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O Nobel e a realidade

Por Leandro Sarmatz

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Foto: Reuters/Stringer/Arquivo

O Nobel de Literatura concedido semana passada à bielorussa Svetlana Alexievich tem o valor do ineditismo: pela primeira vez o escritor premiado não é poeta, dramaturgo ou ficcionista. Alexievich é jornalista. É uma autora, portanto, de não-ficção, esse gênero que já habitou arrabaldes movediços na periferia da grande literatura mas que hoje se torna protagonista no interior de uma série de manifestações culturais, da própria prosa de imaginação ao melhor cinema.

Claro que, antes de mais nada, a honraria faz justiça a gerações de escritores que lidaram com o real para relatar grandes e pequenos dramas, aspectos pouco observados da realidade ou que ajudaram a iluminar fatos que, muitas vezes, estavam debaixo do tapete. De mãos dadas com Alexievich – que em um punhado de livros escutou e traduziu numa prosa com a força do grande romance russo as vozes de viúvas de soldados da Segunda Guerra, das vítimas de Chernobyl ou dos deserdados de uma União Soviética em frangalhos – estão John Hershey, Gay Talese, Tom Wolfe, Truman Capote, Roberto Saviano, Philip Gourevitch, Joan Didion e tantos outros que elevaram o trabalho do autor de não-ficção a patamares (verbais, emocionais, humanos) que somente o grande romance tinha alcançado. Ressonância e empatia, penetração social e psicológica, narrativa e invenção verbal. Este cardápio, que anteriormente parecia exclusivo dos domínios de um Balzac, de um Turguêniev ou de um Hemingway, já é servido há pelo menos uns 70 anos pelo melhor jornalismo literário, embora muitos críticos (e até alguns leitores) tenham apenas recentemente começado a reconhecer o valor desta atividade venerável e vital para a vida social e cultural.

Mas – veja só — agora o trabalho de coleta do real já não é mais apenas um domínio da turma do bloquinho e das encrencas em paragens distantes do planeta. Tempos híbridos por excelência na arte: autores como Emmanuel Carrère (Limonov) ou cineastas como José Padilha (Narcos) utilizam os expedientes da forma documental para produzir algo que, bem, está meio embaralhado, não é 100% ficção ou documento. Isso parece ter injetado uma nova energia àquelas formas que já pareciam meio cristalizadas.

E a grande literatura, a grande arte, definha quando isso acontece. Uma forma que se torna fixa tem cheiro de corpo embalsamado. A arte mais viva (e isso desde Homero, que ao narrar uma guerra também falou de paixões, tragédias, paisagens, sentimentos etc) é aquela que não se restringe a um gênero nem se compraz em ser apresentada numa mesma moldura. E é este o recado, pois, do Nobel de Svetlana Alexievich, esta grande narradora do real.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.