nicolau maquiavel

O sorriso de Maquiavel

Por Matinas Suzuki

Capa de O príncipe, que sai pela Penguin-Companhia das Letras em julho

Boa parte das edições de O príncipe traz na capa o retrato de seu autor, Nicolau Maquiavel. O mais famoso deles é uma pintura póstuma, feita pelo maneirista tardio Santi di Tito (1536-1603), que se encontra no Pallazzo Vecchio, em Florença. É um retrato intrigante: o corpo largo — coberto por traje de veludo preto e vermelho — ocupando quase dois terços da tela de cerca de um metro por oitenta centímetros contrasta com o rosto magro e pequeno. A cabeça descoberta, ligeiramente reclinada para frente, o olhar de soslaio, para baixo, passam a impressão de timidez; o sorriso nos lábios insinua um quê de ironia e mistério.

Como a maior parte das capas usa um “boneco”, o recorte do quadro fechado na cabeça de Maquiavel, os leitores não têm oportunidade de ver a estranha assimetria corporal da tela de Di Tito. O sorriso de Maquiavel, muitas vezes comparado ao da Mona Lisa, fez esse retrato famoso (existe até um livro chamado O sorriso de Nicolau) e, talvez, tenha gravado no nosso subconsciente a imagem de um Maquiavel levemente mordaz, retraído, melancólico.

Maquiavel dedicou O príncipe a Lorenzo de Medici, duque de Urbino (1516-1519). Como, na dedicatória, ele escreveu “ao magnífico” Lorenzo di Piero de Medici, o pronome de tratamento passou a ser fonte de confusão, pois o avô de Lorenzo também se chamava Lorenzo de Médici (1449-1492) e era conhecido pelo aposto de “o magnífico”. Por terem ambos governado a República de Florença, são também frequentemente tomados um pelo outro.

Desconheço edição d’O príncipe disponível no mercado brasileiro que tenha o retrato de Lorenzo de Medici, o neto, em sua capa. Aliás, imagens dele são raras: um dos poucos retratos chegou ao olhar do público, depois de muitas décadas fora de circulação, em 2007, por meio de leilão da Christie’s. O óleo sobre tela foi pintado por Rafael, em 1518, cinco anos depois de Maquiavel ter escrito sua obra mais conhecida — que, no entanto, só seria publicada em 1532, depois de sua morte.

O príncipe está entre os quatro livros que marcarão o lançamento do selo Penguin-Companhia das Letras. Para a capa desta edição (magnificamente traduzida por Maurício Santana Dias), que chega às livrarias na última semana de julho, nós optamos por usar o retrato pintado por Rafael. A idéia é passar ao leitor a imagem de um verdadeiro príncipe da época em que Maquiavel escreveu o seu clássico.

O leitor deste blog vê, com exclusividade, pela primeira vez, a capa do livro. Para se chegar a ela, várias alternativas foram analisadas. A proposta que mais nos agradava esteticamente usava o retrato de Giuliano de Médici – irmão do il Magnifico que foi assassinado, aos 25 anos, com 19 golpes de espada – pintada por Boticelli entre 1478 e 1480. (Para aumentar a confusão em torno da família Médici, il Magnífico teve também um filho chamado Giuliano).

Nós consideramos ainda uma versão em quadrinhos, desenhada pelo Laerte, como tentativa de seguir a orientação da Penguin Books para se rejuvenescer a imagem das obras clássicas. Mas, no fim, decidimos pela capa mais fiel ao contexto histórico do livro de Maquiavel que, como se noticiou, é uma das leituras preferidas do Dunga.

Ao leitor, deixo o julgamento sobre nossa decisão. Afinal, nós queremos que nossos livros também sejam julgados pelas capas.

À esquerda, proposta de capa com retrato de Giuliano de Medici feito por Boticelli. À direita, proposta de capa d’O príncipe usando quadrinhos desenhados por Laerte.

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Matinas Suzuki é diretor de comunicação da Companhia das Letras e editor da Penguin-Companhia. Organiza a coleção de Jornalismo Literário da editora, cujos próximos lançamentos são A vida secreta da guerra, de Peter Beaumont, e Operação massacre, de Rodolfo Walsh.