ngũgĩ wa thiong’o

Chegando no Brasil

Por Ngũgĩ wa Thiong’o 

ngugi

Nunca estive no Brasil, mas, mesmo assim, tenho a sensação de já conhecer o país e o seu povo. Talvez em razão de sua história. Muitos brasileiros negros são descendentes de Angola e do Congo. E é muito comum se referirem ao afro-brasilianismo nos mesmos termos com que se referem ao indigenismo haitiano, ao afrocubanismo e ao renascimento do Harlem como as raízes da (movimento literário) Negritude, capitaneados por Aimé Césaire e Sédar Senghor.

No meu caso, é bem possível que esteja também relacionado com meu filho Bjorn, de origem queniana e sueca. Ele esteve no Rio de Janeiro por duas vezes trabalhando com jovens da periferia. Fala o português com fluência e se recorda de sua experiência na cidade com afeto.

É também provável que esteja relacionado com meus encontros com os romances de Jorge Amado: Terras do sem-fim e Gabriela, cravo e canela. O livro parece exalar o cheiro, a terra e o verde exuberante que brota do solo, em especial na Bahia.

Com relação à FLIP, minha expectativa é não apenas conhecer novos escritores, mas também sentir o aroma da terra e o sabor da vida, tão bem capturados pelos romances de Jorge Amado.

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Leia a seguir um trecho da introdução de Simon Gikandi para Um grão de trigo, primeiro livro de Ngũgĩ wa Thiong’o publicado no Brasil que será lançado no dia 30 de junho.

O status de Um grão de trigo como um clássico da literatura africana jamais foi posto em dúvida. Publicado em 1967, no meio da primeira década da independência do Quênia, era o terceiro romance de Ngũgĩ e um forte sinal de seu amadurecimento como escritor moderno. Apesar de terem sido bem recebidos por leitores e críticos, os dois romances anteriores de Ngũgĩ, Weep Not Child e The River Between, revelavam sintomas do estilo de um escritor ainda jovem e da sua busca insegura por um lugar no cânone emergente das letras africanas. Os primeiros romances de Ngũgĩ refletem a tentativa do aprendiz em modular formas literárias herdadas para dar conta de cenários africanos; mas Um grão de trigo se destaca como obra de um romancista maduro, seguro de seu controle sobre as múltiplas experiências e contradições a definir as vidas africanas pós independência, inclusive o caráter frágil da identidade social. (…)

Os antecessores de Ngũgĩ na cena literária africana haviam se preocupado com o passado e as condições de sua representação narrativa. Ao conceber o passado africano como tragédia, ou de modo romanceado, esses escritores afirmavam categoricamente, bem em consonância com Achebe, que o tema fundamental da literatura africana era fornecer aos africanos um sentido adequado da própria história. A motivação para produzir literatura africana, argumentava-se, era a de recuperar um passado africano como instrumentalidade, e a de mostrar que os africanos tinham uma história viável. Mas, quando Ngũgĩ escreveu seu terceiro romance, esta preocupação com a história começava a ser questionada por uma nova geração de escritores africanos. Na verdade, já em 1967, Ngũgĩ surgira como o porta-voz principal de um grupo de escritores que alertava sobre o perigo de utilizar o passado para mascarar a crise do presente, argumentando que chegara a hora dos intelectuais negros falarem sobre os problemas de gente comum, que já estava sendo excluída do projeto de construção nacional. Além do mais, Um grão de trigo estava sendo escrito num momento de incerteza sobre a direção que a sociedade africana tomaria depois da independência. No meio da primeira década da independência, a euforia que acompanhara a descolonização cedera, dando lugar à desilusão e ao desencanto. Os escritores não tinham mais certeza de que as formas literárias que pretendiam recuperar o passado fossem capazes de arcar com o peso incerto do presente. (…)

