miranda july

Semana duzentos e cinquenta e sete

blogaum
O primeiro homem mau, de Miranda July (Tradução de Caroline Chang e Cristina Baum)
Cheryl é uma mulher reclusa e vulnerável. Ela é obcecada por Phillip, um sujeito galanteador e membro do conselho da empresa em que trabalha – uma organização que treina mulheres para autodefesa. Cheryl acredita que eles já fizeram amor em vidas passadas – mas ainda precisam consumar o ato nesta encarnação. Quando seus chefes pedem a ela que hospede brevemente Clee, a filha do casal, uma garota egoísta e cruel de 21 anos, seu mundo vira de cabeça para baixo. Mas é ela que traz Cheryl para a realidade e se torna o amor de sua vida. Lírico, engraçado, cheio de obsessões sexuais e amor maternal, este romance confirma Miranda July como uma voz espetacularmente original da cultura contemporânea.

De um caderno cinzento: crônicas, aforismos e outras epifanias, de Paulo Mendes de Campos
Polivalente por excelência, Paulo Mendes Campos espraiou seus textos – crônicas, aforismos, poemas, pequenos textos de observação social – em jornais e revistas durante décadas. Todos com a impressão digital de um grande autor: a graça delicada, a prosa leve e fluente, a cultura compartilhada sem pose. Reunidos pela pesquisadora Elvia Bezerra, os 53 textos desta edição permaneceram inéditos em livro até agora. Embora possam ser classificados como crônicas, os escritos variam da forma “clássica” ao aforismo, criando um mosaico delicioso e instrutivo sobre o Brasil e os brasileiros. Completo, o conjunto é um convite à diversão e ao encantamento pela palavra escrita.

Fontanar

Em busca de Jesus – Fé. Fatos. Falsificações., de David Gibson e Michael McKinley (Tradução de Berilo Vargas)
Quem foi Jesus de Nazaré e o que as relíquias a que tivemos acesso nos contam sobre esta figura fascinante? Este livro apresenta um novo olhar e busca respostas nos fragmentos de ossos de contemporâneos de Cristo, em textos de papiros e numa urna funerária de pedra calcária que talvez tenha contido os ossos do irmão de Jesus. Os autores examinam ainda pedaços do que pode ter sido a cruz e o sudário que pode ter envolvido seu cadáver. Explaram-se também as vidas de João Batista, Maria Madalena e Judas Iscariotes, na tentativa de entender o que as pessoas mais próximas de Jesus nos dizem sobre o Nazareno. Ao contar as histórias desses artefatos, este livro tenta resolver antigos enigmas sobre a autenticidade das célebres relíquias.

Paralela

Tijucamérica – Uma chanchada fantasmagórica, de José Trajano
Todo fã de futebol tem um time dos sonhos, uma escalação ideal para a equipe perfeita. Mas e quando os grandes craques ficaram no passado e os torcedores já não conhecem mais o sabor da vitória? É o caso do mitológico América, time-símbolo do bairro da Tijuca, que há décadas não levanta uma taça – nem mesmo um copinho que seja. Neste divertido e inusitado livro, José Trajano vai contar com uma ajuda sobrenatural para trazer de volta a alegria para o gramado do Campos Sales. Munido de um verdadeiro exército de videntes, mágicos, gurus e pais de santo, Trajano faz renascer a maior seleção do América de todos os tempos. O resultado é uma chanchada fantasmagórica que traz de volta para os dias de hoje uma época que tanto marcou – e segue marcando – a Cidade Maravilhosa.

