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Os primeiros passos

Por Gabriel Bá

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Dois meses. Duas línguas. Nove sessões de autógrafos em cinco cidades na França, mais de 4.000 livros vendidos nas primeiras quatro semanas. Oito eventos em cinco cidades do Brasil, todos com bate-papos e longas sessões de autógrafos. Quase 6.000 livros distribuídos. Contratos assinados para lançar edições em inglês e italiano ainda este ano. Nunca imaginamos que este livro pudesse ser tão brasileiro e, ao mesmo tempo, tão internacional.

Quando penso no Dois irmãos, parece que minha cabeça se transforma no Biblos, restaurante do viúvo Galib, com sua algaravia de vozes e línguas. Formulo frases em francês pra explicar a história, resultado do lançamento no Salon du Livre de Paris e da pequena turnê pela França, em março, promovendo a edição do Deux Frères, publicada pela Urban Comics simultaneamente com a edição brasileira. Na semana passada, terminei a revisão do livro em inglês e passei os últimos dias discutindo o livro com o editor, pensando na edição e no lançamento nos EUA. Mas quando penso nas frases do livro que mais me encantam, as palavras ainda vêm em português.

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Depois de uma gestação de quatro anos, finalmente temos um livro novo no Brasil. Durante esses quatro anos, pudemos trabalhar em silêncio no Dois irmãos, não falamos ou mostramos nada do livro, assim como não fomos questionados sobre ele, pois as pessoas ainda estavam descobrindo o Daytripper. Incrivelmente, nosso último livro sobreviveu no interesse do público, nas prateleiras das livrarias, na boca do povo. Viajamos o mundo por causa do Daytripper. Sempre questionados sobre novos trabalhos, respondíamos que estávamos trabalhando nesta adaptação e a conversa parava por aí. Com o livro finalmente pronto e em mãos, surgem agora as razões para sair do isolamento produtivo e encontrar o público, falar da história, falar do trabalho, essa conversa entre leitor e autor só possível quando intermediada pela obra.

A curiosidade em cima do livro é enorme, cheia de “comos” e “porquês”, e o público presente nos lançamentos é muito diverso, incluindo nossos leitores, leitores do Milton, e até pessoas que se interessaram na obra depois de ver uma matéria na imprensa. Muitas pessoas descobrindo a história. Muitos não sabem nada do nosso trabalho, muitos não conhecem o Milton, mas a beleza desta adaptação está na união dessa gente toda, na ampliação de ambos os públicos.

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O Daytripper foi publicado inicialmente nos EUA, já ganhou edições em 12 línguas e tem nos levado para convenções ao redor do mundo, mas ele também nos aproximou mais do público brasileiro. O Dois irmãos pode reforçar ainda mais esses laços. As duas histórias poderiam se passar em qualquer outro lugar do mundo, mas por se passarem no Brasil elas ganham mais autenticidade, mais camadas de leitura, dão mais ferramentas de reflexão ao leitor brasileiro. O livro do Milton apresenta uma cidade encantadora, mas praticamente desconhecida, isolada geograficamente e perdida no tempo.

Depois de trabalhar por tanto tempo com essa história, criamos uma ligação muito forte com Manaus, uma relação que só o tempo traz. Poder retornar à cidade para lançar o livro foi uma enorme honra, uma chance de voltar no tempo e reviver a história do livro, pois a cidade que conhecemos há quatro anos também não existe mais, continua mudando. O inusitado lançamento de uma adaptação para os quadrinhos da maior obra do autor mais celebrado da cidade tomou conta do largo São Sebastião, mobilizou a grande mídia local, e várias pessoas pararam para escutar os dois gêmeos que respondiam perguntas, hipnotizando a todos com a novidade, com o circo. Alguns ali também não conheciam o Milton nem o romance, mas ficaram admirados com aqueles artistas de São Paulo, que haviam pintado tão belo retrato da sua cidade. Ninguém reparava no desenho em preto e branco. Viam uma cidade de avenidas largas, praças amplas e arborizadas e lindos sobrados. Uma cidade que alguns poucos presentes conheceram, mas todos sentem saudade. O poder que a ficção tem de falar da realidade.

