miguel sousa tavares

Semana cento e setenta e três

Os lançamentos da semana são:

Longe da árvore, de Andrew Solomon
Autor do aclamado O demônio do meio-dia, em que dissecou o inferno da própria depressão, Andrew Solomon investiga dez categorias de diversidade – tão heterogêneas como surdez, genialidade musical, autismo, gravidez por estupro, esquizofrenia, transgeneridade e síndrome de Down – para compor um extraordinário mosaico da experiência de criar filhos não ajustados às definições usuais de “normalidade”.

Imobilismo em movimento, de Marcos Nobre
Imobilismo em movimento recupera os primeiros anos pós-redemocratização, da campanha pelas Diretas Já à primeira eleição presidencial desde a ditadura. Passa em revista os dois governos FHC, a era Lula e chega até Dilma Rousseff. Com uma clareza que reaviva na memória as mazelas recentes do Brasil, o autor resume os principais lances de cada administração – os escândalos de corrupção, as crises e planos econômicos, as viravoltas eleitorais. Pela primeira vez num trabalho de fôlego, o leitor tem uma perspectiva que dá sentido à Constituição de 1988, ao impeachment de Collor, ao Plano Real, ao boom econômico da era Lula, ao mensalão e às revoltas que tomaram as ruas em junho de 2013.

Brejo das almas, de Carlos Drummond de Andrade
O segundo livro de poemas de Drummond é um dos conjuntos mais poderosos de versos da nossa lírica. Enfileirando clássicos como “Boca”, “Soneto da perdida esperança”, “O amor bate na aorta” e “Hino Nacional”, entre outras pedras de toque do nosso modernismo, Brejo das almas ainda tem a particularidade de trazer, pela primeira vez na obra do poeta mineiro, um soneto – algo que as hotes modernistas rechaçaram de forma enérgica. Mais uma demonstração de ironia e espírito livre deste grande poeta.

O drible, de Sérgio Rodrigues
Murilo Filho, um famoso cronista esportivo à beira da morte, desfia suas memórias da época de ouro do futebol enquanto tenta se reaproximar de seu único filho, Neto, medíocre revisor de livros de autoajuda obcecado pela cultura pop da década de 1970, com quem rompeu relações há mais de vinte anos. Entre os craques do passado que revivem em suas histórias está o fascinante Peralvo, jogador de talento literalmente mágico que deveria ter sido “maior que Pelé”.  A tática de Murilo, porém, deixa buracos na defesa, nos quais Neto acaba por vislumbrar um terrível segredo de família enterrado nos porões da ditadura militar. Em seu terceiro e mais ambicioso romance, Sérgio Rodrigues empreende uma celebração, inédita em nossa literatura, do glorioso passado esportivo brasileiro, sem alienar o leitor que, como Neto, se sente um peixe fora d’água no “país do futebol”.

A casa do silêncio, Orhan Pamuk
Uma velha senhora aguarda a chegada da morte num balneário turco. À mansão em que vive já passou por dias melhores. E o que já fora uma bucólica vila de pescadores se transforma rapidamente num refúgio para os endinheirados do país. Seus netos a visitam anualmente – e representam alguns dos destinos da juventude naquele início dos anos 1980: o deslumbre com o consumismo norte-americano, o engajamento de esquerda refém do realismo socialista soviético, a frustração profissional. Tecido com maestria, esse jogo de visões e gerações compõe um arabesco que anuncia uma das vozes mais contundentes da literatura contemporânea.

A paisagem moral, de Sam Harris
Depois de se afirmar como opositor ácido da religião em A morte da fé, Sam Harris lança um livro explosivo para derrubar o muro que separa os fatos científicos dos valores humanos. O argumento central parte do princípio de que não é preciso um deus para definir as decisões de cunho moral: elas devem buscar o bem-estar da humanidade. O autor explora o equívoco na relação que traçamos entre a moral e as outras formas de conhecimento humano, invocando a ciência como a bússola para orientar sua tese.