Entrevista com Miranda July

Por João Lourenço


Antes de me anunciar na recepção, sento no bar do hotel e verifico pela última vez se as perguntas estão em ordem. Lá fora, a Union Square está lotada como sempre. É mais um dia típico de outono em Nova York. Desligo o celular assim que entro no elevador. Quem abre a porta do quarto é a própria autora. Ao contrário de outros escritores de sua geração, ela não costuma andar acompanhada de assessores. Com certa timidez, ela se apresenta: “Olá, eu sou a Miranda July. Seja bem-vindo!”. Ela me oferece um copo de água e uma barrinha nutritiva. Agradeço, e fico apenas com a água. “Desculpe, eu queria ter algo diferente para te oferecer, talvez um pouco de álcool ajudaria”, brinca. Aponto para o livro de capa preta que está ao lado do seu computador. “Sim, esse é o bendito, quer dar uma olhada?” Enquanto percorro os olhos pelas primeiras páginas de The First Bad Man, seu primeiro romance com lançamento previsto no Brasil para o segundo semestre de 2015, ela diz: “Esse livro demorou bastante para ser escrito porque eu ainda gosto de deixar algumas coisas para depois. Procrastinação, sabe. E agora eu sou mãe, isso muda um pouco a ordem das minhas prioridades”. Foi justamente a procrastinação que a fez escrever O escolhido foi você, seu livro mais recente, em que entrevistou estranhos selecionados no jornalzinho PennySaver em busca de histórias e pessoas reais que pudessem alimentá-la em seu projeto na época, o longa-metragem O futuro.

Antes de começar a entrevista, peço para filmarmos um vídeo para o blog da Companhia. Ela aceita, mas com uma única condição: a luz precisa ser alterada. “Calma, deixa eu apagar essa e acender aquela. Parece loucura, eu sei, mas aprendi que a luz certa pode fazer milagres” (risos). E continua: “Acabei de fazer 40 anos, mas por incrível que pareça essa idade não me assusta. Pensei que iria ficar desesperada, ter alguma crise existencial. Acho que estou melhor hoje do que antes, pois agora não sinto mais aquela necessidade de ter que fazer alguma coisa para dar sentido à minha vida. Já trabalhei em várias coisas e estou feliz com a minha carreira. O que me incomoda hoje em dia é olhar no espelho e ver como o meu corpo mudou. Isso sim me assusta. Ultimamente, essa é a conversa favorita entre as minhas amigas. Nunca paramos para pensar nisso (risos). Acho que já falei demais e você ainda nem fez a primeira pergunta. Pode começar!”.

– Recentemente, durante uma conversa com o escritor Howard Jacobson, ele disse não entender porque adultos estão buscando ficção erótica e fantasia adolescente no lugar de Henry James e Jane Austen. Jacobson está preocupado também com a nova geração, pois ele acredita que os jovens saem das escolas sem aprender a apreciar o que ele chama de um “bom livro”. Para você, como foi o processo de se tornar uma boa leitora?

Meus pais eram editores, então cresci rodeada de escritores e leitores ávidos. Muitos desses autores moravam em nossa casa. Nesse caso, quando o assunto é literatura, não tinha como eu ter crescido em um ambiente mais acolhedor. Lembro que meus pais sempre estavam escrevendo e discutindo sobre livros com amigos. Em casa, a leitura tinha um papel extremamente importante. No entanto, apesar de ter crescido no mesmo ambiente, meu irmão não é um bom leitor. Consigo ver esse traço em sua personalidade, está presente em sua energia. Dito isso, acredito que fugir para o mundo imaginário da leitura também é algo bastante pessoal, não tem a ver apenas com educação. Seus pais podem ser professores, leitores, não importa; em alguns casos isso está ligado à personalidade da pessoa. Ler ficção não tem muito a ver com você ser inteligente ou não, conheço várias pessoas inteligentes que não gostam de ler ficção. Então, eu acho que é uma combinação de personalidade e ambiente, varia de pessoa para pessoa.

– E por que escrever ficção?

Alguns tipos de dor, tristeza e até mesmo alegria são insuportáveis. Muitas vezes, esses sentimentos são inexplicáveis, impossíveis de articular. Então, tentar descrevê-los é um ato de ligação. No meu caso, sempre acabo escrevendo algo contrário à sensação que estou tendo. Esse jorro de emoções em forma de escrita é uma forma de se conectar com pessoas que estão sentindo a mesma coisa. É isso que precisamos para sobreviver! Precisamos sentir que fazemos parte de algo maior, da humanidade. E o sentimento, quando não é expresso — seja nos livros ou em outra forma de arte — fica isolado. É isso. Contamos histórias porque precisamos desse sentimento de conexão.

– O que ou quem teve maior impacto criativo em você?