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E finalmente, temos o Milton. Este trabalho nos apresentou e nos aproximou do Milton, um sábio, um mestre, um amigo. Ouvir o Milton falando do nosso livro é como ouvir um professor elogiando o desempenho do seu filho na escola, nos infla o peito de orgulho. Ele não está se gabando ou falando bem de sua própria obra, mas fala como maior conhecedor do assunto. Ele podia não saber nada da profissão de quadrinista, mas entende o trabalho e fala do nosso livro, da complexidade da história, dos personagens como se não tivessem saído da cabeça dele. Como ele mesmo disse, os dois livros são irmãos, mas não são gêmeos.

Nossos trabalhos são semelhantes e diferentes e o livro nos uniu, criou uma relação de respeito mútuo. A relação do Milton com a escrita, com a literatura, nos ensinou muito sobre os quadrinhos.

Este livro tem tudo que nós sempre acreditamos ser possível de fazer: uma história incrível, com a intensidade e poesia da literatura e o poder narrativo dos quadrinhos. Ele já nasceu falando mais de uma língua e viajando o mundo, e esses são só os primeiros passos.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo, e em 2015 lançaram pela Quadrinhos na Cia. a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Do início ao fim

Por Gabriel Bá

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“De onde você tira suas ideias?” 

Essa pergunta nos foi feita várias vezes por leitores, amigos e parentes, jornalistas, curiosos, artistas iniciantes querendo uma luz que aponte o caminho a ser seguido. Ela não tem uma resposta certa, definida, possível de racionalizar ou colocar em palavras. “De tudo, de conversas, de imagens, de coisas que eu escuto, eu vejo, eu leio. Do mundo, dos sonhos”. Todas estas respostas esbarram na verdade, mas nenhuma encerra a questão.

Uma ideia é o início de tudo. É aquela fagulha que aquece a imaginação do escritor e coloca todo o resto em movimento. É uma das etapas mais difíceis, verdade, justamente uma das mais preciosas, mas é preciso muita lenha e muito cuidado para alimentar o fogo, mantê-lo aceso e vivo. Uma ideia está longe de ser o trabalho pronto.

Não importa se é uma ideia para um desenho ou para um livro, ela é somente o começo do trabalho. A ideia se transformará em rascunhos, que levam aos estudos, que conduzem ao desenho pronto ou à história. E existe a emoção do processo, o valor da produção. É a jornada, a arrebentação. Existem aqueles que têm as ideias, mas não conseguem atravessar a arrebentação. É preciso muita determinação, vontade e paciência para continuar remando contra as ondas, dia após dia, durante os meses ou anos de trabalho. A sua ideia já ficou lá atrás, na praia. Foi ela que te convenceu a entrar no mar. Ao mesmo tempo, ela está lá no fundo, te chamando, te motivando a continuar dando braçadas enquanto a água te castiga e empurra para trás. Somente quem tem força para atravessar a arrebentação chega ao ponto privilegiado de onde ele pode aproveitar a experiência única de pegar aquela onda, de criar, de completar um ciclo.

A onda é o livro. Você pode enxergá-la da praia, ter uma vaga noção de como será surfá-la, você já viu outros fazendo e quer fazer também, mas é preciso nadar, remar, passar a arrebentação. A onda surfada é o livro pronto, impresso, na prateleira das livrarias, na mão dos leitores. É o sonho transformado em realidade.

Encontrei o Milton semana passada para conversarmos sobre o Salão do Livro de Paris, sobre o bate-papo que faremos juntos lá para falar da adaptação do Dois irmãos. Falamos da ansiedade de entregar o livro à editora e o tempo que demora até ele estar pronto, impresso, na sua mão. Conversamos das diferenças entre o processo de um romance e de uma HQ, das revisões, das correções, das mudanças. Quando a história está pronta? No nosso processo, a história está praticamente pronta quando terminamos o roteiro, o layout, mesmo que ainda falte desenhar centenas de páginas. A onda está lá, basta remar. Ele me contou que sempre escreve à mão, depois digita tudo para o computador e imprime, para ler e reler. Depois reescreve alguma coisa, redigita e relê. Repete esse ritual até achar que está pronto. Me disse que fez isso 16 vezes com o Dois irmãos. A paciência e determinação que levam à onda perfeita.

