miguel de cervantes

Carregando seu Cervantes

Por Juan Pablo Villalobos

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1. Em seu consultório médico, meu pai tinha um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote e o nome de um remédio gravados na base. Franzino. Barbadão. Montado num cavalo ainda mais magrela. O cara devia mesmo precisar do remédio. Numa das paredes da casa de um dos meus tios estava pendurado um quadrinho do Quixote, desta vez acompanhado de Sancho e sem o nome do remédio. Daí a tia Maria Cristina foi de férias às cidades coloniais e voltou com uma lembrancinha de Guanajuato para mim: uma estatuazinha do Quixote feita de arame. O calhamaço, lógico, adornava as prateleiras da casa dos meus pais e de todos os meus tios, respeitando um costume inquebrantável da classe média de todo o mundo hispânico. Para falar a verdade, eu nunca vi ninguém ler o Quixote, mas a lombada do livraço era um adorno muito lindo mesmo.

2. Depois eu fiz seis anos e fui atropelado por uma caminhonete enquanto ia comprar chiclete (a rima é involuntária — aliás, em espanhol não rima). Aquele foi o momento em que eu saí pela primeira vez do mundo de fantasia em que morava e entrei na realidade. Tudo para fazer uma grande descoberta: a realidade, certamente, machucava e doía. Igualzinho a Dom Quixote com os moinhos de vento, mas eu ainda não tinha lido o Quixote. Que pena ter perdido a ocasião de utilizar essa metáfora tão perfeita.

3. Logo chegou a adolescência, e na minha cidadezinha todo mundo queria ir pro Festival Cervantino em Guanajuato. Não, a gente não era muito culto: o tal Festival era, todo mundo sabia, a festa mais legal para se embebedar na rua e paquerar. Eu fui com minha turma e ficamos tomando cerveja e tequila nas escadas do Teatro Juárez. Segundo eu, meu olhar cativante estava fazendo o maior sucesso, mas logo acabei descobrindo que as meninas não tinham nem percebido minha presença. Igualzinho a Dom Quixote com Dulcineia, só que eu continuava sem ter lido o Quixote.

4. A primeira vez que eu viajei para Espanha, fiz questão de comprar a “melhor edição do Quixote”, a do Instituto Cervantes, anotada pelo Francisco Rico, papa e pope dos cervantistas. Eu estava na faculdade de letras espanholas e, no seguinte semestre, ia ter um curso dedicado ao Quixote. A edição constava de dois calhamaços com capa dura enfiados numa caixa rígida. Quatro, talvez cinco quilos. Comprei em Madri e carreguei na mochila durante dez dias por Toledo, Segóvia, Sevilha, Córdoba e Lisboa. O peso da tradição literária! (Mas essa piada eu já fiz no meu último romance, Te vendo um cachorro, justamente inspirada nesse episódio autobiográfico.)

5. Finalmente, eu li o Quixote. In-tei-ri-nho. Foram os quatro meses mais felizes de minha vida como leitor.

6. No ensaio que escrevi para passar no curso (uma dissertação sobre o sentido trágico e cômico no Quixote), coloquei o seguinte: “Dom Quixote é, antes de mais nada, antes de um cavaleiro, um escritor que está em processo de redigir seu próprio livro de aventuras. Dom Quixote é um estranho rei Midas que transforma em literatura tudo aquilo que ele toca (…) O que significa a irrupção de Alonso Quijano no final da história? A morte do personagem literário. Em suas últimas palavras, não é Dom Quixote quem fala, é Alonso Quijano, outro personagem literário, mas um personagem que não quer fazer literatura, que tem se deixado vencer pela realidade. A atroz condenação de Cervantes: morremos na realidade, na vida, abdicando da literatura.”