Sou influenciada pelos outros artistas que conheço. Não terminei meus estudos e nunca fiz nenhum curso ou aula especial para aprender a fazer as coisas que faço. Aprendi observando. Meus amigos sempre estavam tentando criar algo e muitas vezes eles ficavam presos em uma ideia e não conseguiam seguir para o próximo passo. Estar ao lado dessas pessoas foi a experiência mais encorajadora que eu já tive. Eles são os meus heróis. E lá fora, no dia a dia, não há nada parecido com isso. Não tem como aprender certas coisas na escola. Eu não me arrependo de ter abandonado os estudos, pois sei que não sou o tipo de pessoa que iria aprender alguma coisa dentro dos moldes tradicionais.

– Sinto algo de nostálgico e melancólico em seus trabalhos. Escrever é uma forma de fazer as pazes com o passado?

Nunca parei para pensar nisso. Certamente, eventos de toda a minha vida ecoam pelos meus textos, tanto no cinema quanto na literatura. Só que, quando eu estou trabalhando em um novo projeto, sempre estou mais preocupada com o agora do que com o passado. Me rodeio de coisas que estou pensando e os sentimentos que estou tendo naquele determinado momento. Não gosto de pensar nisso agora. Acho que vou mergulhar na nostalgia quando estiver mais velha (risos).

– No começo do próximo semestre, seu primeiro romance — The First Bad Man — chega às prateleiras. Já sente a pressão?

Quando comecei, esse tipo de pressão afetava bastante o meu trabalho. Hoje, pelo fato de eu ficar pulando de uma plataforma para outra, a pressão é menor. Faz muito tempo que escrevi aquele livro de contos. É claro que você sabe do que estou falando (Agir, 2008). Talvez a pressão seria maior se aquele livro fosse o meu último trabalho. Então, esse romance me assombrou só um pouquinho (risos). O que mais me assustou é que o processo de escrever um romance é totalmente diferente do processo de escrever um livro de contos. Demorei para perceber que o que estava fazendo estava certo. Por muito tempo, fiquei em um estado de total descrença. Esse livro me levou para um outro mundo, totalmente isolado e profundo.

– Pode adiantar um pouco do enredo?

Nesse projeto, algo diferente aconteceu. Tive a ideia para esse livro há anos, e a ideia original sempre permaneceu a mesma. Eu tinha essa história de duas mulheres, uma solteirona e solitária de 40 e tantos anos e outra de 20. Eu sabia que elas teriam algum tipo de relacionamento que iria mudar radicalmente ao longo da narrativa, algo como se elas estivessem nascendo de novo e de novo. Essa era a ideia principal. Mesmo após um dia de tentativas frustradas, eu sabia que a história das duas era interessante. Nunca deixar de acreditar nelas foi a minha salvação. Só assim consegui chegar ao fim do meu primeiro romance. Esse livro foi escrito de forma cega. Sabia muito do que iria acontecer antes de ter o primeiro rascunho pronto. Então, por 8 meses eu me forcei a escrever apenas o que sabia, página após página. Só depois disso que algo mágico aconteceu e me permitiu voltar para a história e alterar trechos, ser mais experimental em algumas passagens que eu não sabia se tinha alguma coisa a ver com o livro ou não, mas no fim tudo deu certo porque eu tentei seguir uma lista de tarefas. Esse exercício é bastante libertador, trabalhar em apenas determinado trecho. Sei que não respondi muito bem a sua questão, mas não quero entregar muito o enredo.

– Essa ideia de amor transcendental tem alguma base religiosa?

Não, eu não tenho uma crença específica e não acredito em reencarnação. Porém, quando se trata de uma narrativa, há algo sobre essa ideia de renascimento que me fascina. Sempre tive vontade de tentar algo parecido em algum filme, contar uma história onde as pessoas morrem e nascem novamente. Sabe, uma estrutura desajeitada para ajudar a mudar drasticamente os relacionamentos dos personagens. Isso sempre foi um desafio. Talvez eu tenha conseguido algo parecido com esse livro.