Agora o livro está terminado, escrito, desenhado. A última etapa é mostrar o trabalho para o mundo. Um livro inteiro feito, guardado na gaveta, não existe. Ele é tão real quanto a sua ideia inicial, quanto a onda que você imagina um dia surfar, ou até mesmo aquela onda que você surfou, diz que surfou, mas ninguém viu. É um trabalho de anos que não viu a luz do dia. O livro só está pronto quando ele é lido.

Hoje você pode mostrar o seu trabalho na internet, imediatamente e de graça, para milhões de pessoas. É uma possibilidade incrível de alcançar os leitores. Muitos autores de Quadrinhos hoje começam com webcomics, colocam suas tiras ou histórias curtas online, divulgam e são lidos. Alguns são mais conhecidos por seus trabalhos disponíveis online do que pelos livros impressos (podemos até nos incluir nesse grupo, considerando a quantidade gigantesca de pessoas que conheceram nosso trabalho através da nossa tira “Quase Nada” na internet, não no jornal, e só depois foram atrás dos livros, ainda assim nem sempre os encontrando). Isso não sustenta muita gente, mas o trabalho é visto e se torna real (até porque os livros impressos também não sustentam muitos escritores). Mesmo os e-books e versões digitais dos Quadrinhos têm sua vantagem, chegam aonde o livro físico não chega, a preços mais atraentes. É mais gente lendo, é isso que importa.

Mas eu conto histórias longas que não funcionam na velocidade da internet e sou de uma geração que quer ter o objeto livro, impresso. Ainda desenho no papel e gosto de segurar o livro na mão, de ver a história surgir na minha frente ao virar as páginas. Gosto de autografar os livros dos leitores, fazer um pequeno rascunho, uma marca para torná-lo um objeto único.

“Eu tinha começado a reunir, pela primeira vez, os escritos de Antenor Laval, e anotar minhas conversas com Halim. Passei parte da tarde com as palavras do poeta inédito e a voz do amante de Zana. Ia de um para o outro, e essa alternância — o jogo de lembranças e esquecimentos — me dava prazer.”

Adoro falar dos trabalhos, reviver as histórias, sou apaixonado pela linguagem dos Quadrinhos, por todas as etapas, e essa série de textos sobre o Dois irmãos foi um deleite, uma chance de voltar no tempo, de viajar lentamente por estes quatro anos de trabalho, olhar uma vez mais para cada detalhe e lembrar por onde nós andamos e o caminho que nos trouxe até aqui. Mas acredito que os trabalhos devem falar por si. Agora o livro está impresso, chegando às livrarias. A conversa dos leitores não é mais comigo, nem com o Fábio, nem com o Milton. É com o Halim, a Zana, a Rânia, Domingas, o narrador e os dois irmãos.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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O fim do capítulo

Por Gabriel Bá

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 “A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meu parentes”, disse com uma voz sussurrante. “Mas Zana quis assim… ela decidiu.”

Ao escritor cabe a difícil escolha de onde e como terminar um capítulo. Aquelas palavras, aquela frase que precisa ter cara de fim de capítulo, deixando uma impressão maior que as outras daquela página, incitando a curiosidade do leitor, introduzindo uma breve pausa para reflexão e o chamando para continuar a leitura. O fim de capítulo tem este desafio, esta responsabilidade.

Quando você escreve um texto em prosa, você não se preocupa com o espaço na página que o texto vai ocupar, somente com as palavras, com a forma da escrita, com o conteúdo; sai escrevendo, narrando, linha após linha, até o fim do seu capítulo, onde termina o texto. O fim do capítulo de um romance tem a ajuda do espaço em branco que restou na página para dar o respiro e a importância que ele precisa.

Numa história em Quadrinhos, a história é pensada espacialmente, pois você sempre tem o espaço físico da página pra considerar. Você escolhe a quantidade de informação que vai em cada página, em cada quadro, em cada balão. Assim como o desenho, o texto ocupa um espaço físico e tem diferentes pesos e importâncias dependendo do seu posicionamento na página. Todo fim de página tem a responsabilidade de chamar o leitor para a próxima página. O último quadro das páginas ímpares, da direita, têm uma importância maior ainda, pois eles precisam fazer o leitor virar a página para continuar a história. Normalmente é colocado neste quadro um “cliffhanger”, ou gancho, uma informação mais forte que agarre o leitor.

Uma HQ também pode ser dividida em capítulos, e o fim do capítulo precisa ser tão marcante quanto num romance, acumulando ainda as funções de fim de página, normalmente fim de página ímpar, com um bom gancho.