7. Sim, eu acredito que o Quixote é, sem a menor dúvida, o melhor livro de todos os tempos. Perdoem-me: eu sou mexicano, escritor, minha língua é o espanhol, minha pátria é minha língua, blá-blá-blá. Ou seja, a única oportunidade que eu tenho de me sentir de primeiro mundo, potência mundial, é falando de Cervantes. Eu sei que estou sendo vaidoso e pretensioso ao dizer que pertenço à tradição literária mais rica do mundo, mas porra, vamos fazer o que se é verdade?

8. Daí eu fui morar em Barcelona, a cidade onde Dom Quixote sofreu a derrota final, na praia da Barceloneta. Escrevi um conto: “Depois de almoçar fui para a praia, fiquei uns quarenta minutos porque ainda está bem frio. Eu estava deitado e a areia se enfiou em meus ouvidos e outra vez pensei em Cervantes, na crueldade de Cervantes. Na condenação de Cervantes. Na tristeza de caminhar pela praia da Barceloneta sabendo que é o lugar que Cervantes escolheu para que Dom Quixote fosse derrotado. Como poderia saber Cervantes que ele ia estragar meus passeios pela praia?”.

9. Depois eu fui morar no Brasil e um dia fui convidado para dar uma palestra sobre literatura mexicana no Colégio Cervantes de São Paulo. Os alunos me entregaram um presentinho: um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote.

10. Os cinco quilos da edição do Instituto Cervantes do Quixote já foram nas minhas mochilas e malas de Madri pro México, do México para Barcelona, de Barcelona para o Brasil e do Brasil de volta para Barcelona.

É o peso da tradição literária, sim.

Mas eu quero carregar.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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De como Cervantes e Shakespeare escreveram o manual de literatura moderna

Por Salman Rushdie

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Texto originalmente publicado na NewStatesman. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro. 

Ao celebrarmos o quadricentésimo aniversário das mortes de William Shakespeare e Miguel de Cervantes Saavedra, talvez valha observar que, embora seja geralmente aceito que esses dois gigantes morreram na mesma data, a 23 de abril de 1616, isso não aconteceu de fato no mesmo dia. Em 1616, a Espanha passara a usar o calendário gregoriano, enquanto a Inglaterra continuava com o juliano, portanto, onze dias atrás. (A Inglaterra ainda se aferraria ao antigo sistema juliano de datação até 1752, e quando finalmente se deu a troca, houve levantes e, conta-se, turbas gritando “Devolvam nossos onze dias!” nas ruas.) É de supor que a coincidência das datas e a diferença dos calendários teria encantado as sensibilidades eruditas e lúdicas de ambos os pais da moderna literatura.

Desconhecemos se chegaram a tomar conhecimento da existência um do outro, mas tinham muito em comum, a começar bem ali, na zona do “desconhecimento”, visto os dois serem homens envoltos em mistério; há anos em que não se encontra registro algum deles e, ainda mais significativo, documentos desaparecidos. Nenhum deles nos legou material pessoal em quantidade suficiente. Quase nada em forma de cartas, diários de trabalho ou rascunhos rejeitados, apenas suas colossais obras completas. “O resto é silêncio.” Não surpreende, assim, que tenham se tornado presas para todo tipo de teorias energúmenas que buscam estabelecer sua autoria.

Uma busca rápida na internet, por exemplo, “revela” que Francis Bacon não só escreveu as obras de Shakespeare, como também o Dom Quixote. (Minha teoria louca favorita sobre Shakespeare é a de que suas peças não foram escritas por ele, mas por outra pessoa com o mesmo nome.) E, claro, Cervantes teve sua autoria contestada no decurso mesmo de sua vida, quando alguém com o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda, de quem também não se sabe a verdadeira identidade, publicou uma falsa continuação do Dom Quixote, obrigando Cervantes a escrever o verdadeiro Livro II, cujos personagens têm ciência da existência do plagiador Avellaneda, desprezando-o absolutamente por isso.