– O seu livro de contos, além dos diversos prêmios, também ficou conhecido como o livro sem aspas — artifício que você não se sentia confortável em utilizar. Quando se trata de ficção, o que você aprendeu nesses últimos anos?

Bom, agora eu sei como usar aspas (risos). Aprendi que elas dão vida ao texto. Também aprendi a me editar melhor. Os primeiros rascunhos desse livro estavam muito carregados com algumas versões do meu passado, sabe, muitas metáforas que não iriam fazer sentido para o leitor. No final do processo de edição, percebi que era necessário abandonar o que era óbvio para mim e acrescentar motivações para as ações do personagens. Aprendi que não destrói a magia da história mostrar porque as pessoas agem de tal maneira e não de outra. Aprendi coisas simples que talvez não precisasse aprender se eu não tivesse começado a minha carreira como uma artista de performance. Antes, eu não tinha nenhuma noção de estrutura, não sabia explicar os porquês das situações. De certa forma, esses truques básicos me ajudaram muito. Há algo de elegante e útil no processo da reescrita, é como se você tivesse que quebrar a sua própria espinha vezes e vezes sem conta.

– Você é casada com o cineasta, artista gráfico e quadrinista Mike Mills. Vocês costumam trocar ideias e dar palpite no trabalho um do outro?

Não! Veja só, ele acabou de ler esse livro. No começo da nossa relação, a gente costumava compartilhar mais. Acho que com o tempo percebemos que há outras pessoas capazes de nos aconselhar. Há outras pessoas que podem fazer isso, mas não há ninguém mais que possa ser um marido e não há ninguém mais que possa ser uma esposa. Faz sentido? (risos) Talvez seja uma forma de nos protegermos. No entanto, ele foi a primeira pessoa que eu recorri para contar sobre o meu novo livro, anos atrás, quando ainda era apenas uma ideia. Eu não tinha muita certeza, achava que não passava de mais uma dessas ideias que anotamos e nunca mais voltamos atrás, mas ele disse “isso é um pedaço de ouro”. De certa forma, eu não sei se teria me dedicado completamente a essa ideia se não tivesse recebido esse comentário e incentivo dele. Nós somos muito conectados durante o processo criativo, principalmente no começo da ideia, mas depois não ficamos apontando dedos no trabalho do outro. Acho que isso faz parte do nosso caso de amor. Estamos sempre produzindo, um ao lado do outro, mas não interferimos muito. Eu costumava fantasiar sobre esse tipo de intercâmbio criativo, mas hoje eu valorizo a minha bolha solitária (risos).

– Você é conhecida por pular de um projeto para o outro, está sempre explorando novas mídias e plataformas. Como funciona esse processo?

Sempre tenho algo “meio começado”. É bastante libertador ter uma ideia nova enquanto você está trabalhando em algo totalmente diferente, porque aquela ideia fica respirando em um ambiente sem pressão — pois você não tem como dar início àquilo antes de terminar o que já está em desenvolvimento. E quando você termina algum projeto, aquela ideia anterior já está cansada de ficar em banho-maria, então você acaba encontrando um lugar para ela. E tudo começa novamente. Eu nunca penso “vou fazer um filme, vou escrever um livro”. Primeiro vem a ideia, só depois eu penso em qual meio vou desenvolvê-la. É assim que eu costumo fazer esse tipo de sobreposição.

– Mais tarde, durante o New Yorker Festival, você vai falar com o Michael Chabon e outros autores sobre a Califórnia. Se você tivesse sido criada em outro lugar, a sua voz seria a mesma?

Essa é uma boa pergunta, pois apesar de ter sido criada em Berkeley, eu nasci em Vermont. Mudamos para a Califórnia quando eu tinha 5 anos. Em Vermont, a gente morava em uma colina, perto de uma cidadezinha. Acho que teria sido difícil desenvolver a mesma voz que eu tenho hoje se tivesse ficado por lá. Em Berkeley, você morou lá e sabe, as pessoas são obcecadas por assuntos muito específicos. O ambiente solto da cidade me ajudou a criar uma voz. Hoje eu moro em Los Angeles, mas em muitas situações ainda me vejo como uma garota de Berkeley. Todas as minhas histórias, principalmente esse último livro, apresentam personagens que são típicos de lá — pessoas que no começo parecem estranhas, mas que no fundo não é bem assim, elas são apenas apaixonadas por aquilo que os outros não dão muita atenção.

