do que no discurso solene e frio da ciência.

Valter Ferraz: Gostaria de saber do escritor: você já sofreu com o bloqueio criativo e se sim, como lidou com isso?
Mia Couto: Não creio. Acontece que há momentos diversos no processo da escrita. Há um momento de imaginação, em que somos assaltados por ideias e visitados por aquilo que já alguém chamou de “musas”. Mas existem outros momentos, de trabalho, de labor oficinal. E esse trabalho não pede tanto inspiração criativa. Pede disciplina, a mesma disciplina de qualquer outro trabalho. No meu caso, sempre que termino um livro, surge um período que parece a travessia de um deserto. Mas tem sido sempre breve. Nesse momento, de vazio temporário, estou disponível e acontece que acabo ficando mais próximo das vozes. Eu escuto e logo vai nascendo uma nova história. Um escritor é mais do que tudo um escutador.

Barbara Deister: Mia Couto, sabendo que és fã de Guimarães Rosa, um mestre dos neologismos, e sabendo também que várias palavras morrem a cada ano, caem no buraco negro do desuso, gostaria de saber por qual palavra (ou palavras) tens grande apreço e o que faria para salvá-la desse triste fim.
Mia Couto: Eu gosto, sem qualquer narcisismo, de uma palavra que eu mesmo criei e que é “abensonhar”. A benção que gostaria que alguém me concedesse não poderia ser pronunciada numa língua existente. O escritor quer é falar na língua dos sonhos, essa que não tem possibilidade de tradução.

Entreviste Mia Couto

Mia Couto é um dos mais importantes escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez e Jorge Amado. Moçambicano e amante confesso da escrita inventiva do brasileiro Guimarães Rosa, ele é um artista investido do poder mágico e poético das palavras.

A Companhia está editando sua obra completa no Brasil: recentemente lançamos Estórias abensonhadas, e seu novo romance, A confissão da leoa, tem lançamento previsto para outubro deste ano.

Em conversa com o autor, decidimos: queremos que os leitores tenham uma oportunidade de conversar com ele.

Deixe nos comentários uma pergunta para Mia Couto, até o dia 11 de abril. Escolheremos as 5 melhores, que serão respondidas pelo escritor. Os autores das perguntas selecionadas também receberão um exemplar de Estórias abensonhadas (caso o ganhador já possua o livro, pode escolher outro título do escritor).

[Atualização:]

As perguntas escolhidas foram as de:
– Felipe de Souza Fernandez
– Sandra Moret
– Filipe Chamy
– Valter Ferraz
– Barbara Deister

Publicaremos as respostas do autor em breve.