É quase certo que Cervantes e Shakespeare jamais se encontraram, mas quanto mais se examina as páginas que os dois deixaram para trás, mais ecos de um no outro se ouve. O primeiro deles, e no que me diz respeito à ideia compartilhada mais preciosa, é a crença de que uma obra literária não tem que ser particularmente cômica, trágica, romântica ou política, mas sim que, se concebida apropriadamente, ser todas essas coisas ao mesmo tempo.

Basta ver as cenas de abertura de Hamlet. A cena 1 do ato 1 é uma história de fantasmas. “E então, isso tudo é só mera fantasia?”, pergunta Bernardo a Horácio, e é claro que a peça é muito mais que aquilo. A cena 2 do ato 1 insere a intriga na corte de Elsinore: o príncipe erudito e furioso, sua mãe recém-viúva prometida em casamento ao tio (“Ó pressa ignóbil, se jogar/Com tanta rapidez no leito incestuoso!”). Ato 1, cena 3, e eis Ofélia, contando ao dúbio pai, Polônio, o começo do que irá ser uma triste história de amor: “Senhor, ele tem feito ultimamente ofertas/Mostrando sua afeição por mim.” Ato 1, cena 4, voltamos à história de fantasmas e “há algo de podre no Estado da Dinamarca”.

À medida que a peça avança, ela vai se metamorfoseando, tornando-se, alternadamente, uma história de suicídio, de assassinato, de conspiração política e de uma trágica vingança. Tem seus momentos cômicos e uma peça dentro da peça. Contém ainda exemplos da mais elevada poesia jamais escrita em inglês, terminando em melodramáticas poças de sangue.

Foi a isso que chegamos após a herança do Bardo: ao conhecimento de que uma obra pode ser tudo a um só tempo. A tradição francesa, mais rígida, separa tragédia (Racine) e comédia (Molière). Shakespeare mistura tudo, e assim, graças a ele, nós também.

Em célebre ensaio, Milan Kundera sugere uma dupla paternidade para a forma romance: a Clarissa, de Samuel Richardson, e o Tristram Shandy, de Laurence Sterne; entretanto, essas duas volumosas e enciclopédicas obras de ficção revelam a influência de Cervantes. O tio Toby e o cabo Trim de Sterne são abertamente moldados no Sancho Pança do Quixote, e o realismo de Richardson é enormemente tributário do desmascaramento empreendido por Cervantes da tola tradição literária medieval cujas ilusões mantêm Dom Quixote agrilhoado. Na obra-prima de Cervantes, à semelhança do que ocorre na obra de Shakespeare, baixezas coexistem com nobreza, pathos e emoção com obscenidades e escabrosidades, culminando no momento infinitamente emotivo em que o mundo real se impõe e o Cavaleiro da Triste Figura reconhece que tem sido um tolo, um velho louco, “pois águas passadas não movem moinhos”.

São dois escritores conscientes do que fazem, modernos de um jeito que a maioria dos mestres modernos reconheceria; um, criando peças de teatro que são altamente conscientes de sua teatralidade, de estarem sendo encenadas; o outro, criando uma ficção que é agudamente consciente de sua natureza ficcional, ao ponto mesmo de inventar um narrador imaginário, Cide Hamete Benengeli — um narrador, curiosamente, com antepassados árabes.

E os dois têm também a mesma consideração, uma adesão, de fato, pelos marginais como pelos ideais elevados; a sua galeria de patifes, prostitutas, punguistas e bêbados sentir-se-iam em casa nas tavernas um do outro. É esse aspecto terreno que revela serem os dois realistas no maior sentido, mesmo quando estão posando de fantasistas, e dessa forma, uma vez mais, nós, os que viemos depois, podemos aprender a partir deles que a magia não tem sentido senão quando a serviço do realismo — terá havido algum mágico mais realista que Próspero? — e que o realismo pode se beneficiar de uma dose saudável do fabulista. Por fim, a despeito de ambos empregarem tropos originários de contos populares, do mito e da fábula, eles se recusam a moralizar, e é aí, acima de tudo, que são mais modernos que os muitos que se seguiram a eles. Eles não nos dizem o que pensar ou o que sentir, mas nos mostram como fazê-lo.