– Esse aspecto de Berkeley que você comentou não é muito bem visto em outros lugares. Tenho amigos que acham que em Berkeley tudo é muito forçado, mas não é bem assim. Eu morei em Elmwood, no meio da College Avenue. Como você mesmo disse, só morando em Berkeley para entender aquelas pessoas. Depois de um tempo, você percebe que todo mundo se conhece, há um senso de comunidade e admiração mútua que eu ainda não presenciei nas outras cidades que morei.

Concordo totalmente. Acho que vou usar seu comentário mais tarde (risos). Em Berkeley, talvez pela excentricidade, todo mundo acaba se conhecendo e colaborando entre si.

– Miranda, você sempre utilizou a tecnologia a seu favor. No ano passado, você lançou o projeto “we think alone”, onde reuniu emails de celebridades, amigos e até de um físico quântico que foram parar no seu emaranhado de mensagens. Quando se trata de tecnologia, quais as maiores transformações que você sentiu nos últimos anos?

Acho que estamos no começo de tudo, ainda tentando entender como utilizar essas ferramentas. Acho que um dia vamos olhar para trás e perceber todos os erros que cometemos, mas vejo que hoje, pelo menos no meu círculo de amigos, as pessoas estão ficando cada vez mais incomodadas com aqueles que não conseguem largar seus telefones. Essa obsessão não é mais vista com bons olhos. Para mim, a melhor tecnologia hoje em dia é aquela que ajuda a cortar a internet e toda essa comunicação desenfreada (risos). Estou utilizando um aplicativo chamado Headspace para meditação. No começo, estava um pouco descrente, pois fiz meditação por muitos anos e tinha dúvidas sobre como um aplicativo para celular iria me ajudar — acho que por isso que eu tentei. E, adivinhe, não só me ajudou como é a única solução para eu conseguir meditar esses dias. Essa vida de trabalhar em projetos alternados e ser mãe ao mesmo tempo não é fácil. Encontrar disciplina para largar tudo e meditar é quase como um presente. Hoje, com esse aplicativo, consigo meditar quase todos os dias, independentemente do lugar que eu esteja. Não estamos mais pensando em criar tecnologia apenas para nos comunicar, acho que chegamos em um ponto onde sabemos que é importante aplicar essa tecnologia em todos os aspectos de nossas vidas, pois a vida não é feita só de fotos e filtros. Hoje a grande pergunta é: como podemos utilizar a tecnologia para acalmar nosso corpo e nossa mente. Acho que essa é a maior transformação.

– Falando em aplicativos, você acabou de lançar um, chamado “Somebody”! Como surgiu essa ideia?

O aplicativo que eu criei tem muito a ver com o que eu sempre fiz. Envolve interagir com estranhos e interpretar um personagem. Me inspirei em uma amiga. Ela estudou nesse colégio que, no dia dos namorados, você tinha a possibilidade de pedir para o pessoal do coral cantar canções de amor para o seu pretendente. Logo, sabia que essa ideia de envolver outra pessoa para entregar a sua mensagem era genial, só que não em forma de canção (risos).

– Mensagem de texto é cafona. Telefonemas estão em decadência. E o e-mail datou. Como você se comunica com amigos e familiares?

Gosto de sentar e conversar apenas com uma pessoa, frente a frente, mas isso está cada vez mais difícil. Eu ainda troco e-mails. Gosto de comunicação longa. Também costumo marcar conversas por Skype ou FaceTime com alguns amigos mais próximos. E conversamos por uma hora, quase duas, o que é um milagre nesses dias de rápida informação. Mas é engraçado, pois eu também vejo as pessoas da minha geração, que estão com seus 40 anos, trocando mensagens de texto sem parar. E isso é algo que eu não consigo, evito escrever e responder mensagens de texto. E, devo admitir, tenho um pouco de pena de quem não consegue sentar para ter uma conversa decente.