Quando pensamos no roteiro do Dois irmãos, fizemos tudo na forma de layout (como vimos no texto do dia 11 de fevereiro), assim já pensando ao mesmo tempo nos textos que entrariam, nos quadros, nas páginas. Fazíamos escolhas o tempo todo, em toda página, todo capítulo. Qual palavra vai entrar, qual será criada, modificada, onde vai entrar, qual imagem vai junto, onde acaba a página, onde vira a página, onde acaba o capítulo. Todas estas escolhas feitas neste estágio de roteiro, de layout, são, no final, as escolhas mais difíceis e as mais importantes. Depois disso, as escolhas mais específicas do desenho são mais técnicas, trabalham em função de tudo que já foi decidido no roteiro.

Ele advertia a esposa sobre o excesso de mimo com o Caçula, a criança delicada que por pouco não morrera de pneumonia.

(…)

“Fez os diabos, o Omar… mas não quero falar sobre isso”, disse ele, fechando as mãos. “Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.”

No trabalho de adaptação, reviramos, reorganizamos e recontamos a história. E em alguns momentos, o fim de um capítulo da HQ coincidia com o fim do capítulo no livro, podendo aproveitar a força que o texto já tinha. No fim do capítulo dois do Quadrinho, começamos a última página com um texto da última página do capítulo três do romance, terminando com as últimas palavras do capítulo dois (reproduzidas aqui, no início deste texto).

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Quando eu já estava desenhando o capítulo dois, a poucas páginas do fim do capítulo, o Fábio olhou com calma para o layout e achou que o capítulo não terminava bem. Mais especificamente, que o último Quadro não tinha cara de último quadro, de fim de capítulo. A composição não ajudava, os textos não ajudavam, a página não funcionava. Esta é a melhor parte de trabalhar com outra pessoa, pois ela vê as coisas de outro ângulo, enxerga outros caminhos. E a melhor parte de trabalhar com o Fábio, meu irmão gêmeo, é que nós podemos sempre ser honestos e dizer quando algo não funciona, quando algo podia ficar melhor, sabendo que não vamos magoar sentimentos ou ferir egos. Sabemos que o mais importante é a história. E, quase sempre, sabemos que as mudanças que o outro enxerga e pede são necessárias. Eu já sabia antes dele falar que aquele fim não estava ótimo, não tinha a força que ele podia ter, que o livro tinha.

Nessa cena, Halim está contando sua história para alguém que aparece de longe no quadro 2 e de costas no último quadro. Este outro personagem ocupa muito espaço do último quadro para alguém que não é importante nesse momento. Estamos gastando espaço à toa.

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Mudei a página, sem mudar nada no texto. O texto já era ótimo, já havia sido escolhido para terminar o capítulo. Os enquadramentos também permaneceram quase todos os mesmos, era a organização, a diagramação que podia melhorar. Principalmente, o último quadro não estava bom. Dividi o primeiro quadro, reorganizei as falas do segundo e dividi o quinto quadro, deixando as duas últimas falas sozinhas num novo último quadro, com mais respiro, o espaço para o leitor receber a informação e refletir. Foi como editar um filme, cortando alguns planos para incluir um plano que estava faltando. O último quadro era super importante para que a página tivesse cara de fim de capítulo.

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Antes, no último quadro, tínhamos um texto longo, de remorso e arrependimento, junto somente com o foco na expressão amargurada de Halim e um vulto cortado ocupando o primeiro plano. Agora, temos os dois personagens mais ao longe, de costas para o leitor, misteriosos, mirando o rio Negro, a revoada de pássaros, o sol se pondo no horizonte entre as gordas nuvens de Manaus, tudo isso acompanhado somente das duas últimas frases curtas se referindo à Zana, cuja importância na história é tão grande quanto seu poder sobre o Halim, e sua beleza, vontade e decisão são tão fortes quanto toda esta natureza sem fim que nos engole.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Linhas, traços, feições: Criando os personagens

Por Gabriel Bá

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“Do cabelo cacheado de Yaqub despontava uma pequena mecha cinzenta, marca de nascença, mas o que realmente os distinguia era a cicatriz pálida e em meia-lua na face esquerda de Yaqub.”