Dos dois, é Cervantes o homem de ação, lutando em batalhas, sendo gravemente ferido, perdendo o uso de sua mão esquerda, sendo escravizado por corsários argelinos durante cinco anos até sua família conseguir levantar o dinheiro para pagar por seu resgate. A experiência de Shakespeare foi desprovida desse lances dramáticos; apesar disso, dos dois, ele parece ter sido o escritor com interesse maior na guerra e em seus soldados. Otelo, Macbeth, Lear são todas histórias de homens em guerra (guerra interior, por certo, mas também nos campos de batalha). Cervantes fez uso de suas dolorosas experiências, por exemplo, no conto do escravo, no Quixote, e em um par de peças teatrais, mas a batalha em que Dom Quixote se engaja é — para empregar termos modernos — absurda e existencial antes que “real”. Estranhamente, coube ao guerreiro espanhol escrever sobre a cômica futilidade de ir à guerra e criar a poderosa figura icônica do guerreiro como tolo (aqui logo vêm à mente o Heller de Ardil-22 ou o Vonnegut de Matadouro 5, somente para citar as mais recentes explorações do tema), enquanto a imaginação do poeta e dramaturgo inglês mergulhou de cabeça (como Tolstói e Mailer) na guerra.

Em suas diferenças, eles encarnam oposições extremamente contemporâneas, do mesmo modo que, em suas similaridades, eles concordam em muito do que ainda hoje é útil a seus herdeiros.

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Até o dia 25 de abril, o box de Dom Quixote, as peças de Shakespeare editadas pela Companhia das Letrinhas e a biografia Shakespeare: o mundo é um palco estão em promoção em nosso site.

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Salman Rushdie nasceu em Bombaim, na Índia, em 1947. Em 1968 formou-se em história no King’s College, em Cambridge. Depois de uma breve carreira como ator, passou a dedicar-se à literatura em 1971. Seu romance Os filhos da meia-noite ganhou o prestigioso Booker Prize (1981), o Booker of Bookers (1993) e o Best of the Booker (2008). Já Os versos satânicos (1988) valeu-lhe o Whitbread Prize e uma sentença de morte, promulgada pelo aiatolá Khomeini. Seu livro mais recente, Dois anos, oito meses e 28 noites, foi publicado no Brasil agora em abril.

Semana cento e trinte e um

Os lançamentos desta semana são:

Lançamentos da semana

Bocejo, de Ilan Brenman e Renato Moriconi
Um bocejo pode contagiar o outro e o outro e o outro… E quem sabe o mundo inteiro? Foi a partir dessa ideia que Ilan Brenman e Renato Moriconi desenvolveram a brincadeira deste livro-imagem, composto por lindas pinturas a óleo que mostram diversos personagens, míticos ou históricos, em seu momento mais sonolento.
E como a proposta era fazer o mundo inteiro bocejar, nada mais justo que chamar o leitor para o jogo: com o papel espelhado ao final do livro, o contágio termina não nos momentos históricos ou míticos retratados ao longo da história, mas sim no leitor em seu mundo e em seu tempo. A última página é o retrato de um eterno presente preguiçoso.

Diversidade da vida, de Edward O. Wilson (Trad. Carlos Afonso Malferrari)
Edward O. Wilson é considerado o papa da biodiversidade. Neste livro, o autor ilumina a grave degradação ambiental em curso: populações em risco, ameaças à evolução, drástica redução de flora e fauna. O autor analisa cataclismos dos últimos seiscentos milhões de anos: desastres naturais provocados por meteoritos e mudanças climáticas que levaram a longos processos de reconstituição ecológica. Wilson alerta que o impulso acelerado de destruição da Terra, hoje causado pelo homem, pode ser irreversível. As saídas que o autor propõe são complexas, à altura do problema, mas factíveis, e conciliam produtividade e proteção ambiental. Desafiadores, permitem que a consciência ecológica e as práticas sociais alcancem novo patamar, nas atitudes individuais, na vida cotidiana e nas políticas de preseervação.