* * * * *

João Lourenço é jornalista, nascido no Paraná e criado em São Paulo. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Foi assistente de Stephen Todd, do Times e do Guardian. Já entrevistou todos os escritores que queria, menos a musa de todas as musas: Joan Didion. Ele também tentou estudar Literatura Francesa pelo simples prazer de ler e acreditar que iria passar todas as aulas discutindo Balzac. Sem data para retornar, agora está em Baltimore tentando escrever seu primeiro romance.

Semana cento e quarenta e dois

Os lançamentos desta semana são:

O escolhido foi você, de Miranda July (Trad. Celina Portocarrero)
Enquanto sofria para acabar o roteiro de seu segundo longa-metragem, O futuro, a escritora, performer e cineasta Miranda July resolveu recorrer a um jornalzinho de anúncios. De início era só mais uma atividade procrastinadora, mas a consulta ao PennySaver revelou-se uma solução para o bloqueio criativo. Miranda se deparou com estranhos itens à venda, como grinos e bonecos dos Ursinhos Carinhosos, e, sem saber direito o que procurava — além de inspiração, histórias e motivos para continuar o filme —, decidiu se encontrar com os anunciantes daqueles objetos. A transcrição de dez entrevistas com pessoas comuns e bastante peculiares de Los Angeles, ilustradas por fotografias feitas durante as conversas, resultou neste livro. Dessa atividade aleatória para passar o tempo, emergem reflexões delicadas da artista, que compõe uma espécie de híbrido de literatura, making of e relato íntimo.

O que é arte contemporânea?, de Jacky Klein e Suzy Klein (Trad. André Czarnobai)
Quadros pintados com esterco de elefante, esculturas montadas com peças de carros quebrados, cheeseburgers gigantes no meio do museu… Os artistas estão sempre inventando formas diferentes de fazer arte. Usando técnicas e materiais cada vez mais inusitados, eles recriam o mundo e propõem novas maneiras de enxergá-lo. Neste livro, você vai conhecer obras de mais de 70 artistas contemporâneos do mundo inteiro, com informações a respeito de cada um deles, explicações de como os trabalhos foram feitos, esclarecimentos sobre o significado de termos importantes, além de indicações de museus e sites relacionados ao tema. Venha observar, explorar, questionar e aprender a partir do universo divertido e encantador da arte contemporânea.

O complexo de Portnoy, de Philip Roth (Trad. Paulo Henriques Britto)
Quando lançado, em 1969, O complexo de Portnoy se tornou best-seller e foi saudado como a consagração do talento de Philip Roth. A crítica, porém, teve certa dificuldade em classificá-lo. Seria “literatura séria” ou apenas humor? Também era inegável o desconforto causado pela centralidade do autoerotismo: masturbação não era matéria apropriada para um romance com pretensões artísticas. Nos últimos quarenta anos caíram não apenas os tabus sexuais como também as barreiras entre “arte elevada” e “arte de consumo”. Escritores como Thomas Pynchon e John Barth demonstraram que é possível utilizar as linguagens pouco nobres para fazer literatura de primeira grandeza. Relendo o livro agora, constatamos que o humor, a ferocidade e o virtuosismo de Roth permanecem intactos, e podemos mais do que nunca fazer justiça a esta pequena joia literária.

Em cima daquela serra, de Eucanaã Ferraz
“Por detrás daquele morro,/ passa boi, passa boiada/ também passa moreninha/ de cabelo cacheado”, diz a parlenda tão conhecida pelas crianças, que lembra bastante a história deste livro. Mas no morro criado por Eucanaã Ferraz e ilustrado por Yara Kono, além de passar boi e passar boiada, muitos outros bichos e outras coisas andam ali por cima: uma égua pintada, goiaba e goiabada, carro e caminhão, balão colorido e avião… E às vezes até não passa nada!

Sombrinhas, de Jean Galvão
Sabe quando surge aquela ideia genial de repente? Aquela lampadazinha logo acima da cabeça? Pois um menino e seu gato tiveram uma dessas ideias, e bem no meio da noite. Com uma lanterna, mais as mãos e o rabo, inventaram um jogo de sombras. Eles só não lembraram que a pilha poderia acabar — a pilha, mas não a brincadeira.