Madrugada suja, de Miguel Sousa Tavares
Numa madrugada em Évora, três universitários e uma jovem de dezesseis anos saem para uma farra regada a muito álcool que finda em tragédia. Um dos rapazes é Filipe, o último descedente da minúscula aldeia alentejana de Medronhais da Serra, hoje habitada por um único homem, seu avô, Tomaz da Burra. Miguel Sousa Tavares, autor do bes-seller Equador, narra a vida desta família, desde a Revolução dos Cravos, em abril de 1974, até os nossos dias. Filipe é criado pelos avós nessa aldeia fora do tempo 0 um lugar que teve pouco mais de cinquenta habitantes e demorou muito a ganhar o seu televisor. Adulto, ele se torna arquiteto e irá conhecer cada vez mais de perto as sujeiras da corrupção política. Porém, ao tentar não se envolver num esquema de fraudes e propinas, voltará a ser assombrado pela trágica noite que viveu na juventude. Além de um retrato crítico e acurado sobre as mudanças em Portugal nos últimos quarenta anos, o leitor encontrará aqui uma história fascinante sobre como os acasos da vida nos levam a situações-limite.

É um livrinho, de Lane Smith
Um livro é um brinquedo nas mãos de um bebê. Mesmo sem acompanhar a história, eles adoram olhar as ilustrações, virar as páginas, dar uma mordidinha… Como uma versão “mini” de É um livro, que reafirma o amor às letras impressas em papel frente às novas tecnologias, aqui um burrinho procura saber para que serve o objeto quadrado que tem nas mãos. Uma ode, bastante divertida, ao velho e bom livro.

Editora Paralela

Manual do mimimi, de Lia Bock
SALVE O AMOR. Aquele de conchinha e barba na nuca, que pode durar para sempre ou só até amanhã. Aquele amor sem medo, sem freio que ama e pronto. Salve o amor que a gente dá e pega de volta outra hora, outro dia, com outra pessoa. Aquele aconchego facinho que não posa, não se esforça, não finge. Salve o amor-próprio que resolve a vida de muitos, o amor das amigas que aguenta, arrasta e levanta. Salve o amor na pista, que roça, se esfrega, se joga e vai embora. Um amor só pra hoje, sem pacote de presente, sem laço ou dedicatória. Salve o primeiro amor, que rasgou, perfurou, corroeu… ensinou. Salve o amor selvagem, o amor soltinho, o amor amarradinho. Salve o amor da madrugada, sincero enquanto dure e infinito, posto que é chama. Salve o amor nu, despido de inverdades e traquitanas eletrônicas. Salve o amor de dois a dez, um amor sem vergonha, sem legenda. Salve o amor eterno, preenchido de muitos ardores. Salve o amor gigante, mas sem palavras, o rotativo e escrito, salve o amor rimado, cego, de quatro. Salve o amor safado, sincero e sincopado, o amor turrão e o encaixado.

Fome de Deus, de Frei Betto
Nos dias de hoje, em que todos correm contra o tempo para cumprir compromissos, tem se tornado cada vez mais difícil encontrar momentos de tranquilidade, de reflexão e de encontro consigo e com Deus. No entanto, ao contrário do que pode parecer, a falta de tempo para a intimidade com Deus não significa falta de necessidade. As pessoas que, muitas vezes, se sentem carentes, vazias e perdidas, podem encontrar o que buscam em pequenos instantes de espiritualidade. Neste livro, Frei Betto, um dos mais importantes e ativos líderes religiosos brasileiros, aborda temas como a oração, o amor ao próximo, a fé, a vida de santos, sempre a partir de um ponto de vista atual. Por meio de textos simples, curtos, mas extremamente profundos, nos propões um encontro transparente e frequente com Deus – experiência mais rica e significativa do que imaginamos.

Semana oitenta e três

Os lançamentos da semana são:

Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespare, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Ainda muito moço, Borges começou a percorrer a árdua topografia do mundo dantesco ao longo das viagens de bonde que o levavam ao trabalho cotidiano na biblioteca municipal de Buenos Aires. Os ensaios deste livro são como relatos que refazem, numa tela fragmentária, os sugestivos pormenores simbólicos da história dessa viagem, ao mesmo tempo comum e insólita. Depois vêm “A memória de Shakespeare” e mais 3 contos fantásticos, em que o tranquilo domínio do estilo e as pulsantes obsessões se casam a motivos recorrentes da obra de Borges.

O fim da Terra e do Céu, de Marcelo Gleiser
Ao tratar das relações entre religião e ciência diante da questão do “fim de tudo”, Marcelo Gleiser homenageia a imaginação e a criatividade do homem. Seu enfoque é multidisciplinar, mostrando de que maneira ideias sobre o “fim” inspiram não só as religiões e a pesquisa científica, mas também a literatura, a arte e o cinema.

Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Na China recém-convertida ao comunismo, um operário se vê obrigado a vender o próprio sangue para sustentar a família. Quando desconfia que o seu primogênito é fruto de uma relação clandestina de sua mulher, ele tem de empreender uma batalha contra seus próprios valores para provar que os vínculos afetivos que o unem ao garoto podem ser mais fortes que os laços consanguíneos.

Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto, de Marc Fischer (Tradução de Sergio Tellaroli)
Um detetive alemão improvisado e sua assistente brasileira vasculham a cidade do Rio de Janeiro em busca de alguma pista que conduza ao misterioso… João Gilberto. A missão é quase impossível; o tempo para cumpri-la, curtíssimo. Menescal, Miéle, João Donato, Marcos Valle, Miúcha, o cozinheiro, o duplo, o Copacabana Palace, Diamantina — em tom de uma divertida história detetivesca, o jornalista Marc Fischer faz uma bela declaração de amor à bossa nova.

A vida de Joana d’Arc, de Erico Verissimo (Ilustrações de Rafael Anton)
Erico Verissimo constrói com delicadeza exemplar a personalidade de Joana, a menina francesa do século XV que ouvia vozes de santos e que transgrediu as convenções de seu tempo e de seu gênero vestindo-se de homem, lutando entre os soldados e defendendo seu rei.

A luz no túnel (Os subterrâneos da liberdade, vol 3), de Jorge Amado
O volume que fecha a épica trilogia apresenta o painel ficcional de um momento muito sombrio, quando republicanos espanhóis perdem a Guerra Civil para Franco, os alemães começam a Segunda Guerra e Getúlio Vargas mostra simpatia por Hitler e Mussolini.

O livro selvagem, de Juan Villoro (Tradução de Antônio Xerxenesky)
Juan precisa ler um livro completamente selvagem, que não se deixa ler. Mas por que o livro resiste à leitura? E por que Juan é o único capaz de desvendar seus mistérios? Com ele, os leitores vão descobrir não só a companhia que os livros podem nos fazer nos bons e maus momentos, como também a importância de se compartilhar o prazer e o conhecimento que as leituras nos proporcionam.

Assim falou Zaratustra, de Friedrich Niestzsche (Tradução de Paulo César de Souza)
Escrito e publicado progressivamente, entre 1883 e 1885, este veio a se tornar o mais famoso livro de Nietzsche. Nele se acha o relato das andanças, dos discursos e encontros inusitados do profeta Zaratustra, que deixa seu esconderijo nas montanhas para pregar aos homens um novo evangelho. Muitas das concepções apresentadas em outras obras do autor (como a morte de Deus, o super-homem, a vontade de poder e o eterno retorno) reaparecem aqui em nova linguagem, numa singular mistura de ficção poética, indagação filosófica e reflexão religiosa.

Olavo Holofote, de Leigh Hodgkinson (Tradução de Érico Assis)
Este livro é fantástico porque ele é totalmente dedicado ao Olavo Holofote. Aliás, é tão fantástico que o Olavo acha que não sobra epaço para mais ninguém além dele… Mas, quando todo mundo cai fora, Olavo começa a pensar: para que serve se exibir para si mesmo? Com certeza, isso não é muito divertido…

Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith & Joaquim Vieira
Concebido por um editor experiente e por um dos grandes especialistas em Fernando Pessoa, o livro apresenta centenas de imagens inéditas e conhecidas do poeta e sua família, desde os primeiros anos de vida do autor até os principais acontecimentos de sua vida — incluindo fotos, desenhos, caricaturas, cartas, diários, rascunhos, manuscritos e datiloscritos, reproduções de jornais e revistas em que publicou, além de obras de arte feitas em homenagem a Pessoa.

Ismael e Chopin, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Entre seus 52 irmãos coelhos, Ismael foi o escolhido pelo pai para aprender tudo o que ele tinha para ensinar. Juntos, os dois passam os dias a se aventurar pelos cantos da floresta, observando animais e plantas, e aprendendo segredos sobre um outro mundo. É que o pai de Ismael conhece a língua dos homens e a ensina ao filho — sem nem imaginar que isso levaria ao início de uma amizade muito especial, entre um coelho e um dos maiores compositores da música ocidental.

O segredo do rio, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Era uma vez um rio que passava bem em frente à casa de um menino. Ali, ele formava um lago, onde esse pequeno camponês passava grande parte de seu tempo, nadando de olhos abertos em suas águas cristalinas ou se aquecendo em um banco de areia que se formava nas laterais. Neste rio, se escondia um segredo surpreendente.