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (Trad. de Ernani Ssó)
Dom Quixote de La Mancha não tem outros inimigos além dos que povoam sua mente enlouquecida. Seu cavalo não é um alazão imponente, seu escudeiro é um simples camponês da vizinhança e ele próprio foi ordenado cavaleiro por um estalajadeiro. Para completar, o narrador da história afirma se tratar de um relato de segunda mão, escrito pelo historiador árabe Cide Hamete Benengeli, e que seu trabalho se resume a compilar informações. Não é preciso avançar muito na leitura para perceber que Dom Quixote é bem diferente das novelas de cavalaria tradicionais – um gênero muito cultuado na Espanha do início do século XVII, apesar de tratar de uma instituição que já não existia havia muito tempo. A história do fidalgo que perde o juízo e parte pelo país para lutar em nome da justiça contém elementos que iriam dar início à tradição do romance moderno – como o humor, as digressões e reflexões de toda ordem, a oralidade nas falas, a metalinguagem – e marcariam o fim da Idade Média na literatura.
Mas não foram apenas as inovações formais que garantiram a presença de Dom Quixote entre os grandes clássicos da literatura ocidental. Para milhões de pessoas que tiveram contato com a obra em suas mais diversas formas – adaptações para o público infantil e juvenil, histórias em quadrinhos, desenhos animados, peças de teatro, filmes e musicais -, o Cavaleiro da Triste Figura representa a capacidade de transformação do ser humano em busca de seus ideais, por mais obstinada, infrutífera e patética que essa luta possa parecer.

Primeiras leituras, de Paulo Mendes Campos
Dono de um texto arejado, delicioso e sempre instrutivo, o mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) foi um gênio da crônica, gênero tão brasileiro de escrita. Falando sobre Ipanema – onde viveu grande parte de sua vida depois de ter se mudado para o Rio de Janeiro -, comentando os eventos cotidianos, cantando o amor de modo ensolarado ou fustigando (com graça e humor) os usos e costumes do seu tempo, Paulo Mendes Campos é um desses autores que ensinam a pensar e a escrever melhor. Esta seleção de crônicas, produzida a partir de diversos títulos do autor, muitos deles esgotados nas livrarias, é a melhor porta de entrada para aqueles que apreciam um texto leve e saboroso. E – claro! – para quem gostaria de entrar em contato com o universo de um dos nossos mais cativantes escritores.

Às armas, cidadãos, de José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile
Distribuídos de mão em mão, afixados nos postes ou lidos em voz alta para um público eletrizado e buliçoso, os panfletos manuscritos que circularam nas ruas do Brasil e de Portugal às vésperas da Independência são documentos de valor inestimável para a historiografia do período. Esta compilação dos “papelinhos” (como então eram conhecidos) políticos sobreviventes, produzidos tanto por brasileiros autonomistas como por partidários da monarquia portuguesa, reconstitui os principais acontecimentos que resultaram no Sete de Setembro de 1822: a repercussão da Revolução Liberal do Porto, o regresso do rei d. João VI a Lisboa, as agitações militares em diversas províncias do Brasil e, finalmente, a deflagração do movimento independentista centrado no príncipe d. Pedro. Com organização, introdução e amplo aparato crítico de José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile, este volume constitui uma valiosa referência para a compreensão de fatos e personagens decisivos do nascimento político do Brasil.