Um grão de trigo pertence à longa linhagem de romances modernistas cuja linguagem, sentido e visão são propelidos pela incerteza da gente sobre a história, o lugar, a revolução e a moral. Na verdade, a preponderância da ironia em Um grão de trigo assinala sua afinidade com o estilo literário do alto modernismo, do qual ele se apropria, e ao mesmo tempo inverte. O romance utiliza estratégias bem conhecidas do modernismo, inclusive fluxos de consciência, cronologias múltiplas ou fracionadas, e imagens fragmentadas, para dar conta daquilo que Ngũgĩ veio a considerar como a crise da independência africana. Mas já que seu objetivo era reconstituir a narrativa da descolonização no Quênia e refletir sobre o deslocamento profundo dos personagens em relação a suas histórias e cenários, especialmente durante o período Mau Mau nos anos 1950, Ngũgĩ não podia abandonar o realismo tradicional. Precisava dele para tratar de assuntos e comunidades reconhecíveis e localizá-los na textura de uma história conturbada, ainda que rica. Seu desafio foi como afirmar esta história e torná-la uma presença palpável em suas obras, enquanto também desconstruía seu uso e abuso na situação pós-colonial. O sucesso de Um grão de trigo pode ser atribuído ao emprego magistral da forma modernista, por Ngũgĩ, para explicar a política da transformação na África pós-colonial.

Simon Gikandi

Universidade Princeton, 2008

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graoUM GRÃO DE TRIGO
Sinopse: 
Publicado originalmente em 1967, este romance magistral, inédito no Brasil, trata do difícil processo de independência do Quênia, e das dúvidas e lealdades que cada um leva consigo. Mugo é um homem solitário, tido como herói pelos habitantes da aldeia de Thabai. Misterioso e calado, Mugo atuou ao lado de Kihika — mártir da luta contra o domínio inglês que morreu executado em praça pública. Durante o tempo em que ficou preso nos campos de detenção, nunca delatou seus companheiros, nem mesmo sob tortura. Conforme o dia da independência se aproxima, no entanto, ex-ativistas planejam expor e executar o suposto traidor que levou Kihika à morte. Sombras começam então a pairar sobre todos, até mesmo sobre Mugo.

Ngũgĩ wa Thiong’o participará da FLIP na sexta-feira, dia 3 de julho, na mesa “Escrever ao sul”, com Richard Flanagan. Os ingressos estão à venda.

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Ngũgĩ wa Thiong’o nasceu em Limuru, Quênia, em 1938. É romancista, ensaísta, dramaturgo e um dos principais escritores e estudiosos africanos em atividade. Seu primeiro romance, Weep Not, Child, foi publicado em 1964, enquanto estudava na Inglaterra. Em 1977, ele escreveu uma peça teatral que contrariou o governo do Quênia e acabou preso por mais de um ano pelo regime ditatorial. Um grão de trigo (1967) é o seu terceiro romance. Vive atualmente nos Estados Unidos, onde é membro da American Academy of Arts and Letters e professor da Universidade da Califórnia, em Irvine.

Prepare-se para a Flip

Hoje tivemos a coletiva da Festa Literária Internacional de Paraty, que anunciou os convidados de sua 13ª edição. Em 2015, a Flip vai acontecer entre os dias 1º e 5 de julho e tem como autor homenageado Mário de Andrade. A Companhia das Letras e a Objetiva têm diversos autores entre os convidados deste ano. Conheça!

Colm Tóibín

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Um dos principais nomes da ficção estrangeira, o irlandês Colm Tóibín ganhou o Costa Book Award e o Los Angeles Times Book Prize, entre diversos outros prêmios. É autor de seis livros, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras: A luz do farol (2004), O mestre (2005), Mães e filhos (2008), Brooklyn (2011) — que ganhou uma adaptação para os cinemas — e O testamento de Maria (2013). Seu romance mais recente, Nora Webster, está nas listas de melhores livros de 2014 dos principais jornais e revistas literárias, e chega em junho às livrarias brasileiras. O autor vive em Dublin e em Nova York.

Mesa Encontro com Colm Tóibín — Quinta-feira, 2 de julho, às 19h30.

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro em 1961. É autor de, entre outros, Martelo (1997), Desassombro (2002) — vencedor do prêmio Alphonsus Guimarães, da Biblioteca Nacional, de melhor livro de poesia de 2002 — e Cinemateca (2008). É professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, além de autor, também foi organizador de livros como Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), de Caetano Veloso. É coordenador editorial da Coleção Vinicius de Moraes. Seu livro de poemas mais recente, Escuta, foi lançado março deste ano. Na Flip, Eucanaã vai participar da mesa “A Cidade e o Território”, um diálogo entre arquitetura e literatura brasileira com Antonio Risério.

Mesa “A cidade e o território” — Quinta-feira, 2 de julho, às 10h.