“Ali, em mil novecentos e vinte e pouco, morava aquele magricela, um varapau que  foi encorpando até ficar espadaúdo.”

“Yaqub quis ficar até meia-noite, porque uma sobrinha dos Reinoso, a menina aloirada, corpo alto de moça, também ia brincar até a manhã de Quarta-Feira de Cinzas.”

Estas são algumas das raras descrições de personagens durante o livro. As características físicas perdem espaço para sentimentos, posturas e atitudes, metáforas e poesia na maneira que o Milton cria os personagens, o que torna a leitura do romance encantadora, mas transforma o trabalho de desenhar estes personagens em um desafio ainda maior. Como escolher um rosto para uma ideia, como dar forma a um conjunto de emoções? Ao ler um romance, cada leitor cria na sua cabeça os “seus” personagens. Na nossa adaptação, precisamos criar a “nossa” versão desses personagens, tentando respeitar ao máximo o romance para que, quem sabe, ao invés de substituir as figuras que os leitores carregam, possamos inserir um novo dado visual no seu imaginário.

O universo do Dois irmãos é muito específico e diferente dos nossos trabalhos anteriores. “Uma mistura de gente, de línguas, de origens, trajes e aparências”. Longe dos nossos personagens cosmopolitas, contemporâneos e estilosos, era preciso buscar no fundo da nossa imaginação o visual certo para esses imigrantes, caboclos e curumins. Foi só depois de dois anos lendo, relendo, escrevendo e pesquisando que nós começamos a colocar as primeiras linhas no papel.

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Desde o início, nós fizemos uma escolha estilística para o Dois irmãos. Queríamos usar um estilo de desenho um pouco mais simples, mais sintético, principalmente nos personagens, para que eles ficassem mais “icônicos”. Precisávamos de desenhos que sobrevivessem pelas centenas de páginas que estávamos antecipando para o Quadrinho, onde expressões pudessem ser desenvolvidas mais profundamente e pudéssemos contar tudo com poucas mas bem escolhidas linhas. Traços fortes, olhos grandes e expressivos.

Depois de passarmos por uma leva de rascunhos genéricos de descendentes de árabes, ficou bem claro para nós que não estávamos desenhando As mil e uma noites, nem Aladim, mas uma história que se desenrola durante o século XX, cuja atitude, o estilo e a moda da época, todos esses elementos específicos, nos ajudariam na criação do visual dos personagens.

O primeiro a ser criado só podia ser Halim, o patriarca. Ele não é o narrador da história, apesar de boa parte dela ser contada a partir do seu ponto de vista, e também não é o personagem principal, mas são os sentimentos dele os mais fortes e que ditam esta saga de paixão e desilusão do início ao fim. O pai. Ele também serviria de molde inicial para os gêmeos.

Começamos com estudos do rosto, da testa, o cabelo, a barba. Ficamos um pouco em dúvida sobre seu porte físico, sua estatura, mas acabamos optando pelo “magricela”. Tem um estudo do Halim segurando uma corrente, menção ao trecho do livro em que ele luta com A. L. Azaz. As atitudes e o comportamento dos personagens também podem nos guiar na hora de criar o seu visual.

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Quando você está criando o visual de um personagem, você tem infinitos caminhos que pode tomar. Se você não tiver ideia alguma de qual quer seguir, pode se perder. Foi com a Zana que aprendemos que podemos errar muito na escolha de personagens e que uma indicação pode fazer toda a diferença.

A nossa imagem inicial para a matriarca da história era quase uma cigana, uma mulher exótica e encantadora, uma mistura de matrona italiana com mãe judia com cartomante. Toda nossa pesquisa visual inicial foi guiada neste sentido. Veja bem, quando buscávamos na internet imagens de mulheres nos anos 20, 30 e 40 no Brasil, em Manaus, ou libanesas, não era isso que encontrávamos. Mas essa era a imagem que tínhamos em mente e fomos recolhendo referências pra construir a Zana.

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Depois de criados os pais, passamos aos filhos. Seguindo um pouco os moldes que usamos para o Halim, começamos a pensar nos gêmeos. Durante a produção da HQ, percebemos que todos os personagens envelheceriam muito, alguns mudando pouco, outros totalmente transformados. A progressão dos cabelos grisalhos e brancos em Halim e Zana, as crianças se tornando adultos. Precisávamos pensar nisso na hora de criar os personagens, com traços simples e marcantes, para que eles permanecessem os mesmos durante toda a história, mesmo mudando a idade.