Os desejos de Nina, de Gilles Eduar
Todos aqueles que já acompanharam as crianças em um passeio irão se divertir com este livro. É sempre um tal de “quero este” pra cá, “quero aquele” pra lá, que até os mais pacientes podem chegar a ficar um pouquinho irritados.
Aproveitando esta vontade incontrolável dos pequenos, Gilles Eduar inventou este livro-jogo, em que as crianças percorrerão a cidade junto com o cavalo Heitor e a gatinha Nina e ajudarão o pobre Heitor a encontrar todos os pedidos da gata exigente – ela não se contenta com qualquer mimo e não faz nem ideia de que o coração de Heitor bate mais forte quando ela está por perto…

Popular e democrático

Por Leandro Sarmatz

Cinquenta tons de cinza, Harry Potter, As brumas de Avalon. Cada época tem seu best-seller, aquele sucesso acachapante para onde milhões de leitores convergem e que faz boa parte do mercado editorial rever conceitos e estratégias mercadológicas. Isso, claro, apareceu com mais força a partir da primeira metade do século XX. Antes, livros que vendiam muito – como Os sofrimentos do Jovem Werther, Os miseráveis ou os romances de Dickens – eram eventos eminentemente culturais e sociais. Ou seja: influenciavam, ditavam a maneira de escrever, arrebanhavam um público imenso e até mesmo produziam comportamentos absolutamente novos (a conhecida epidemia de suicídios pós-Werther é o exemplo mais eloquente; talvez tenha sido o primeiro cataclismo das massas jovens, muito antes do mundo das mortes de astros de rock e de seus fãs).

Quando Dom Quixote se impôs como um fenômeno, ainda no século XVII,  rapidamente começou a circular em diversas culturas literárias. A primeira tradução surgiu já em 1612, na Inglaterra. É até hoje uma proeza, se levarmos em conta que estamos falando de um mundo em que não havia e-mail nem agentes literários. As traduções se seguiriam na França (1618) e na Alemanha (1621). A primeira edição portuguesa saiu mais de um século mais tarde, em 1794.

(Um parêntese geográfico-melancólico. Como se sabe, Portugal faz fronteira com a Espanha. E nem por isso, como se vê, o livro de Cervantes foi aclimatado antes em terras lusitanas. Fenômeno parecido ocorreu com Jorge Luis Borges no Brasil. As primeiras traduções começaram a aparecer somente depois das versões francesas dos anos 60. E como se sabe o Brasil faz fronteira com a Argentina. Claro que de lá para cá muito mudou em nosso mercado e nas relações literárias, mas é sempre melancólico lembrar desses dois casos.)

As traduções foram importantes, claro, para difundir o livro e igualmente para a criação de um clima cultural disposto ao tipo de narrativa forjada por Cervantes (o romance como gênero, afinal de contas, e que iria com o tempo se tornar um objeto hegemônico, na dita alta literatura e em suas formas mais populares), mas Dom Quixote inaugurou um outro fenômeno interessante que tendemos a relegar às notas de rodapé da história literária: escritores, muitos deles anônimos fãs da obra cervantina, se apropriariam do material (personagens, circunstâncias, episódios) para criarem suas versões do Quixote.

Jovem leitor, isso não lembra alguma coisa? Pois Dom Quixote, para além de todo o papel fundador na literatura ocidental, ainda por cima ajudou a produzir as primeiras fanfics de que se tem notícia. Fanfic, sim senhor: a tal da ficção criada por fãs, por leitores – como você e eu – que retomam um livro consagrado e ampliam as tramas, criam novas aventuras etc. Poucos anos depois do aparecimento do livro, inúmeras “continuações” eram escritas e vendidas a um público pouco informado. Esperteza pura, claro, mas isso serve para dar uma ideia sobre a avalanche criada rapidamente pelo livro.

Poucos livros ditos literários conseguem esse tipo de proeza hoje em dia, como se sabe. É mais comum que isso ocorra com sucessos destinados a um público mais ou menos específico. Essa talvez seja a riqueza maior de Dom Quixote. Um livro fundador (de um gênero, de uma tradição) e um dos maiores sucessos da história, uma obra profundamente enraizada na tradição literária e ao mesmo tempo com os pés fincados no imaginário popular. Um livro democrático, humano, inteligente e imensamente divertido.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras.