Garrafinha, de Mariana Caltabiano (Ilustrações de Rodrigo Leão)
Com seus óculos fundo de garrafa e altura de tampinha, Garrafinha se sente rejeitada por sua aparência e, como acontece a partir de certa idade, quer mais é ter amigos e ser popular. Mas seu grande motivo de sofrimento acabou se tornando a sua solução: como ela estava sempre sozinha, passava boa parte do tempo observando os outros — e também desenhando o que via. Esses desenhos fizeram sucesso entre as crianças, e Garrafinha achou o seu jeito de se expressar. Acesse o hotsite da Garrafinha para conhecer mais da personagem.

Semana cinquenta e nove

Os lançamentos da semana são:

A ausência que seremos, de Héctor Abad (Tradução de Rubia Prates Goldoni e Sérgio Molina)
“Já somos a ausência que seremos,/ o pó elementar que nos ignora…” são os versos iniciais do soneto atribuído a Jorge Luis Borges que Héctor Abad leu pela primeira vez num papel manchado de sangue ainda fresco. Encontrou-o no bolso do pai estirado na calçada, minutos depois de ter fuzilado por matadores de aluguel. Apenas 20 anos depois o autor conseguiu dar nome à sua dor, reconstruindo a trajetória do sanitarista Héctor Abad Gómez e sua obstinada luta contra as injustiças sociais, além da saga de sua família e as guerras que assolam a Colômbia. Abad mergulhou fundo na alma de seu povo e compôs um livro sensível sem sentimentalismo, cru sem truculência, carregado de dor e surpreendente humor, em que contempla a pequena e a grande história com olhos que já viram e choraram muito.

Por trás daquela foto: contos e ensaios a partir de imagens (Organização de Lilia Moritz Schwarcz e Thyago Nogueira)
Quantas histórias guarda uma imagem? Dirigido aos jovens de idade e de espírito, este livro é uma aula primorosa sobre a fotografia e sobre o que ela pode nos contar, dada por um time de autores tão variado quanto tarimbado. Escritores e jornalistas foram convidados a eleger uma imagem e, a partir dela, criar um conto ou ensaio que falasse de fotografia, mas também de cultura e histórias brasileiras. O resultado — esta coleção de textos saborosos e instrutivos sobre cenas consagradas e comuns, feitas por fotógrafos famosos e desconhecidos — mostra que uma imagem pode render bem mais que mil palavras, e que, por trás de cada foto, ainda há muito que descobrir sobre o Brasil e o mundo, seus personagens e lugares. É só ter olho vivo. (Textos de Humberto Werneck, Pedro Vasquez, Moacyr Scliar, Arthur Nestrovski, Lilia Moritz Schwarcz, Reginaldo Prandi, Alberto Martins e Nina Horta)

Um certo Henrique Bertaso, de Erico Verissimo (Prefácio de Luís Fernando Verissimo)
A epígrafe de Maulraux, “O homem é aquilo que faz”, introduz perfeitamente o tema e os personagens deste livro: a criação da editora Globo no início da década de 1930, em Porto Alegre, pela dupla Henrique Bertaso e Erico Verissimo. Bertaso começou a trabalhar como caixeiro pela Livraria do Globo aos 15 anos. Em Cruz Alta, Erico Verissimo, 17 anos, trabalha num armazém para se sustentar. O amor pelos livros e pela literatura reunirá os dois dali a alguns anos na construção de uma das mais importantes “publicadoras” que opaís já teve — matriz de um modelo de casa que teria papel decisivo no amadurecimento cultural do país.

Equador, de Miguel Sousa Tavares
Um dos maiores best-sellers da literatura portuguesa contemporânea, traduzido para diversos idiomas, Equador traça um retrato primoroso dos últimos anos da monarquia portuguesa, no início do século XX. O protagonista, Luís Bernardo, parte de Lisboa rumo à ilha de S. Tomé, na África, onde assume o cargo de governador, e se depara com uma realidade muito mais complexa e conflituosa do que poderia imaginar.

A lebre da Patagônia, de Claude Lanzmann (Tradução de Eduardo Brandão e Dorothée de Bruchard)
Com espírito libertário e numa prosa efervescente, o autor de Shoah (o documentário que representa para a história do Holocausto no cinema o que a obra de Levi significou para a literatura) reconta uma vida de aventuras, ousadia e toda a sorte de paixões — das intelectuais às amorosas —, transpirando uma alegria selvagem ao descrever, nomear e interpretar os fatos de uma vida que procurou sempre seguir em frente — como a lebre que empresta sua imagem para o livro.