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Finalmente tínhamos o núcleo central da família criado. Para colocar a máquina em movimento, fiz um desenho de uma cena com todos os personagens, na loja, já adicionando mais atitude e contexto a eles.

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Era chegada a hora do primeiro teste dos personagens, talvez o mais duro: mostrar os primeiros desenhos ao Milton. Com a calma e serenidade que lhe são bem características, ele nos recebeu em sua casa para conversarmos sobre Manaus, sobre as escolhas e dúvidas que tínhamos sobre a casa da família na história e, principalmente, para mostrar os primeiros desenhos, os personagens.

Mostramos todos os rascunhos, o processo de criação, a evolução de cada um. Víamos a alegria em seus olhos, um sorriso no rosto, a reação mágica de quem vê as imagens que existem na sua memória representadas por linhas no papel. Foi então que aconteceu o momento mais importante desse encontro. Milton olhou para nossa Zana, fez uma pausa, respirou e nos falou algo como: “Imagino a Zana uma mulher mais elegante, atraente. O Halim é louco por ela, o leitor deve se apaixonar por ela”.  Mencionou a peça de teatro que haviam feito baseada no livro e como lá, apesar de gostar da adaptação do texto, a Zana estava muito caricata. Vi em seus olhos um desapontamento e, nesse minuto, percebi o quanto a Zana era importante na história. Conversamos mais um pouco. Milton buscou uma pasta, trouxe fotos antigas de família e da infância, juventude. As imagens que ele mostrou batiam perfeitamente com aquelas imagens que consegui na minha pesquisa pela internet, mas que eu havia descartado. No final das contas, aquelas eram as mulheres daquela época e aquela era a beleza que eu devia buscar. Ao invés da sensualidade caliente de uma cigana romena, a elegância e o charme de uma senhora, mãe de família. Bastou uma indicação do Milton para que nós encontrássemos o caminho certo da personagem.

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“Halim passou a frequentar o Biblos aos sábados, depois ia todas as manhãs, beliscava uma posta de peixe, uma berinjela recheada, um pedaço de macaxeira frita: tirava do bolso a garrafa de arak, bebia e se fartava de tanto olhar para Zana. Passou meses assim: sozinho num canto da sala, agitado ao ver a filha de Galib, acompanhando com o olhar os passos da gazela. Contemplava-a, o rosto ansioso, à espera de um milagre que não acontecia.”

Quando estamos criando um personagem, esperamos um milagre, aquele momento quando se está em frente à folha de papel cheia de traços e linhas, olhando para o personagem que acabou de desenhar, e ele finalmente olha de volta pra você.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Desenhando Manaus

Por Gabriel Bá

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“Zana teve de deixar tudo: o bairro portuário de Manaus, a rua em declive sombreada por mangueiras centenárias, o lugar que para ela era quase tão vital quanto a Biblos de sua infância: a pequena cidade no Líbano que ela recordava em voz alta, vagando pelos aposentos empoeirados até se perder no quintal, onde a copa da velha seringueira sombreava as palmeiras e o pomar cultivados por mais de meio século”.

Não há como imaginar Dois irmãos sem a cidade de Manaus. Ao longo do livro, Milton nos transporta com suas palavras para um lugar mágico, cheio de vozes, sons e cheiros, que se transforma junto com os personagens durante o desenrolar da história. Manaus é certamente uma peça principal nesta história e se o Fábio e eu tínhamos alguma pretensão de fazer uma adaptação à altura do livro, precisávamos conhecer a cidade.

Em abril de 2011, já havíamos lido e relido o livro, tínhamos um resumo de tudo e uma lista de coisas e lugares para ver em Manaus. O Milton nos enviou uma lista de locais que aparecem no romance e outros atrativos da cidade. Também nos colocou em contato com um amigo, Joaquim Melo, o Quim, que tem uma banca de livros e cartões no Largo São Sebastião, um entusiasta da história e cultura do Amazonas, que nos ajudou muito, nos guiou nesta viagem para dentro do livro, sabendo dizer quais lugares mudaram de nome, quais mudaram de cara e quais não existiam mais.

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Quim, cuidando da banca de Tacacá da Gisela, sua mulher, no Largo São Sebastião.