Ngũgĩ wa Thiong’o

Ngugi - credito - Daniel Anderson

Ngũgĩ wa Thiong’o é um escritor queniano. A sua obra inclui novelas, peças teatrais, contos e ensaios, da crítica social à literatura infantil. Um grão de trigo, publicado originalmente em 1967, será lançado no Brasil pela Alfaguara em junho e trata do difícil processo de independência do Quênia. O autor participa da mesa com Richard Flanagan sobre literatura no Hemisfério Sul.

Mesa “Escrever ao sul” — Sexta-feira, 3 de julho, às 17h15.

Eduardo Giannetti

Eduardo Giannetti, filósofo.

Eduardo Giannetti nasceu em Belo Horizonte em 1957. É formado em economia e em ciências sociais pela USP e PhD em Economia pela Universidade de Cambridge. Foi o vencedor do Prêmio Jabuti de 1994 na categoria Estudos Literários (Ensaio) com o livro Vícios privados, benefícios públicos?, e no Jabuti de 2006 ficou em segundo lugar na categoria Economia, Administração, Negócios e Direito com O valor do amanhã. Giannetti participa de uma conversa sobre a mente na mesa com o neurocientista Sidarta Ribeiro.

Mesa “As ilusões da mente” — Sexta-feira, 3 de julho, às 15h.

José Miguel Wisnik

Jose Miguel Wisnik1 - 2008 ©Adriana Vichi

Nasceu em São Vicente, São Paulo, em 1948. É professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo, além de pianista e compositor. Pela Companhia das Letras, publicou O som e o sentido — Uma outra história das músicas (1989) e Veneno remédio — O futebol e o Brasil (2008). Também selecionou e escreveu o prefácio do livro Poemas escolhidos de Gregório de Matos (2010). Em sua mesa, que encerra a Flip 2015, fará um retrato de Mário de Andrade, autor homenageado desta edição.

Conferência de encerramento — Domingo, 5 de julho, às 14h.

Rafael Campos Rocha

deus

Nascido em São Paulo, em 1970, Rafael Campos Rocha já trabalhou como produtor gráfico, desenhista de animação, professor de história da arte, cenógrafo, artista plástico, cartunista e ilustrador. Em 2012 lançou pela Quadrinhos na Cia. a sua primeira graphic novelDeus, essa gostosa, em que Deus assume a forma de uma mulher negra, proprietária de um sex-shop, ligada nos movimentos mais exóticos (e esotéricos) do assim chamado amor carnal. Vai participar da mesa com Riad Sattouf, ex-colaborador da Charlie Hebdo, sobre batalhas culturais nas HQs.

Mesa “Letras e imagens” — Sexta-feira, 3 de julho, às 10h30. 

Arnaldo Antunes

ANTUNES, Arnaldo

Músico, compositor, artista visual e poeta, Arnaldo Antunes nasceu em São Paulo em 1960 e foi integrante da banda Titãs até 1992. Entre projetos solo e com outros músicos, é um dos principais compositores brasileiros. Já tem 18 livros publicados, entre eles As coisas, que ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 1993. Em junho, lança pela Companhia das Letras Agora aqui ninguém precisa de si. Rock e poesia se unem na mesa com o autor e a estreante Karina Buhr.

Mesa “Desperdiçando verso” — Sábado, 4 de julho, às 21h30.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo, São Paulo, 2015.

Roberto Pompeu de Toledo nasceu em São Paulo. Desde 1991 assina uma coluna na revista Veja. Trabalhou no Jornal da Tarde, no Jornal da República, na revista Isto É e no Jornal do Brasil. É autor de reportagens sobre política, cultura e história e autor dos livros A capital da solidãoA capital da vertigem, que chega em breve nas livrarias. Participa da mesa “Como era a cidade em que o Mário viveu?”.

Mesa “São Paulo! comoção de minha vida…” — Sexta-feira, 3 de julho, às 12h.

Reinaldo Moraes

REINALDO MORAES

Nasceu em São Paulo, em 1950. Estreou na literatura em 1981 com Tanto faz e depois publicou Abacaxi (1985) — reeditados em 2011 num volume único pelo selo Má Companhia. Passou dezessete anos sem publicar ficção, até lançar o romance juvenil A órbita dos caracóis (2003), os contos de Umidade (2005), a história infantil Barata! (2007) e o romance Pornopopéia (2009, Objetiva). Reinaldo Moraes vai participar da mesa Os Imoraes sobre literatura erótica e pornográfica.

Mesa “Os imoraes” — Sexta-feira, 3 de julho, às 21h30.

Confira a programação completa da Flip.