 

A juventude de Quixote

Por Vanessa Ferrari

(Dom Quixote e Sancho Pança, de Honoré Daumier)

Quem já se arriscou a escrever um livro sabe que o ofício de escritor está muito longe da imagem de alguém que, envolvido por uma música edificante, crava seu nome na história em um único ato impetuoso. Na vida real, escrever um bom romance é muito difícil; escrever um livro como Dom Quixote, que completou 407 anos com um frescor inacreditável, é uma espécie de milagre literário.

Em 1605, Miguel de Cervantes publicou a primeira parte de seu romance. A respeito do cavaleiro mais romântico da literatura, de seu pangaré mequetrefe, de Sancho Pança e da musa Dulcinéia muita tinta já foi derramada no papel. Críticos, leitores e escritores deram ao livro os mais variados significados. Os seus personagens são tão famosos que até quem não leu o romance tem opinião sincera sobre o assunto.

Eu mesma tenho uma história com esse livro. Encontrei o Quixote duas vezes na vida. A primeira como leitora, quando a Editora 34 publicou sua edição bilíngue, e agora como editora da Penguin, cuja história pode ser resumida na minha relação com o Ernani Ssó e a Silvia Massimini.

A Silvia é uma das nossas preparadoras mais experientes e, para nossa sorte, fã do Quixote, com oito leituras do romance no currículo e várias edições do livro em sua biblioteca. Para quem não sabe, o preparador é peça fundamental na edição de um livro. Além da leitura do editor, é ele quem sugere as mudanças mais significativas no texto do autor ou do tradutor. E especialmente para esse livro ter em mente as outras traduções e as edições em espanhol dá uma vantagem imensa no momento de sugerir mudanças no texto.

Ernani Ssó, por sua vez, foi ousado, quis dar ao leitor uma tradução moderna, amparada na ideia de que o Quixote, à época de sua primeira edição, foi um best-seller imediato, catapultado não pela intelectualidade da época, mas pelo leitor comum, que se apaixonou à primeira vista pelo romance. Em termos práticos, foi uma decisão posta à prova o tempo todo, pois coube ao tradutor fugir ao mesmo tempo dos arcaísmos do português e das invencionices sazonais da língua. Em outras palavras, uma tradução moderna não poderia parecer moderninha. Ele decidiu, por exemplo, que só usaria palavras que fossem anteriores a 1900, segundo o registro oficial dos dicionários. A partir dessa data, ele teria que fazer outras escolhas.

Quando a tradução já passava pelo ajuste fino, começamos a pensar nos textos críticos, que são um regalo aos leitores e em geral apresentam o contexto histórico do livro, uma pequena análise literária e curiosidades sobre o autor e a obra. Para esta edição, selecionamos três textos: uma introdução de John Rutherford, membro do conselho diretor do Queen’s College, em Oxford; um pequeno ensaio de Jorge Luis Borges, que discorre sobre a genialidade do romance; um texto de Ricardo Piglia, que fala com muito humor sobre o desafio de traduzir Quixote para outras línguas.

Essa é uma edição que eu tenho orgulho de ter editado, por acreditar na força do livro e nas escolhas genuínas do tradutor, pela sorte de ter a Silvia no time e, finalmente, porque o leitor verá uma edição muito bonita graças aos desenhos de Samuel Casal.

Quem conseguir ignorar o peso que o nome Miguel de Cervantes representa para a literatura ocidental e decidir ler Dom Quixote ficará surpreso ao encontrar já nas primeiras linhas um autor bem-humorado, irônico, profundo entendedor da alma humana, que é simples (e por isso genial) como os grandes autores costumam ser.

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

[Veja a lista de clubes de leitura organizados pela Companhia das Letras.]

 

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