Passamos uma semana em Manaus andando pelas ruas do centro, percorrendo o caminho da praça Nossa Senhora dos Remédios até a praça Heliodoro Balbi, passando pela rua dos Barés, pelo porto, pela praça da Matriz. Atravessamos a ponte metálica ao lado da cadeia e visitamos o bairro dos Educandos. Algumas vezes nos escondemos da chuva, sempre gorda e passageira. Provamos o Tacacá, o Jaraqui frito. Passeamos de barco no rio Negro, visitamos comunidades flutuantes e nos perdemos em igarapés. Tiramos centenas, milhares de fotos, registrando a arquitetura das casas do centro, o movimento das ruas do comércio, as árvores nas largas avenidas e praças. Só indo até lá para entender a relação das pessoas com o rio, os barcos de vários tipos e tamanhos, as travessias, as viagens. O rio ali é uma estrada, é o caminho de pessoas de todas as partes do país e do mundo que estão ali de passagem, ou que ficaram, decidiram ficar, encontraram ali o seu porto.

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O Milton havia nos avisado que a Manaus que ele conheceu, que vive na sua memória e ele retrata em sua obra, não existe mais. Ao conversar sobre isso com ele, há um misto de paixão, encantamento, desilusão e mágoa. Todos estes sentimentos são encontrados no livro e só indo até lá é que eu pude entender do que ele estava falando. Essa viagem foi essencial para entender a cidade, desmistificá-la, compreender o universo geográfico da trama. Mas o livro conta uma história de época, uma viagem ao passado, e nós também queríamos captar esta aura. Trouxemos vários livros da história de Manaus, cheios de mapas, fotos e cartões postais de marcos históricos, praças, prédios, monumentos, lugares que o tempo apagou, mas que nos ajudaram a entender o encantamento do Milton pela cidade.

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Mapeamento das fotos que tiramos durante nossa visita a Manaus.

De volta a São Paulo, fizemos também muita pesquisa pela internet. Em uma das inúmeras buscas no grande oráculo (o Google), caímos em uma página no Facebook chamada Manaus de Antigamente, mantida por apaixonados pela história da cidade e que traz várias fotos (as mesmas que encontramos nos livros e cartões, além de muitas outras) e depoimentos sobre o passado da cidade, a vida cotidiana em várias épocas, as mudanças que ocorreram ao longo dos anos. Como a história do livro acontece ao longo de 50 anos, esta página foi de uma inestimável valia na nossa pesquisa, pra entender realmente o que mudou na cidade e em quais épocas.

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Quando já estávamos bem adiantados na produção da HQ, dezenas de páginas já desenhadas, nos vimos algumas vezes em busca de um ângulo novo que as fotos não traziam, de mais informações sobre a cidade que pudessem resolver uma cena. Voltamos virtualmente a Manaus pelo Google Maps, para relembrar os caminhos que fizemos e quais os caminhos dos personagens, tentamos imaginar percursos, rotas. De 2011 até 2014, a tecnologia caminhou bastante e adicionaram a ferramenta de Street View ao mapa de Manaus. Com isso, pudemos nos colocar novamente nas ruas da cidade e buscar os ângulos que nos faltavam. A cidade continuava em transformação e o Mercado Adolpho Lisboa, que estava em reforma quando fomos à cidade, agora havia sido reinaugurado. A casa que escolhemos de referência para ser a casa da família, que estava à venda na ocasião de nossa visita, agora trazia um muro alto que bloqueava a vista da rua. A constante transformação da cidade e a violência do progresso que são contadas no livro continuam até hoje.

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Na primeira imagem, fotos do coreto que tiramos durante nossa visita em 2011. Abaixo, imagem do Street View do mesmo coreto na praça Heliodoro Balbi, registrada em 2014.

No final das contas, assim como o romance, nós estamos contando uma ficção e o mais importante deste trabalho todo nunca foi retratar fielmente cada tijolo que existe nos prédios do centro, fazer um documentário sobre Manaus e as transformações que a cidade passou durante todos esses anos. O objetivo é conseguir transportar o leitor para dentro da história, fazê-lo acreditar que aquelas linhas em nanquim são ruas, praças e árvores, que está de dia ou de noite, acreditar na sombra dos oitizeiros e no balançar dos barcos no porto.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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